O dilema do porco-espinho - Guido Percu's Notes
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O dilema do porco-espinho

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

O dilema do porco-espinho

Kindle Highlights

genuflexão…

tradição veterotestamentária,

Solidão também não é negativa ou positiva em si.

A solidão humana abunda em toda criação literária.

fotos e anúncios. Não existe o deserto na rede. O clique

Vamos viver os dois lados mais deliciosos da solidão: a leitura e o pensamento.

“o vapor tilintante do perfumado vento sul, que transfigura todas as árvores em harpas de vento”.

“o homem nasce só, vive só e morre só. O amor e a amizade dão-nos a ilusão, momentaneamente, de não estarmos sós”.

Assim começamos o jogo da solidão: é necessária alguma diferença e muita semelhança para constituir o remédio a ela.

Em resumo, lê sobre solidão quem é solitário ou a própria solidão é a condição da existência da cultura formal de estudo?

A definição mais clássica de um chato é a que diz que se trata de um sujeito que lhe retira da solidão sem oferecer companhia.

Descartes advertiu que bom senso seria a virtude mais bem distribuída do mundo, pois todos acham sua dose pessoal justa e equilibrada.

Tal afirmação de Montaigne mostra que a amizade encontra o mistério da afinidade afetiva porque, diante do amigo, torno-me, de fato, quem sou. Não

a nossa Clarice Lispector. Versátil em seus conhecimentos, estudou línguas (francês, hebraico, inglês, iídiche), antropologia e formou-se em direito.

Esse é um dos sentidos da solidão do eremita religioso cristão: libertar-se. Em meio às provações que o deserto impõe, os fortes e resolutos na fé crescem.

A algaravia do mundo atrapalha a recepção do sagrado, como vemos na parábola do semeador (Mt 13). As preocupações do mundo são espinhos, e a Palavra não frutifica.

“When we are writing the life of a woman, we may, it is agreed, waive our demand for action, and substitute love instead. Love, the poet said, is woman’s whole existence”

são náufragos do mundo para encontrarem a si. Ainda que os 28 anos de Robinson não tenham sido inteiramente solitários, é no isolamento que ele encontra a própria identidade,

agricultores irmanados no destino humano do fim. “Nulla in mundo pax sincera”, coloca o Padre Vivaldi em famoso canto sacro. A paz no mundo é sempre passageira, superficial e enganosa.

Essa leitura da solidão como elemento necessário ao crescimento e à nutrição do espírito, como abnegação do corpo, tem muita base no Antigo Testamento, mas encontra em Jesus a sua essência.

“nem só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor” (Dt 8,3). Entender as coisas do Espírito é nutrir a alma, prepará-la para a Salvação, diz a interpretação cristã dessas passagens.

Na Última Ceia, Jesus diz algo comovente: “Desejei ardentemente comer esta ceia pascal antes de padecer” (Lc 22,15). É uma frase muito humana de compartilhar mesa e afeto com quem se ama antes do fim. Aqueles

O clique rápido, a barra de rolagem infinita, a mudança de tela, o aviso de mais coisas entrando e de novas piadas e fotos são as sereias irresistíveis que jogam meu barco isolado nas rochas do movimento perpétuo.

Amor, ódio, paixão, ambição, poder, solidão são temas recorrentes na literatura mundial e facilitam esteticamente a identificação do leitor com o “eu” dos personagens. A literatura pode ser uma chave para o autoconhecimento.

Talvez esteja aqui a chave de a leitura ser tão boa para o fato de estar sozinho: ela cria personagens internos e cria um outro em nós mesmos, como queria Kristeva, de tal forma que somos cercados de pequena multidão interna.

Para os adolescentes, o isolamento do quarto, quando ele é possível (a maioria da população jovem não possui quarto individual), é um escaninho protegido dedicado ao culto do eu, ao afastamento de outros e ao prazer individual.

As redes sociais podem reunir multidões e ter potencial agregador e mobilizador, mas sua função revelou-se muito mais simplória: serve, antes de mais nada, para reafirmar o self, criar a ilusão da companhia, o vício da curtida.

Alonso Quijano era solitário em seus devaneios literários; seu alter ego, Dom Quixote, é mais solitário ainda: só ele crê ser um cavaleiro autêntico, e paradoxalmente, em seu idealismo puro, ele é mais cavaleiro do que qualquer outro que o precedeu.

É tão difícil para o homem permanecer solitário, em silêncio, que ao fazer orações, por exemplo, sente urgência em proferi-las de forma audível. Só a mente mais preparada e treinada consegue meditar ou orar introspectivamente, sem se deixar embotar pelo sono.

Os casamentos arranjados foram sendo substituídos pela necessidade de amor genuíno. Surge a ideia, estranha por séculos, de que a junção de um homem com uma mulher não era um contrato formal para gerar filhos legítimos e herança, mas uma busca de felicidade familiar.

E, mesmo que a loucura de Ahab ou a consciência angustiada de G.H. não toque sua alma, resta sempre o prazer de ter deixado a solidão por algumas horas ao ler textos escritos de forma engenhosa e com ideias que tenham capacidade de dançar uma valsa com as suas concepções.

A solidão como defeito é tema quase unânime. Não existe o termo “casadona”, mas abunda o pejorativo “solteirona”. O homem e a mulher solteiros na maturidade, mesmo com tudo aquilo que caminhamos na superação de estereótipos e papéis fixos, continuam sendo vistos com reservas.

William Faulkner, nascido no “Deep South”, sul dos Estados Unidos, isto é, Mississippi, ganhador de vários prêmios literários, inclusive o Nobel de Literatura em 1949, escreveu sobre a solidão extrema da mulher em um conto intitulado “A Rose for Emily” [Uma rosa para Emily, 1930,

Conviver com a diferença e administrar o atrito inevitável é um ato de maturidade. Ser contrariado, questionado, posto em suspeição, rejeitado, desde que não sejam as únicas experiências que conheça, criam resiliência, moldam personalidade, caráter. O filtro bolha impede tudo isso.

A estreita relação entre os filósofos Montaigne e Étienne de La Boétie resulta numa das mais belas frases já escritas sobre esse tipo de afeto. Nos seus ensaios, o nobre tenta explicar por que amava La Boétie. Só consegue dizer que a causa central era “porque era ele, porque era eu”.

Sozinho em um deserto densamente povoado, Antão é livre. Livre das tentações à sua volta. Venceu-as. A liberdade pode parecer apavorante, pois abre as celas de sonhos e fantasmas, os mais insanos e ocultos do ser humano. Para alguém do século XV ou XVI, porém, esses poderes atraíam muito.

Como supomos que ele tinha capacidade de saber o que estava à frente, deveria existir um pouco de melancolia em relembrar que alguns dos que o saudaram no Domingo de Ramos estariam entre os que gritariam “Barrabás” mais tarde, na mesma semana. As mesmas bocas do “hosana” berrariam “crucifica-o”.

redes sociais. Estas últimas, na verdade, têm seu inteiro funcionamento baseado na estratégia demoníaca que combina desejo/predisposição, oferta e reforço positivo. Você quer, tome um e mais um; volte, pois sempre haverá mais do que você gosta, dizem os algoritmos que programam nossas leituras e visualizações.

a solidão pode ser um exercício contemplativo muito bom e um ponto de crescimento. O convívio também pode ser rico pela diferença e pelo atrito em si. As redes sociais não oferecem o isolamento necessário para o crescimento nem a intimidade densa e até conflituosa da relação humana. Não ganho a paz nem enfrento a diferença.

Outro aspecto crucial era a dificuldade de conquistar um espaço só seu para dedicar-se ao estudo, à reflexão, enfim, à solitude criadora. Virginia Woolf confirmaria essa realidade ao afirmar: “A woman must have money and a room of her own if she is to write fiction” [Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se quiser escrever ficção].

A amizade, como no mundo antigo, pode demolir sociedades, só se efetiva diante de alguém igual a mim. A baliza da minha superioridade moral, contudo, passou a ser decidida também por mim e ratificada pelas minhas comunidades virtuais. O tempo saiu da equação da amizade. Conhecer alguém a fundo tornou-se supérfluo, talvez impossível e indesejável. As

Amigos demandam história, repertório de casos, vivências em conjunto. Amigos precisam viajar juntos. Assim, os afetos integram a vida das respectivas famílias. Amigos acompanham nossos sucessos e fracassos amorosos, choram e riem com nossa biografia. Amigos precisam de cultivo constante. Todo amigo é, dialeticamente, um frágil bonsai e frondoso carvalho.

A literatura é o retrato de uma dada cultura; na verdade, as lentes se ampliam e registram também matizes do espectro universal, isto é, as personagens em um conto, um romance, uma tragédia podem e devem extrapolar fronteiras e representar instantâneos não apenas das caraterísticas de determinado povo, mas, sim, das várias faces que compõem a raça humana.

Em certas ocasiões no Masp, me vi diante de uma pintura de Bosch sobre as tentações de Santo Antão. A cena em óleo sobre madeira é de uma beleza terrível. Foi feita pelo mestre muito provavelmente como um estudo ou versão anterior da cena central de um tríptico sobre o eremita que está em Lisboa. Mais de quinhentos anos atrás, Bosch imaginou a solidão de Antão em seu momento mais impactante.

Dominique Wolton, sociólogo da comunicação e diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Paris, é taxativo ao afirmar que a internet, em especial os programas de trocas de mensagens e as redes sociais, só funcionam para formar comunidades em que todos partilham interesses comuns, jamais sociedades, nas quais o imperativo democrático da convivência com as diferenças seja a regra do jogo.

Sim, a solidão pode ser iluminadora. No deserto, Jesus, Abraão e Maomé encontraram sua vocação e seu chamado. Não estavam sozinhos. Jesus encontrou o demônio e anjos. O fundador do Islamismo recebeu a revelação por meio de Gabriel. Como veremos no livro, Deus se revela a solitários ou fala de forma inaudível para os outros, fala individualmente, como no episódio da queda de Saulo a caminho de Damasco.

Arsênio, ponderou que a multidão impede alguém de ver seus próprios pecados, enquanto aqueles que vivem na solidão podem vê-los com mais facilidade. Ver os próprios defeitos com exatidão, tomar ciência de cada problema que temos, seria o primeiro passo para erradicá-los. Os seres humanos não são perfeitos, mas são perfectíveis. A busca pela melhora de si começa com a solidão do deserto no raciocínio religioso.

De alguma forma, a literatura é a história da solidão. Dante sozinho na floresta, perdido e com medo, inicia a Divina comédia. A viagem de Ulysses vai ficando cada vez mais solitária com a morte dos companheiros, e, isolado, retorna a Ítaca para, enfim, ao final da Odisseia, terminar com sua solidão. O novo Ulysses de James Joyce troca os mares povoados de monstros por uma jornada dublinense ao seu universo de solilóquios.

Precisamos fazer uma distinção possível, ainda que não aceita por todos, entre solidão e solitude. A primeira pode ser considerada negativa, independendo, inclusive, de estar isolado, apartado da sociedade, pois podemos nos sentir solitários na multidão. A solitude, por outro lado, tem caráter positivo, enseja ao ser a possibilidade de escuta de seu “eu” e é condição imprescindível para qualquer forma de expressão estética.

Já pensou que a literatura pode provocar alargamento de horizontes, experiências vibrantes e deleites intelectuais? Diante de um livro aberto, colocamo-nos como viajantes prestes a embarcar em um porto de possibilidades, sem nunca sermos assaltados pela solidão durante a viagem, mesmo que o livro narre a solidão do personagem. Afinal, a sensação de participação na história estabelece intimidade, e intimidade só é sentida em companhia.

Muito rapidamente, correndo o risco de simplificar demais, podemos dizer que os gregos acreditavam na amizade como um amor entre iguais, entre homens bons, valorosos. Cícero, por sua vez, escreveu que a essência da amizade estava na concordância perfeita de desejos, gostos e opiniões. “A amizade nada mais é, com efeito, que um entendimento perfeito em todas as coisas, divinas e humanas, acompanhado de generosidade e afeição mútuas”, acreditava.

no latim medieval, desertum não era apenas o designativo de uma área inóspita; também era sinônimo de solidão, de retiro espiritual, da procura por Deus e de combate às forças do maléfico. Segundo o medievalista Jacques Le Goff, o deserto da Idade Média poderia ocorrer em quaisquer condições geográficas, pois era metáfora. Um mar, uma ilha, uma floresta, um pico de montanha: qualquer lugar de isolamento podia ser descrito com a palavra desertum.

Para que a solidão seja positiva, há uma condição essencial. Isolado das pessoas e em contato comigo, refletindo ou lendo, eu me sinto acompanhado sem estar com ninguém. Assim, mesmo estando sem ninguém, a solidão não pesa nem se transforma em angústia. Ela me leva a um conhecimento maior de mim; ou a uma chance de pensar; ou ao prazer de ler; ou ao deleite de uma paisagem em silêncio. Estou sem mais ninguém e me sinto bem, preenchido, pleno, até.

No final da sua carreira, Shakespeare escreveu a peça A tempestade. Na ilha comandada pelo poder do duque Próspero, seres mágicos como Ariel produzem ilusões como fazer crer que existe uma mesa de banquete onde nada há. A filha do duque, a doce e ingênua Miranda, ao ouvir falar de lugares além do seu isolamento insular, pensa no “admirável mundo novo” que ela ainda desconhece. No século XX, Aldous Huxley pega a frase de Miranda para batizar sua distopia.

Quem comanda é o primeiro servidor dos comandados. A lição é permanente e ainda não aprendida. Pedro, sempre cheio de arroubos teatrais, pede para ser lavado por completo. Jesus deve ser paciente. O Pescador de Homens está em formação. Pedro é um herói ainda imperfeito, que afunda na água quando tem medo, que nega o Mestre, que cochila enquanto Jesus agoniza e que, ao final, vira a pedra sobre a qual toda a obra seria edificada. Pedro, a “pedra”, é humano. <Você alcançou o limite de recortes para este item>

Jaz aí o fascínio maior da cena: o santo não vira, simplesmente, o rosto para a tentação ou fecha os olhos, rezando para que desapareça. Como no texto da Legenda áurea, ele enfrenta os demônios. Na sensibilidade medieval, o combate era físico. No início da Idade Moderna, Bosch não retrata uma luta corpórea, mas um estar no mundo, uma fascinação por ver o pecado e não participar dele. Em Pecar e perdoar, falei da leitura de Flaubert sobre essa sensação e de como o orgulho se esgueira sorrateiro na alma do santo.

A lógica bíblica, nesse ponto, é simples e lembra a da clara em neve: para crescer e ficar firme e consistente, pronta para o uso, é preciso bater as claras do ovo até que se transformem. Não existe fé sem teste dessa mesma fé. Crer quando se tem tudo é fácil. Logo, é desprovido de tudo que se deve crer. Lembram do episódio de Jó? Enquanto tinha tudo e adorava a Deus, o Diabo dizia que era justamente por ter tudo que era fiel. Deus foi lhe tirando saúde, riqueza, família e, ainda assim, Jó creu. Acreditou mesmo diante de um deserto em sua vida.

Basta ler um profeta do Velho Testamento, e teremos exemplo deste ciclo: Deus provê muito aos seus filhos mais fiéis; estes param de adorar a fonte e passam a idolatrar o veio da água em si; ao amarem o supérfluo, o mundano, afastam-se de Deus, que, por fim, pune as pessoas retirando-lhes alimentos, colheitas, filhos, atirando-lhes em cativeiros, permitindo invasões e o que mais for necessário para que vejam sua apostasia e se arrependam dela. Temendo o Senhor, voltam ao seu seio, e as bênçãos divinas voltam a cobri-los. Esse é o ciclo que anunciam as profecias.

A tentação do próprio Jesus é um dos episódios mais interessante sobre o papel demoníaco no Novo Testamento. Está sempre à espreita, possui pessoas, animais, ameaça tomar o mundo. Sua ousadia não encontra paralelo, porém, como diante dessa passagem de Jesus no deserto. O que esperava o demônio ao tentar o Filho do Homem? Encurtar uma história que ele sabe que perderá? Como enredo contemporâneo, a Bíblia tem spoilers. Nem sempre há tensão narrativa, pois sabemos que o bem triunfa sobre o mal depois de milhares de anos que começam com uma peleja no céu e terminam com a ascensão da Segunda Jerusalém.

Michel Foucault, em seu estudo sobre a loucura, escreveu que o Antão de Bosch tem a sabedoria dos ensandecidos, algo de que os homens racionais carecem. Ao despir-se das convenções mundanas e retirar-se ao ermo para viver solitariamente, o santo vê aquilo que não é permitido a outros. Essas revelações mostrariam os andaimes do mundo, o interior das coisas como elas realmente são. Nós, “os sãos”, veríamos apenas a superfície delas. Essa era a crença do início da Modernidade. Aos loucos, em sua parvoíce, tudo era permitido, havendo outra forma de lidar com a verdade que não a racional, mais limitada.

Também há nas redes sociais aquele que não exclui, mas é excluído, o que posta, mas ninguém dá like, o que não está na foto. O sentimento de exclusão porque não estava no evento ou festa que todo mundo postou ou porque se deixa ludibriar pela exposição massiva da vida de colegas nas redes sociais, sempre uma idealização, pode alimentar inveja, ferir o Narciso e machucar a vaidade: acabo remoendo, em minha triste e segura solidão, a crença distorcida de que a grama do vizinho é sempre mais verde, de que meu colega de trabalho é mais bem-sucedido ou de que meu amigo de infância, que não vejo há décadas, é mais feliz do que eu.

Levou-o a um monte altíssimo e, de lá, disse, contemplando todos os reinos do mundo: “Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares”. O demônio queria o que sempre quis, sujeito previsível que é na sua ausência de livre-arbítrio: ser califa no lugar do califa, mal parafraseando o quadrinho Iznogoud, de René Goscinny e Jean Tabary. Desbancar Deus e ser o supremo mandatário de tudo e todos. Se Jesus ficasse de joelhos, para que o Anticristo, as batalhas apocalípticas, os cavaleiros e as trombetas? Ele ganharia a guerra contra Deus sem derramar sangue, com um blefe, com uma tentação. Jesus, como previsto, respondeu citando as Escrituras uma vez mais: “Vai-te, Satanás; porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás”.

Já a filósofa neoplatonista grega, matemática, física e astrônoma Hypatia de Alexandria enfrentou inimigos religiosos ferozes de seu tempo. A solidão possibilitou-lhe diálogo constante com sua solitude povoada de cálculos, fórmulas, teoremas e equações matemáticas. Jamais se casou, pois era casada com a ciência. Seu pai, Téon, educara Hypatia para o saber, para a pesquisa constante, e não para seguir uma vida de dona de casa comum. Por suas ideias avançadas para a época, entrou em conflito com a religião cristã, que despontava em Alexandria. Foi acusada de heresia e também de influenciar negativamente Orestes, o governante local. Para fanáticos cristãos, Hypatia era quase uma feiticeira com poderes diabólicos, daí ser perseguida e morta de forma brutal: seu corpo foi retalhado com conchas afiadas e queimado. Morria assim uma mulher singular, vítima de preconceito religioso e de gênero; calara-se a voz que ousara debater publicamente conceitos profundos de ciências astronômicas e matemáticas.

O romance Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, exemplifica o isolamento forçado imposto ao personagem em decorrência de um naufrágio. O jovem Crusoé, à revelia de seu pai, parte em busca de autonomia e vê-se preso durante anos em uma ilha, onde inicia um processo de amadurecimento imposto pelas vicissitudes que terá de enfrentar para sobreviver. Forçado pelo isolamento, Crusoé aprende a defender-se dos perigos, das intempéries e da falta de alimentos. Usando a razão e a lógica, passa a fazer um registro minucioso de tudo o que observa na ilha para tirar proveito em seu favor. Ele não é um sonhador nem se deixa impressionar pela natureza ao seu redor, mas assume um viés prático e objetivo para poder permanecer vivo. A “Ilha do Desespero” também é testemunha de seus questionamentos religiosos, ao desobedecer à vontade paterna. Em seu desejo por liberdade e aventuras, o jovem, de certa maneira, desobedece a Deus e considerará como castigo o naufrágio e tudo o que decorre dele. Ele sente que precisa expiar sua culpa mediante sofrimentos. Finalmente, após dolorosos embates, consegue apaziguar sua consciência e tornar-se, em seu entender, verdadeiro cristão.

Desponta outro amante da Natureza, Henry David Thoreau, autor de Walden, ou a vida nos bosques. Thoreau foi, à distância de quase dois séculos, um ambientalista: “[…] na floresta intocada está a preservação do mundo. Cada árvore lança suas fibras em busca do silvestre”. Thoreau foi um entusiasta radical da Natureza. Isolou-se durante dois anos em uma floresta, por necessidade absoluta de liberdade, independência social e descoberta espiritual. O isolamento deveria oferecer-lhe conhecimento da natureza ao seu redor (as árvores, o lago com os peixes etc.), bem como de sua própria natureza. Dotado de temperamento introspectivo, solitário por excelência, conviveu bem com sua solidão. Apreciador de leituras orientais, o Bhagavad Gita em especial, Thoreau estabeleceu sintonia fina com a Natureza. É possível imaginar que sua solidão na floresta fosse eloquente: ouvindo o silêncio sagrado dos bosques de pinheiros, aspirando-lhes o perfume, fotografando com os olhos as folhas da relva. Dois anos possibilitaram-lhe testemunhar a beleza da mudança de estações em Concord, Massachusetts. O lago Walden incendiado pelas cores vermelhas e douradas do outono, o verde-esmeralda das árvores no verão, a queda suave dos flocos de neve no inverno, acalentando a natureza em repouso, e o renascimento vibrante de cores e sons de pássaros gorjeando na primavera. Solidão privilegiada na beleza da Nova Inglaterra. Solidão contemplativa e cheia de significados que traz um pouco de dor. O sofrimento estava mais no mundo. Thoreau prefere um frio aquecido pela natureza isolada aos espinhos da companhia humana.

O pacote do envelhecimento pode incluir solidão. Seus amigos estão morrendo e você tem dificuldades em criar novas relações. Santiago, pescador pobre de Cuba, é a solidão-símbolo da idade avançada. Ainda que tenha o cuidado e o afeto do menino Manolin, a quem ensinara a pescar, vive isolado em sua choupana na praia. Viúvo, escondera até a fotografia da finada mulher numa gaveta para não se lembrar de sua pranteada ausência. Ele é o anti-herói de O velho e mar, de Ernest Hemingway. É impossível não estabelecer empatia com o sofrimento calado desse homem, considerado salao [azarado] pelos demais habitantes do vilarejo. Há quase três meses sem conseguir pescar um único peixe, fecha-se cada vez mais em seu silêncio. A única companhia que lhe resta é a solidão orgulhosa: não reclama, não pede coisa alguma a ninguém. Anteriormente, contara com o auxílio de Manolin no barco. Receosos de que la mala suerte também contagiasse o jovem pescador, ele lhe foi tirado pelos pais. Santiago segue agora mais isolado do que nunca, porém, no íntimo, ainda não desistiu de obter sucesso na pescaria. Como é velho, sem a energia de outrora, caiu em descrédito, perdeu o respeito dos demais pescadores. Seu corpo é alquebrado, rugas profundas sulcam-lhe o rosto castigado e manchado pelo sol, mas os olhos da cor do mar ainda conservam o brilho de vida, de esperança de melhores dias. É curioso ressaltar que Santiago é um personagem leve, apesar do fracasso evidente; enquanto está vivo, busca sobreviver com dignidade. Tem a sabedoria dos anos, não procura mais grandes feitos. Não “sonha mais com tempestades, mulheres, grandes peixes, nem mesmo com a esposa”. Está em paz. Agora, ele “sonha com leões numa praia, brincando como gatinhos”. A natureza representada pelos pássaros, pelo mar, pelos peixes é uma natureza amistosa para Santiago. Ele tem genuíno respeito por ela. A luta que o velho pescador trava com o grande peixe é disputa em que, segundo ele, deve vencer o melhor. Em nenhum momento, Santiago sente raiva de seu oponente, chega a considerá-lo quase como um “irmão”. Sabe que sairá vitorioso no final, lamenta ter de matar, dar o golpe derradeiro na cabeça do marlim. Admira o peixe até o último instante de luta. Após prendê-lo ao barco, para levá-lo de volta à praia, empenha-se ao máximo para afastar os tubarões que seguem a trilha de sangue deixada pelo animal ferido. Considera uma indignidade o enorme peixe ser devorado pelos predadores incansáveis. Convém salientar que o fato de o velho estar sozinho no barco e lutar por dias com o enorme peixe confere grandeza à façanha de Santiago. Ao voltar para casa, a única coisa que sobrou do peixe foi a grande carcaça, mas o pescador acredita que ele foi “destruído”, mas não “derrotado”. Santiago também, pois os anos lhe roubaram o vigor, destruíram seu corpo, seu rosto, mas os olhos cor de esperança continuaram vivos, sem indício algum de derrota; a solidão imposta pelo tempo, pelas circunstâncias, tornou-o vitorioso, no final. Ele consegue recuperar a admiração dos outros pescadores, e o menino Manolin lhe é devolvido para sair em novas pescarias.