O pior emprego do mundo - Guido Percu's Notes
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O pior emprego do mundo

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

O pior emprego do mundo

Kindle Highlights

presidente do IRB, Marcos Lisboa.

“No Brasil, não é só o futuro que é incerto. O passado também é imprevisível”.

“O poder é como um violino: pega-se com a esquerda, mas toca-se com a direita”.

“a única função das previsões econômicas é fazer a astrologia parecer respeitável”.

“Meu maior erro foi a relação com o FMI”, reconheceu Zélia Cardoso de Mello, em 2017.

Cabe ao economista compreender a pressa do político, que também é a pressa do eleitor.

Quatro moratórias em dez anos (1982, 1987, 1989 e 1990) transformaram o Brasil em um ativo tóxico.

“Os políticos usam os economistas como os bêbados usam o poste, mais para apoiar do que para iluminar

Anos depois, em uma tirada irônica, a professora de economia da USP, Laura Carvalho, rebatizou a Nova Matriz como “Agenda Fiesp”.

Desde Pedro Malan, em 1995, uma equipe econômica não era tão festejada. Chamada de dream team, <Você alcançou o limite de recortes para este item>

Fraga implantou a mais longeva herança econômica dos anos FHC, o tripé econômico, baseado em metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário.

Duas regras sobre Brasília. A primeira é: só acredite no Diário Oficial da véspera. A segunda é: o chefe se convence por aquele que falar com ele primeiro.

Depois da publicação do artigo, o secretário do Planejamento de São Paulo, João Sayad, convidou Lara Resende para trabalharem juntos. Passaram a se frequentar.

São múltiplos os relatos de assessores do FMI aos berros com a delegação brasileira, nas quais adjetivos como “mentirosos” e “irresponsáveis” eram os únicos publicáveis.

Pela primeira vez um plano econômico previa a extinção de estatais (no caso a Portobras, a Sider-bras, a Empresa Brasileira dos Transportes Urbanos – EBTU – e a Embrafilme),

As marchas de 2013 são ainda um fenômeno não plenamente compreendido. A combinação do uso intensivo de redes socais e protestos de rua geraram um novo ambiente de rejeição à política.

Batizado de “Larida” pela junção do nome da dupla, o estudo influenciou os planos Cruzado, Bresser e Real. Nenhum estudo acadêmico mexeu tanto na vida de tantos brasileiros em tão pouco tempo.

Classificado à época como uma feira de bondades, o programa de intervenção no sistema bancário montado por Loyola impediu um colapso que, fatalmente, ocorreria na crise financeira global de 2007/08.

Panglossianas, as cartas serviam para o Brasil rolar a dívida a custos abissais. Entre 1983 e 1985, o país transferiu 15% do seu PIB para o exterior. Foram dois anos de recessão, a pior desde os anos 1930.

Ao final dos dias de encontro em Roma, o presidente eleito e a assessora saíram com a impressão de que Dantas estava mais interessado em se informar sobre as ações do futuro governo do que em fazer parte dele.

O ex-presidente Lula se encontrou com o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Sondou se ele aceitaria ser ministro da Fazenda no lugar de Mantega. Meirelles assentiu, mas Dilma não aceitou a sugestão.

O Plano Real não existiria sem o acordo da dívida externa de Malan, sem o choque fiscal de Bacha, os debates sobre inflação entre Pérsio Arida e Gustavo Franco, mas nunca teria dado certo sem Ricupero como garoto-propaganda.

Em outubro, dois anos depois de o Brasil ser escolhido para hospedar a Copa do Mundo de Futebol, o Comitê Olímpico Internacional escolheu o Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2014, derrotando Madrid, Chicago e Tóquio.

“Anos depois, a presidente era odiada, mas os brasileiros se esquecem de que ela não errou sozinha. Ela atingiu o ponto máximo de seus erros quando tinha o máximo de aprovação popular. Só foi abandonada quando chegou a conta”,

Perguntado para um livro organizado por Guido Mantega se já havia lido Marx, respondeu: “Estudei bastante Marx quando criança. O sujeito não precisa ser um especialista em Marx para entender de economia. Talvez, pelo contrário…”.

Em 1 de abril de 1994, onze anos e oito meses depois da moratória do México e da bancarrota dos países em desenvolvimento, o Brasil assinou um acordo com mais de setecentos bancos e encerrou o pior ciclo econômico da história recente.

“Como aquele tenor de ópera que cantou, desafinou o tempo todo e levou uma bruta vaia do público do teatro. Na saída, ele se voltou para a plateia e disse: Vocês estão me vaiando porque ainda não ouviram o barítono”. O barítono era Delfim Netto.

“Qual foi o segredo do Brasil em 2008? Reverter as medidas logo. Tudo o que emprestamos de reservas cobramos ao longo de 2009. E o que aumentamos de liquidez em reais recolhemos de volta no início de 2010. Soubemos a hora de sair”, analisou Meirelles.

Como se estivesse em um mundo paralelo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva minimizou os efeitos da crise americana durante semanas. “Crise é tsunami nos Estados Unidos e, se chegar ao Brasil, será marolinha que não dá nem para esquiar”, minimizou, em 3 de outubro.

Em junho, trezentos intelectuais petistas ou próximos ao PT lançaram um manifesto com o título A agenda interditada: uma alternativa de prosperidade para o Brasil, propondo uma “inversão de toda a matriz da política econômica”, incluindo o controle de saída de capitais.

Sem sutileza, Ulysses vetou a indicação de Jereissati e levou a Sarney uma lista com quatro nomes: os ministros Raphael de Almeida Magalhães (Previdência) e Celso Furtado (Cultura), o deputado José Serra e o secretário de Ciência de São Paulo, Luiz Carlos Bresser Pereira.

Metódico, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Clóvis Carvalho, passou a coordenar as reuniões para a criação do plano. Participavam Edmar Bacha, André Lara Resende (até dezembro de 1993), Pérsio Arida, Pedro Malan, Winston Fritsch, Chico Lopes e Gustavo Franco.

Ciro adotou como programa um documento suprapartidário de nome Agenda perdida, projeto de José Scheinkman, professor da Universidade de Princeton, e do professor Marcos Lisboa, da FGV. O programa foi fundamental para que parte do mercado considerasse Ciro uma opção menos radical a Lula.

Leitor voraz, Gustavo Franco repetia a frase do personagem Vasco Moscoso de Aragão, o capitão de longo curso de Os velhos marinheiros, de Jorge Amado. “Um dia, o capitão chegou a um porto e lhe perguntaram: ‘Quais âncoras vamos jogar aqui para o navio ficar firme?’. E ele respondia: ‘Todas’.”

Uma vez no cargo, Marcílio montou no Ministério da Fazenda e no Banco Central uma equipe que influenciou por anos a economia brasileira, com Pedro Malan, Pedro Parente, Roberto Macedo, Martus Tavares, Alcides Tápias, José Gregori, Claudia Costin, Francisco Gros, Armínio Fraga, Pedro Bodin e Gustavo Loyola.

Um mês antes das eleições, uma espetacular ação da Polícia Federal confiscou 2 mil cabeças de gado e indiciou comerciantes que praticavam ágio nos preços. A ação policialesca não encheu a prateleira de um supermercado, mas rendeu centenas de milhares de votos ao candidato do PMDB ao governo de São Paulo, Orestes Quércia.

Em janeiro, FHC tomou posse tendo Pedro Malan como ministro da Fazenda, Pérsio Arida como presidente do Banco Central, Edmar Bacha como presidente do BNDES e… José Serra como ministro do Planejamento. Malan aceitou depois de convencer a mulher a se mudar para Brasília, mas impôs uma condição: ficaria apenas um ano. Ficou oito.

Para tentar acabar com a indexação, extinguiu-se o Bônus do Tesouro Nacional (BTN), que servia de base para a indexação dos impostos e dos fundos de investimento de curto prazo. Em seu lugar entrava a engenhosa Taxa Referência (TR), que mantinha uma combinação da correção da inflação passada com a média das expectativas do mercado para o futuro.

A situação encontrada era catastrófica. Havia o risco de a Petrobras ter que antecipar o pagamento de dívidas por não ter seus balanços aprovados, com efeitos incalculáveis sobre a dívida pública federal. Havia também o risco iminente de quebra do setor elétrico. A situação fiscal era um pesadelo, com projeções de receitas completamente irrealistas.

Quando assumi, fui ao Rio e conversei com o Celso Furtado. Ele me disse: “Bresser, você é um louco, né? Você está assumindo o Ministério da Fazenda na pior crise desde 1930”. Aí eu vim para São Paulo, em um encontro com uma porção de empresários, entre eles o meu amigo Olavo Setubal. E ele repetiu a mesma coisa. Então, não posso dizer que eu não estava avisado.

Repetia-se nas reuniões internas uma anedota do economista Luis Paulo Rosenberg, ex-assessor de Sarney: “Um político chama dez economistas. Nove dizem que as coisas vão mal e pedem medidas duras. O político olha e diz: ‘São nove urubus’. Chega o último economista e diz ‘Está ruim, mas pode melhorar’.” Rosenberg concluía: “Este último, que disse que o político queria ouvir, não é urubu, é canarinho. O político adora o canarinho”.

“O Brasil está condenado a eleger José Serra ou a mergulhar no caos, assim que um eventual governo Luiz Inácio Lula da Silva se instalar”. O caos, argumentava Soros, viria porque como mercados achavam que Lula daria o calote quando assumisse, montariam grandes somas contra o real, gerando uma situação tão dramática que, ao tomar posse, Lula não teria alternativa a não ser realmente dar o calote. “É uma profecia que se autocumpre”, afirmou Soros.

Palocci fez uma espécie de cartilha que, em termos genéricos, ensinava que o sucesso de uma administração estava ligado a um calendário. Ao tomar posse, o político deveria cancelar todas as contratações, promessas de reajustes salariais e obras do antecessor. Apertaria os cintos por dois anos e só começaria obras no terceiro ano de mandato, para inaugurá-las no último ano, na época da reeleição. Era uma técnica de sístole e diástole, ensinava o médico.

Um dos antecessores de Zélia Cardoso de Mello, Bresser Pereira escreveu na primeira semana do plano: Aos poucos vai se formando um grande consenso de que o Plano Collor é coerente, bem concebido e tem condições de êxito. E um plano corajoso, que tem uma lógica baseada no fato de que o ajuste patrimonial se tornou inevitável quando se verificou que o ajuste fiscal era insuficiente. Esse é um plano sem retorno: seu fracasso trará prejuízos muito maiores.

Logo depois, o ícone dos economistas petistas, Maria da Conceição Tavares, deu entrevista chamando o secretário de Política Econômica, Marcos Lisboa, e o secretário do Tesouro, Joaquim Levy, de “infiltrados”, “gente sem confiança do PT”. A Lisboa, que havia assinado um estudo sobre aprimoramento nos gastos sociais, foram reservados adjetivos como “semianalfabeto encarregado de fazer política econômica, coisa que jamais fez na vida”, “pateta” e “papalvo”.

Vinte e sete anos depois, Zélia Cardoso de Mello usa um tom afirmativo sobre o sequestro dos depósitos bancários: “Eu não me arrependo. Não foi que a gente quis fazer maldade. Era uma questão pragmática. Os dados nos levaram a isso. O plano deu errado? Deu, mas não foi pelo bloqueio dos 50 mil cruzados novos”. Para Zélia, o Plano Collor falhou ao não controlar as “torneirinhas”, o nome dado para as variadas brechas de liquidez admitidas pelo governo nos meses seguintes

O crescimento, a inflação, o desemprego, toda a pauta econômica ficou reduzida ao combate à corrupção. Esse simplismo não é novo. Tem sua origem nos movimentos tenentistas dos anos 1920 e ganhou expressão com o moralismo da União Democrática Nacional (UDN), nos anos 1950. Foi a base do golpe militar em 1964 e serviu por anos como discurso do PT para se diferenciar dos demais partidos. No século XXI, o simplismo dos cartazes das ruas contaminou também a discussão econômica.

Excetuando-se as guerras e revoluções, não há nada em nossas civilizações modernas que, em sua amplitude, se possa comparar às inflações. A inflação é como uma orgia satânica de desvalorização na qual homens e unidade monetária confundem-se da maneira mais estranha. Um representa o outro; o homem se sente tão mal quanto o seu próprio dinheiro, que segue cada vez pior; juntos, todos se encontram à mercê desse dinheiro ruim e, juntos, sentem-se igualmente desprovidos de valor.

Ainda em maio, um analista do banco de investimentos Goldman Sachs chamado Daniel Tenengauzer criou o “Lulômetro”, um modelo matemático que tentava antecipar quanto a cotação do dólar subiria em relação ao real a cada ponto que Lula subisse nas pesquisas. No relatório para clientes, o analista previa que o dólar, à época em R$ 2,52, chegaria a R$ 3,04, em uma vitória de Lula no segundo turno – uma alta de 20,6% em cinco meses. A realidade foi mais dura. Ao final da eleição, o dólar estava em R$ 3,82.

O Brasil viveu meses de catarse. Uma campanha publicitária gratuita da TV Globo afirmava, peremptória, “Tem que dar certo”. Munidos com as tabelas com o valor de 5 mil produtos da Superintendência Nacional de Abastecimento e Preços (Sunab), consumidores se diziam “Fiscais do Sarney”. Flagrados com preços acima das tabelas, supermercados foram forçados a fechar enquanto clientes cantavam o Hino Nacional. Revistas distribuíam imagens de bigode que podiam ser cortadas e usadas para aumentar a identificação com o presidente.

Já eleito, Collor trabalhava como se a campanha não houvesse terminado. Exibia a sua juventude como um salvo-conduto para a agressividade. Os industriais eram “cartéis”, os super-mercadistas, “especuladores”, os sindicalistas “boicotavam seu governo”, a oposição era “impatriótica”. Todos que tiveram seu dinheiro confiscado eram “especuladores”. Collor investiu na divisão da sociedade numa operação que não se assistia no Brasil desde que os governos militares deixaram de produzir adesivos com a frase “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”.

No mesmo mês, Mantega ordenou ao BNDES a redução de 5,5% para 2,5% da taxa dos juros fixos das linhas de financiamento do PSI, criado no governo Lula na crise de 2008/2009 para incentivar as compras de máquinas e equipamentos pelas indústrias. Como a inflação beirava os 6%, a decisão era subsídio na veia. Mantega comemorou na entrevista do anúncio da medida: “Temos agora juro real negativo!”. O PSI foi o vetor de uma série de transferências federais para o BNDES a fim de subsidiar empréstimos capazes de retomar o crescimento econômico.

Tornou-se folclórica a chantagem do presidente da Fiesp, Mario Amato, que, em 1989, previu que 800 mil empresários deixariam o país na eventualidade da vitória de Lula, quando a história mostrou que a intervenção do Plano Collor era mais radical que qualquer plano do petista. Em 1998, FHC era criticado por planejar mudanças em sua equipe econômica no segundo mandato. Em 2002, o financista George Soros previu que a derrota de José Serra levaria o país ao caos, e o candidato Ciro Gomes foi duramente atacado ao menosprezar o apoio do mercado.

A superação brasileira da crise tornou-se um case global. Nenhum país capitalista estava tão preparado e saiu-se tão bem. Em abril de 2009, o presidente brasileiro entrou na reunião de cúpula do G20 e foi saudado como astro pop. Ao lado do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, e do primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, o presidente americano Barack Obama apertou a mão de Lula, apontou para ele seu dedo indicador e voltando-se aos colegas disse: “Esse é o cara! Eu adoro esse cara! É o mais popular político do mundo!”.

Em uma crônica em O Globo, a economista Monica Baumgarten de Bolle comparou o ativismo desenfreado do governo Dilma em busca do crescimento com a ação dos agricultores que extinguiu as borboletas-azuis do sul da Inglaterra em 1970. Para acabar com uma praga de coelhos, inoculavam animais com um vírus. Os coelhos de fato morreram, mas o ecossistema da região ficou desbalanceado. A grama cresceu demais, as formigas desapareceram e as borboletas-azuis deram lugar a mariposas cinzas. As ações desencontradas de Brasília, previa Monica, teriam efeitos involuntários similares.

Itamar e FHC foram os patronos do fim do pesadelo da inflação. Nos 182 meses entre abril de 1980, quando a inflação ultrapassou 100% no acumulado de doze meses pela primeira vez, e maio de 1995, quando caiu abaixo desse nível, a inflação acumulou 20.759.903.275.651%, ou seja, uma variação de preços de quase 21 trilhões, segundo cálculos de Gustavo Franco. É uma inflação média de 16% por mês por quinze anos. Que os brasileiros tenham sobrevivido a essa catástrofe é quase uma impossibilidade matemática. Que não tenham aprendido os riscos de conviver com a inflação, uma insensatez.

Em 2007, os Estados Unidos começaram a viver a crise do crédito hipotecário, a bolha dos subprimes. A prolongada política de juros baixos do FED havia gerado distorção como uma ampliação desmensurada no crédito imobiliário e uma consequente inflação artificial dos preços de ativos. Entre 2001 e 2006, os preços dos imóveis americanos subiram 11,5%, um ganho irreal em economias maduras. Era um círculo vicioso, em que as carteiras imobiliárias dos bancos e das agências de crédito habitacional mascaravam créditos podres, ignoravam índices de inadimplência e supervalorizaram o preço dos ativos.

Principal financiador da rolagem da dívida, o Banco do Brasil ficou à beira da falência. O FED, o Citibank e o J.P. Morgan passaram a gerenciar uma rede de segurança para que o banco estatal não quebrasse, relatou a repórter Claudia Safatle na reportagem “A mãe de todas as crises do Brasil”, no jornal Valor. Dez bancos americanos abriram uma linha de 40 milhões de dólares cada um para manter a câmara de compensação do Banco do Brasil operando. Em um gesto de desespero, o presidente Figueiredo pediu ao presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, que usasse a rubrica das verbas secretas da Casa Branca para ajudar o Brasil.

Em entrevistas anos depois, Collor contou que a ideia do sequestro dos depósitos bancários lhe surgiu após uma reunião em janeiro, na casa do ex-ministro Mário Henrique Simonsen, no Rio de Janeiro. Estavam presentes também o candidato de Simonsen a ministro da Fazenda, o executivo do banco Icatu Daniel Dantas, e um dos pais do Cruzado, o economista André Lara Resende. Segundo a memória de Collor, Lara Resende falou sobre o excesso de liquidez da economia, ou seja, a quantidade de ativos que podiam rapidamente ser transformamos em dinheiro vivo. Com seus juros diários, o overnight era o símbolo óbvio dessa proteção contra a inflação.

Um pequeno exemplo do seu exercício do poder: em 1973, diante da alta do preço do feijão no Rio de Janeiro, o ministro ordenou que caminhões com o grão no Paraná rodassem quilômetros para abastecer a antiga capital do estado da Guanabara. Como a inflação oficial à época era medida, principalmente, pelos preços praticados no Rio, o transporte de feijão manipulou o resultado. Por isso, a inflação de 1973 pode ser de 15,5% (nos cálculos oficiais da administração Delfim) ou 20,5%, se vista pela revisão do seu sucessor no Ministério, Mário Henrique Simonsen. “Nunca fiz manipulação de preços. Só de oferta”, ironizou Delfim, décadas depois.

Com a morte de Eduardo Campos, em agosto, Marina Silva tornou-se candidata do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e, segundo todas as pesquisas, favorita para vencer a eleição no segundo turno. Seu programa econômico havia sido preparado por André Lara Resende (o mesmo dos Planos Cruzado e Real) e Eduardo Gianetti da Fonseca. O programa de 250 páginas era uma defesa do tripé econômico do governo FHC – câmbio flutuante, metas de inflação e superávits fiscais –, e lateralmente incluía a concessão da autonomia operacional ao Banco Central, tema que nunca havia sido discutido em campanha eleitoral e desconhecido pela imensa maioria da população.

Não se esqueça do seguinte: o Brasil não gosta do sistema capitalista. Os congressistas, os jornalistas, os universitários não gostam do capitalismo. E o capitalismo tem horror aos bancos, ao sistema financeiro e aos especuladores [Armínio havia sido estrategista do financista George Soros]. Eles gostam do Estado, eles gostam de intervenção, de controle de câmbio, enfim, ser conservador é melhor do que liberal. No Brasil é assim. Não se gosta nem do capitalismo nacional, quanto mais do internacional. Espero que você não pense que, ao defender com brilhantismo as virtudes para que o Brasil possa ser mais capitalista, vá comover alguém. Não vai.

O primeiro fez carreira acadêmica na USP, no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) e na FGV com uma visão desenvolvimentista da economia. Teve três figuras da centro-esquerda, Paul Singer, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Carlos Bresser Pereira, na banca da sua tese de doutorado com o tema Economia política brasileira. Participou da fundação do PT, da coordenação econômica das campanhas presidenciais de Lula desde 1989 e, depois de ser ministro do Planejamento e presidente do BNDES, chegou ao Ministério da Fazenda com a missão pessoal de expurgar a ortodoxia dos anos Palocci.

Desde Pedro Malan, em 1995, uma equipe econômica não era tão festejada. Chamada de dream team, a equipe econômica tinha Ilan Goldfajn no Banco Central, Pedro Parente na Petrobras, Maria Silvia no BNDES e, no Ministério da Fazenda, o secretário-executivo Eduardo Guardia e os secretários Mansueto Almeida, Marcelo Caetano, Fabio Kanczuk e Ana Paula Vescosi. Louvado pelo mercado, pelo empresariado e pela mídia, Meirelles e sua equipe anunciaram uma emenda constitucional do Teto de Gastos, impedindo ao aumento de gastos públicos acima da inflação, o fim da TJLP, a taxa de juros subsidiados do BNDES, e uma reforma da Previdência com idades mínimas para aposentadoria. Era o maior choque liberal na economia brasileira desde Collor. Uma

Húbris é um conceito grego que combina arrogância, insolência e um desdém sobre o destino. O mito de Ícaro, o jovem que desafia os conselhos paternos e voa perto demais do Sol, é caso clássico dessa prepotência. No Gênesis, os construtores da Torre de Babel estão claramente acometidos da húbris ao tentar construir um edifício tão alto que nenhum dilúvio divino os alcançaria. Victor Frankenstein, o personagem de Mary Shelley que dá vida a destroços humanos, é a personificação da húbris moderna. Em sua histórica capa com o título “O Brasil decola”, de 12 de novembro de 2009, a revista britânica The Economist apresentou o estado da arte de como o país havia se tornado um player global. E, ainda assim, podia se perder se não controlasse a húbris.

No dia 15 de março de 1990, Collor tomou posse com o mais liberal discurso presidencial já ouvido em Brasília. Redigido a quatro mãos com o embaixador do Brasil na Unesco, José Guilherme Merquior, Collor afirmou: O Estado não é um produtor, mas um promotor do bem-estar coletivo. A proposta de modernização econômica pela privatização e abertura é a esperança de completar a liberdade política, reconquistada com a tradição democrática, com a mais ampla e efetiva liberdade econômica. A privatização deve ser completada por menor regramento da atividade econômica. O Brasil estará aberto ao mundo. No dia seguinte, Collor fez a maior intervenção estatal na economia em tempos democráticos. Todas as aplicações financeiras que ultrapassassem 50 mil cruzados novos (o equivalente 1.250 dólares no câmbio da época)[1] foram bloqueadas.

Um ministro da Fazenda se ocupa de dezenas de índices mensais. São os indicadores de inflação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe); os cálculos do preço da cesta básica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE); os números de desemprego do IBGE e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged); a variação dos indicadores de confiança da Confederação Nacional da Indústria (CNI), do consumidor no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e do empresariado no Instituto Brasileiro de Economia (IBRE/FGV); o risco-Brasil e as responsabilidades correlatas do Banco Central, como a taxa Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic), a taxa de câmbio e o spread bancário. O presidente se preocupa apenas com um indicador: o da própria popularidade.

Em seu monumental livro A lanterna na popa, o senador Roberto Campos, ex-ministro do Planejamento de Castello Branco e ícone do liberalismo, escreveu: O plano destruía dois mitos. O mito estruturalista, segundo o qual a inflação resulta da rigidez das estruturas e não da expansão da moeda. Congelando 30% do estoque monetário, o plano era o paroxismo do monetarismo. O segundo mito foi o da cura mágica e indolor da inflação. No fundo, tratava-se de um buquê de rosas com profundos espinhos. Para as esquerdas, as rosas estavam no bloqueio dos capitais aplicados na chamada “ciranda financeira”, na forte tributação sobre os ativos financeiros, no congelamento policialesco de preços, na punição fiscal às bolsas e o limite rígido de 50 mil cruzados novos nos saques nivelam igualitariamente ricos e pobres. O consolo dos liberais estava na promessa de redimensionamento do Estado pela reforma administrativa e pelas privatizações, assim como a liberação comercial.

O plano econômico que Zélia anunciaria no dia seguinte tinha por base a retirada de circulação de um terço de todo o PIB do país. Com o dinheiro mudando de lugar, os “Bran-caleones” passaram a estudar um sequestro dos depósitos não apenas do overnight, mas também da poupança. A dúvida era qual o teto para a intervenção? As opções eram 30 mil cruzados novos, 50 mil cruzados novos e 70 mil cruzados novos. No papel nas mãos de Zélia estavam escritos os números 30, 50 e 70. Zélia desceu para a festa. Foi fotografada sorrindo com o papel nas mãos. Tinha 36 anos e se tornara a mulher mais poderosa do Brasil. Estava literalmente em suas mãos a decisão do valor do bloqueio nas cadernetas de poupanças de milhões de brasileiros. Dependia de Zélia. No dia seguinte, ela anunciou que todas os valores das contas correntes e cadernetas de poupanças acima de 50 mil cruzados novos estavam bloqueados, e só seriam devolvidos integralmente em doze vezes a partir de setembro de 1991.

Em setembro, sob aplausos dos dirigentes da Fiesp e da CNI, Dilma anunciou que iria antecipar renovação das concessões de energia, prevista para encerrar a partir de 2015. Em troca da renovação sem concorrência, as companhias aceitariam novos contratos, com valores mais baixos. Na Bovespa, as ações das companhias CESP, Eletrobras, Transmissão Paulista, Cemig e Copel, perderam quase 15 bilhões de reais de valor em quinze dias, sob o consenso de que a medida era uma quebra de contrato. Ardoroso defensor da medida, o presidente da Fiesp, Paulo Skaff, atacou o mercado: Não houve quebra de contrato. Havia uma expectativa errada no mercado de que essas concessões seriam hereditárias e eternas. O que o governo fez foi dar a opção de antecipar a renovação, mas ninguém é obrigado a aceitar. E se as ações caíram é porque estavam altas. E se tiverem um valor real maior, voltarão a subir. A mamata terminou. Ato contínuo, a Fiesp colocou no ar comerciais na TV de São Paulo assumindo como sua a paternidade da futura redução no preço da tarifa.

A quadrangulação apontada por Delfim era uma operação na qual o BNDES recebeu um empréstimo de 15 bilhões de reais do Tesouro Nacional e comprou 12,5 bilhões de reais em ações da Petrobras que estavam em posse do Fundo Soberano do Brasil, cujo único acionista é o próprio Tesouro. Com as ações, o BNDES comprou 6 bilhões de reais em créditos que o Tesouro tinha a receber da usina de Itaipu por energia que seria gerada até 2023. Por esse crédito de energia futura, o Tesouro recebeu as ações do BNDES e as usou para capitalizar a Caixa Econômica Federal. Simultaneamente, o Tesouro emprestou 7 bilhões de reais à Caixa. Complicado? Bem, essa era a intenção do autor, o secretário do Tesouro, Arno Augustin. O saldo final da operação, com várias outras manobras, foi de 25,4 bilhões de reais para o Tesouro, o suficiente para o governo cumprir as metas de superávit de 2012. Questionado, Augustin disse ao Estadão: “O que se fez foi um conjunto de operações dentro da metodologia existente. Se não agrada este ou aquele ator, eu não tenho culpa”.

É um paradoxo que MHS, um antiestatista por instinto, tenha participado do governo que multiplicou a dívida externa, assistiu a retomada da inflação e pesou a mão no intervencionismo estatal na economia. Esse contrassenso é explicado pelo jornalista Elio Gaspari, em A ditadura encurralada: Formara-se um novo estilo de governo. Simonsen “arrancava os cabelos” com a inflação. Reis Velloso preponderava. Depositário da ortodoxia teórica do regime, o ministro da Fazenda transformara-se em um brilhante e respeitável contador. Já seu colega do Planejamento, irrelevante no currículo, tornara-se instrumento do projeto de poder do presidente. Zelava pelas prerrogativas de tesoureiro, queixava-se dos ministros que o atropelavam, tratando de seus projetos diretamente com Geisel. […] Golbery queixava-se de que, enquanto “Simonsen é praticamente o único que se preocupa com a inflação”, ele próprio “não tinha ingerência na parte econômica”. Convivia bem com Velloso, mas percebia que o projeto de predomínio do Simonsen falhara. Na economia, como na política, mandava o presidente.

Em 13 de dezembro de 1968, Delfim Netto foi um dos ministros que votaram a favor da decretação do Ato Institucional número 5 (AI-5), que encerrou o que restava de democracia no Regime Militar, como disse na gravação oficial da reunião ministerial: Estou plenamente de acordo com a proposição que está sendo analisada neste Conselho. E se Vossa Excelência [o presidente Costa e Silva] me permitisse, diria mesmo que creio que ela não é suficiente. Eu acredito que deveríamos atentar e deveríamos dar a Vossa Excelência a possibilidade de realizar certas mudanças constitucionais que são absolutamente necessárias para que o país possa realizar seu desenvolvimento com mais rapidez. “Se as condições fossem as mesmas e o futuro não fosse opaco, eu repetiria. Eu não só assinei o AI-5, como assinei a Constituição de 1988”, disse Delfim em 2013, lembrando que havia sido deputado constituinte, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV). Ao jornalista Elio Gaspari, ele foi mais objetivo: “Aquela reunião [da decretação do AI-5] foi pura encenação. O que se preparava era uma ditadura mesmo, tudo foi feito para levar àquilo.”

FHC tornou-se candidato por obra e graça de Itamar Franco, que não tentou durante a campanha eleitoral lhe tomar os méritos do Plano Real. Foi o ministro, e não o presidente, o convidado a explicar nos programas populares de TV os estranhos cálculos para a conversão dos salários em URV. Para dar provas de que FHC era o pai do real, Itamar permitiu uma irregularidade, a de que FHC assinasse em abril as notas de real que só iriam circular dois meses depois. Com o passar do tempo, a historiografia oficial do Plano Real passou a ressaltar as qualidades de que FHC e sua equipe e as dificuldades impostas por Itamar, apresentado como o político ignorante sobre o funcionamento da economia. Em 2009, magoado até o fundo da alma com FHC, Itamar Franco gravou depoimento sobre o período: Para mim, Ricupero foi o principal sacerdote do Plano Real. Mais tarde tivemos ajuda, e grande, do ministro Ciro Gomes. Naquele momento, isso é o que o povo brasileiro não sabe se for ler a história do real, é o senhor Pedro Malan; senhor Pérsio Arida, não sei mais quem. De repente, até parece que foi o doutor Cardoso que assinou a medida provisória[4] do Plano Real.

a proposta de Barbosa era branda demais para a direita e uma traição para a esquerda. Ele propunha uma meta fiscal flutuante baseada na receita efetiva do governo, grosso modo como a banda das metas de inflação. A meta de superávit aumentaria se a arrecadação subisse e cairia até um piso se houvesse frustração na receita. A lógica é cartesiana, o governo não controla a sua receita, mas o que gasta. Essa meta de gastos seria definida a cada quatro anos, permitindo uma revisão a cada mandato presidencial. Haveria uma renegociação da dívida dos estados, focada em contrapartidas como a limitação dos gastos com pessoal e aumento da cobrança da alíquota da previdência de servidores públicos. Havia uma proposta de Reforma Trabalhista, dando certeza jurídica aos acordos assinados entre sindicatos patronais e de trabalhadores sobre a legislação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e uma reforma da previdência com regras de transição para os trabalhadores na ativa e fixação de idade mínima para a aposentadoria das novas gerações. “Para manter a Previdência é preciso reformá-la”, discursou Barbosa. A maior parte dessa proposta jamais viu a luz do sol.

Marcos Lisboa, um dos autores da Agenda perdida de Ciro Gomes. “Eu nem sou petista!”, respondeu Lisboa. Palocci disse que tinha autonomia para montar sua equipe. Lisboa, 38 anos, professor da FGV, manteve-se na defensiva. “Mas não é só não ser filiado. Eu discordo do que o partido pensa.” “Você leu a Carta ao povo brasileiro?”, perguntou Palocci. “Aquilo é sério?”, retrucou Lisboa. “Lógico, você achava que era só para ganhar a eleição?”, desafiou Palocci. Com Henrique Meirelles no Banco Central e Marcos Lisboa como secretário de Política Econômica, Palocci começou a montar seu dream team. Ex-secretário de política econômica da equipe de Malan, o engenheiro naval Joaquim Levy foi chamado para ser secretário do Tesouro. Número dois da Receita Federal do governo tucano, Jorge Rachid foi promovido. Tempos depois, o principal negociador brasileiro da dívida externa e diretor do Banco Mundial, Murilo Portugal virou o número dois do ministério. Meirelles manteve a diretoria do Banco Central de Armínio Fraga e, quando teve que fazer substituições, chamou economistas ortodoxos da melhor cepa como Afonso Sant’Anna Bevilaqua, Alexandre Schwartsman e Eduardo Loyo.

maior crise do capitalismo do século XXI começou com um “não”. Em seu livro À beira do abismo financeiro, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson Jr., relata o choque que teve quando a Autoridade de Serviços Financeiros (FSA) do Reino Unido negou seu aval ao acordo amarrado pelo FED e pela Secretaria do Tesouro para que o Lehman Brothers, quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, fosse assumido pelo banco inglês Barclays. Semanas antes, quando houve a quebra do Bear Stearns, com 29 bilhões de dólares em créditos questionáveis, o JP Morgan absorveu o banco e o FED garantiu. Quando o Lehman quebrou, com uma carteira de 75 bilhões de dólares em papéis podres, o FED entendeu que não era mais viável repetir a solução. Um acordo às pressas foi montado para evitar um efeito sistêmico no mercado. Pressionadas pelas autoridades governamentais, as quinze maiores instituições americanas comprariam a carteira do Lehman, sem garantia do FED. E o Barclays ficaria com o Lehman, sem a carteira. O acordo foi fechado no domingo de manhã. À tarde, o FSA britânico comunicou às autoridades americanas a sua desaprovação. Na definição de um documento do próprio FED meses depois, a negativa “foi fulminante como um ataque do coração”.

O mais inesperado e complexo fenômeno político brasileiro da redemocratização, os protestos de junho de 2013 foram provocados por um artifício do ministro Guido Mantega. Em dezembro de 2012, dias antes de tomar posse como prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, do PT, foi ao Palácio do Planalto para um a reunião com a presidente Dilma Rousseff e os ministros Guido Mantega e Mirian Belchior (Planejamento). Haddad pretendia renegociar os termos da dívida federal, que correspondia a quase duas vezes a receita líquida municipal, conforme escreveu na revista Piauí. Mas o que ouvi foi a demanda exatamente oposta: o que São Paulo faria para ajudar o governo federal? Sem muitos preâmbulos, a audiência passou direto a uma questão bastante específica: o reajuste da tarifa de ônibus no município. Percebi na hora que o clima de celebração pela minha vitória tinha passado e que aquilo era um balde de água fria. Por imposição de Mantega, a tarifa de ônibus de São Paulo e do Rio de Janeiro não seriam reajustadas em janeiro, mês tradicional desses aumentos porque coincidem com a redução no número de passageiros pelas férias escolares, mas apenas em junho. Dessa forma, Mantega esperava não ter os efeitos do aumento dos ônibus nos índices de inflação do primeiro semestre, que estavam pressionados.

As circunstâncias que permitiram o sucesso do Plano Real são tão raras quantas as do Big Bang. Itamar Franco assumiu a presidência após um impeachment traumático e parecia inseguro no cargo. O Congresso afundava no escândalo dos “Anões do Orçamento”, quando se descobriu que integrantes da Comissão de Orçamento trocavam emendas por propina. “Ninguém queria vir. Ninguém acreditava que fosse possível acabar com a inflação em um governo de transição e com o Congresso em pandarecos”, relatou Fernando Henrique, que agora passava a ser conhecido pelo acrônimo FHC. Convidado para ser o número 2 do ministério, Edmar Bacha inicialmente disse que, por questões familiares, só poderia passar uma semana por mês em Brasília. Negociador da dívida brasileira e vivendo com a família há anos em Washington, Pedro Malan também recusara. Malan indicou seu ex-aluno, Gustavo Franco, que o Planalto vetou por ter escrito meses antes um artigo contra o presidente. Gustavo Franco passou a trabalhar na Fazenda escondido do Palácio do Planalto. O discurso de posse do novo ministro da Fazenda apontava o diagnóstico correto: “O Brasil está numa situação em que as empresas estão líquidas, conseguiram recuperar-se. O problema é o Estado, é o fiscal. O primeiro problema é a inflação, o segundo problema é a inflação, e o terceiro problema é a inflação”. Mas FHC não tinha a profilaxia para combater a doença e recuperar o paciente.

Como militante da corrente petista Libelu, o estudante de medicina Antonio Palocci, participou de dezenas de protestos que incluíam um “Fora daqui com o FMI”. Em 2005, o ortodoxo ministro da Fazenda fez cumprir a vontade do jovem trotskista. Em março, antes da crise política, Palocci enviou uma carta formal ao presidente explicando que o Brasil já tinha condições de deixar a tutela do FMI pela primeira vez em oito anos. O grande volume do saldo comercial e de investimentos estrangeiros havia possibilitado ao Banco Central comprar moeda no mercado e, assim, reforçar as reservas internacionais. O Banco Central comprava quase 1 bilhão de dólares por mês e as reservas totais chegaram perto de 53,799 bilhões de dólares. Em dezembro de 2005, o Brasil antecipou suas cotas de 15,5 bilhões de dólares que, originalmente, seriam quitados em várias parcelas até 2007, economizando cerca de 500 milhões de dólares em juros. A saída do Brasil do pronto-socorro passou a entrar no manual do FMI como um caso de sucesso. O fim do acordo com o FMI não mudou um sobreolho na vida de qualquer brasileiro. Palocci ampliou o aperto monetário para 4,5%, Meirelles continuou acumulando reservas internacionais e o secretário do Tesouro, Joaquim Levy, seguiu respondendo “não” a cada pedido de mais verbas. O simbolismo político, no entanto, era imensurável. O PT estava consertando uma crise iniciada pelo PSDB, e Lula comemoraria essa vitória por anos.

Criado em 1808 com a chegada de dom João VI ao Brasil colonial, o Ministério da Fazenda teve como primeiro titular o advogado dom Fernando José de Portugal e Castro (1808-16), que determinou a circulação de moedas de ouro, prata e bronze, autorizou a abertura de manufaturas (até então monopólio de Portugal), criou o Banco do Brasil e decretou impostos sobre a venda de escravos. Até 2018, foram 153 ministros titulares e interinos no Ministério, de matemáticos, como o visconde do Rio Branco (1861-62), que introduziu uma lei estabelecendo que a autorização de uma nova despesa estivesse vinculada às fontes de receita correspondentes. Ou o delegado de polícia João Alfredo Corrêa de Oliveira (1888-89), que propôs a criação de um órgão para fiscalizar e julgar as contas públicas, o embrião dos Tribunais de Contas. Foram juristas como Rui Barbosa (1889), médicos como Joaquim Murtinho (1989-02), diplomatas como Oswaldo Aranha (1931-34 e 1953-54) e Santiago Dantas (1963), bancários como Correia e Castro (1946-49) e banqueiros como Walter Moreira Salles (1961-62). Na cadeira de ministro sentou-se a nata da economia brasileira: Eugênio Gudin (1954-55), Octavio Gouvêa de Bulhões (1964 a 67, tendo Roberto Campos como ministro do Planejamento), Delfim Netto (1967-74), Mário Henrique Simonsen (1974-79). O cargo rendeu três presidentes: Rodrigues Alves, Getúlio Vargas e Fernando Henrique Cardoso (Tancredo Neves acumulou o cargo por dois meses quando era primeiro-ministro em 1962).

Escreveu a The Economist: De certa forma, o Brasil supera os outros BRICs [o acrônimo que reúne Brasil, Rússia, Índia e China]. Ao contrário da China, é uma democracia. Ao contrário da Índia, não tem separatistas, conflitos étnicos e religiosos nem vizinhos hostis. Ao contrário da Rússia, exporta mais do que petróleo e armas e trata os investidores estrangeiros com respeito. Sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-líder sindical nascido na pobreza, o governo agiu para reduzir as desigualdades que há muito desfiguraram o país. Na realidade, quando se trata de políticas sociais inteligentes e de estimular o consumo doméstico, o mundo em desenvolvimento tem muito mais a aprender com o Brasil do que com a China. Em resumo, o Brasil repentinamente parece ter entrado no cenário mundial. Sua chegada foi simbolicamente marcada no mês passado pelo prêmio das Olimpíadas de 2016 para o Rio de Janeiro; dois anos antes, o Brasil sediará a Copa do Mundo de Futebol. Talvez o maior perigo que o Brasil enfrenta seja a húbris. Lula tem razão em dizer que seu país merece respeito, assim como ele merece grande parte da adulação que ele tanto aprecia. Mas ele também foi um presidente sortudo, colhendo as recompensas do boom das commodities e operando a partir da sólida plataforma de crescimento erguida por seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Manter o melhor desempenho do Brasil em um mundo que está sofrendo tempos difíceis significa que o sucessor de Lula terá que enfrentar alguns dos problemas que ele pode se dar ao luxo de ignorar.

Nenhum pacote econômico foi tão mal divulgado quanto o Plano Collor. Zélia dormiu 50 minutos na noite do dia 15, acertando os últimos detalhes do pacote. Estava tensa e gaguejava. Falava em “sequestro de liquidez” como se a expressão fosse corrente para o cidadão médio. Abandonou a entrevista coletiva no meio para atender um telefonema do presidente e não retornou. Kandir se confundia com as perguntas. Nervoso, Ibrahim Eris fumava. Turco, há vinte anos no Brasil, Eris falava com sotaque mais forte que o habitual, o que tornava o confisco ainda mais incompreensível. Dizia “os torneiras” para falar das possíveis brechas para liberação de dinheiro bloqueado. Nervosos, os assessores do Ministério da Fazenda exalavam agressividade. Quando os jornalistas traziam casos hipotéticos (O que faria um paciente que precisa passar por uma cirurgia? Ou alguém que havia vendido um imóvel e não recebido o dinheiro?), as respostas minimizavam os dramas humanos diante da missão de combater a inflação. Os jornalistas saíram da coletiva tão confusos que Zélia teve de ir aos programas populares e dar dezenas de novas entrevistas para sanar as dúvidas. No dia seguinte ao anúncio, a Bovespa caiu 20,9%, seu pior resultado até então. Quinze por cento de todo o patrimônio das empresas brasileiras estavam depositados em overnight, agora limitados a saques equivalentes a 750 dólares. Empresas divulgavam comunicados aos funcionários dizendo que não teriam recursos para pagar salários. O plano acabou com o capital de giro das empresas e travou o funcionamento do sistema bancário. Milhares de pessoas entupiam os bancos em busca de informação. O governo dava explicações desencontradas sobre como ficariam os salários, aluguéis e pagamentos de dívidas.