O Caminho do Centro: Memórias de Uma Aventura Eleitoral
Kindle Highlights
Agenda Rio Seguro
Eduarda La Rocque,
professora Suzana Kahn,
Joaquim Levy e Wilson Risolia
o sonho individual tem pouco valor quando não está inserido em projetos coletivos.
Merecem menção honrosa o Lampião, na Pavuna, onde comemos um maravilhoso baião de dois, e
os sonhadores como eu continuarão a acreditar que é possível vencer fazendo a coisa certa.
o dever, de candidatos liberais reconhecerem a gravidade do aspecto social e racial da violência brasileira.
para desestimular a prática de um delito, o tamanho da pena é menos relevante do que a certeza de sua aplicação.
Enquanto eu prosperava, o estado e o país à minha volta ruíam. Achei que tinha a obrigação de tentar fazer alguma coisa.
Como diz a canção de Gilberto Gil, “não tenho medo da morte, mas sim medo de morrer. Morrer ainda é aqui, a morte já é depois”.
Arrependo-me, porque deixei de cumprir o papel correto, na defesa do que considero o melhor caminho para o meu estado e o meu país.
Gastávamos muito mais com segurança do que com educação e fazíamos isso havia muitos anos. Alterar essa lógica deveria ser o objetivo do Rio de Janeiro.
Mateus Bandeira, um excelente quadro técnico que fora presidente de uma reputada empresa de consultoria e candidato do partido ao governo do Rio Grande do Sul.
Por isso é que, àquela altura da minha vida, ser bem-sucedido em meio ao fracasso da cidade e do estado me dava a sensação de que meu bem-estar era artificial.
Manter uma Nave como a da Tijuca custava cerca de R$ 800 por mês por aluno, sem considerar os salários dos professores, que continuavam sendo pagos pelo estado.
A migração dos votos de Romário para Witzel decorreu, a meu ver, do fato de que seu discurso não era suficientemente enfático e crível no combate à criminalidade
Não espanta mesmo que a maioria dos políticos não se incomode com o fato de o estado gastar mais do que arrecada. Afinal, eles também podem fazê-lo para serem eleitos.
Wilson Witzel seguia a mesma toada, prometendo a mirabolância de renegociar o plano para “alongar o pagamento das dívidas em até 100 anos e diminuindo as taxas de juros”.
A verdade é que tendemos a racionalizar e organizar o passado depois que as coisas dão certo ou errado em busca de uma lógica, mas, muitas vezes, ela simplesmente não existiu.
Na China o solo e o subsolo são do Estado, enquanto nos Estados Unidos tanto um quanto outro são do proprietário da terra, que paga impostos apenas sobre a renda obtida com a exploração.
O verdadeiro liberalismo é o caminho para a igualdade de oportunidades. O discurso liberal deve assumir uma clara motivação social. Deve tocar não apenas o racional, mas também o emocional dos eleitores.
Duda tinha experiência acadêmica, fora uma profissional atuante do mercado financeiro e seu trabalho como secretária de Fazenda da prefeitura do Rio na gestão de Eduardo Paes fora muito bem-sucedido. Esse
Não acredito em segurança pessoal. Me parece uma espécie de milícia contratada, limitando sua liberdade e evocando o tempo todo a ameaça da violência. Ou o lugar é seguro o suficiente para viver, ou não é.
Wilson Witzel declarou à Justiça Eleitoral ter um único imóvel, no valor de R$ 400 mil. Mas fez doações de R$ 230 mil para sua campanha. Portanto, doou mais que 50% de seu patrimônio – um recorde nacional de doação.
Continuo acreditando, agora com conhecimento de causa, que um partido liberal é a melhor alternativa para liderar o Brasil na sua busca por uma sociedade mais justa e mais desenvolvida, e que o Novo pode ser esse partido.
Sempre me lembro do exemplo de Chico Alencar e Tarcísio Motta quando vejo o discurso do ódio utilizado por outros parlamentares do PSOL, ou por militantes e parlamentares do próprio Partido Novo. A verdade é que é muito difícil
A orientação de meu assessor de imprensa nas entrevistas era clara: use frases curtas – coisa que eu não conseguia fazer. Ele insistia: se a frase é longa, o jornalista passa a ser o dono do texto, porque vai editá-lo. Se é curta, o dono é você. Em
A reeleição de Dilma Rousseff foi um balde de água fria na esperança de que o país pudesse se libertar de um debate ideológico meramente retórico e se concentrar na urgência de superar a inépcia na gestão pública, que havia marcado o primeiro mandato da presidente.
Não era apenas a perda de um quadro de alto nível. Era a dramática diminuição da capacidade do governo de atrair outros profissionais de qualidade. Quem fosse convidado pensaria duas vezes antes de correr o risco de vir a ser enxovalhado em praça pública pelo chefe da nação.
Ana Lycia Gayoso, que conduziria minha agenda e receberia boa parte das pessoas comigo; e Pedro Veiga, responsável pelos contatos políticos, inclusive com o próprio partido e seus outros candidatos, assim como por planejar, junto com a turma do marketing, os materiais de campanha
Parte do desafio para os liberais é comunicar efetivamente que suas propostas não buscam a reformulação do estado para beneficiar os ricos, como afirma a esquerda, mas para acabar com privilégios injustificáveis e com a apropriação indevida dos recursos públicos por grupos e corporações.
O coronel Robson tivera uma atitude corajosa após o assassinato de Marielle Franco. Amigo da vereadora, que conhecera quando ela fora lhe comunicar atos de policiais que ele considerara “indefensáveis”, publicou uma carta aberta para combater as fake news que passaram a circular sobre ela.
Geraldo Samor, jornalista com larga experiência e reputação em temas de economia e mercado de capitais, muito lido pelos profissionais da área, me entrevistou para sua publicação eletrônica, o Brazil Journal. Foi uma entrevista detalhada, talvez a melhor de toda a campanha, publicada em 21 de junho de 2018.
As soluções dos problemas da administração pública precisam considerar que as melhores alternativas frequentemente vêm da sociedade. Quem pretende uma gestão eficaz de recursos públicos precisa entender que é fundamental ouvir a sociedade e conhecer suas iniciativas, antes de decidir e impor planejamentos de gabinete
“Fico feliz que exista uma candidatura liberal sensata, para que o debate seja travado no campo das ideias e não do ódio.” Sempre me lembro do exemplo de Chico Alencar e Tarcísio Motta quando vejo o discurso do ódio utilizado por outros parlamentares do PSOL, ou por militantes e parlamentares do próprio Partido Novo.
Como demonstrava Ilona Zsabó em artigo publicado pouco antes do debate: “[E]m 2014, a taxa de homicídios para indivíduos com idade entre 15 e 19 anos e de zero a três anos de estudo era de 262,7 por 100 mil habitantes. No outro extremo, a dos jovens com a mesma faixa etária, mas com 12 anos ou mais de escolaridade, foi de 5,7.”
Até Paulo Guedes, suado e sem camisa, foi interrompido em sua corrida matinal por militantes mais animados e obrigado a ir me cumprimentar, o que fez com sua habitual gentileza e palavras de incentivo, para, em seguida, engrenar uma conversa com Gustavo Franco e Arminio Fraga. Só esse encontro improvável já teria valido a caminhada.
Não foi o tom, foi o conteúdo. Havia um preço a pagar para ter uma chance naquela eleição – e, mesmo assim, não era garantido, como se viu no caso de Índio da Costa. Esse preço envolvia um discurso alinhado à mensagem de Jair Bolsonaro e sua legião de apoiadores radicais nas redes sociais. E esse preço eu nunca estive disposto a pagar.
Na noite da eleição, acompanhamos a apuração na casa de João Amoêdo, que me agradeceu pela lealdade e por ter me mantido firme na defesa das visões do partido. Respondi, com sinceridade, que não merecia o agradecimento. Não teria conseguido apoiar Bolsonaro nem mesmo se tivesse a certeza de que, com isso, seria eleito. Era e sou verdadeiramente um liberal.
Uma de minhas poucas alegrias quando as urnas se abriram foi constatar que tinha sido votado em todas as cidades do estado. O que quer dizer que em cada uma dessas cidades, em maior ou menor número, não importa, há pessoas, de variadas idades e classes sociais, que desejam uma renovação na política – uma renovação de centro e liberal. Essa semente está lá e me orgulho de ter ajudado a plantá-la. As
No nosso regime legal a propriedade e a exploração do solo são do particular, enquanto o subsolo é do estado, tendo o proprietário direito de exploração e ficando obrigado a pagar royalties. Já o mar é de titularidade da União, que é quem concede o direito à exploração pelos particulares e recebe royalties por isso. Mas fica obrigada, pela Constituição, a partilhar esses royalties com estados e municípios.
O time que Palocci reunira era admirável. A diretoria do Banco Central, com Afonso Beviláqua, Alexandre Schwartsman, Beny Parnes e Eduardo Loio, além de experientes funcionários de carreira do banco, era presidida por Henrique Meirelles – que havia sido eleito deputado federal pelo PSDB quando aceitou o convite. A Secretaria de Política Econômica cabia a Marcos Lisboa, e a Secretaria do Tesouro Nacional, a Joaquim Levy.
embora Garotinho não tenha verdadeiramente debatido. Ele pediu para falar primeiro e se retirou logo depois, apressado e sem debater. Brinquei com Índio da Costa, que estava ao meu lado, dizendo que ele devia estar fugindo de algum oficial de justiça. Depois, meus assessores confirmaram que havia um oficial à espreita. Três dias após o debate na FGV, a candidatura de Garotinho foi definitivamente indeferida pela Justiça Eleitoral.
Carmen Migueles, que tinha experiência com o nosso jovem partido e conhecia suas idiossincrasias, o fogo amigo e os inimigos externos. Ela mesma fora vítima de ataques dos seguidores de Olavo de Carvalho – guru da família Bolsonaro – desde a campanha pela prefeitura do Rio de Janeiro, em 2016. Diziam que as posições de Carmen sobre a educação eram extraídas das teorias de Paulo Freire, um dos demônios que os olavistas buscam exorcizar.
Havia detalhes a decidir, como a necessidade de dividir, ou não, a companhia antes da venda. Mas a proposta era privatizar o todo, com a agência reguladora estruturada para supervisionar a qualidade dos serviços, o cronograma de execução dos investimentos e o preço das tarifas. Os estudos indicavam que, em 30 anos, seria possível alcançar a universalização dos serviços e a limpeza da baía de Guanabara e das lagoas da Baixada de Jacarepaguá.
A última pergunta era recorrente: por que você, realizado profissionalmente na vida privada e até na sua passagem pela vida pública, saiu do seu conforto para tentar assumir um estado com todas as dificuldades do nosso? Thais Dias fez a pergunta num tom pessoal, em busca de uma resposta genuína. Deixei falar o sentimento: exatamente porque alcancei sucesso na vida privada é que penso que não posso me omitir. Acho que todos temos o dever de tentar.
Berenice Seara ainda voltou ao ataque por duas vezes. Na primeira, para perguntar como era possível que eu, um liberal, tivesse doado recursos em duas campanhas para Alessandro Molon quando ele era candidato pelo PT. Como eu poderia ter mudado tão rápida e radicalmente de posição? Respondi que Molon tinha sido meu aluno, e na lista de doadores de suas campanhas havia outros insuspeitos liberais, colegas advogados e, como eu, antigos professores de Molon
Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (Ceipe), da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (Ebape/FGV), em parceria com o Todos pela Educação, a mais importante organização não governamental dedicada às políticas públicas sobre educação no Brasil. No debate seriam também apresentadas propostas para a educação formuladas pela iniciativa suprapartidária Educação Já, liderada pelo Todos Pela Educação
Sempre achei curiosa essa possibilidade de gastos maiores que a receita, gerando a tal dívida de campanha. Como será saldada uma dívida de campanha? Com recursos do fundo partidário e, portanto, públicos, depois da eleição? Ou com recursos de doações privadas de campanha posteriores à eleição? É o dinheiro do contribuinte que vai financiar os excessos dos candidatos? Ou, ainda pior, as doações de pessoas às quais os candidatos, já eleitos, ficam devendo esse favor?
Por fim, as apresentações tratavam do tamanho do Estado, sustentando que ele não deveria ser nem mínimo nem máximo, e sim o necessário para combater a desigualdade e induzir avanços sociais. Eu era a favor de políticas de renda mínima e de cotas, porque em um país díspar como o Brasil não basta lutar pela igualdade de oportunidades. Ela só será realmente possível depois de asseguradas as condições mínimas de acesso a educação, saúde, transporte e saneamento a toda a população.
Claro que o corpo a corpo nem sempre é bem recebido. Em Rio das Pedras, por exemplo, onde estive em um sábado, experimentamos grande indiferença e até certa agressividade em alguns momentos. Em outra comunidade, em Vila Valqueire, embora recebido por um antigo funcionário que lá vivia há muitos anos e deixara o escritório para dedicar-se a um negócio de quentinhas, os Carrapatrintas foram expulsos por milicianos enquanto eu falava. Quando saí, não havia ninguém além de meu motorista.
A verdade é bem diferente. O instituto desenvolve um trabalho independente e com grande respeito pela atividade policial, como pude testemunhar dezenas de vezes, desde que comecei a interagir com eles e a colaborar no financiamento de suas atividades. A resistência ao Igarapé me parece motivada pela recusa em aceitar uma análise baseada em evidências, como propõe o instituto na questão da segurança pública. Há quem prefira, por motivos diversos – lícitos e ilícitos –, que a paixão e a simplificação dominem o debate.
Meus assessores não sabiam, e nunca souberam, que tão logo minha candidatura fora anunciada eu recebera um telefonema de Paulo Marinho, suplente na candidatura ao Senado de Flávio Bolsonaro. Eu advogara para o Paulo em uma arbitragem. Ele é agradável, engraçado, sedutor e muito educado. Com toda a habilidade me disse que Bolsonaro não tinha candidato no Rio e que ele gostaria de promover uma aproximação. Eu agradeci, disse que votos eram sempre bem-vindos, mas que o Partido Novo tinha candidato à Presidência e eu também.
O principal estudo que consultamos para a elaboração do plano de governo fora desenvolvido por pesquisadores do Insper, sob a liderança do professor André Luiz Marques. O estudo foi divulgado em uma entrevista de Marcos Lisboa, presidente do Insper, a O Globo, em 21 de maio de 2018.6 Os candidatos diziam que queriam renegociar o Plano de Recuperação Fiscal, ao invés de cumpri-lo. Marcos, com base no estudo detalhado, dizia o oposto. Mesmo se executado à risca, o Plano de Recuperação Fiscal seria insuficiente para tirar o Rio de Janeiro do buraco.
Pode ser pior. É possível que muitos gastos não sejam declarados mesmo após o início do período oficial de campanha, como a contratação de profissionais que se dedicam a investigar e maldizer os adversários, e o impulsionamento nas redes sociais ou em aplicativos para celulares, que não sejam formalmente iniciativa dos candidatos, mas façam propaganda ou contrapropaganda para eles. Todas essas possibilidades me foram oferecidas e recusadas. Tenho sinceras dúvidas que tais serviços não tenham sido prestados a outros candidatos e, se prestados, tenham sido declarados à Justiça Eleitoral.
Recebi duas recusas importantes para meus planos. Uma foi de uma especialista em segurança pública que convidei para coordenar o programa de governo nessa área. A negativa foi menos grave porque ela concordou em ajudar, desde que não constasse como integrante da equipe. Ela havia feito parte de uma organização não governamental e, mesmo já afastada, não ficou confortável em ligar-se a um candidato, temendo que a organização fosse vista como apoiadora de um partido político. Isso não a impediu de contribuir, revendo o plano de governo para a segurança e indicando contatos importantes nas polícias Civil e Militar.
Eduardo fora meu aluno no último ano da Faculdade de Direito em meados da década de 1990. Ele já exercia, muito jovem, o cargo de subprefeito da Barra da Tijuca na primeira gestão do prefeito César Maia. Faltou à maioria das aulas, porque eram incompatíveis com o seu ritmo de trabalho, sabidamente intenso. Faltou também à prova. Pediu-me segunda chamada, que concedi, dividido entre a compreensão do espírito público daquele jovem e a tristeza por seu completo desinteresse pela minha matéria. Ele fez uma ótima prova, até por sua experiência como estagiário do escritório Gouvêa Vieira, um dos melhores do Rio de Janeiro.
Witzel, como aconteceu em todas as oportunidades em que conversei com ele ou participamos de debates, demonstrou extrema confiança. Disse não se importar com o pouco tempo. Para nós, que estamos acostumados a ganhar um caso no Supremo Tribunal em 15 minutos, ele vaticinou, não era um problema. Depois desse diálogo, comentei com Aziz, meu assessor de imprensa: em mais de 30 anos de advocacia eu havia sustentado oralmente uns dez casos no Supremo, no máximo. Como Witzel poderia ter sustentado e ganhado um caso por lá se acabara de se aposentar da magistratura e mal começara a advogar? “Uai, pior é comparar 15 minutos com 2”, disse o Aziz, com seu inconfundível sotaque mineiro.
Carmen Migueles, que aceitara retomar a aventura política, agora como candidata a vice-governadora, após concorrer à prefeitura do Rio de Janeiro em 2016, na primeira experiência eleitoral do Partido Novo. Carmen e eu tínhamos vários pontos em comum, notadamente a paixão pelo ensino universitário e o interesse em dados e comprovações científicas para fundamentar nossas opiniões. Ela foi muito importante em alguns momentos, como quando me apresentou a policiais experientes cujas observações foram vitais na construção do nosso plano para a segurança. Carmen ainda colaborou intensamente com o plano de governo para a educação. Esta, aliás, teria sido sua área de atuação principal num futuro governo, caso tivéssemos chegado lá.
Na hora da fotografia dos candidatos reunidos ao final do debate, fiquei à esquerda da Dayse, candidata do PSTU. Brinquei: “Vou trocar, porque ninguém está à esquerda da Dayse.” Demos todos uma gargalhada descontraída e fomos fotografados nesse clima. Postamos a foto nas redes sociais e logo começaram a pipocar comentários, certamente oriundos dos adversários, com ataques de supostos eleitores meus: vou desistir de votar em você, tá muito amigo da esquerda; só anda com esse gordinho do PSOL, já vi que não dá para votar em você; e coisas do gênero. Os adversários não estavam para brincadeira nem mesmo com um candidato que claudicava nas pesquisas. Simpatia e cordialidade não estavam na moda. O plano era incentivar o eleitor binário. Amor ou ódio. E só.
Quando João Amoêdo participou de uma sabatina na Veja, em 19 de setembro, e declarou que teria muita dificuldade de apoiar Fernando Haddad ou Jair Bolsonaro, caso ambos chegassem ao segundo turno, a coisa esquentou. Os argumentos de João eram perfeitos. Não apoiaria o PT depois de tudo o que este fizera – por causa do mensalão, do petrolão, por ter levado o Brasil a uma enorme recessão e por ter as ideias erradas para tirá-lo dela. Quanto a Bolsonaro, João não usou meias palavras. Era uma pessoa que estava há 29 anos no Congresso e de quem não conseguia se lembrar de nenhuma realização, exceto ter brigado com a deputada Maria do Rosário e o deputado Jean Wyllys e ter homenageado um torturador (João referia-se ao voto de Bolsonaro no processo de impeachment de Dilma, quando prestou homenagem ao coronel Brilhante Ustra, que dirigira o DOI-Codi, departamento do II Exército em São Paulo que liderava a tortura de presos no período mais agudo da ditadura militar).
Eu vinha me educando sobre segurança pública havia algum tempo. Mais precisamente, desde 2016, quando, outra vez a convite de Wolff Klabin, eu apoiara, com outros profissionais liberais e empresários, a implantação de uma ferramenta – um software – de análise criminal desenvolvida pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do Estado do Rio de Janeiro, em parceria com o Instituto Igarapé, uma organização não governamental. O Igarapé era, e é, atacado por parte da polícia e por movimentos de direita, que o veem como um inimigo, um defensor dos direitos humanos que pretende limitar as ações de policiais expostos ao risco de morte em defesa da sociedade. Não me surpreendi quando, em fevereiro de 2019, o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, viu-se obrigado a revogar a nomeação da diretora do instituto, Ilona Szabó, como integrante do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, por causa do veto do presidente Bolsonaro e dos protestos de seus seguidores nas redes sociais.
Essa turma citava Friedrich Hayek a torto e a direito, mas pelo visto não o tinha lido. Ele escreveu: “Embora elemento necessário em toda sociedade estável, o conservadorismo não constitui, contudo, um programa social. Em suas tendências paternalistas, nacionalistas, de adoração ao poder, ele com frequência se revela mais próximo do socialismo que do verdadeiro liberalismo; e, com suas propensões tradicionalistas, anti-intelectuais e frequentemente místicas, ele nunca, a não ser em curtos períodos de desilusão, desperta simpatia nos jovens nem em todos os demais que julgam desejáveis algumas mudanças para que este mundo se torne melhor. Por sua própria natureza, um movimento conservador tende a defender os privilégios já instituídos e a apoiar-se no poder governamental para protegê-los. A essência da posição liberal, pelo contrário, está na negação de todo privilégio, se este é entendido em seu sentido próprio e original, de direitos que o Estado concede e garante a alguns e que não são acessíveis em iguais condições a outros.”
Outra versão menos complexa para a ausência de João Amoêdo na caminhada circulou naquela manhã de domingo entre os pré-candidatos do Novo. Como antigo dirigente máximo do partido, recém-licenciado para concorrer, João teria querido evitar um encontro com Leandro Lyra, que estava presente. O jovem Lyra, então com 26 anos, fora o único vereador eleito pelo Partido Novo na cidade do Rio de Janeiro nas eleições de 2016. Um dos quatro eleitos na primeira campanha do partido – os outros eram de Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte. Pelas normas do partido, às quais todos haviam aderido, um candidato eleito não poderia disputar outro cargo antes de terminar o mandato que conquistara. Já à reeleição ele poderia concorrer, mas só uma vez. Leandro Lyra ignorara, porém, a regra e se inscrevera no processo seletivo do partido para candidatos a deputado federal enquanto ainda exercia o cargo de vereador, causando grande mal-estar. Afinal, na primeira oportunidade e no primeiro mandato, uma das regras de ouro do partido fora desrespeitada.
Não sei se é o caso, mas é possível que o apartamento de Witzel valha mais do que o declarado, o que pode acontecer, pois imóveis são declarados pelo seu preço de aquisição e podem se valorizar. De qualquer modo, por mais que seu apartamento tenha se valorizado, o montante da doação de Witzel para sua própria campanha chama a atenção. Eduardo Paes tentou explorar esse ponto no segundo turno. Witzel rebateu dizendo que os recursos que ele doou para a sua campanha tinham sido recebidos depois da informação de seu patrimônio à Justiça Eleitoral. Teriam vindo do escritório de advocacia de que se tornara sócio depois daquela declaração, cujas quotas também não constavam de sua relação de bens. Normalmente um candidato não tem tempo de trabalhar durante as eleições. Na entrevista à rádio CBN, contudo, Witzel declarou que estava tão ocupado prestando serviços de advocacia durante a campanha, que fora obrigado a recusar clientes. O futuro revelou apenas um desses clientes: seu próprio partido, o PSC, que lhe pagava honorários mensais desde que deixara a magistratura.
Marcos é um advogado brilhante e também um economista de primeiro nível. Mestre em Direito em Yale e doutor na Universidade de São Paulo, fora diretor da CVM no mandato da minha sucessora, Maria Helena Santana. Antes disso, foi assessor do então presidente do BNDES, Guido Mantega. Depois de deixar a CVM, Marcos recusou meu convite para juntar-se a meu escritório e tornou-se sócio de Arminio Fraga na Gávea Investimentos. Marcos conjugava a experiência no serviço público e na atividade privada que eu buscava. Ficou balançado. Dias depois, contudo, me visitou e recusou o convite. Conversara com Arminio, mas não chegara a um acordo sobre as condições de seu desligamento da Gávea. Perdi, ali, aquele que me parecia o companheiro ideal para trabalhar ao meu lado na campanha e depois. Mal podíamos imaginar o que estava por vir. No ano seguinte, após, finalmente, deixar a Gávea Investimentos e passar algum tempo recarregando as baterias, Marcos aceitou o convite de Joaquim Levy, nomeado presidente do BNDES por Jair Bolsonaro, para ser diretor do banco. Tomou posse num dia e foi demitido no outro pelo próprio presidente da República, que alegou não saber que Marcos havia servido no governo do PT. O episódio acabou por derrubar também o próprio Joaquim Levy.
É possível ganhar uma eleição mesmo perdendo. Levado por Arminio Fraga, ouvi a lição de Paulo Hartung, então governador do Espírito Santo, em julho de 2018, pouco mais de um mês depois do anúncio de minha candidatura ao governo do Rio e a menos de três meses das eleições. Ela continha a mensagem de realismo que o político vitorioso se dispunha gentilmente a transmitir ao novato. A vitória, se não impossível, era absolutamente improvável. Mas a caminhada poderia ser bem aproveitada e ter impacto, se a mensagem fosse transmitida com franqueza, simplicidade e esperança. Três vezes governador do estado, eleito sempre em primeiro turno e sem nunca ter perdido uma eleição, Hartung vencera, em 2014, o sucessor que ajudara a eleger, mas do qual se distanciara. Adotou um discurso que enfatizava não só a crise do país, como o grave problema fiscal do seu estado e a necessidade de um forte ajuste por quem quisesse levar a sério o desafio de governá-lo nos quatro anos seguintes. Quando deixou o Palácio Anchieta, em dezembro de 2018, entregou o Espírito Santo com a melhor situação fiscal do país, na avaliação do Tesouro Nacional. Na educação, pulou do 14o lugar, em 2011, para o 1o lugar no Ideb do ensino médio, em 2018. A evasão escolar caíra mais de 60% de 2014 a 2017. Ao final da nossa conversa, Hartung, que no começo de seu mandato enfrentara ao mesmo tempo um câncer e uma greve da polícia militar em que não cedeu às reivindicações, entrou em seu carro e foi dirigindo para o Palácio.