Sobre a vida feliz / Sobre a providência / Sobre o ócio (Grandes Ideias)
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nossa liberdade é obedecer a deus.
Portanto, viver feliz é a mesma coisa que viver segundo a natureza.
Tudo que eu fizer sem testemunha farei como se fosse à vista de todos.
pode-se chamar feliz aquele que, por auxílio da razão, não tem desejo nem temor.
fique sem testemunha. [1]5 Costumamos dizer que o bem supremo é viver em conformidade
“Nada me parece mais desafortunado do que alguém a quem nunca ocorreu nada de adverso”.
“Deus nos achou dignos de que em nós se experimentasse quanto a natureza humana pode suportar”.
És um grande homem: mas como sabê-lo se a fortuna não te dá ocasião de exibir as tuas qualidades?
Para mim é suficiente isto: eliminar diariamente um pouco dos meus vícios e repreender os meus erros.
Por que se admirar se não subiram até o alto os que tentaram uma via íngreme? Mas se és um homem, admira os que
Se eu quiser percorrer um a um, não encontrarei nenhum Estado que possa tolerar o sábio ou ser por este tolerado.
A bravura é ávida de perigos e considera para onde avançar, não o que irá sofrer, pois que também o que irá sofrer é parte de sua glória.
Costumamos dizer que o bem supremo é viver em conformidade com a natureza. A natureza nos criou para duas finalidades: para a contemplação e para a ação.
Tudo o que eu possuir não guardarei com avareza nem dissiparei com prodigalidade; terei convicção de que meu real patrimônio são as boas doações que fiz.
Instala-me em uma casa riquíssima, onde ouro e prata são de uso habitual: não me considerarei superior por essas coisas que, mesmo junto de mim, porém, estão fora de mim.
Ele fala que se deve desprezar essas coisas; não fala de não possuí-las, mas de não possuí-las com ansiedade; não as afasta de si, mas se elas se afastam, prossegue tranquilo.
Tu abraças o prazer, eu o restrinjo; tu usufruis do prazer, eu me sirvo dele; tu o consideras o bem supremo, eu, nem sequer um bem; tu fazes tudo em função do prazer; eu, nada.
[3]O sábio não admitirá em sua casa nenhum valor que entre de modo desonesto, todavia, não repudiará nem excluirá recursos vultosos, desde que dom da fortuna e fruto de sua virtude.
Embora tudo que é excessivo faça mal, especialmente perigosa é a felicidade em demasia: afeta o cérebro, evoca na mente imaginações vãs, confunde em densa névoa o falso e o verdadeiro.
Assim, é do interesse dos homens bons, para ser capazes de não sentir medo, que se vejam muitas vezes em meio a situações terríveis e suportem com serenidade eventos que não são um mal, exceto para quem os suporta mal.
E quando a natureza reclamar minha vida ou a razão me levar a deixá-la, partirei dando testemunho de ter amado a consciência elevada e os estudos elevados, de não ter tolhido a liberdade de ninguém, muito menos a minha”.
[2]É feliz, portanto, quem é capaz de um juízo reto; é feliz quem está contente com as circunstâncias presentes, quaisquer que sejam, e ama a sua condição; é feliz aquele em quem a razão marca toda a condução de suas ações.
Por isso, erras quando perguntas qual é o motivo por que busco a virtude, pois estás indagando sobre algo acima do ponto supremo. Perguntas o que eu busco obter da virtude? Ela própria. Nada ela tem de melhor; é ela o prêmio de si mesma.
É possível concluir que a mesma atitude devem ter os homens bons: não devem recear situações duras e difíceis nem lamentar-se do destino, devem avaliar como bom tudo que lhes acontece, convertê-lo em algo bom. Não importa o quê, mas como se sofre.
De fato, o sábio não se julga indigno do que lhe regala a fortuna: não ama a riqueza, mas a prefere. Não a acolhe em sua alma, mas em sua casa, não rejeita a que possui, mas a conserva e quer que por ela se ofereça maior ocasião para exercer sua virtude.
[3]O mesmo posso dizer também para o homem bom, se uma circunstância mais difícil não lhe deu ocasião de mostrar a força de sua alma: “Julgo-te infeliz porque nunca foste infeliz. Atravessaste a vida sem adversário; ninguém saberá do que eras capaz, nem mesmo tu”.
Mas que dúvida poderia haver de que, para o homem sábio, há maior ocasião de desenvolver-se interiormente na riqueza do que na pobreza, uma vez que, nesta, a única modalidade de virtude consiste em não se curvar nem se abater; já na riqueza, a temperança, a liberalidade, a diligência, a disciplina e a magnificência têm um campo aberto.
Esse é um aspecto pelo qual podeis superar deus: ele está isento dos sofrimentos; vós, acima deles. Desprezai a pobreza: ninguém vive tão pobre quanto nasceu. Desprezai a dor: ela ou será eliminada ou vos eliminará. Desprezai a morte: ela ou vos aniquila ou vos transfere. Desprezai a fortuna: não dei a ela nenhum dardo com que ferisse o espírito.
Assim como não é de modo algum recomendável buscar bens materiais, sem nenhum amor pelas virtudes e sem o cultivo da mente, e estar só a executar meras tarefas (pois deve haver uma mescla e uma combinação dessas atividades), da mesma maneira é um bem imperfeito e debilitado a virtude que é relegada ao ócio sem a ação, e que não mostra jamais o que aprendeu.
“se ela tem para ti a mesma importância que para mim?” Queres saber o quanto não tem a mesma importância? Se me escapar a riqueza, ela nada me levará além dela própria; tu ficarás perturbado e te sentirás despojado de ti mesmo se ela te houver abandonado. Para mim, a riqueza tem alguma importância; para ti, a máxima. Por último, a riqueza me pertence; tu pertences a ela.
Como posso saber qual a tua força de ânimo diante da pobreza se nadas em riquezas? Como posso saber quanta firmeza podes ter diante da ignomínia, da infâmia e do ódio popular se envelheces entre aplausos, se te segue uma estima inabalável e espontânea em razão de uma propensão afetiva? Como sei com que serenidade suportarias a perda dos filhos se diante dos olhos tens todos os que geraste?
Alguém me diz: “Falas de um modo e vives de outro”. Essa crítica — caterva tão maligna e hostil aos homens melhores — foi lançada a Platão, lançada a Epicuro, lançada a Zenão. Todos eles de fato diziam não como viviam eles próprios, mas como deveriam viver também eles. Eu falo sobre a virtude, não sobre mim, e eu faço censura aos vícios, primeiramente aos meus. Quando puder, viverei como se deve.
Certa vez servi de motivo para os deboches de Aristófanes, e toda uma turba de poetas cômicos despejou anedotas envenenadas contra mim: viu-se iluminada a minha virtude justamente pelos dardos com que procuravam atingi-la. De fato para ela é útil ser publicamente exposta e submetida à prova, e ninguém percebe qual a sua dimensão mais do que os que sentiram sua resistência ao atacá-la: a dureza de uma pedra, só bem a conhece quem a golpeou.
Vá na frente a virtude; deve ela portar as insígnias: teremos, todavia, prazer, mas iremos dominá-lo e moderá-lo. Irá obter de nós alguma coisa; a nada nos obrigará. Mas aqueles que concederam o primeiro posto ao prazer ficam privados dos dois: por um lado, perdem a virtude, por outro, não possuem o prazer, mas o prazer os possui; sentem-se ou torturados por sua falta, ou asfixiados por sua abundância, infelizes se ele os abandona, mais infelizes se os oprime.
[4]O gladiador julga uma desonra combater com um inferior e sabe que é vencido sem glória quem é vencido sem perigo. O mesmo faz a Fortuna: busca para si os mais valorosos rivais. Alguns ela ignora com desdém. Ataca os mais contumazes e acirrados, contra os quais intensifica a sua violência: em Múcio experimenta o fogo, a pobreza em Fabrício, o exílio em Rutílio, a tortura em Régulo, o veneno em Sócrates, a morte em Catão. Um grande exemplo, só a má fortuna o revela.
Por certo somos nós, estoicos, que dizemos que tanto Zenão quanto Crisipo realizaram ações mais grandiosas do que se tivessem comandado exércitos, ocupado cargos públicos, proposto leis. Eles as propuseram em benefício não de uma única cidade, mas de todo o gênero humano. Portanto, por que razão não conviria ao homem bom um tal ócio, pelo qual ele poderia orientar as gerações futuras, falar não para uns poucos, mas para todos os homens de todas as nações, os de agora e os do futuro?
É feliz, portanto, uma vida concorde com sua natureza, a qual só pode ocorrer se, antes de tudo, a mente está equilibrada e em perpétua posse de seu equilíbrio, depois, se está forte e vigorosa, e então, dotada de perfeita resistência, se é adaptável às circunstâncias, atenta ao seu corpo e ao que é atinente a ele, mas sem ansiedade, e de resto, afeiçoada às outras coisas que provisionam nossa existência, sem apego a nada, pronta a fazer uso dos dons da fortuna, não a escravizar-se a eles.
Deixa então de proibir os filósofos de ter dinheiro: ninguém condenou a sabedoria à pobreza. O filósofo terá amplos recursos, mas não arrancados a ninguém nem manchados do sangue alheio, gerados sem injustiça contra ninguém, sem vantagens ilícitas, dos quais seja tão honesta a entrada quanto a destinação, e deles ninguém se lamente, exceto os perversos. Acumula-os tanto quanto quiseres: são recursos honestos, nos quais, a despeito de serem volumosos a ponto de qualquer um desejar que sejam proclamados seus, nada neles existe que alguém possa reivindicar como seu.
Censurai Platão porque pediu dinheiro, Aristóteles porque o recebeu, Demócrito por tê-lo desprezado, Epicuro por tê-lo despendido, reprovai meu vínculo com Alcibíades e Fedro, vós que ficaríeis tão felizes de imitar nossos vícios na primeira oportunidade que tivésseis. [6]Por que antes não olhar para os vícios que vos assediam, que vos atingem de toda parte, uns atacando de fora, outros queimando por dentro das vísceras? A condição humana não é tal que, mesmo se pouco sabeis do vosso estado, vos reste tanto tempo livre para vos ocupar de injuriar os que são melhores do que vós.
Assim, será a mesma coisa se eu disser: “O bem supremo é uma mente que despreza os eventos fortuitos, satisfeita com a virtude”, ou então, “é uma força de ânimo invencível, fundada na experiência, de ação serena e muita benevolência e zelo pelos circunstantes”. É possível também defini-lo dizendo que é feliz o homem para o qual não há nada bom ou mau, exceto o ânimo bom ou maligno, o homem que pratica o bem, contenta-se com a virtude, a quem fatos fortuitos não podem exaltar nem abater, que não conhece maior bem do que o que ele próprio para si pode dar, para quem o verdadeiro prazer será o desprezo dos prazeres.
Julgas maltratado Sócrates porque aquela poção, preparada por mandado oficial, ele sorveu como se fosse um elixir da imortalidade e discursou sobre a morte até a chegada dela? Teria ele sofrido um mal porque seu sangue gelou e o fluxo das veias estagnou depois de um gradual resfriamento? [13]Quanto maior inveja ele merece do que aqueles que são servidos em taças preciosas, para os quais um devasso, entendido em toda prática passiva, emasculado ou de virilidade duvidosa, dilui neve suspensa em um cálice de ouro! Estes, tudo que beberam irão expelir pelo vômito, tristes e regurgitando sua própria bile; porém, aquele, alegre e de bom grado, irá ingerir veneno.
Eu mesmo sou da seguinte opinião — e direi isso a contragosto de meus parceiros: Epicuro formula preceitos veneráveis e justos e, se os observas mais de perto, até austeros. De fato, o prazer, segundo ele, reduz-se a algo pequeno e frágil, e a lei que estabelecemos para a virtude, ele a estabelece para o prazer: ordena-lhe que obedeça à natureza; porém, o que é suficiente para a natureza, para a intemperança é pouco. [2]Como seria então? Qualquer um que chama de felicidade o ócio improdutivo e a alternada satisfação da gula e da libido busca um bom defensor de sua má causa e, quando chega até ele induzido por um termo sedutor, segue não o prazer de que escuta falar, mas aquele que trazia consigo, e os seus vícios, quando ele começa a julgá-los concordantes com o que lhe é ensinado, passa a ser indulgente com eles sem temor nem dissimulação, em seguida até mesmo se entrega abertamente à devassidão. Assim, não direi o que diz a maioria dos nossos, que a escola de Epicuro é mestra de depravação, mas afirmo o seguinte: fala-se mal dela; é ruim sua reputação. “Mas imerecidamente.”