O nome da rosa - Guido Percu's Notes
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O nome da rosa

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

O nome da rosa

Kindle Highlights

Laudes (que na tradição mais antiga eram chamadas Matutinas).

omnis mundi creatura quasi liber et pictura nobis est in speculum

“In omnibus requiem quaesivi, et nusquam inveni nisi in angulo cum libro.”

Secretum finis Africae manus supra idolum age primum et septimum de quatuor.

Tão logo apeamos, ele lavou as mãos de Guilherme, depois o abraçou, beijando-o na boca

Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações.

en me retraçant ces details, j’en suis à me demander s’ils sont réels, ou bien si je les ai rêvés”).

Que o Espírito Santo te ponha mais luzes na cachola do que as que tens, meu filho! — exclamou o mestre.

Matinas (que às vezes Adso também designa pela antiga expressão Vigiliae). Entre 2h30 e 3h da madrugada.

Faltou-me coragem de inquirir sobre as fraquezas dos maus, porque descobri que são as mesmas fraquezas dos santos.

ou talvez para andar por um labirinto seja necessário ter uma boa Ariadne que te espere à porta segurando a ponta de um fio.

Apenas nas ciências matemáticas, como diz Averróis, são identificadas as coisas conhecidas para nós e as conhecidas de modo absoluto.

porque, como diz Boécio, nada é mais fugaz que a forma exterior, que perde o viço e muda como as flores do campo com o aparecimento do outono;

E receio ter feito como os maus romancistas que, pondo em cena uma personagem francesa, fazem-na dizer “parbleu!” e “la femme, ah! la femme!”.

haviam-me ensinado que o trabalhador manual é moechus, que comete adultério contra a vida intelectual, à qual deveria estar unido em castíssimo esponsal).

“versão italiana da obscura versão neogótica francesa de uma edição latina seiscentista de uma obra escrita em latim por um monge germânico em fins do século XIV”?

Poderia ser um alcorão, mas infelizmente não sei árabe. — O alcorão, a bíblia dos infiéis, um livro perverso… — Um livro que contém uma sabedoria diferente da nossa.

conseguiria. A biblioteca defende-se sozinha, insondável como a verdade que abriga, enganadora como a mentira que guarda. Labirinto espiritual, é também labirinto terreno.

Monasterium sine libris — citou absorto o abade — est sicut civitas sine opibus, castrum sine numeris, coquina sine suppellectili, mensa sine cibis, hortus sine herbis, pratum sine floribus, arbor sine foliis…

Pareceria estranho um papa achar perversa a ideia de Cristo ser pobre, mas estava claro que, entre defender a pobreza de Cristo e defender a pobreza de sua Igreja, o passo era curto, e uma Igreja pobre se tornaria fraca diante do imperador.

Pensando bem, bastante escassas eram as razões que poderiam inclinar-me a publicar a minha versão italiana da obscura versão neogótica francesa de uma edição latina seiscentista de uma obra escrita em latim por um monge germânico em fins do século XIV.

Ouvi dizer que agora está perto de um amigo meu que é da cúria, Guilherme de Ockham. — Conheci-o pouco. Não me agrada. Um homem sem fervor, todo cabeça, nada coração. — Mas é uma boa cabeça. — Pode ser, mas o levará ao inferno. — Então eu o encontrarei lá embaixo, e discutiremos lógica.

Meu rapaz — disse —, tens diante de ti um pobre franciscano que, com seus modestos conhecimentos e aquele pouco de habilidade que deve ao infinito poder do Senhor, conseguiu em poucas horas decifrar uma escrita secreta que seu autor tinha certeza de que permaneceria hermética para todos, exceto para ele mesmo… e tu, miserável biltre iletrado, te permites dizer que estamos no mesmo ponto?

Os leprosos excluídos gostariam de arrastar todos para sua ruína. E se tornarão mais malvados quanto mais os excluíres; e, quanto mais os representares como uma corte de lêmures que querem a tua ruína, mais eles serão excluídos. São Francisco entendeu isso, e sua primeira escolha foi ir viver com os leprosos. Não se mudará o povo de Deus se os marginalizados não se reintegrarem em seu corpo.

Guilherme, agora que — com seus novos vidros em cima do nariz — podia demorar-se lendo os livros, a cada título descoberto prorrompia em exclamações de alegria, ou porque conhecesse a obra ou porque a procurasse desde muito tempo, ou porque nunca tivesse ouvido menção a ela e ficava sobremaneira excitado e curioso. Em suma, para ele cada livro era como um animal fabuloso encontrado numa terra desconhecida.

A ilusão da heresia é essa. O que conta não é a fé que um movimento propõe, é a esperança que ele oferece. Raspa a heresia, encontrarás o leproso. Toda batalha contra a heresia pretende apenas que o leproso continue leproso. Quanto aos leprosos, o que queres exigir deles? Que distingam entre duas definições da Trindade ou da eucaristia? Ora, Adso, esses são jogos para homens de doutrina. Os simples têm outros problemas.

Não é a primeira vez que te falo de Roger Bacon. Talvez não tenha sido o homem mais sábio de todos os tempos, mas sempre fui fascinado pela esperança que animava seu amor pela sabedoria. Bacon acreditava na força, nas necessidades, nas invenções espirituais dos simples. Não teria sido um bom franciscano se não achasse que os pobres, os deserdados, os idiotas e os iletrados falam frequentemente com a boca de Nosso Senhor. Se

— Por que insistis em falar de ações criminosas sem vos pronunciardes sobre sua causa diabólica? — Porque raciocinar sobre as causas e os efeitos é coisa bastante difícil, da qual acho que o único juiz possível é Deus. Já penamos tanto para estabelecer uma relação entre um efeito tão evidente como uma árvore queimada e o raio que a incendiou, que remontar cadeias por vezes longuíssimas de causas e efeitos me parece tão insensato quanto querer construir uma torre que chegue até o céu.

É verdade que para mim aquele tipo de pegada exprimia, digamos, o cavalo como verbum mentis, e assim teria expressado em qualquer lugar que o encontrasse. Mas a pegada naquele lugar e àquela hora do dia dizia-me que pelo menos um dentre todos os cavalos possíveis passara por ali. De modo que eu me encontrava a meio caminho entre a apreensão do conceito de cavalo e o conhecimento de um cavalo individual. Em todo caso, o que eu ficava conhecendo do cavalo universal me era dado pelo rastro, que era singular.

“Roger Bacon, que eu venero como mestre, ensinou-nos que o plano divino passará um dia para a ciência das máquinas, que é magia natural e santa. E um dia, por força da natureza, poderão ser feitos instrumentos de navegação graças aos quais as naves se moverão unico homine regente e bem mais rápidas que as impelidas por vela ou remos; e haverá carros que se moverão velozmente sem que nenhum animal os puxe, e veículos voadores guiados por um homem que os fará bater as asas como se fossem pássaros. E instrumentos minúsculos que erguerão pesos infinitos e navezinhas que permitirão flutuar no fundo do mar”.

Diante de um livro não devemos nos perguntar o que diz, mas o que quer dizer, ideia que para os velhos comentadores dos livros sagrados foi claríssima. O unicórnio, do modo como dele falam esses livros, encerra uma verdade moral, ou alegórica, ou anagógica, que permanece verdadeira, como verdadeira permanece a ideia de que a castidade é uma nobre virtude. Mas, quanto à verdade literal que sustenta as outras três, resta saber de que dado de experiência originária nasceu a letra. A letra deve ser discutida, mesmo que o suprassentido permaneça bom. Num livro está escrito que só se corta diamante com sangue de bode. Meu grande mestre Roger Bacon disse que não é verdade, simplesmente porque ele experimentou e não deu certo. Mas, se o nexo entre diamante e sangue caprino tivesse um sentido superior, este permaneceria intacto.

Eles, Bentivenga e os outros, e sob tortura! — Só uma coisa provoca maior excitação nos animais do que o prazer: é a dor. Sob tortura vive-se como sob o poder de ervas que provocam visões. Tudo o que ouviste contar, tudo o que leste, volta-te à cabeça, como se fosses transportado, não para o céu, mas para o inferno. Sob tortura dizes não só o que o inquisidor quer, mas também o que imaginas que possa agradá-lo, porque se estabelece um elo (este, sim, verdadeiramente diabólico) entre ambos… Essas coisas eu conheço, Ubertino, também fiz parte desses grupos que acreditam produzir a verdade com ferro incandescente. Pois bem, fica sabendo que a incandescência da verdade é de outra chama. Sob tortura Bentivenga pode ter dito as mentiras mais absurdas, porque já não era ele quem falava, era sua luxúria, os demônios de sua alma.

Sei que ela tem mais livros que qualquer outra biblioteca cristã. Sei que diante de vossas estantes as de Bobbio ou de Pomposa, de Cluny ou de Fleury parecem o quarto de um menino que mal se inicia no ábaco. Sei que os seis mil códices de que Novalesa se gabava há mais de cem anos são poucos diante dos vossos, e talvez muitos deles agora estejam aqui. Sei que vossa abadia é a única luz que a cristandade pode opor às trinta e seis bibliotecas de Bagdá e aos dez mil códices do vizir Ibn al-Alkami, que o número de vossas bíblias se iguala aos dois mil e quatrocentos corões de que o Cairo se vangloria, e que a realidade de vossas estantes é luminosa evidência contra a soberba lenda dos infiéis que há anos queriam (íntimos que são do príncipe da mentira) a biblioteca de Trípoli, que contém seis milhões de volumes e é habitada por oitenta mil comentadores e duzentos escribas.

Tu sabes, o abade Joaquim disse a verdade. Chegamos à sexta era da história humana, em que aparecerão dois Anticristos, o Anticristo místico e o próprio Anticristo; isso acontece agora na sexta era, após o aparecimento de Francisco a configurar em sua própria carne as cinco chagas de Jesus Crucificado. Bonifácio foi o Anticristo místico, e a abdicação de Celestino não foi válida. Bonifácio foi a besta vinda do mar, cujas sete cabeças representam as ofensas aos pecados capitais, e os dez chifres, as ofensas aos mandamentos, e os cardeais que o rodeavam eram os gafanhotos, cujo corpo é Apoliom! Mas o número da besta, se leres o nome em letras gregas, é Benedicti! Fitou-me para ver se eu tinha compreendido e levantou um dedo para advertir-me. — Bento XI foi o próprio Anticristo, a besta que sobe da terra! Deus permitiu que tal monstro de vício e iniquidade governasse sua Igreja para que as virtudes de seu sucessor resplandecessem de glória! — Mas, santo padre — objetei com um fio de voz, tomando coragem —, seu sucessor é João!

Mas tu, Guilherme, falas assim porque na verdade não acreditas na vinda do Anticristo, e os teus mestres de Oxford te ensinaram a idolatrar a razão, estancando as capacidades proféticas do teu coração! — Estás enganado, Ubertino — respondeu Guilherme com muita seriedade. — Tu sabes que venero Roger Bacon mais que qualquer outro de meus mestres… — Que delirava com máquinas voadoras — motejou amargamente Ubertino. — Que falou clara e limpidamente sobre o Anticristo, advertiu seus sinais na corrupção do mundo e no enfraquecimento do saber. Mas ensinou que há um único modo de nos prepararmos para sua vinda: estudar os segredos da natureza, usar do saber para melhorar o gênero humano. Podes preparar-te para combater o Anticristo estudando as virtudes curativas das ervas, a natureza das pedras, e até mesmo projetando as máquinas voadoras das quais zombas. — O Anticristo do teu Bacon era um pretexto para cultivar o orgulho da razão. — Santo pretexto. — Nada que seja pretexto é santo. Guilherme, sabes que te quero bem. Sabes que confio muito em ti. Castiga a tua inteligência, aprende a chorar sobre as chagas do Senhor, joga fora os teus livros.

— Mas por que puseram entre as falsidades também um livro com o unicórnio? — perguntei. — Evidentemente, os fundadores da biblioteca tinham estranhas ideias. Terão achado que esse livro que fala de bestas fantásticas que vivem em países distantes fazia parte do repertório de mentiras difundido pelos infiéis… — Mas o unicórnio é uma mentira? É um animal dulcíssimo e altamente simbólico. Figura de Cristo e da castidade, ele só pode ser capturado pondo-se uma virgem no bosque, de modo que o animal, ao sentir seu cheiro castíssimo, vá pousar a cabeça em seu regaço, tornando-se presa dos laços dos caçadores. — Assim é dito, Adso. Mas muitos se inclinam a achar que é uma invenção fabulística dos pagãos. — Que decepção — eu disse. — Gostaria de encontrar um deles atravessando um bosque. De outro modo, que graça tem atravessar um bosque? — Não quer dizer que não existe. Talvez seja diferente do modo como é representado nesses livros. Um viajante veneziano andou por terras muito distantes, bastante próximas do Fons Paradisi de que os mapas falam, e viu unicórnios. Mas achou-os grosseiros, desengonçados, feiíssimos e negros. Creio que viu bestas verdadeiras com um chifre na testa. Foram provavelmente as mesmas que os mestres da sapiência antiga, nunca de todo errônea, que receberam de Deus a oportunidade de ver coisas que não vimos, nos transmitiram com uma primeira descrição fiel. Depois, essa descrição, viajando de auctoritas a auctoritas, foi transformada por sucessivas composições da fantasia, e os unicórnios tornaram-se animais graciosos, brancos e mansos. Por isso, se souberes que num bosque vive um unicórnio, não vás ao bosque com uma virgem, porque o animal poderia ser mais semelhante ao do testemunho do veneziano do que ao deste livro.

Os leprosos são signo da exclusão em geral. São Francisco tinha entendido. Não queria apenas ajudar os leprosos, pois sua ação se reduziria a um ato impotente de caridade. Queria dizer outra coisa. Contaram-te a pregação aos pássaros? — Oh, sim, ouvi essa belíssima história e admirei o santo que gozava da companhia daquelas ternas criaturas de Deus — eu disse, com grande fervor. — Pois bem, contaram-te a história errada, ou seja, a história que a ordem está hoje reconstruindo. Quando Francisco falou ao povo e aos magistrados da cidade e percebeu que eles não o entendiam, saiu em direção ao cemitério e pôs-se a pregar para corvos, pegas, gaviões, aves de rapina que se alimentavam de cadáveres. — Que coisa horrenda — falei —, então não eram pássaros bons! — Eram aves de rapina, pássaros excluídos, como os leprosos. Francisco decerto estava pensando naquele versículo do Apocalipse que diz: vi um anjo de pé, no sol, gritar com voz forte, a todos os pássaros que voam no firmamento, vinde e reuni-vos para o grande banquete de Deus, para comer a carne dos reis, a carne dos tribunos e dos soberbos, a carne dos cavalos e dos cavaleiros, a carne dos libertos e dos escravos, dos pequenos e dos grandes! — Então Francisco queria incitar os excluídos à revolta? — Não, isso, quando muito, foram Dulcino e os seus. Francisco queria chamar os excluídos, prestes à revolta, a fazer parte do povo de Deus. Para recompor o rebanho era necessário reencontrar os excluídos. Francisco não conseguiu, e eu te digo isso com muita amargura. Para reintegrar os excluídos, precisava agir dentro da Igreja; para agir dentro da Igreja, precisava obter o reconhecimento de sua regra, da qual teria saído uma ordem; e uma ordem, como de fato saiu, recomporia a imagem de um círculo em cujas margens estão os excluídos. Compreendes então por que há, mais uma vez, os bandos de fraticelos e de joaquimitas que juntam os excluídos ao seu redor? — Mas não estávamos falando de Francisco, e sim de como a heresia é produto dos simples e