Portões de Fogo - Guido Percu's Notes
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Portões de Fogo

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Portões de Fogo

Kindle Highlights

A raposa sabe vários truques; o porco-espinho, um único e eficaz. Arquíloco

Vocês nunca experimentaram a liberdade, amigo – disse Dienekes–, ou saberiam que não é comprada com ouro, mas com a espada.

Os espartanos dizem que qualquer exército pode vencer enquanto ainda tiver suas pernas no lugar; o verdadeiro teste acontece quando toda a força se esvaiu e os homens têm de conquistar sozinhos a vitória da vontade.

Se o meu conhecimento de Homero era bom, todo o crédito era desse homem, de sina amaldiçoada, sem visão como o poeta, e sua firme vontade de que eu e minha prima não crescêssemos selvagens e analfabetos nas colinas.

Recitei alguns versos da Ilíada, que Bruxieus havia feito Diomache e eu decorar, no nosso segundo verão nas colinas. Eu proferi os hexâmetros fora de ordem, mas Alexandros não se importou; as palavras pareceram fortificá-lo consideravelmente.

Ela pensa que desonrou o deus Hímen – explicou-me Bruxieus, quando, certo dia, surpreendendo-a, ela enxotou-me com pragas e uma saraivada de pedras. – Acha que deixou de ser mulher, que nunca mais poderá ser a esposa de um homem, mas somente uma escrava ou uma prostituta.

Contam que, antes da batalha, um nativo da Trácia lhe disse que os arqueiros persas eram tão numerosos que, ao disparar seus arcos, a massa de flechas bloqueava o sol. Dienekes, no entanto, completamente impassível diante da força do exército persa, simplesmente comentou: “Ótimo. Combateremos, então, à sombra”. Heródoto, História

Os seus instrutores ensinaram por que os espartanos desculpam sem punição o guerreiro que perde seu elmo ou peitoral em batalha, mas pune com a morte o homem que se desfaz de seu escudo? – Ensinaram. – respondeu Alexandros. – Porque um guerreiro porta o elmo e o peitoral para sua própria proteção, mas o escudo é para a segurança de toda a linha.

Certa tarde, estava eu treinando luta corpo a corpo, fazendo os movimentos mecanicamente, atormentado, quando aconteceu uma comoção no portão do Gymnasion. Uma mulher penetrara no local. Nenhuma mulher, como todos sabem, pode penetrar nesse local. Murmúrios de ultraje eram ouvidos. Eu mesmo surgi da arena – gymnos como todos, nu – para me juntar aos outros e expulsar a intrusa. –

Nunca se esqueça, Alexandros, de que esta carne, este corpo, não nos pertence. Graças aos deuses não. Se eu achasse que fosse meu, não conseguiria avançar um passo para enfrentar o inimigo. Não é nosso, meu amigo. Pertence aos deuses e aos nossos filhos, a nossos pais e mães, e a aqueles lacedemônios que estão há centenas, milhares de anos de nascer. Pertence à cidade que nos dá tudo e não exige menos de nós.

Mais tarde, marinheiros egípcios me disseram que eu tinha proferido a palavra lokas, que significava “foda-se” em sua língua, e que tinham rido enquanto arrastavam meu corpo destroçado para a luz do dia. Enganaram-se. A palavra foi Loxias – título grego de respeito para Apolo, o Astuto, ou Apolo Ardiloso, cujos oráculos apresentavam-se sempre evasivos e oblíquos –, e eu estava como que gritando, amaldiçoando-o por colocar essa terrível responsabilidade sobre mim, que não possuía o talento para realizá-la. Assim como os poetas convocam a Musa para falar através deles, emiti um grasnido inarticulado para aquele que Age de Longe. Se realmente me escolheu, Arqueiro, então que suas flechas com belas plumas sejam lançadas de meu arco. Empreste-me sua voz, Arqueiro. Ajude-me a contar a história.