Nosso lugar - Guido Percu's Notes
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Nosso lugar

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Nosso lugar

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atravessava a cidade, recebi uma mensagem do meu irmão

No primeiro ano, eu tinha feito uma matéria chamada “Política comparada na América Latina”, com o professor Steven Levitsky, um dos autores do livro Como as democracias morrem.

O homem que calculava, de Malba Tahan, do qual ainda gosto muito. Foi também nessa época que eu puder ler Pedro Bandeira e todos os volumes de Harry Potter e Senhor dos Anéis, que se tornaram os meus favoritos.

Alguns meses depois, eu também fui selecionada para o Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Lideranças Públicas, criado pela Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS) em parceria com a Fundação Lemann.

Estamos vivendo um momento de grande polarização e isso não só representa uma ameaça à nossa democracia como faz com que qualquer opinião diferente seja combatida com ódio e mentiras, ao invés de argumentos e evidências.

conversas, alguns meses e uma tentativa frustrada que, em 2017, eu, o Renan, o José Frederico Lyra Netto, o Felipe Oriá e o Bruno Santos fundamos o Movimento Acredito. Pouco tempo depois, o Samuel Emílio Melo também se somou ao time.

cada vez que eu ocupasse um espaço maior na política, isso iria incomodar e, ao invés de criticar as minhas ideias, as pessoas tentariam me intimidar. Essa foi a primeira das muitas vezes em que alguém tentou descontruir a minha trajetória.

Eu estudei muito, mas achava os simulados muito difíceis e tinha certeza de que, daquela vez, eu iria muito mal. Nunca vou me esquecer da alegria que senti quando a diretora da escola ligou para a minha casa para dizer que eu havia recebido uma medalha de prata. Eu ainda não sabia disso, mas aquela medalha mudaria a minha vida para sempre.

Naquele momento, foi a escolha que mais fez sentido para mim. Por ser o partido do grande educador Darcy Ribeiro (1922-1967) e ter entre seus filiados pessoas que haviam participado da transformação da educação pública em Sobral e no Ceará, acreditei que aquele seria o melhor lugar para dar continuidade à minha luta por uma educação pública de qualidade.

Os medalhistas da olimpíada passaram a receber uma bolsa de estudos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no valor de cem reais por mês. Foi com essa bolsa que conseguimos terminar o segundo andar da nossa casa e, pela primeira vez, deixamos de dormir todos no mesmo cômodo e meu irmão e eu passamos a ter cada um o seu próprio quarto.

Para nós, o principal aprendizado do livro se resumia à expressão “organização comunitária”. O trabalho realizado pela Tostan mostra que transformações reais e profundas só se tornam possíveis quando todos os cidadãos são envolvidos na construção das soluções, por mais que governos insistam em resolver as coisas de cima para baixo, sem ouvir aqueles que serão diretamente impactados.

Eu sempre recebi bolsas de estudos integrais das próprias instituições onde estudei e a única fundação da qual havia recebido qualquer apoio era a Estudar, que é financiada por centenas de pessoas e tem como condição que todo o valor recebido seja devolvido alguns anos depois para que outros estudantes também possam ser apoiados. Ainda assim, começaram a dizer que eu era financiada por grandes empresários e estava a serviço dos seus interesses. Segundo esses ataques, eu ora era financiada por grandes comunistas, ora por grandes capitalistas. A primeira vez que ouvi o nome George Soros foi quando começaram a espalhar que eu era financiada pelo bilionário húngaro-americano.

No começo de 2018, junto com outras 132 pessoas de 23 partidos diferentes, eu fui selecionada com uma bolsa de estudos para a primeira turma do RenovaBR. O Renova é uma organização suprapartidária e sem fins lucrativos mantida por doações de pessoas físicas e instituições filantrópicas. A organização foi fundada pelo empresário Eduardo Mufarej para preparar pessoas que querem entrar para a política, contribuindo assim para uma maior renovação e para que tenhamos líderes públicos mais preparados. No curso, nós tivemos aulas com os maiores especialistas do país sobre gestão fiscal, desenvolvimento social, liderança, funcionamento do legislativo, comunicação política e muitas outras áreas.

Para além da dificuldade que eu tinha de explicar aos meus amigos como era a minha vida em Harvard, muitos dos meus preconceitos, dos quais eu não tinha consciência antes, estavam sendo quebrados. Foi na faculdade que eu aprendi sobre a luta por igualdade entre homens e mulheres e sobre a importância de eu também lutar contra o racismo e a homofobia, por exemplo. No entanto, vários dos meus amigos não estavam passando pela mesma transformação. Isso levava muitas conversas a terminar em discussões nas quais eu dizia que eles eram preconceituosos e eles respondiam que Harvard estava fazendo uma lavagem cerebral em mim e me transformando em uma radical. Levou algum tempo até que eu aprendesse a me posicionar sem afastá-los de mim. Foram experiências como essas que lá na frente me fizeram acreditar que a política deveria e poderia ser um lugar de construção de consensos, por mais que seja muito mais fácil simplesmente afastar quem pensa diferente de nós.

Diferentemente de mim, o Allan estudou apenas em escolas públicas. Como acontece com muitos estudantes, com frequência ele era liberado antes do fim das aulas e não teve uma aula de química sequer durante todo o ensino médio. Quando não foi aprovado em nenhuma universidade, ele decidiu buscar um emprego para poder ajudar em casa. Foi só depois de muitas conversas que o convencemos a fazer o cursinho do Etapa, no qual ele recebeu uma bolsa integral com a condição de ajudar na organização das salas de aula. Na época, eu também escrevi uma carta para o fundador da Cel.Lep, Walter Toledo Silva (1920-2015), pedindo que a minha bolsa de estudos fosse transferida para o meu irmão, já que eu havia ido para Harvard muito antes de concluir o curso. Eles aceitaram e ele então também pôde começar a estudar inglês. Depois de um ano de cursinho, o Allan foi aceito na USP, na UFABC e na Unicamp, onde decidiu fazer sistemas de informação. Tenho muito orgulho do meu irmão e nunca tive dúvidas do quão capaz ele é. No entanto, até ter de fato uma oportunidade, referências e pessoas que o incentivassem, ele custou a acreditar que faculdade fosse para ele.

A minha orientadora tinha razão quando disse que eu tinha que falar com as pessoas e conhecer a realidade delas para entender o que os números estavam dizendo. Uma das conclusões das minhas análises estatísticas era que, especialmente em municípios pequenos e pobres, eleições acirradas tinham um impacto negativo nos resultados educacionais. O que eu ouvi de muitos entrevistados foi que uma eleição acirrada acabava interferindo no ambiente escolar, antes e depois do pleito. Como muita coisa estava em jogo, quanto mais disputada a eleição, mais o ambiente escolar ficava polarizado, criando conflitos entre os apoiadores de diferentes partidos e predispondo os funcionários que apoiavam a oposição a quererem sabotar a administração incumbente. Isso acontecia porque, em muitos casos, os apoiadores dos políticos eleitos eram recompensados com cargos na Secretaria de Educação e na direção das escolas, enquanto os opositores eram perseguidos com atrasos na carreira e alocações nas turmas consideradas mais difíceis. Uma outra conclusão da minha tese foi que mudar o partido que estava no poder também tinha um impacto negativo nos resultados educacionais. Eleições municipais que levavam a uma troca do grupo político que comandava a prefeitura desencadeavam uma série de demissões e descontinuação dos projetos da secretaria, independentemente de quão bons fossem. Como eu ouvi de um prefeito, você não podia “dar ibope” para a gestão anterior. Com frequência, nenhuma transição acontecia, e eu ouvi inclusive o relato de uma equipe que chegou para assumir a Secretaria de Educação e encontrou todos os documentos da gestão anterior queimados.

Entre 2013 e 2014, sem saber por onde começar, comecei pelo mais importante de qualquer iniciativa: o time. No meu segundo ano da faculdade, eu conheci dois brasileiros que, em pouco tempo, se tornaram meus melhores amigos. O Renan Ferreirinha que, assim como o meu pai, é de São Gonçalo, Rio de Janeiro, estava começando a graduação em Harvard com uma bolsa de estudos integral. A Ligia Stocche, de Ribeirão Preto, São Paulo, tinha acabado de ser aceita para fazer um ano de intercâmbio em Harvard antes de concluir sua graduação em engenharia de materiais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Nós logo descobrimos que os três eram apaixonados por educação e, por isso também, nossa amizade surgiu rapidamente. Coincidência ou não, as pessoas que me ajudaram a tirar ideias do papel e transformá-las em projetos reais sempre chegaram na minha vida antes que os planos estivessem completamente formulados. Tanto é assim que até um canal no YouTube sobre educação a gente pensou em fazer. Depois de debater umas tantas outras ideias, percebemos que a gente precisava mesmo era estudar. De um em um, fomos entrevistando políticos, empresários, acadêmicos, ativistas e professores. Quando vimos, tínhamos mais de cem entrevistas e um material muito rico que apontava diversos problemas da nossa educação, e também algumas soluções e inovações que estavam surgindo Brasil afora. Outras pessoas foram se somando ao projeto, e nós decidimos compilar as entrevistas e os nossos estudos no que chamamos de Manifesto Mapa do Buraco. O lançamento aconteceu em agosto de 2014, no final do meu segundo verão americano. Antes disso, no entanto, eu já tinha me jogado de vez na educação.