Não coisas
Kindle Highlights
Os hardwares são subordinados aos softwares.
Quem suspeita que as coisas têm vida própria?
Quem se sente olhado ou abordado pelas coisas hoje?
A internet das coisas as transforma em terminais de informação.
Nós não habitamos mais a terra e o céu, mas o Google Earth e Cloud.
O smartphone se estabelece como o objeto devocional do regime neoliberal.
A renda básica e os jogos de computador seriam a versão moderna de panem et circenses.
A infosfera tem as faces de Janus. Ela nos ajuda a ter mais liberdade, mas ao mesmo tempo nos leva a aumentar a vigilância e o controle.
O sistema comunista que suprime a liberdade é fundamentalmente diferente do capitalismo de vigilância neoliberal que explora a liberdade.
A “comunidade” frequentemente invocada nas plataformas digitais é uma forma de comunidade comoditizada. A comunidade como mercadoria é o seu fim.
Preferimos escrever mensagens de texto a telefonar, porque por escrito estamos menos entregues ao outro. Desta forma, o outro desaparece como voz.
O smartphone é um “Ge-Stell” no sentido heideggeriano, que, como essência da tecnologia, une todas as formas do pôr, tais como pedir, imaginar ou produzir32
No passado, as pessoas aparentemente permitiam que as coisas fossem mais independentes. No romance muito famoso Auch Einer (1878), do filósofo Friedrich Theodor Vischer, as coisas causam problemas.
Informações, isto é, não-coisas, se interpõem às coisas e as fazem desaparecer completamente. Não vivemos em um domínio de violência, mas em um domínio de informação que se apresenta como liberdade.
Décadas atrás, o teórico da mídia Vilém Flusser observou: “As não-coisas estão atualmente invadindo nosso ambiente de todos os lados, e estão suplantando as coisas. Essas não-coisas são chamadas de informação”
As coisas estabilizam a vida humana na medida em que lhe conferem uma continuidade que “deriva do fato de que a mesma cadeira e a mesma mesa se defrontam com pessoas que mudam todos os dias com uma familiaridade que permanece”
Aqueles que estão familiarizados com sua vida pessoal algorítmica sentem-se justamente perseguidos por ele. Somos controlados e programados por ele. Não somos nós que usamos o smartphone, mas o smartphone que nos usa. O verdadeiro ator é o smartphone.
As informações não se deixam possuir tão facilmente quanto as coisas. A posse determina o paradigma da coisa. O mundo da informação não é governado pela posse, mas pelo acesso. Os laços com coisas ou lugares são substituídos pelo acesso temporário a redes e plataformas
Ele entende a cultura humana como uma instituição muito frágil nas “costas das coisas”. Conhecemos apenas seu “lado frontal ou superior de sua disposição técnica para servir, incorporação amigável”. Mas não vemos nem sua “face inferior” nem o elemento “em que o todo nada”
A depressão não significa nada além de um aumento patológico da pobreza no mundo. Uma das razões para sua propagação é a digitalização. As infosferas intensificam nosso egocentrismo. Submetemos tudo às nossas necessidades. Somente um renascimento do outro poderia nos libertar da pobreza de mundo.
A comunicação digital prejudica consideravelmente as relações humanas. Hoje, estamos conectados em todos os lugares, mas sem estarmos vinculados uns aos outros. A comunicação digital é extensiva. Falta-lhe intensidade. A conexão em rede não é igual ao relacionamento. Hoje, Você é substituído por Isso em todos os lugares. A comunicação digital el <Você alcançou o limite de recortes para este item>
A sociedade dominada por informações e infômatos é sem adornos. Adorno significa originalmente vestimenta suntuosa. Não-coisas são nuas. Característico das coisas é o decorativo, o ornamental. Com isso, a vida insiste no fato de que ela é mais do que funcionar. No barroco, o ornamental é um teatrum dei, um espetáculo para os deuses. Nós expulsamos o divino da vida quando o submetemos inteiramente a funções e informações.
Em um nível mais profundo, o pensamento é um processo decididamente analógico. Antes de compreender o mundo em conceitos, ele é comovido pelo mundo, afetado mesmo por ele. O afetivo é essencial para o pensamento humano. A primeira imagem mental é o arrepio da pele. A inteligência artificial não pode pensar porque não se arrepia. Falta-lhe a dimensão afetivo-analógica, a comoção, que não pode ser captada por dados e informações.
Hoje nós corremos atrás de informações sem obter nenhum saber. Tomamos ciência de tudo sem chegar a nenhum conhecimento. Vamos a todos os lugares sem obter nenhuma experiência. Nós nos comunicamos ininterruptamente, sem participar de nenhuma comunidade. Armazenamos imensas quantidades de dados sem buscar memórias. Acumulamos friends e followers sem toparmos com outros. Assim, as informações desenvolvem uma forma de vida sem constância e duração.
O phono sapiens, que só quer vivenciar, desfrutar e brincar, diz adeus a essa liberdade no sentido de Hannah Arendt, que está vinculada à ação17. Aqueles que agem rompem com o existente e trazem algo novo, algo completamente diferente para o mundo. Ao fazer isso, eles devem superar uma resistência. O jogo, por outro lado, não intervém na efetividade. Agir é o verbo para a história. A pessoa do futuro que joga e não age encarna o fim da história.
Os infômatos, que nos aliviam de muito trabalho, acabam sendo informantes eficientes que nos vigiam e controlam. É assim que ficamos aprisionados na infosfera. No mundo controlado algoritmicamente, as pessoas perdem cada vez mais seu poder de ação, sua autonomia. Elas são confrontadas com um mundo que escapa a sua compreensão. Elas seguem decisões algorítmicas, mas não conseguem compreendê-las. Algoritmos se tornam caixas pretas. O mundo está perdido nas camadas profundas das redes neuronais às quais os humanos não têm acesso.
Cada época define a liberdade de forma diferente. Na Antiguidade, liberdade significa ser uma pessoa livre, ou seja, não um escravo. Na era moderna, a liberdade é internalizada como a autonomia do sujeito. É a liberdade de ação. Hoje, a liberdade de ação degenera em liberdade de escolha e consumo. A pessoa do futuro que não age se rende a uma “liberdade da ponta dos dedos”18. “As teclas disponíveis são tão numerosas que minhas pontas dos dedos nunca poderão tocar em todas elas. Tenho, portanto, a impressão de ser completamente livre para escolher”19
A foto analógica é uma coisa. Não raro, nós a guardamos cuidadosamente como uma coisa do coração. Sua frágil materialidade a expõe ao envelhecimento, à degradação. Ela nasce e padece a morte: “[…] como um organismo vivo, nasce da germinação de grãos de prata, floresce por um momento, para logo envelhecer. Atacada pela luz e pela umidade, ela se desvanece, desgasta-se e desaparece […]”40. A fotografia analógica também corporifica a transitoriedade no nível do referente. O objeto fotografado se afasta inexoravelmente para o passado. A fotografia enluta.
Vivenciar é, em termos abstratos, consumir informação. Hoje queremos vivenciar mais do que possuir, ser mais do que ter. O vivenciar é uma forma de ser. Assim, Erich Fromm escreve em Ter ou Ser: “Ter se refere às coisas […]. O ser refere-se a vivências […]”20. A crítica de Fromm de que a sociedade moderna estaria mais orientada para o ter do que para o ser não se aplica exatamente hoje, pois vivemos em uma sociedade de vivência e comunicação que prefere o ser ao ter. A velha máxima do ter não mais se aplica: quanto mais eu tenho, mais eu sou. A nova máxima da vivência é: quanto mais eu vivencio, mais eu sou.
Em Que é isso, a filosofia? Heidegger escreve: “O corresponder escuta a voz do apelo. O que como voz do ser se dirige a nós dis-põe nosso corresponder. ‘Corresponder’ significa, então: ser dis-posto, être disposé, a saber, a partir do ser do ente. […] O corresponder é – necessariamente e sempre, e não apenas ocasionalmente e de vez em quando – um corresponder dis-posto. Ele está em uma disposição. E, só com base na disposição (disposition), o dizer da correspondência recebe sua precisão, sua vocação [Be-stimmtheit]”58. O pensamento escuta; ele ouve e ausculta. A inteligência artificial é surda. Ela não percebe aquela “voz”.
Hannah Arendt, como Heidegger, adere à ordem terrena. Assim, ela frequentemente invoca a permanência e a duração. Não só as coisas do mundo, mas também a verdade têm de estabilizar a vida humana. Em contraste com a informação, a verdade possui uma solidez de ser. Ela se caracteriza pela duração e permanência. Verdade é facticidade. Ela resiste a todas as mudanças e manipulações. Assim, ela constitui o fundamento da existência humana: “A verdade poderia ser definida conceitualmente como aquilo que o ser humano não pode mudar; metaforicamente falando, é o fundamento sobre o que nos encontramos e o céu que se estende acima de nós”
A análise do Dasein de Heidegger em Ser e tempo requer uma revisão que leve em conta a informatização do mundo. O “ser no mundo” de Heidegger se dá como um “manejo” de coisas que estejam disponíveis, ou de “antemão” ou “à mão”. A mão é uma figura central na análise do Dasein de Heidegger. O “Dasein” de Heidegger (o termo ontológico para o ser humano) se abre ao meio ambiente por meio da mão. Seu mundo é uma esfera de coisas. Mas hoje vivemos em uma infosfera. Não manejamos as coisas passivamente, mas nos comunicamos e interagimos com os infômatos, e estes mesmos agem e reagem como atores. O ser humano agora não é um “Dasein”, mas um “Inforg”8 que se comunica e troca informações.
Sartre, também, ainda sabe o que significa ser tocado pelas coisas. O protagonista de A Náusea entra repetidamente em contato com as coisas, o que desencadeia nele um horror. “Os objetos, que não deveriam nos tocar, porque não vivem. Nós os usamos, colocamo-los em seu lugar, vivemos entre eles: eles são úteis, nada mais. Mas a mim, os objetos me tocam, é insuportável. Tenho medo de entrar em contato com eles, como se fossem animais vivos”82. No mundo de Sartre, o outro ainda está intacto. O outro como olhar é constitutivo da relação com o mundo. Mesmo o barulho dos galhos, uma janela semiaberta ou ligeiros movimentos das cortinas são percebidos como um olhar83. Hoje o mundo está completamente sem olhar. Ele não olha mais para nós. Ela perde sua alteridade.
O próprio regime neoliberal é smart. O poder smart não funciona com mandamentos e proibições. Ele não nos torna obedientes, mas dependentes e viciados. Em vez de quebrar nossa vontade, ele atende às nossas necessidades. Ele quer nos agradar. É permissivo e não repressivo. Ele não nos impõe o silêncio. Antes, somos constantemente incentivados e convidados a compartilhar e comunicar nossas opiniões, preferências, necessidades e desejos, a narrar nossa vida. Ele torna sua intenção de dominação invisível ao se achegar de mansinho como bastante amigável, apenas smart. O sujeito subjugado nem sequer está ciente de sua subjugação. Ele se sente livre. O capitalismo se aperfeiçoa no capitalismo do “curti”. Devido a sua permissividade, não precisa temer nenhuma resistência, nenhuma revolução.
A semelhança entre o smartphone e os objetos autísticos é inconfundível. Ao contrário do objeto de transição, o smartphone é duro. O smartphone não é um ursinho de pelúcia digital. Ao contrário, é um objeto narcisista, autista, no qual a pessoa se sente principalmente a si mesma. Como resultado, ele também destrói a empatia. Com o smartphone, nós nos retiramos para uma esfera narcisista que é protegida dos imponderáveis do outro. Ele torna o outro disponível, objetivando-o. Transforma Você em Isso. O desaparecimento do outro é precisamente a razão ontológica pela qual o smartphone nos torna solitários. Hoje, comunicamo-nos de forma tão compulsiva e excessiva precisamente porque estamos sozinhos e sentimos um vazio. Mas esta hipercomunicação não é satisfatória. Ela só aprofunda a solidão porque falta a presença do outro.
Vilém Flusser resume a nova situação do mundo dominada por informações da seguinte forma: “Não podemos mais nos sustentar nas coisas, e com informações não sabemos como fazê-lo. Tornamo-nos sem sustentação”13. Após o ceticismo inicial, Flusser pinta imagens utópicas do futuro. A ausência de sustentação inicialmente temida dá lugar à leveza flutuante do jogo. O ser humano do futuro, desinteressado pelas coisas, não é um trabalhador (homo faber), mas um jogador (homo ludens). Ele não precisa superar forçosamente as resistências da realidade material por meio do trabalho. Os aparelhos programados por ele assumem o trabalho. Os seres humanos do futuro são sem mãos: “Este novo ser humano que está nascendo ao nosso redor e dentro de nós é na verdade sem mãos. Ele não lida mais com as coisas, e é por isso que no seu caso não se pode mais falar de ações”14.
A fotografia analógica transfere os traços de luz que emanam do objeto através do negativo para o papel. Por sua própria essência, ela é uma imagem de luz. Na câmara escura, a luz nasce de novo. É, portanto, uma câmara clara. O meio digital, por outro lado, transforma os raios de luz em dados, ou seja, em proporções numéricas. Os dados são sem luz. Eles não são claros nem escuros. Eles interrompem a luz da vida. O meio digital rompe a relação mágica que conecta o objeto à fotografia através da luz. O analógico significa semelhante. A química tem uma relação análoga com a luz. Os raios de luz que emanam do objeto são preservados em grãos de prata. Por outro lado, não há nenhuma semelhança, nenhuma analogia entre luz e números. O meio digital traduz luz em dados. A luz é perdida no processo. Na fotografia digital, a alquimia dá lugar à matemática. Ela desencanta a fotografia.
De acordo com Heidegger, a história da filosofia é uma história da tonalidade afetiva fundamental. O pensamento de Descartes, por exemplo, é disposto pela dúvida, enquanto o maravilhar dá o tom ao pensamento de Platão. O cogito de Descartes é baseado na tonalidade afetiva fundamental da dúvida. Heidegger descreve a imagem da tonalidade afetiva da filosofia moderna da seguinte forma: “a ele [Descartes] a dúvida se torna aquela tonalidade afetiva na qual oscila a disposição ao ens certum, o ente na certeza. A certitudo torna-se a fixação do ens qua ens que resulta da indubitabilidade do cogito (ergo) sum para o ego do ser humano. […] A tonalidade afetiva da confiança no alcance a cada momento da absoluta certeza do conhecimento permanece o pathos e, com isso, a arché da filosofia moderna”61. O pathos é o começo do pensamento. A inteligência artificial é apática, quer dizer, sem pathos, sem paixão. Ela calcula.
A posse é, segundo Walter Benjamin, “a relação mais profunda que se pode ter com as coisas”24. O colecionador é o dono ideal das coisas. Benjamin eleva o colecionador a uma figura utópica, um salvador vindouro das coisas. Ele faz da “idealização das coisas” sua tarefa. Ele “se compraz em suscitar um mundo não apenas longínquo e extinto, mas, ao mesmo tempo melhor, um mundo em que o homem, na realidade, é tão pouco provido daquilo de que necessita como no mundo real, mas em que as coisas estão liberadas da servidão de serem úteis”25. Nesse futuro utópico, o homem faz um uso completamente diferente das coisas que já não são mais destinadas ao consumo. O colecionador como salvador das coisas se entrega à tarefa de Sísifo “de retirar das coisas, já que as possui, seu caráter de mercadoria”26. O colecionador de Benjamin está menos interessado na utilidade e no valor de uso das coisas do que em sua história e fisionomia.
As práticas que demandam dedicação de tempo prolongada estão desaparecendo hoje em dia. A verdade também demanda dedicação de tempo prolongada. Quando uma informação segue no encalço de outra, não temos tempo para a verdade. Em nossa cultura pós-factual de excitação, os afetos e as emoções dominam a comunicação. Em contraste com a racionalidade, eles são muito inconstantes em termos temporais. Assim, eles desestabilizam a vida. Confiança, promessa e responsabilidade também são práticas que demandam dedicação de tempo prolongada. Elas se estendem além do presente para o futuro. Tudo o que estabiliza a vida humana demanda dedicação de tempo prolongada. Fidelidade, vínculo e compromisso também são práticas que demandam dedicação de tempo prolongada. A desintegração das arquiteturas estabilizadoras de tempo, as quais incluem rituais, torna a vida instável. Para estabilizar a vida, uma outra política de tempo é necessária.