O Coração das coisas - Guido Percu's Notes
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O Coração das coisas

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

O Coração das coisas

Kindle Highlights

Os novos leitores

Pensar é árduo e etiquetar é fácil.

Estudar é sempre ampliar a noção do desconhecido.

A longa viagem da biblioteca dos reis, de Lilia Moritz Schwarcz

Ser sábio é moldar-se constantemente e superar o lado impulsivo e agressivo.

Melpômene escreve editoriais; Tália cria memes. Tália é leve, Melpômene pesada.

No sentido positivo e negativo da expressão, sou um polímata, uma pessoa interessada em muitas coisas.

Fique à vontade consigo mesmo ou com estranhos. Ter cuidados com pessoas íntimas é uma forma elevada de gentileza.

os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança, um prazer.

Vaidade é estratégia contra soberba, afinal, como garante o Eclesiastes, nada existe fora dela: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.

saber algo de cor (“par coeur” em francês, “by heart” em inglês, com ligeira alteração de preposição) era saber de coração, forma automática de memória.

Eu penso que o mundo já é muito, excessivo, além da minha capacidade de absorver. Nunca lerei tudo, nunca conhecerei todas as pessoas, nunca irei a todos os lugares.

A aliança do dedo anelar faz parte de uma crença antiga de que ali existiria um longo vaso sanguíneo que levaria direto ao coração, trazendo o casamento sempre à memória.

Portugal e Argentina compartilham esse sentimento de apogeu já vivido. O Brasil na bancarrota ou em certa prosperidade sempre foi, como disse Stefan Zweig, “o país do futuro”.

acima dos padrões das necessidades básicas, o consumo não tem poder redentor ou de esteio de felicidade. É um ópio, uma cortina de fumaça, uma forma de não encarar as questões centrais.

Zygmunt Bauman chega a sugerir que as lojas sejam denominadas farmácias, porque oferecem remédios para variados males. Está triste? Compre! Está eufórico? Compre! Está com tédio? Compre!

Teria sido bom a todo militante de 1968 perceber que seu sonho comportava anseio de poder e de controle sobre os outros. Por detrás do amplo manto da liberdade, escondiam-se alguns tiranetes.

Envelhecer é complexo, a opção é mais desafiadora. O célebre historiador israelense Yuval Harari prevê que a geração alpha (nascidos no século em curso) chegará, no mínimo, a 120 anos se obtiver cuidados básicos.

O primeiro passo de todo genocídio é a piada infame. Para que uma mulher seja espancada, em algum momento a música, a propaganda, o humor e o debate de bar precisam construir um esvaziamento da dignidade feminina.

Conversar é uma arte; calar é sabedoria pura. Em tempos que ninguém cala e jamais escuta o outro, conversar bem, calar e ouvir viram tripé inovador. Infelizmente, quem mais necessita não lerá a reflexão que você acompanhou.

Em 1931, ao ser inaugurada a estátua do Cristo Redentor na capital da República, poucos brasileiros notaram que há uma dupla mensagem: os braços abertos para receber e redimir todos e um coração no centro do peito para amar a claudicante humanidade.

todas as expressões que eu conheço, a mais difícil é o “sentido da vida”. Dirigem-me muito essa pergunta em palestras e redes sociais. Tenho sempre dificuldade em dizer de forma direta que eu acho a vida extraordinária porque destituída de qualquer sentido. Todos estranham.

Quando alguém lhe contar sobre algo, salário ou uma aquisição, espere para ver se a notícia vem acompanhada de alegria ou tristeza. Seus valores, talvez, estejam além ou aquém dos do narrador. Você pode tentar consolar alguém que está narrando uma vitória ou elogiar um revés.

Toda família e todo grupo de trabalho apresentam uma ou mais Melpômenes. Impossível não encontrar ao menos uma Tália divertida na noite. Talvez o maior sentido seja a fusão de ambas, pois a vida parece correr tragicômica, fundindo desastre e realização em cada esquina, dor e riso a cada passo.

Em época na qual nada havia de condenação ao cigarro, o grande Augusto dos Anjos podia poetar: “Toma um fósforo. Acende teu cigarro!/O beijo, amigo, é a véspera do escarro,/A mão que afaga é a mesma que apedreja”. O objetivo do poeta paraibano era outro, mas imagino que Gilda devia tossir sozinha à noite, sem glamour.

Sim, da Roma de Tácito à França de La Rochefoucauld, vingar-se é um prazer. Se o deleite puder ser envolvido na sua máscara mais frequente, a justiça, chegamos ao nirvana absoluto das delícias humanas. Buscar justiça é mais edificante do que buscar vingança. Nosso demônio interno adora usar a espada do anjo da justiça.

Um pai sempre vai mancar se for apenas poesia, abstração ou vida prática. Sem poesia, meu filho não cultivará a alma; sem abstração, não regará o cérebro; e, sem cuidados práticos, perderá o corpo. Um bom pai é jesuíta, franciscano e dominicano, troca fusíveis, pensa e se diverte esteticamente. Um bom pai está inteiro na paternidade.

existência: você se comunica com alguém que não conhece pessoalmente. Escrita é ponte e lente. Une pessoas e traduz visões. A ideia sai de mim, cresce, voa, encontra outra consciência e é refeita e ressignificada. A compreensão varia entre o autor e o leitor, mas ela não pertence, a rigor, a nenhum dos dois. Esse é o ponto mais interessante da produção cultural. Peço

Até hoje colhemos um eco do princípio: o governante letrado é mais bem aceito. Falar ou escrever mal é uma injúria jogada à socapa na face de um poderoso. Getúlio Vargas decidiu que deveria fazer parte da Academia Brasileira de Letras. Um membro da Junta Militar de 1969, o paraibano Aurélio de Lira Tavares, teve a mesma ideia. Nada endossa mais a pretensão de poder do que, como dizia Angel Rama, o apoio da “Cidade das Letras”.

No “sermão da Montanha”, síntese do cristianismo, Jesus indica que, onde estiver o tesouro de alguém, ali estará seu coração (Mt 6,21). Trata-se de grande meta de conhecimento de si: aquilo que move meus afetos, o que emociona cada fibra do meu ser, o que desperta risos ou lágrimas sinceras é o valor central da minha existência, o resto é adereço. Nesse sentido, siga seu coração como metáfora e cuide dele como biologia. Creio residir no duplo cuidado o segredo de uma vida longa e tranquila.

Na idade em que me encontro, as roupas de frio ficam melhores do que as sungas. Casacos e mangas cobertas aumentam muito minha autoestima de senhor maduro. Em minha defesa: impúbere eu já amava a estação, o declínio apenas adiu mais argumentos a minha preferência. Quantas pessoas há que amam luvas como recurso contra manchas senis? Milhares de senhoras provectas que aderem à echarpe como um recurso a ocultar as camadas de pele sob o pescoço em teimoso balanço impudico? O verão tem um amor à verdade arrogante dos corpos.

Por anos, ele fez piadas infames sobre as mulheres. As pessoas riam e nunca houve problemas. Agora, seu ódio e seu medo viraram argumento para ser barrado na promoção no trabalho, já que seu perfil era de um hater e as empresas não podem ofender consumidores. Impossibilitado de se expressar à luz do dia, ele veste o manto da invisibilidade das redes e, confortável, pode voltar a ser o velho panaca de sempre, sem refletir ou questionar. Este é o lugar agradável do ódio, a fluidez direta do preconceito e o escudo protetor que um discurso excludente traz. O

um bom pai reúne os três tipos. Para ser pai é indispensável a poesia, a capacidade de ver além do que meus olhos registram. Um bebê é um poema embrionário. Perceber nele todos os épicos subsequentes implica imaginação poética. Ali está seu filho, chorando e sorrindo, versos livres, achando suas rimas e sentidos. Ali está você, autor e testemunha da obra agitada e adorável. Nada mais poético do que notar ritmos de narrativa, adjetivação, linguagem conotativa e denotativa e possibilidades infinitas à frente. Todo bom pai deveria ser um poeta imaginativo. Um

Por motivos que consumiriam dezenas de páginas, ela acabou casando com o príncipe Albert de Saxe-Coburgo Gotha. No dia da cerimônia, 10 de fevereiro de 1840, Vitória usava um pouco usual vestido branco. Diziam que era para ser localizada com facilidade pela segurança. O traje de cetim com renda Honiton não foi o primeiro a chegar ao altar, mas inaugurou a novidade que se tornaria canônica: o branco da nubente. O conjunto era matizado pela safira que ela recebera do noivo Albert. O casal repetiu a experiência pouco comum de Jorge III e esposa Carlota: foram apaixonados e fiéis a vida inteira.

Segredo de polichinelo: você não pode exibir sua vaidade e não pode prescindir dela. Você precisa controlá-la. Querem uma aula de estratégia sobre a vaidade? Jesus a dá em Lucas 14. Quando chegar a uma festa, não se sente à cabeceira da mesa porque o dono pode pedir para você ir para um lugar menos destacado. Escolha o lugar menos honroso para que o dono vendo você lá no fundo diga que avance. O que é isso senão usar da retórica humilde para conseguir um efeito cenográfico de engrandecimento? Bem-aventurados os humildes que conseguem ocultar a sua imensa vaidade sob o manto do orgulho estratégico.

Muitos moralistas diriam que devemos ser humildes, tocar o húmus do solo que vivifica. Você não deveria querer impressionar sempre porque isso desvia o foco da virtude e do crescimento da sabedoria. Isso é virtuoso e verdadeiro. Porém, eu dou conselho mais profano: evite exibir todas as qualidades ou mostrar-se muito bom em muitas áreas. Por quê? Porque ninguém é muito bom em muitas coisas e a exibição produz um ídolo de pés de barro e pode fazer ruir a imagem que a empáfia pretende. Em outras palavras, ser vaidoso a ponto de controlar sua vaidade para que ela não seja arranhada pelas suas lacunas ou pelo ódio do grupo.

Se alguém do seu mundo afetivo tem um vício, a fórmula mais equilibrada é a de socorrer o afogado. Se você ficar muito longe, a vítima afunda sozinha. Se você abraçar com força e união absoluta, há um risco elevado de submergir junto. Você precisa estar suficientemente perto para tocar e suficientemente longe para manter seu equilíbrio. Uma das coisas mais dolorosas da vida é perceber que há pessoas além da nossa capacidade de ajudar. Afastar-se de alguém que amamos é um soco no estômago. Já passei por isso, como quase todo mundo com certa experiência. Ajude muito e entenda que há momentos em que o desejo de alguns corpos é ir para o fundo. E não há nada que possamos fazer.

No livro do profeta Samuel, surge uma figura vaidosíssima: Absalão, filho do rei Davi. O jovem, apesar de o nome significar “meu pai é paz”, vivia às turras com o progenitor. Absalão era o mais lindo de todos os homens e não havia defeito nele da cabeça aos pés. O ponto central do narciso do príncipe? Seu cabelo. Quando ele o cortava para evitar o excesso de peso, o total atingia duzentos siclos, algo próximo a três quilos. Isso é muito? Não sei, minha área não envolve densos conhecimentos capilares. Pelo cabelo orgulhou-se e pelo cabelo morreu o irmão de Salomão. Fugindo em meio a sua rebelião contra o rei seu pai, sua afamada cabeleira embaraçou-se em um galho de carvalho e ali foi alvejado. O peixe morre pela boca e Absalão pereceu pelo cabelo

Lanço um desafio agora. E se em vez de você procurar na Filosofia ou no Céu o sentido último de tudo, você, hoje, apenas tomar um bom café? E se a água do chuveiro fluir sem perguntas sobre seu corpo e você usar aquela roupa de baixo e de cima que estava guardando para uma ocasião especial? E se olhar para as pessoas próximas com intensidade, interesse e zelo? Havendo alguém querido por perto, e se você o abraçar por mais tempo? Se, seguindo certa névoa budista, você não perguntar pelo ponto final ou inicial de tudo, todavia entregar-se ao ponto do agora, o único sobre o qual você tem certo controle? E se a falta de qualquer origem e de qualquer destino supremo for, em si, um bom sentido libertador que faz o aqui e agora fascinantes? Eis uma experiência para hoje.

D. Pedro encarregou Debret de elaborar uma bandeira que falasse dele e da sua família. Assim foi feito: o verde dos Braganças, o dourado feminino do losango Habsburgo (Leopoldina) e a coroa imperial ao centro. D. Pedro precedia o jovem país. A bandeira dos EUA, possivelmente bordada por Betsy Ross, indicava 13 listras e 13 estrelas, falando da igualdade federativa. O 7 de Setembro fora uma iniciativa estatal; o 4 de Julho ocorreu mais amplo e popular. Os norte-americanos comuns comemoram a data com um churrasco e fogos de artifício. É um feriado de toda a sociedade. Nosso 7 de Setembro é um desfile cívico-militar, com palanque de autoridades e tom oficial. Talvez o 2 de Julho da Bahia se aproximasse mais do 4 de Julho setentrional, mas certamente não o 7 de Setembro. Você nunca foi convidado assim: “Passe lá em casa para fazer um churrasquinho em comemoração da Independência do Brasil”.

O primeiro pecado foi a desobediência. O segundo? A mentira. Dupla infração: os primeiros pais não acreditaram na verdade enunciada pelo Criador e ainda culparam a serpente pelo ato deliberado. Ao suporem que Deus estaria mentindo sobre o fruto proibido, Adão e Eva mostram que, antes da queda e antes de tudo começar, já se desconfiava da palavra do outro. A hipótese da mentira preexiste ao erro em si. Quando acho que todos podem mentir, não apenas demonstro que sou realista ou negativo ao extremo, igualmente evidencio a premissa do espelho: os outros são mentirosos porque refletem o meu comportamento moral. O primeiro casal ainda não tinha errado em nada, eram puros, completamente imaculados e já supunham que alguém poderia mentir. Difícil saber se a mágoa d’Ele nasceu da desobediência ou da calúnia. Como eu posso imaginar o mal e a mentira se ainda nunca vivenciei nenhum problema ético ou moral? Eis o inusitado da possibilidade da mentira: ela é anterior à própria queda. Somos mentirosos ainda na inocência.

Discorda de algo? Escreva contra, promova debates e escreva livros e artigos adversários. Isso faz parte da liberdade de expressão. Quando você deseja impedir que algo ocorra é porque você ultrapassou o limite da crítica e chegou ao terreno do Grande Irmão do livro 1984. Todas as ditaduras, de Hitler a Kim Jong-un, de Mussolini a Costa e Silva, contaram com os milhões de censores da sociedade. Os regimes autoritários valem-se da inveja e do ressentimento de muitos para a denúncia, o ataque e a agressão. A Noite dos Cristais (1938) não foi apenas estatal. A exposição de “arte degenerada” (1937) teve um público civil imenso. A Noite dos Cristais foi um ataque violento a estabelecimentos comerciais judaicos e a sinagogas, tudo incentivado pela Gestapo. A exposição de “arte degenerada” foi um gesto de propaganda estética nazista, ao reunir obras de Picasso, Marx Ernst e Lasar Segall (dentre outros) e tentar ridicularizar tudo. De todo lado, brotam os pequenos ditadores, sempre invocando a democracia, os bons costumes e a velha moral. Como na época da Inquisição, os tribunais sempre contaram com informantes anônimos, guardiães da consciência social. Todo grande opressor tem milhões de tiranetes imitadores e rancorosos. Todos querem fazer expurgos, barrar ideias, censurar livros, calar discordâncias. Este capítulo desagradará a muitos grupos radicais de esquerda e de direita. Fico imensamente feliz com isso. Já pensou se aquele pequeno censor ressentido me elogiasse?

Yuval Harari, no livro Sapiens, fez a primeira crítica que conheço sobre a sedentarização dos grupos humanos (e as consequentes escrita e Estado). Para o historiador israelense, os bandos de caçadores e coletores eram mais felizes e com dieta mais variada do que os que plantavam cereais à margem de grandes rios, como o Tigre, Nilo ou Yang-Tse. Em tantas décadas de dedicação à história, nunca tinha lido argumentos adversos à transformação técnica da Revolução Neolítica (agricultura) e Urbana. Inconscientemente, meu cérebro desenvolvimentista achava que bronze era melhor do que pedra e o ferro superava os metais mais maleáveis. Marcado por uma provável visão europeia, eu sempre vi o Estado, a escrita, a vida urbana e a domesticação de plantas e animais como um salto humano para o progresso. Harari lembra que o Estado, as pirâmides, os zigurates, a escrita e os vastos campos de arroz foram benéficos à glória de alguns e submissão de muitos. A explosão civilizacional do Egito, por exemplo, foi uma cornucópia fabulosa que jorrou dividendos sobre o faraó e um pequeno grupo. Além da elite nilota, os beneficiados das novas técnicas e dos milhares de artefatos artísticos foram os museus contemporâneos e os historiadores. A glória do Louvre e do Britânico oculta milhões de trabalhadores que entregaram suas vidas para que sacerdotes, faraós e escribas pudessem nos impressionar com sua criatividade e feitos. Grupos nômades ágrafos deixam menos legados materiais. Seriam mais felizes? Harari assevera que sim.

Crer para ver Há uma passagem no Evangelho de João que se tornou dito popular. Jesus ressuscitado aparecera aos apóstolos, mas Tomé não estava entre eles. Quando soube da inesperada e insólita visita, duvidou de seus companheiros. Como poderia acreditar que o homem que vira morto estava entre eles? Tomé, o incrédulo, tornara-se a base do nosso “ver para crer”. Jesus daria nova chance a seu escolhido e apareceu mais uma vez. Na segunda visita, o Nazareno asseverou que, se Tomé vira e crera, benditos seriam os que não necessitavam ver para crer. Hoje em dia, extrapolando o Novo Testamento, continuamos a ter as duas categorias de pessoa. Ainda há aquelas que acreditam em quase tudo. Não é necessário apresentar dados ou contrapor argumentos. A crença é prévia à visão. No outro extremo, há os desconfiados por natureza. Diante de uma novidade, quero provas de que se trata de um fato e não de um factoide. A pimenta dá seu sabor ao prato quando pensamos que mesmo uma evidência pode ser adulterada. Historicamente, as falsificações sempre existiram. Caso notório foi a doação de Constantino, documento pelo qual se atestava a posse das terras papais. Ele seria um édito imperial, no qual o imperador romano doava ao papa Silvestre terras por todo o mundo conhecido. No século XV, um humanista, Lorenzo Valla, analisou minuciosamente o texto e percebeu que expressões e sintaxes do latim do documento seriam impossíveis no século IV. O papado não fora pioneiro. Se eu pudesse adivinhar, diria que, em nossa história primitiva, alguém já deve ter feito isso em alguma caverna por aí. No Egito, no 14º século antes de Cristo, houve uma reforma religiosa e política muito importante. O faraó Amenófis IV decidiu que apenas o disco solar Aton deveria ser cultuado (e ele, faraó, como representante da divindade solar). A experiência radical foi efêmera. Morto o herético governante, seu projeto foi sendo abandonado em favor de Amon, o velho deus, de seus sacerdotes. Um século depois, Ramsés II mandou expurgar de vez a memória do “herege” antecessor: as imagens e textos mencionando a experiência monolátrica egípcia foram raspados. A capital – já em ruínas – teve suas pedras removidas e levadas para a construção de monumentos a Amon em Hermópolis Magna. Ramsés II, aliás, preferiu colocar seu nome em todas as obras, como se fosse o primeiro construtor da história. Inaugurava prática política popular entre nossos dirigentes. Pulando séculos, vemos na coroação de Napoleão outro “Photoshop histórico”. A cerimônia ocorreu em Notre Dame, em 1804, e buscava recriar cenas da Antiguidade, mesclando-a ao rito real do Antigo Regime. Havia, igualmente, intenção de recompor aliança com a Igreja (rompida no início da Revolução Francesa). Jacques-Louis David, pintor oficial, começou a trabalhar na tela que imortalizaria o dia. O problema real pôde ser corrigido: a mãe de Napoleão não comparecera à cerimônia. Era uma gafe familiar. Embaraço? Nada que um pincel hábil e servil não pudesse corrigir: eis que Letizia Bonaparte está lá no quadro, linda e adereçada para todo o sempre, comodamente sentada e tudo vendo da cerimônia que nunca contou com sua presença. O mundo do poder e da imagem seguiu em frente. São famosas as fotografias de Stalin ao lado de outros membros do partido ou as de Lenin ao lado de Trotski. Mais famosa ainda é a remoção das personagens indesejadas quando a ditadura stalinista f <Você alcançou o limite de recortes para este item>

Se não eu, quem? O cabalista Hilel afirmava na época de Herodes, o Grande: “Se eu não for por mim, quem o será? Mas, se eu for só por mim, que serei eu? Se não agora, quando?”. O neto do grande rabino foi Gamaliel, que viria a ser citado em Atos 5,34 como defensor dos apóstolos. O argumento do professor de Saulo de Tarso no Sinédrio era um desenvolvimento pessoal da ideia do avô: se a obra daqueles novos pregadores era coisa humana, desapareceria por si; se fosse obra de Deus, era inútil combatê-la. Há muitas possibilidades de interpretar a frase de Hilel. Uma delas é pensar o papel que eu desempenho nos processos, retirando-me da voz passiva e incluindo-me nos resultados. Lição preciosa derivada da reflexão com dois eixos estruturadores: eu e agora. Tive algumas longas conversas com um político. Minhas andanças fazem com que eu tenha muitos contatos com pessoas variadas. O centro da nossa conversa mais recente: eu falava do poder destruidor da exposição pública sobre as pessoas. Citei o depoimento de outro amigo que estava abandonando a política por considerar que somente os que não têm carreira devem se dedicar a cargos públicos. Após várias funções eletivas, o amigo quase fora da política expressava seu desgosto pela pouca eficácia da ação e pelos vícios da máquina estatal. Tenho pouca crença na redenção do mundo via política, especialmente a partidária. Ainda que eu possa ler política em sentido amplo e aristotélico, como exercício do bem público e obrigação coletiva pelo bem, penso aqui em política em sentido específico de cargos partidários, pertencimento a partidos e eleições. Adverti ao meu interlocutor: uma campanha política traz dados reais e inventados sobre o candidato. As duas categorias podem ser terríveis. Um aborto foi peça-bomba na campanha de Collor contra Lula. Meses depois, Collor seria acusado de cerimônias satanistas, uma relação homoafetiva e até supositórios de cocaína. Verdades? Mentiras? O importante é que um político deve desenvolver uma casca muito grossa, pois podres fictícios e concretos brotarão da cornucópia do marketing. Enganou um sócio no passado? Teve problemas com a Justiça do Trabalho? Não cumprimentava funcionários? Utilizou-se de profissionais de sexo? Existe uma ex-mulher ou ex-marido com raiva? Tudo do seu passado vai aflorar acrescido da injúria, calúnia e da difamação combinadas. Nas paredes da velha Pompeia soterrada pelo Vesúvio, havia pichações em latim insinuando os defeitos sexuais ou deficiências anatômicas dos candidatos. A prática é antiga, as redes sociais apenas atomizaram o golpe baixo que grassava à sombra do vulcão. Lembro-me de O Bem-Amado. Na trama divertida, Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) acusa o candidato da oposição de ter tirado zero em prova de Religião no primário e pergunta aos eleitores, brandindo o dossiê com o boletim escolar, como um homem que não tem Deus no coração poderia presidir Sucupira. Tudo indica que Odorico ainda paira sobre nós e que continuaremos tendo o de sempre nos anos eleitorais: ideias rarefeitas e fofocas encorpadas. A culpa é circular: do marqueteiro que segue o protocolo de busca personalizada de defeitos até o grande público que quer saber mais se o candidato é marido exemplar do que se tem alguma ideia clara sobre economia. Após a eclosão do escândalo de Watergate nos EUA, o eleitorado estava exausto da podridão de Nixon et caterva. O resultado foi a busca democrata por um ser impoluto que fosse modelo de religião e ética. O escolhido? Jimmy Carter. Descobriu-se em meio à explosão inflacionária do governo Carter que a honestidade era um apanágio desejável, mas não suficiente para um governo bom. Voltando ao tema. Se a campanha e o cargo eletivo arrasam qualquer ser humano, quem em sã consciência enfrentaria a pororoca de fake news e de ódio? Quem abandonaria uma carreira sólida ou uma família estruturada para perseguir um cargo passageiro? Toda pessoa que deseje a presidência deveria ser submetida a um exame de sanidade mental? Pode ser considerado um homem equilibrado ou mulher razoável aquele/aquela que decide morar no Alvorada e trabalhar no Palácio do Planalto? Volto aos argumentos do rabino Hilel. Se não eu, quem? Se eu não colaborar, quem o fará? Se eu me omitir, que coerência terei como pessoa? Se eu calar, quem falará no meu lugar? Questões complexas para resolver. Ao final da sua experiência política, Simón Bolívar estava mais desiludido do que nunca. O espírito do Libertador, alquebrado pelo debate e pelas dissensões, foi descrito por Gabriel García Márquez no livro O general em seu labirinto. Quem lutava pela liberdade do Novo Mundo arava o oceano, dizia o caraquenho a outro general. Questionado se via saída, o general teria respondido: “emigrar…”. Imaginem se o Libertador tivesse conhecido a internet ou os crimes feitos em seu nome. Em resumo, caros candidatos a candidato: o preço da política é a alma do político. Não me refiro à questão de ética, todavia à destruição do seu espaço privado. O Fausto partidário tem de entregar tudo antes e não ao final do processo. Receio que alguns que estão dispostos a entregar a alma a Mefisto tenham uma de baixo valor e que as pessoas de almas elevadas estejam em dúvida. Que resposta eu daria a Hilel?

As surpresas da prisioneira 29700 Sou amigo de Thereza e Gustavo Halbreich há anos. O casal convidou-me algumas vezes para jantares, inclusive celebrações do Rosh Hashaná (Ano-Novo judaico) e do Pessach (Páscoa judaica). Anfitriões maravilhosos, tenho lindas memórias de tocar piano na casa deles e conversar sobre temas variados. Graças a essa amizade que prezo muito, também tive contato com dona Eugênia, mãe do Gustavo. Ela me encantou desde o começo. Queria falar um pouco do que ouvi dela e do filho sobre a aventura da vida. Apresento-lhes dona Eugênia: sotaque forte, olhar carinhoso, otimista sempre, sociável, incapaz de ouvir um não diante da recusa da décima porção de gefilte fish, servida acompanhada de histórias sobre carpas em banheiras na Polônia. Dona Eugênia nasceu em Cracóvia, no dia 20 de setembro de 1919. Casou-se em janeiro de 1939. A Segunda Guerra despontava no horizonte. Mulher lúcida, foi testemunha da ascensão da barbárie nazista. Em 1941, foi para a Rússia, fugindo dos assassinatos e execuções na sua terra natal. No país vizinho, recebia as notícias angustiantes sobre seus pais e parentes, encarcerados em condições degradantes no gueto de Cracóvia. Tomou a decisão ousada e quase mortal de retornar para a Polônia para amparar a família. Não preciso fazer uma narrativa demorada sobre as condições do gueto. Todos conhecem o nível de desumanidade atingido naqueles espaços. Alguns parentes dela eram socialistas e o nazismo tinha um duplo ódio contra judeus de esquerda. Foram removidos para Auschwitz. Dona Eugênia recebeu no braço o número 29700. Os pais dela foram executados: ele com uma injeção de benzina e a avó de Gustavo na câmara de gás. Os irmãos tiveram destinos variados, dois foram enforcados por terem participado da resistência antinazista e outra parte da família partiu para construir Israel. Quando os campos começaram a ser abandonados pela proximidade do Exército soviético, a jovem Eugênia conseguiu evitar a “marcha da morte”, embrenhando-se em um buraco gelado e ali ficando dois dias em silêncio, esperando tudo passar. Foi encontrada por russos. Ao fim da guerra, um fato extraordinário: reencontrou seu marido Jakub Halbreich. A Polônia socialista não se revelara o paraíso prometido. Ao denunciar desvios de verbas na reconstrução do país, foi ameaçada de novo. Fugiu para a Suécia e veio para o Brasil. Houve três coisas extraordinárias na minha relação com dona Eugênia. A primeira é que eu queria ouvir muito o que tinha a dizer, porque era uma memória viva e pulsante do que ocorrera no Terceiro Reich. Ela havia passado por tudo e continuava leve, otimista, feliz e cheia de bondade no olhar. Não fora contaminada pelo horror que tinha presenciado. Ter sobrevivido em meio a tanta violência reforçara nela o amor à vida e a crença na humanidade. Foi uma experiência linda ouvi-la sobre como as coisas eram boas no novo mundo e como ela amou a terra brasileira. O coração de dona Eugênia não foi tomado pelo justo rancor de quem desceu ao mais terrível que a humanidade foi capaz. Essa foi a primeira coisa que aprendi com ela. Ela sobreviveu e decidiu abraçar a vida, mesmo tendo motivos inatacáveis para ser amarga. A segunda coisa foi um pequeno acidente de fala. Uma noite comentei que existia um grupo que negava a existência do Holocausto. Mostrei indignação viva, todavia supus que ela já soubesse. Ela não apenas desconhecia como não entendeu minha fala. Repeti, achando que era a língua original dela que a traía na compreensão. Dei nomes e livros e falei como nós, historiadores profissionais, combatemos esse gigantesco esforço antissemita e de ataque à memória real e documentada do Holocausto. Ela continuou fazendo cara de quem não estava acompanhando meu raciocínio. Só então veio a luz ao meu entendimento: uma mulher que esteve lá, no olho do furacão do genocídio, não entenderia que alguém pudesse dizer que aquilo não existiu. Ela não falava de uma opção estética ou um gosto culinário, mas da vida como ela a compreendia. Seria como eu dizer a você, querida leitora e estimado leitor, que seus pais não existem, são uma ficção… Dona Eugênia não compreendia o negacionismo do Holocausto. Não poderia. Era tão irracional que excedia mesmo sua mente atilada. Foi a segunda coisa extraordinária. A terceira foi a mais tocante. Trabalhando e viajando demais, tive de recusar muitos convites para a casa dos Halbreich. Estive um pouco afastado dos amigos queridos e, um dia, estava com um grupo no Museu do Holocausto, em Israel. Não era a primeira vez e eu já estava preparado para o impacto daquela memória do Yad Vashem. Passei pelas salas e tive a mesma experiência impactante da visão final ao sair do museu: as colinas de Israel, a sobrevivência dos nomes que o nacional-socialismo tinha tentado obliterar. Andando pelo caminho, topo com uma pedra escrita em hebraico e línguas ocidentais com o nome de dona Eugênia. Era uma estela votiva pela memória dela, colocada pelo Gustavo. Eu não sabia que ela havia falecido e chorei ali, naquele jardim. O Holocausto é relembrado no dia 27 de janeiro. A data relembra a libertação de Auschwitz-Birkenau. A cicatriz ainda é funda. A mulher que tentei descrever morreu em 10 de fevereiro de 2010. Que nunca esqueçamos, que nunca se repita, que dona Eugênia viva para sempre. A soma do número de prisioneira 29700 dá 18, na tradição hebraica, a vida (“chai”). Viva a vida!