Um Rio que Vem da Grécia - Guido Percu's Notes
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Um Rio que Vem da Grécia

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Um Rio que Vem da Grécia

Kindle Highlights

Antes ou depois

Nosso lado invisível

“Não espero nada; não tenho medo de nada; sou livre!”.

No tesouro que é a Odisseia, a história de Argos é uma pequena pérola.

Nunca, porém, se queixou da sorte; fez o que tinha de fazer, da melhor maneira que pôde, e continuou seu caminho. Além de macho, era filósofo.

a própria viagem, da mesma forma que o objetivo da vida não é a felicidade, mas a própria vida, e qualquer atalho que sigamos só vai nos fazer perdê-la.

Não apague as suas memórias – nem as boas, nem as más. Neste mundo, somos fugazes viajantes, e nossas alegrias e tristezas constituem, juntas, a nossa modesta bagagem.

Em vez de dizer, como o cristão, “Deus é amor”, os gregos homéricos diziam “O amor é um deus” – e assim, para eles, também eram deuses a beleza, a luta, a morte, a arte, o desejo.

Ora, num curioso diálogo escrito por Luciano de Samosata, um autor grego já da Era Cristã, Zeus acusa Eros, o Amor, de tê-lo obrigado a ser tantas coisas diferentes, exceto ele próprio.

Platão usou essa história fantástica (e cruel) para questionar se os bons são bons por escolha própria, ou simplesmente porque temem ser descobertos e punidos, se praticarem as más ações que trazem escondidas no peito.

Coleridge falava da literatura quando disse, em 1817, que só aproveita uma história aquele que está disposto a suspender a incredulidade e a se deixar levar pela fantasia. A meu ver, falava também da vida, esta história tão curta de que somos autor, personagem e leitor.

Muitos povos antigos, em suas mitologias, imaginaram um mundo inicial quase perfeito, em que os primeiros homens viviam na mais completa felicidade. Egípcios, hindus, chineses, maias e astecas compartilharam essa ideia de uma plenitude originária que a humanidade acabou perdendo.

Como posso duvidar dessas histórias, se conheço um rio grego que fez um trajeto muito maior? Pois não nos banhamos todos, ainda hoje, neste rio interminável que nos chega lá da Grécia, que atravessou tantos séculos, que varou o imenso oceano, trazendo as belas flores de Homero, de Sófocles, dos poetas, de toda a mitologia?

Prefiro ver neste anel uma bela alegoria do poder do pensamento, pois ele é o meu lado invisível. Ninguém pode ver o que se passa lá no fundo da minha mente; lá eu posso negar a lei e a ordem, realizar o proibido, odiar a quem eu não posso e amar a quem eu não devia. Lá, sim, eu posso jurar que só vou obedecer ao que manda minha vontade.

Subitamente apaixonado, Apolo lançou-se no encalço de Dafne, que fugia desse novo admirador com todas as forças que tinha. Ovídio descreve incomparavelmente essa corrida simbólica – ele nas asas do amor, ela nas asas do medo. Quanto mais ela corria, mais ele se encantava com seu corpo, seus cabelos, seus olhos brilhantes de determinação.

A representação do deus do Amor, contudo, sofreu uma curiosa alteração, ao passar da Grécia para Roma: o sedutor Eros, temido até pelos deuses, pintado como um belo jovem, esguio e atlético, dotado de fortes asas, foi se infantilizando pouco a pouco, chegando a Roma já transformado na figurinha de Cupido, um menininho gorducho, muito parecido com os anjinhos que voam como beija-flores nos jardins do Paraíso.

Hoje, ao contrário, acusam-no de personificar a opressão masculina – o que é outro engano. Não veem que Hércules gostava mesmo da rainha e que fez exatamente o que um homem deve fazer: ajudou-a a fiar a lã, teve um filho com ela, protegeu-a, compartilhou fantasias. Era um homem como poucos, para quem o feminino não era ameaça, nem intimidação, nem objeto de desprezo, mas uma fonte estimulante de felicidade e alegria.

Ulisses foi ouvindo pacientemente aquelas manifestações de amor paterno, até que, finalmente, fez parar o carro, voltou-se para Penélope e pediu-lhe que decidisse: ou ela ia com ele, de espontânea vontade, ou voltava para a casa do pai. Penélope ouviu em silêncio, e sua única resposta foi aconchegar-se mais ao marido e cobrir o rosto com o véu, fazendo Icário entender que ela não iria voltar para Esparta. Por isso, conta Pausânias, o rei fez erguer naquele lugar uma estátua em homenagem a Aidos, a deusa d <Você alcançou o limite de recortes para este item>

-se nos afiados rochedos que cercam a ilha. O prado florido em que as sereias vivem está juncado de ossos brancos dos marinheiros que devoraram, e pedaços putrefatos de sua carne se decompõem ao sol, enchendo o ar com seu cheiro pestilento. Só o navio dos Argonautas tinha passado incólume por este perigo, graças a Orfeu, o lendário poeta , que acompanhava a famosa expedição em busca do Velocino de Ouro. Ao ouvir as sereias, ele levantou sua famosa lira e abafou suas vozes fatais com uma harmoniosa melodia, cujo compasso guiou a remada dos marinheiros para longe da ilha maldita.

Kairos era representado como uma divindade jovem, vibrante, com asas nos calcanhares velozes. Sua cabeleira era peculiar, pois não crescia da forma habitual: tinha um grande topete na frente, uma longa madeixa de cabelo que caía em cachos espessos, quase ocultando sua face, enquanto a nuca e a parte de trás da cabeça eram completamente calvas. Séculos mais tarde, em Roma, ela teve seu nome mudado para occasio – “ocasião” –, mas sua imagem continuou a mesma, uma alegoria simples, mas dolorosa, a nos lembrar que a ocasião estará irremediavelmente perdida se não a agarrarmos no momento em que ela passar.

“O Grande Pã está morto!” – e antes mesmo que concluísse a sua última palavra, ergueu-se na escuridão um imenso grito de dor, e ouviram-se gemidos e lamentos não de uma, mas de incontáveis vozes noturnas. Foi esse grito misterioso, diriam depois os intérpretes, que anunciou o fim do Mundo Antigo e o início da Era Cristã, pois bem na época do incidente, a muitas milhas dali, mas ainda dentro do Império Romano, Cristo estava sendo crucificado. Quantas vezes – de vozes que falavam persa, hebraico, latim, grego ou tupi-guarani – a História não ouviu esse lamento melancólico de uma cultura que agoniza para dar lugar a outra, e quantas mais não ouvirá?

o essencial continuava lá: o arco e as flechas, as asinhas e os olhos vendados. As flechas, para nos lembrar que ele fere de súbito, sem avisar, enchendo-nos com aquela suave dor que todo enamorado conhece; as asas, para mostrar o quão rápido ele se move, e quão mutável e inconstante ele pode ser; os olhos vendados, enfim, para representar a cegueira que nos aflige no momento em que por ele somos tocados: não vemos mais nada e, quando vemos, não queremos enxergar. Além disso, a mudança para um menino teria a vantagem de nos lembrar que todo o apaixonado é infantil, disposto a balbuciar frases e palavras que soam ridículas para os que estão de fora.

ele sabe, ele ouviu. Ora, se a vida humana é, como diz a Odisseia, um longo caminho a percorrer na superfície de um mar onde os perigos espreitam, as sereias podem ser entendidas como um apelo terrivelmente sedutor do inconsciente. Muitos se deixam dominar, e são por isso destruídos. Outros sobrevivem, mas surdos e insensíveis, escravizados aos remos. Orfeu opta por enfrentar a música da morte com a sua música da vida, mas isso é para poucos, pois é privilégio dos artistas. Alguns, no entanto, como Ulisses, estão fortemente atados à dura madeira da realidade e podem abrir os ouvidos para a beleza e o mistério desse canto; esses, agora mais sábios, farão a melhor viagem.

Teseu, que já havia liquidado o Minotauro, pensou ter feito o mesmo com Procusto. Enganou-se, pois ele não só sobreviveu, como prosperou de tal maneira que hoje é um dos senhores do mundo. O seu sinistro leito de ferro continua a ser usado em toda a parte – no autoritarismo de certos partidos, no fundamentalismo religioso, na ditadura da moda e do gosto. Nas estradas e nos desfiladeiros modernos, essas entidades substituíram o salteador de antigamente; elas estão sempre à nossa espreita e, como pensam estar do lado certo da verdade, não toleram ver pessoas que insistem em conservar a sua própria medida. Muitos, temendo a noite aqui fora, vão entregar suas mentes ao traiçoeiro Procusto; alguns poucos, contudo, que sabem o que acontece lá dentro, tratam de passar ao largo dessas estalagens malditas, sem temer a solidão, porque logo ali, em outra volta da estrada, hão de encontrar outros viajantes que, como eles, escaparam.

Enfrentando os riscos Sinistra é a história de Pigmalião, o bom rei do povo de Chipre: desiludido com as mulheres a seu redor, afastou-se completamente delas e se entregou a um celibato que deixava seus súditos apreensivos. No entanto, como era hábil escultor, pôs-se um dia a esculpir uma figura feminina, em tamanho natural, que reunisse todas as qualidades que ele tinha desistido de procurar. Dedicou-se a este trabalho com tamanha obsessão que em pouco tempo, talentoso como era, tinha criado uma estátua de marfim, com aparência tão real que parecia estar viva – e mais bela do que nenhuma mulher jamais seria. Encantado com sua criação, resolveu dar-lhe um nome; chamou-a de Galateia, porque sua pele tinha a brancura do leite, e passou a falar com ela como se fosse sua noiva. Vestiu-a com leves tecidos, pôs-lhe anel no dedo, cobriu seu pescoço e seus braços com as ricas joias da coroa, e mesmo enquanto a retocava, para deixá-la perfeita, murmurava palavras doces e a tratava com carinho. Um dia, tirou-a do pedestal e a deitou sobre o leito, amparando sua cabeça com uma almofada macia, e ali, inutilmente, abraçava-a com ternura e beijava seus lábios frios, tentando infundir-lhe a vida. Com o tempo, o desespero tomou conta de Pigmalião, até que, numa festa dedicada a Afrodite, ele implorou à deusa a graça de encontrar alguém assim como Galateia… Nesta noite, ao voltar ao palácio, quando vai tocar na estátua, percebe que ela respira, e pode sentir-lhe o pulso bater sob a pele viva; beija-a e – é Ovídio quem conta – sua boca agora encontra outra boca, e ela, que agora é mulher, sentindo cada beijo, cora e ergue os olhos tímidos, abertos pela primeira vez, e vê, ao mesmo tempo, ele e o mundo (o que vem a ser o mesmo, para a coitadinha). Então ele a pede em casamento, ela se torna sua rainha e lhe dá um herdeiro real – como nas histórias felizes. Esta, porém, é uma fábula muito escura, tantas vezes repetida entre homens e mulheres, com um final sempre infeliz. Pobre Pigmalião! Se você recusa uma mulher de verdade, é porque não quer sofrer o risco que isso traz. Construindo uma estátua, pensa que vai evitar as inevitáveis decepções, a mordida do ciúme, o medo da perda e do abandono – sentimentos que, quer queira, quer não, vão espreitar você nas curvas deste caminho, porque fazem parte da vida. Pobre Galateia, que entra nesta história tão sem passado e sem desejos! Rica, perfeita e bonita, você não percebe que este homem que a chama de rainha nem sabe quem você é, mas está apaixonado por uma imagem difusa que ele traz dentro do cérebro, e que, assim como a criou, vai terminar esmagando-a se você não seguir à risca o roteiro que ele escreveu muito antes de conhecê-la.