Noites Gregas
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bem mais valioso. Montaigne,
uma famosa metáfora que rezava mais ou menos assim: “Nossa vida se
Agora não fingimos ser outra pessoa, pois estamos ocupados demais em fingir que somos nós mesmos
de Aquiles os golpes que o matarão. A História nos mostra que não há nada como o amor para nos tornar corajosos diante de um perigo mortal.
“Pai, por que devo amar esta vida?” – ao que o pai responde, com a simplicidade das horas extremas: “Porque é a única <Você alcançou o limite de recortes para este item>
Como as profecias do oráculo de Delfos, estas histórias não fornecem soluções claras e definitivas para tudo, mas servem para despertar em quem as lê uma resposta pessoal para suas perguntas.
as ideias são muito importantes, e podemos discuti-las, noite após noite, depois do jantar – mas nenhuma delas merece que se mate alguém em seu nome. O que conta, mesmo, são as pessoas próximas a nós, esta pequena parcela da humanidade concreta com que partilhamos nossa vida.
Quanto mais fino o cristal, quanto mais leve e transparente, maior é o perigo de vê-lo se desfazer em pedaços – mas, por incrível que pareça, é precisamente essa fragilidade, esse risco iminente de quebrar, o que torna delicado e precioso cada momento que temos para desfrutá-lo.
Morreu seis anos depois, sentindo-se vítima dos deuses, clamando contra a injustiça desse prazo tão curto que lhe tinham concedido, sem saber que, mesmo que lhe dessem mais cem ou duzentos anos para viver, haveria de lamentar, como todos nós, quando chegasse a hora do derradeiro pôr do sol.
Envergonhado com a reprimenda do mestre, Alexandre – o homem mais poderoso de seu século – simplesmente calou a boca. Na verdade, Alexandre só tinha conquistado outros reinos porque tinha aprendido a conquistar a si mesmo. Foi a educação, mãe da liberdade, que lhe forneceu a rédea e o leme que todo ser humano necessita para conter seus impulsos e governar sua vida.
O pior é que podemos partir sem partir. Há os que percorrem longos trajetos de ida e de volta sem acrescentar uma gota à experiência ou ao conhecimento com que saíram de casa; para eles vale o comentário de Sócrates, quando foram lhe dizer que alguém, apesar das inúmeras viagens que fazia, não tinha melhorado em nada: “Nem poderia, pois ele sempre leva a si mesmo consigo”.
T. E. Lawrence, tradutor da Odisseia e agente secreto britânico, mais conhecido como “Lawrence da Arábia”, entalhou esta frase no alto da porta de sua casa de campo, a indicar que, se não podemos eliminar as preocupações – já que isso é privilégio dos deuses –, devemos lutar para tornar nossa vida mais leve, deixando de levar tão a sério o julgamento que os outros, inevitavelmente, haverão de fazer sobre nós.
Um dos temas mais explorados da cultura ocidental sempre foi a fragilidade do homem diante da implacável passagem do tempo. Não são poucas as histórias que nos obrigam a enxergar esta incômoda mas simples verdade: nada existe para sempre – nem pessoas, nem impérios, nem mesmo as montanhas de puro granito. Cedo ou tarde, a gente se dá conta disso, e a literatura e a filosofia se encarregam de descrever as mil maneiras que existem de conviver com esta ideia.
“Nossos antepassados assim se queixavam, assim nós também nos queixamos, e assim vão se queixar nossos netos e bisnetos: todo mundo é corrupto, a maldade sempre vence e nossa sociedade despenca velozmente pela ladeira que conduz à decadência! No entanto, não há nada de novo acontecendo: tudo está como sempre foi, e assim vai continuar. O que muda é a direção – ora um pouco mais para lá, ora um pouco mais para cá, como as ondas do mar, que sobem mais ou menos na areia da praia, dependendo da maré”.
Como dizia Montaigne, ninguém sai de mãos abanando quando lê alguma página de Sêneca, o pensador romano que melhor escreveu sobre a natureza humana. Como um diamante de um tesouro muito antigo, o que ele disse há dois mil anos sobre nossa existência nunca vai perder seu valor, como se vê no trecho abaixo, que parece ter sido escrito para todos nós, os brasileiros de hoje – tanto para os mais jovens, que saem às ruas com o entusiasmo de quem tudo quer mudar, quanto para os mais velhos, que lamentam que este mundo não mais tenha remédio.
Por causa disso, Mitrídates virou palavra, o que é, por si só, uma garantia de sua imortalidade: em todas as línguas do Ocidente, mitridatizar significa aumentar a tolerância a um veneno pela ingestão contínua de pequenas doses, um verbo feito sob medida para explicar o absurdo fatalismo com que aceitamos – no trabalho, na relação amorosa, no convívio com os demais – abusos e agressões contra tudo o que o ser humano tem de mais vital e importante. Sem revolta ou indignação, passamos a tolerar tudo aquilo que antes nos fazia mal, engolindo o veneno, gota por gota, até chegar à dose letal.
Zeus, mesmo sendo casado com Hera, elegeu uma mortal para ser mãe de um filho especial, Hércules, a quem reservava um destino glorioso. Para garantir que o bebê se tornaria um homem excepcional, levou-o às escondidas para o Olimpo e deixou-o mamar em Hera, que estava adormecida. Contudo, o pequeno Hércules sugava com tanta força que a deusa acordou sobressaltada e, ao ver aquela criança agarrada a seu seio, afastou-a com um gesto instintivo. Com o susto, o guloso deixou escapar da boca um jato do leite divino, que atravessou o céu e deu origem ao que chamamos até hoje, com justa razão, de Via Láctea. Com o passar
Pois isso que o artista faz com o mármore, dizia Epicuro, nós deveríamos fazer com nós mesmos. Como essas formas que jazem à espera da mão que as liberte, vivemos encerrados no duro granito das convenções vazias, dos desejos irrealizados e das esperanças enganadoras. “O sábio deve esculpir sua própria estátua” é um preceito que nunca esteve tão atual quanto agora, neste mundo de puro consumo e aparência. E não se trata de louvar a renúncia e o sacrifício, mas de valorizar, com alegria, aquilo que realmente importa, ou, como disse outro sábio, “não é que eu deva me conformar com pouco, mas sim, se eu não tiver muito, que este pouco me baste”.
o rei Davi pediu a um ourives que criasse um anel que o lembrasse de não se deixar dominar pela soberba nos momentos de júbilo, nem se abater nos momentos de tristeza. “E como vou fazer isso?” – “Tu deverás descobrir – para isso és um artífice”. Ao sair do palácio, o velho, que não sabia como poderia satisfazer o soberano, trazia o semblante tão angustiado que um jovem veio perguntar que mal o estava afligindo. Ao saber do que se tratava, o rapaz, sem hesitar, aconselhou o velho a fazer um anel de ouro com a inscrição “Isso também passará” – e assim fez o ourives. O jovem, dizem, era o próprio Salomão, filho de Davi, que assombraria o mundo com sua sabedoria.
Adeptos desse princípio, poetas e filósofos deixaram suas receitas pessoais para uma vida feliz, todas muito parecidas: uma casa cômoda, fresca no verão, aquecida no inverno; a saúde, o bom tempo, a chuva generosa – lá fora; as flores na janela, as frutas da estação, a mesa farta, com sabores simples e sinceros; a mente em paz, o sono tranquilo ao lado de quem se ama; o olhar límpido das crianças; alguns amigos, com alma semelhante à nossa; o sossego, na companhia de muitos livros e de muita música. Não esperar nada dos poderosos; querer ser o que se é, e não preferir nada mais; não temer o fim, nem desejar que ele chegue; aprender, em suma, a saborear o puro prazer de existir – isso é viver.
Apesar de irônica, esta história serve para nos fazer pensar no preço secreto que pagamos por cada avanço da tecnologia. A iluminação elétrica veio aumentar nosso dia e melhorar nossa vida, é verdade, mas o clarão da cidade moderna, ao nos privar do majestoso espetáculo do céu noturno, tirou-nos também a oportunidade, renovável a cada noite, de sentir o ínfimo papel que representamos na ordem natural do Universo. Sísifo agora sabe Embora fosse um simples mortal, Sísifo, rei de Corinto, foi o personagem mais astuto da mitologia grega, capaz de enredar os próprios deuses em suas tramas; alguns, inclusive, dão-no como o verdadeiro pai de Ulisses, o que explicaria a inteligência excepcional do herói da Odisseia.
Montaigne, por sua vez, conta o caso daquele estrangeiro que saiu a proclamar nos lugares públicos, ruidosamente, que, em troca de uma considerável quantia, poderia ensinar a Dionísio, rei de Siracusa, um modo infalível de descobrir qualquer conspiração que os súditos pudessem estar tramando contra ele. O rumor chegou aos ouvidos do rei, que mandou chamá-lo, pois queria aprender esta arte tão valiosa para sua segurança. O estranho então revelou o segredo: bastava entregar-lhe vinte quilos de prata e sair anunciando que havia aprendido uma técnica especialíssima de detectar levantes e conchavos. Dionísio entendeu o estratagema e mandou seu tesoureiro entregar o que o visitante pedia, pois ninguém ia acreditar que ele gastaria uma soma tamanha a não ser que tivesse realmente recebido uma informação secreta de grande valor – e, com isso, levou ainda mais medo aos inimigos que queriam o seu trono.
Ela pode formar, pode transformar, pode até nos conduzir para um inesperado desvio da existência – como fez com Zênon, que viria a ser um dos mais importantes filósofos estoicos. Aos trinta anos, trabalhando com o pai, transportava mercadorias entre a Ásia e a Grécia, numa rotina deprimente. Um dia, seu navio naufragou já perto de Atenas; nadando, Zênon conseguiu chegar à cidade e subitamente se viu numa livraria, a folhear avidamente o livro que Xenofonte escreveu sobre a vida de Sócrates. Encantado, exclamou: “Como eu gostaria de conhecer um homem assim!”. “Pois então segue aquele lá”, disse o livreiro, e apontou o filósofo Crates, que casualmente passava por ali. Num impulso, Zênon correu atrás dele e implorou que o aceitasse como discípulo. Esse gesto mudou para sempre a sua vida; e quando perguntavam como tinha sido sua última viagem como mercador, costumava responder, agradecendo ao destino: “Tive uma péssima travessia, mas um excelente naufrágio”.
Primeiro, foi Copérnico, a nos ensinar que o universo não tem centro, e que a nossa Terra é apenas um entre os vários planetas que giram em torno do Sol, que é uma entre os duzentos bilhões de outras estrelas da Via Láctea, que é uma entre os cem bilhões de outras galáxias que cintilam no universo… Segundo Freud, esse foi o primeiro dos três grandes golpes que a ciência infligiu em nosso narcisismo. Se éramos um nada diante do cosmos, restava ao menos o consolo de ser os reis da criação, muito superiores aos demais seres vivos; atribuímos a nós mesmos uma alma imortal, proclamamos nossa descendência divina e cavamos um abismo entre nossa natureza e a deles. Coube a Darwin desfazer essa ilusão: biologicamente, somos como os outros animais, mais próximos de algumas espécies, mais distantes de outras – nada mais do que isso. Era o segundo abalo, mas não o derradeiro. Este veio com Freud, ao descobrir que não somos senhores nem mesmo em nossa própria casa, pois é o inconsciente, e não a razão, quem comanda grande parte de nossa vida mental.
Numa madrugada de 1994, um violento terremoto abalou a Califórnia, destruindo cidades e rodovias e provocando um blecaute em toda a região. Ao saírem à rua para avaliar os danos, os californianos, talvez pela primeira vez na vida, viram-se mergulhados na mais profunda escuridão. Pois naquela noite e nas que se seguiram, a Defesa Civil recebeu incontáveis ligações relatando que depois do terremoto havia surgido no céu uma grande e estranha nuvem prateada, cheia de pontos luminosos – e só a muito custo as pessoas foram convencidas de que a “nuvem” gigantesca e ameaçadora era apenas a Via Láctea, que sempre esteve ali desde a origem do planeta. Apesar de irônica, esta história serve para nos fazer pensar no preço secreto que pagamos por cada avanço da tecnologia. A iluminação elétrica veio aumentar nosso dia e melhorar nossa vida, é verdade, mas o clarão da cidade moderna, ao nos privar do majestoso espetáculo do céu noturno, tirou-nos também a oportunidade, renovável a cada noite, de sentir o ínfimo papel que representamos na ordem natural do Universo.
Tendo perdido, desta forma, o cetro, o trono e a coroa, muitos aprenderam a lição e ficaram intelectualmente mais humildes, dispostos a repensar os limites da condição humana. Outros, porém, movidos por esta inconsciente vaidade da espécie, encontraram uma nova maneira de preservar a velha ilusão de importância, atribuindo-se o poder apocalíptico de influir, como uma divindade maligna, no próprio clima do planeta! Mas é muita pretensão desta formiga pensante! A ação humana pode tornar o meio ambiente insuportável para nós, poluir o ar, sujar a água e ameaçar outras espécies – em outras palavras, a ação do homem pode vir a ser fatal para o próprio homem. O planeta, no entanto, não sofre sequer um arranhão com esses despropósitos; ele esfria ou esquenta quando o Sol quer, ou o oceano, ou os vulcões – como vem acontecendo há bilhões de anos. A natureza já era imensuravelmente velha quando chegamos aqui; ela não sabia que viríamos, nem saberá quando formos embora – e nem vai se importar se isso um dia acontecer. Indiferente, a Terra vai seguir seu curso silencioso pelo espaço infinito.
clássico incidente entre Zêuxis e Parrásio, dois mestres admiradíssimos, que se defrontaram num concurso para ver quem era o melhor pintor. Quando Zêuxis descerrou sua tela, que representava um cesto com belas uvas maduras, vários pássaros entraram no recinto, atraídos pelas frutas. Orgulhoso desta aprovação inesperada, Zêuxis voltou os olhos, curioso, para a tela de Parrásio, que ainda continuava coberta, exigindo que abrissem a cortina para ver o que continha – quando então percebeu, abismado, que aquilo que ele tinha tomado, desde o princípio, por tecido, era na verdade a pintura que o rival tinha feito. Zêuxis, com nobre humildade, proclamou-o então vitorioso, porque, se as suas uvas haviam iludido os passarinhos, a cortina havia iludido a ele próprio, um pintor experiente. O mesmo Zêuxis, anos depois, pintou um menino com um cacho de uvas na mão; novamente os pássaros vieram voltejar em torno do quadro, atraídos pelas frutas, o que arrasou nosso pintor. Desolado com a própria incompetência, declarou, solenemente, que estava limitado a ser apenas um bom pintor de uvas, pois, se também fosse bom com a figura humana, os pássaros, com medo do menino, não teriam tido a coragem de se aproximar da tela.
Ninguém pode saber Assim como as dores que tenho nunca serão idênticas às dores do meu vizinho, assim ninguém nunca saberá o valor exato que as coisas têm para os outros. O que vale muito para Pedro pode nada valer para João… Em seu diário de viagem, Colombo narra como os nativos do Caribe trocavam pepitas de ouro por bugigangas sem valor. Um importante cacique ficou maravilhado ao receber um colar de contas de âmbar, um par de sapatos vermelhos e uma garrafinha de água de flor de laranjeira, que eram, para ele, presentes dignos de um deus – enquanto verdadeiros enxames de nativos, em suas precárias canoas, vinham rondar as naus espanholas em busca de algum tesouro, especialmente os guizos, que chegavam a valer quatro pedaços de ouro do tamanho de um punho. Colombo mostra-se tocado com a ingenuidade daquela gente, sem pensar que talvez o cacique, à volta da fogueira, faça sua tribo rir muito com a história daqueles brancos que se desfazem de coisas tão belas e preciosas em troca de um metal sem som e sem cheiro, tão inerte, inútil e comum quanto qualquer pedregulho. Como exemplo dessa incomunicabilidade, William James conta uma história verídica (e divertida): um viajante americano, no interior da África, tendo encontrado por acaso um velho exemplar de um jornal de classificados de Nova Iorque, pôs-se a ler avidamente todos os anúncios, coluna por coluna. Quando terminou, os nativos, que não sabiam o que era leitura – e muito menos o que era um jornal –, fizeram uma grande oferta pelo misterioso objeto. Quando ele perguntou a razão de seu interesse, responderam, impressionados: “Medicina. Para ver melhor” – porque essa lhes pareceu a única justificativa razoável para alguém dedicar tanto tempo a mover os olhos para cima e para baixo ao longo daquela superfície silenciosa. Quem poderá avaliar o tamanho da minha satisfação? Ninguém, a não ser eu mesmo. Por mais próximo que eu esteja de uma pessoa, ela terá de se contentar com uma ideia aproximada do entusiasmo ou do prazer que experimento – e não muito mais do que isso, pois as próprias palavras que uso para expressá-los não significam exatamente o mesmo para ela e para mim. Esta parte irredutível que cada um leva dentro de si é um ponto cego nas relações humanas; quando nos damos conta disso, diz William James, ficamos mais humildes e mais tolerantes, perdendo aquele ar impiedoso com que costumamos avaliar as escolhas que o outro faz. Divido com minha mulher uma gama tão grande de emoções e sensações que às vezes até parece que já dançamos sem música – mas sou obrigado a confessar que nem mesmo posso saber se o mate que compartilhamos tem, para ela, o mesmo gosto que sinto…