Os pecados secretos da economia (Coleção Exit) - Guido Percu's Notes
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Os pecados secretos da economia (Coleção Exit)

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Os pecados secretos da economia (Coleção Exit)

Kindle Highlights

“Eu vos suplico, pelas entranhas de Cristo, que admitais a possibilidade de estardes enganados”.

Qualquer cálculo depende da validade dos dados usados e das premissas. Se tivermos lixo na entrada, obteremos lixo na saída.[8]

Os seres humanos são vistos como máquinas de calcular cujos objetivos são a Prudência, o Preço, o Proveito (ou lucro), a Propriedade e o Poder – as “variáveis P”, como poderíamos defini-las.

Ou podemos lembrar as pesquisas de opinião pública sobre os resultados da próxima eleição presidencial. Elas sempre são acompanhadas da advertência de que “a margem de <Você alcançou o limite de recortes para este item>

preços, população, balanças comerciais, circulação do ouro. A palavra “estatística” (derivada de “estado”) foi cunhada por alemães e italianos entusiastas da ação estatal no início do século XVIII, apontando para uma história do uso dos números pelos Estados.

Os economistas desconhecem o principal achado da linguística, da filosofia e da crítica literária no século XX, a saber: que temos meios de criar mundos, jogos de palavras, sentidos de um fim que não podem ser reduzidos a gramáticas formais, nem mesmo em princípio

A equação que representa a identidade de Euler, eπi + 1 = 0, é de fato notável, unindo as “cinco variáveis mais importantes de toda a matemática” (como assinalam Philip Davis e Reuben Hersh), e representaria uma façanha intelectual espetacular mesmo que não tivesse qualquer uso prático.

Será racional esperar que as pessoas se comportem racionalmente diante da urna eleitoral quando já demonstraram sua irracionalidade, antes de mais nada, por seu simples comparecimento às eleições, tendo em vista que seu voto individual não terá virtualmente efeito algum sobre o resultado?

Poucos economistas leem alguma coisa fora do campo da economia. É irritante correr os olhos pela biblioteca de um distinto professor universitário de economia e não deparar com nenhum livro que não trate de matemática ou estatística aplicada: são esses os filósofos ilustrados que conduzem os destinos a nossa nação?

A estatística ou outros métodos quantitativos usados na ciência (como a contagem, a experimentação ou a simulação) respondem, indutivamente, Quanto. A matemática, por contraste, responde dedutivamente Por quê e, numa versão mais refinada e filosófica muito popular entre os matemáticos desde o início do século XIX, Se.

A Prudência é a virtude ética central da burguesia, mas não a única. O livro em que Adam Smith trata da Prudência, Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações, publicado em 1776, deve ser lido tendo em vista outras virtudes básicas, especialmente a Temperança e a Justiça, sobre as quais Smith de fato escreveu bastante.

Joel Waldfogel, “O peso morto[2] no Natal” (sem brincadeira: dezembro de 1993; Waldfogel afirma que, como os presentes não são escolhidos por seus destinatários, nunca valem o que gasta o presenteador, o que resulta numa perda se compararmos a compra a uma simples remessa de dinheiro. Quem não se apaixonaria por tal abordagem científica do Princípio da Prudência?).

Leonhard Euler, do século XVIII (que também sabia de cor toda a Eneida – em latim, naturalmente). Mas, por mais estranho que possa parecer, a maior parte da matemática não tem nada a ver com os números propriamente ditos. Euler usava o cálculo da mesma forma que os matemáticos de hoje usam computadores, para vez ou outra pôr à prova suas ideias quanto ao desenvolvimento do que os matemáticos adoram definir como uma prova real de fatos incríveis, como eπi + 1 = 0 (e portanto Deus existe).

Bibliotecas de livros foram escritas para destrinchar os numerosos e ponderáveis argumentos em favor do mercado e contra o socialismo. Recomendo a leitura cuidadosa de alguns desses livros, entre eles O Lexus e a oliveira, de Thomas Friedman, ou, se vocês tiverem um gosto mais acadêmico, qualquer das obras de Milton Friedman (Nobel de 1976). E, por favor, todos sempre podem frequentar o deleitável, embora trabalhoso, curso que leciono na Universidade de Illinois, em Chicago, chamado “Economia para Estudantes Avançados de Humanidades”,

É certo que a contagem, o cômputo, pode ser uma ferramenta dos idiotas, ou do Demônio. Entre os vestígios mais perturbadores do campo de extermínio de Auschwitz estão os livros em que os carrascos voluntários de Hitler mantinham registros sobre cada indivíduo que exterminavam. A teoria formal e matemática da estatística foi inventada em grande parte na década de 1880 por eugenistas (esses racistas ilustrados que se encontram na origem de tanta coisa nas ciências sociais) e aperfeiçoada no século XX por agrônomos (isso mesmo, agrônomos – em lugares como a estação experimental agrícola de Rothamsted, na Inglaterra, ou a Universidade do Estado de Iowa).

Vocês podem obter uma prova “real”, o estilo de demonstração desenvolvido pelos gregos (que você conheceu quando estudou geometria na escola secundária, amando ou odiando a matéria), sem tomar conhecimento de um número sequer, ou nem mesmo de um exemplo concreto. Assim: o teorema de Pitágoras é verdadeiro para qualquer triângulo retângulo, quaisquer que sejam suas dimensões, e é provado não por indução a partir de muitos ou mesmo zilhões de exemplos numéricos de triângulos retângulos, mas de maneira universal e para todo o sempre, Deus seja louvado e Seu nome glorificado, por uma dedução a partir de premissas. Caso aceitem as premissas, vocês terão aceitado o teorema. Quod erat demonstrandum.

Na palestra de um linguista muito pomposo na Universidade Columbia, ele observou que existem línguas em que uma dupla negativa tem significado positivo (no inglês [ou no português] formal, por exemplo, em que “I am not going to not speak” = “I am going to speak” [“Eu não vou deixar de falar” = “Eu vou falar”]), e outras línguas em que uma dupla negativa é apenas uma negativa reforçada (no francês e no italiano padrão, por exemplo [no português, o correspondente seria “Eu não digo nada”]; ou no inglês informal: “You ain’t got no class”). Mas o fato, prosseguiu ele, articulando o que lhe pareceu um universal da gramática, é que “não existem línguas em que uma dupla afirmação positiva seja equivalente a uma negativa”. Pausa. Silêncio. E então ouviu-se, em voz muito alta, o comentário em tom de zombaria: “Ah. Tá bom”.

Não se trata de teoria no mesmo sentido em que, por exemplo, a física usa o termo. Basta pegar um exemplar da Physical Review (que vem em quatro versões; qualquer uma delas serve). Abram ao acaso. Irão encontrar uma matemática de quebrar a cabeça de tão difícil, e uma física que só um especialista no limitadíssimo campo em questão conseguirá acompanhar. Mas sempre, em qualquer página, encontrarão tentativas repetidas e persistentes de responder à pergunta: Quanto. Podem abrir. Não se preocupem: não importa que vocês não entendam a física. Mas verão que os físicos usam uma retórica do Quanto em quase todos os parágrafos. Mesmo os teóricos, que na física diferem dos experimentalistas, passam os dias tentando encontrar maneiras de calcular magnitudes. O sinal de que alguma coisa não científica está acontecendo na economia “teórica” (e, ai de nós, também na ciência política) é que ela não costuma conter, do início ao fim de cada artigo, uma tentativa sequer de determinar uma magnitude.

O argumento em favor do livre comércio é fácil de definir em termos que qualquer um classificaria de “matemáticos”. Desde cerca de 1947, a linha de frente, mais tarde o dominante, e nos dias de hoje o arrogante e feliz consigo mesmo, além de altaneiramente intolerante, embora notavelmente improdutivo, programa científico de economia tem sido reformular os argumentos verbais (mas ainda filosóficos / matemáticos, isto é, qualitativos – ou seja, do tipo Por quê / Se), dando-lhes a feição de símbolos, variáveis e diagramas, teoremas de ponto fixo e coisas semelhantes. Esse programa é chamado de “samuelsoniano” em homenagem a Paul Anthony Samuelson,[4] um nativo de Gary, Indiana, que foi a terceira pessoa a receber o Prêmio Nobel de Economia. Ele e seu cunhado Kenneth Arrow[5] (a quinta das cerca de cinquenta pessoas que receberam o mesmo fulgurante prêmio entre 1969 e 2001) foram as figuras de ponta do movimento em favor da explicitação da matemática em economia, enfrentando uma forte oposição. Foram destemidos pioneiros (o sobrinho de ambos, Lawrence Summers,[6] o príncipe herdeiro da economia moderna, chegou a secretário do Tesouro dos Estados Unidos e presidente de Harvard). Em 1947, Samuelson deu o tom ao publicar sua tese de doutoramento (concluída em 1941), modestamente intitulada Foundations of Economic Analysis [Fundamentos de análise econômica]. Em 1951, Arrow conduziu a economia a domínios ainda mais elevados da matemática com sua tese de doutoramento, Social Choice and Individual Values [Escolha social e valores individuais]. Seus inimigos, alguns dos quais ainda em atividade, afirmam, em uníssono com os humanistas: “Que coisa. Toda essa matemática é difícil demais, desumana demais. Queremos palavras. Sentimentos. Queremos uma argumentação verbal, uma narrativa verbal. Ou até um que outro número. Mas não essas novidades de x e y. Isso me deixa com dor de cabeça”.