Katábasis - Guido Percu's Notes
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Katábasis

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Katábasis

Kindle Highlights

Werner,

atenienses

xarope de bordo

bater de asas negras

Campos de Asfódelos.

Se não fosse o cálculo.

as luminárias de mesa com cúpula verde,

datados por carbono como originários da Tessália.

Queria ser o pedaço de carne nas mãos de Saturno.

Contradição Verdadeira — explicou Elspeth. — A Dialeteia.

A felicidade plena é uma forma de estudo, dizia Aristóteles.

A raiz quadrada de sessenta e quatro nunca deixava de ser oito.

Alice emitiu um ruído que era um misto de risada e grito. Zenão

Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida, como dizia Sócrates.

parecia perfeitamente aceitável do ponto de vista moral. O melhor argumento

— Peter pulou de volta. Ele bateu com a mão na parede. — É uma escada de Penrose.

Eu trouxe Tolkien pra me fazer companhia. — Me dá duas horas, então. Me acorda pra

No fim, são apenas sensações, Alice Law. Dor ou prazer, imagens espelhadas uma da outra.

É como Borges disse: A certeza de que tudo já foi determinado nos anula, nos torna fantasmas.

A vida da mente, livre das imposições do comércio, era o único tipo de vida que valia a pena.

Se ficasse em silêncio, o encantamento não seria arruinado e não teria que recomeçar desde o início.

Viver é uma atividade que precisa de ação. Você tem que lutar por ela. Caso contrário, não está vivendo de fato.

Não havia resposta, apenas uma graça maravilhosa e inexplicável, e a única coisa a fazer para retribuir era viver.

Ora, com o Tribunal do Desejo. — Ele agitou os dedos no ar. — Luxúria e safadeza. Não quer conhecer Jezabel? Bate-Seba?

os celtas haviam desenhado grandes estruturas de giz ao redor de colinas e florestas inteiras para aprisionar seus inimigos. Mas

O que foi que Sócrates disse? Seus apelos são seguidos de súplicas, enquanto imploram que suas vítimas permitam que saiam do rio.

Os chineses acreditam que é possível ver o passado, mas não o futuro, explicou ela; portanto, só se pode caminhar de costas em direção ao futuro.

— O eterno retorno — murmurou Peter. — Tudo que já aconteceu vai acontecer de novo. — Não venha citar Nietzsche no meu barco — resmungou Elspeth.

Nada é melhor do que a felicidade eterna. Um sanduíche de queijo é melhor do que nada. Logo, um sanduíche de queijo é melhor do que a felicidade eterna.

Essas pegadas são do Flégias — afirmou Elspeth. — Uma divindade. Foi lançado no submundo por incendiar o templo de Apolo depois que o deus estuprou a filha dele.

E cheirava tão bem. Como páginas novas. Como aparas de lápis. Como ler na primavera sob um salgueiro-chorão, a luz do sol no rosto, a grama entre os dedos dos pés.

Maurits Cornelis Escher, arquiteto holandês que se tornou artista experimental, ficou famoso em meados do século XX por suas ilustrações de planos que não poderiam existir.

— Vão — encorajou o Senhor do Inferno. — Só tomem o cuidado de não olhar para trás. — Sério? — perguntou Alice. — Foi uma brincadeira — disse o Rei Yama. — Olhem o quanto quiserem. Vão.

Uma história tão antiga quanto o próprio tempo. Basta ver Aristóteles e Fílis. Merlin e Morgana. Os homens do nosso departamento nunca aprendem. São bestas famintas. Você está em Cambridge. Não sabia?

Aqueles que não tinham nada palpável de que se gabar eram os que se gabavam com mais alarde. Ficar em silêncio e ignorar a multidão tagarela era a prova de que você tinha algo real de que se orgulhar.

Vocês não leram A República? — questionou Gertrude. — Não conhecem o mito de Er? Ajax se torna um leão. Odisseu, um cidadão comum. Mas os ímpios não têm o direito de escolher. Os perversos sofrem na próxima vida.

“Linhas paralelas se encontram no Infinito!”, insistia Euclides, repetidamente, acaloradamente. Até morrer e assim chegar a tais paragens: onde ele descobriu que as malditas retas divergiam. piet hein , “Parallelism”

Davi perdeu seu reino por causa de Bate-Seba, os gregos entregaram tudo por causa de Helena, e o grande dr. Fausto, quando teve Mefistófeles à sua disposição, queria apenas usar seus novos poderes para seduzir Margarida.

Demônio de Laplace existe? — Claro que sim. Ele gosta de perambular pelo bazar e convencer as pessoas de que nada é culpa delas. Faz o progresso delas retroceder décadas. Vem por aqui, senão você vai se perder no meio da confusão.

Eles passaram por uma série de salas abarrotadas de livros. — Acumuladores — explicou Moore. — Por que alguém acumularia livros em uma biblioteca? — Pra provar que os encontrou — respondeu o homem. — Pra provar que sabe que existem. Pra provar que tem eles à mão. Mas ler? Aí já é demais.

Acho que a única maneira útil de empregar uma Contradição Verdadeira é levá-la de volta ao Senhor do Inferno. Foi assim que Orfeu barganhou por Eurídice. Perséfone ficou tão comovida com a música dele que lhe deu a primeira Dialeteia de presente, e então Hades teve que negociar com Orfeu para tê-la de volta.

O melhor argumento que Sócrates conseguiu formular contra o suicídio no Fédon foi que os seres humanos eram como posses dos deuses, e que eles ficavam irritados quando uma de suas posses se libertava da prisão mortal por meio da autodestruição. A proibição cristã do suicídio parecia ser apenas uma reformulação disso.

Os tartarólogos ocidentais preferiam o nome Lete por sua etimologia. Lete vem do grego lēthē (λήθη), que significa “esquecimento”, “apagamento”. E também tem conexões com a palavra grega alētheia (áλήθεια), que significa “verdade”, embora Alice não soubesse ao certo qual era a relação entre a verdade e o esquecimento.

Nós vamos estar aqui no fim. Vamos estar aqui quando o sol moribundo se apagar. Quando os exércitos de Gogue e Magogue se reunirem para atacar os santos do Céu, quando Fenrir engolir Odin por inteiro, quando Apófis devorar Rá e lançar tudo nas trevas, quando o mundo virar de cabeça pra baixo e sua crosta for lançada ao magma para renascer de novo, nós estaremos aqui.

Mas a questão naquele momento — já que não era mais movida pelo medo instintivo da morte, que não tinha nenhum motivo urgente para continuar correndo — era o que viria depois. Alice tinha um problema maior nas mãos: o sentido de viver. Viver significava um futuro, implicava algum fim teleológico, mas ela não conseguia entender qual era, afinal, o objetivo de continuar viva.

Restavam quatro tribunais: Violência, Crueldade, Tirania e o último — o tribunal derradeiro, sem nome. Orfeu se recusava a falar do lugar. Os relatos budistas o mencionavam apenas como o Inferno final, a morada de um mal desconhecido. Dante afirmava que era a heresia, mas, como em tantas coisas em seu relato, isso parecia apenas a doutrina cristã se intrometendo na história.

Alice considerou as opções. O breu assumiu uma sucessão de formas diante dela, como se estivesse apresentando as alternativas: Hades, alto e barbudo, empunhando um bidente e uma chave; Kali, a mãe das trevas, com seus quatro braços e sua grande beleza; o silencioso Anúbis, com sua balança ao fundo. — Rei Yama — decidiu. — Yanluo Wang. Era melhor se ater ao que lhe era familiar.

Ah, bobagem — respondeu Alice. — Estou chocada por ele nunca ter lido Carroll. — Mas na realidade esse é de fato um grande problema para a lógica! — Peter gesticulou. — Por que duas premissas nos obrigariam a aceitar a conclusão, ainda que sejam válidas? Ninguém tem uma boa resposta pra isso. Na verdade, não é possível provar o modus ponens. Mas se não tivermos o modus ponens, estamos na Idade da Pedra, porque ele é a base de todo o resto.

Primeiro: só se interessava por fazer a coisa mais difícil possível. Era nietzschiano nesse aspecto, não no sentido estranho e antissocial do Übermensch, que tantos jovens de Oxford haviam adotado. Era nietzschiano no sentido mais amplo, de acreditar que a vida só tinha propósito se estivesse sempre desafiando os próprios limites. E achava que só os professores de Cambridge poderiam ajudá-lo a atingir esses limites. Além do mais, não podia desperdiçar o tempo fazendo nada que não fosse seu melhor trabalho.

Ali estava escrito, em letras garrafais: defina o bem. — Não entendi — disse Peter. — É exatamente o que está escrito. — A Sombra acenou com a mão, impaciente. — Descubra, faça uma defesa oral e eles deixam você passar. — Mas descobrir o quê? — Law, olha. Peter pegou uma folha impressa que estava em cima da mesa. Alice deu uma olhada por cima do ombro dele. O título era “Leituras recomendadas”, seguido de uma lista de autores. Immanuel Kant. Jeremy Bentham. Herbert Spencer. — Olha só. Nietzsche — disse ele.

Platão havia defendido em Mênon uma teoria da anamnese: que as almas eram imortais, o conhecimento era inato e o aprendizado era apenas um processo de redescobrir o que fora esquecido. A razão serve para ancorar um conhecimento que sempre estivera lá. Quando um menino escravizado aprendia geometria, ele não estava fazendo uma descoberta, estava apenas se lembrando do que já sabia. Então, o que Platão diria de Alice? Será que ela estaria esquecendo apenas as verdades confusas que se interpunham no caminho da razão? Ou também estaria perdendo todo o conhecimento inato?

Na sacada estavam três divindades. Corpos altos e sinuosos, pele de mármore, vestidas com um tecido esvoaçante de um vermelho profundo. Grandes asas imponentes se projetavam de seus ombros. Alice compreendeu que deviam ser as Erínias: Alecto, Megera e Tisífone, criaturas ctônicas nascidas do sangue derramado pelo primeiro juramento quebrado, quando Cronos matou o próprio pai e lançou suas partes ao oceano. Uma para a ira, uma para a fúria e uma para a destruição sem fim. Os cabelos escuros e encaracolados ondulavam em torno do rosto delas. Eram todas incrivelmente belas.

Todo mundo sabia que quanto mais bonita era uma biblioteca, melhor o trabalho realizado nela. Bibliotecas bonitas significavam doadores, financiamento, tempo e recursos para reunir as melhores coleções. Mais importante ainda, bibliotecas bonitas colocavam você em determinado estado de espírito. Era possível abrir exatamente o mesmo conjunto de arquivos na Radcliffe Camera ou em um galpão sem graça, e ainda assim fazer um trabalho melhor na Rad Cam. O ambiente era importante. Você se tornava o pensador que o lugar esperava que fosse. Bibliotecas bonitas sussurravam: “Todos que passaram por aqui são muito importantes, e você também é.”

Deus não tem poder sobre nós — continuou Gertrude. — A moralidade é para os fracos. — Está bem, Raskólnikov — zombou o professor Bent. — Podem zombar à vontade — declarou Gertrude. — Mas eu acredito que Raskólnikov não foi longe o suficiente. Sua determinação vacila no final. Seu erro é que ele fraqueja, fica paranoico, deixa o policial invadir sua mente. Mas imaginem se tivesse mantido suas convicções! Imaginem se a idiota da Sônia e todo o seu moralismo cristão nunca tivessem entrado em cena. Sim, imaginem se a culpa não tivesse atrapalhado tudo. — Sim, temos ciência, todos nós lemos Nietzsche, Deus está morto e tudo o mais — disse o presidente.

Não era Aracne, nem a esposa do Imperador Amarelo. Uma divindade das estrelas, das penas e da saudade. — Você veio lá de cima — comentou Alice. Lembrou-se naquele instante. Não tinha se deparado com a Tecelã em nenhuma de suas pesquisas sobre o Inferno, mas sim em um seminário de graduação sobre mitologias traduzidas. A Tecelã, filha das estrelas, se apaixonou por um mortal, o Vaqueiro, mas esse amor foi proibido pelos deuses. Os dois só podiam se encontrar em um único dia do ano e, quando isso acontecia, um bando de pássaros, as pegas, formava uma ponte sob os pés deles. — Você é a deusa dos amantes que se reencontram. Amantes há muito separados.

Vamos usar o Paradoxo do Mentiroso. Sim, podia ser simples assim. Considere o seguinte exemplo: Esta afirmação é falsa. A simplicidade de sua quebra de lógica é devastadora. Você não pode acreditar nela. Nem pode desacreditá-la. Não há nenhum valor de verdade que possa ser atribuído a ela. Você está preso num limbo, jogado em um ciclo infinito de uma extremidade à outra da sentença. O Paradoxo do Mentiroso era um dos paradoxos mais antigos de todos os tempos, pois violava uma premissa central da lógica clássica: a lei do terceiro excluído. Uma afirmação deve ser verdadeira ou falsa, e nada além disso. Até os dias atuais, ninguém sabe como resolvê-lo.

Ofereço a vocês uma escolha, meus amantes. A mesma escolha. Podem escolher seguir sozinhos ou seguir juntos. Se escolherem seguir juntos, construirei uma ponte de estrelas para vocês. Se escolherem seguir sozinhos, atirarei os dois no Lete. — E se escolhermos coisas diferentes? — perguntou Alice. — Então, aquele que escolher seguir sozinho poderá cruzar a ponte quantas vezes quiser. Poderá transitar com segurança durante toda a sua jornada. Terá minha proteção contra tudo e contra todos. Nada o tocará. — A ponte oscilava, tremeluzia, dividindo-se em uma dúzia de caminhos que se ramificavam. — E o outro… Bem, digamos apenas que vai desejar o esquecimento.

E, no entanto, fazia todo o sentido. Lewis Carroll havia teorizado isso: de que outra forma poderíamos conceber a vida e a morte, a membrana da travessia, a não ser como continuidade? Mas ninguém tinha acreditado nele. Pegue uma tira de papel, torça-a no meio e una as extremidades. Muito bem. Agora você tem um anel, um objeto tridimensional que pode segurar nas mãos. Mas ele tem apenas um lado. O interior é contínuo com o exterior. Agora faça a mesma coisa com um lenço de quatro lados. Torça as bordas, alinhe-as e costure todas juntas, de modo que a parte interna seja contínua com a parte externa. Tudo é externo à bolsa, o que significa que tudo também é interno à bolsa e, portanto, a bolsa contém o mundo.

Pelo menos uma dúzia de acadêmicos havia feito a viagem e sobrevivido para contar a história de forma crível, mas pouquíssimos no último século. As fontes existentes eram pouco confiáveis em diferentes graus e, além disso, extremamente difíceis de traduzir. Dante se detinha tanto em indiretas rancorosas que se perdia no meio da exposição. T. S. Eliot havia fornecido algumas das descrições mais recentes e detalhadas das paisagens de que se tinha conhecimento, mas A terra devastada era tão autorreferencial que seu status como relato de um viajante era deveras questionado. As anotações de Orfeu, já em grego arcaico, estavam em grande parte em pedaços, assim como o restante dele. E Eneias — bem, era pura propaganda romana.

Dois princípios fundamentam toda a lógica clássica: são eles o Princípio da Não Contradição e o Princípio do Terceiro Excluído. O primeiro postula, de forma bastante simples, que duas proposições contraditórias não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Não é possível ter P e não P simultaneamente. Não pode ser verdade que está nevando e que não está nevando. Não pode ser verdade que Alice e Peter são amigos e que não são amigos. O gato de Schrödinger está morto ou não está. O segundo sustenta que ou uma proposição é verdadeira, ou é falsa. Não existe um meio-termo. Como afirmou Aristóteles, as frases podem ser ambíguas em seu significado, mas não em sua veracidade. Portanto, ou a afirmação de que Alice e Peter são amigos é verdadeira, ou é falsa. Essa afirmação não pode ser uma terceira coisa misteriosa.

Bem, acho que o maior equívoco sobre o budismo é essa ideia de que o carma funciona como uma grande planilha na qual a gente contabiliza os pontos no fim do dia. — Elspeth fez um gesto com a mão. — Mas não é como se você ganhasse quinhentos pontos bons e oitocentos pontos ruins, e então no Inferno tivesse que compensar um saldo negativo de trezentos pontos. Não é tão simples assim. O carma é mais como… Hum. Digamos que é como uma semente. Sementes crescem e se transformam em frutos. O carma é uma consequência natural. As coisas ruins se acumulam. Afetam a maneira como você vive, como enxerga as coisas. Quando faz coisas ruins, você passa a ver o mundo como um lugar mesquinho, egoísta e cruel. E o que você vivencia no Inferno é só o efeito cascata final da sua maldade primária. Você colhe exatamente o que plantou. Eu acho que o propósito daqui é mostrar toda a extensão daquilo que alguém desejou.

Schopenhauer argumentava que toda arte é meramente representacional e alegórica, exceto a música, que é a coisa mais próxima da vontade pura — contara Grimes. — Mas eu vejo nos nossos pentagramas algo semelhante à música. Não em sua total abstração dos fenômenos cotidianos, mas em sua capacidade de penetrar no cerne deles. Aquele plano da verdade, iluminado e límpido, no qual nada mais importa. É como Heisenberg falou, minha cara Alice: a física moderna decidiu a favor de Platão. As menores unidades de matéria não são objetos físicos no sentido comum, mas formas e ideias. E quando você tiver total domínio dessas ideias, quando puder segurá-las na palma da mão e torcê-las e manipulá-las como quiser, então terá se aproximado de Deus. Isso vai parecer meticuloso, sim. Insignificante, efêmero, pedante. Mas é mais um motivo para redobrar os esforços e agarrar cada precioso fiapo de verdade que vislumbrar.

Orgulho, superbia, arrogância. Hubris, o desafio aos deuses; māna, a mente envaidecida. Nenhum dos relatos dos viajantes mencionava uma biblioteca universitária, portanto, ela teve que voltar aos princípios fundamentais, às bases filosóficas. Repassou textos, imagens, tratados que residiam em sua mente. Ícaro, despencando do céu; Aracne, os membros se dividindo em oito. O que era o orgulho? Para Agostinho, o pecado original; para o papa Gregório, a raiz de todo mal. Para Platão, o Primeiro Tribunal punia aqueles que possuíam uma alma timocrática — a alma que professava amar a justiça, a honra e a beleza, mas que se preocupava mais em preservar a aparência dessas coisas do que em fazer os sacrifícios necessários para realizá-las de fato. Para Confúcio, o Tribunal do Orgulho abrigava os xiaoren, os homens mesquinhos, aqueles que buscavam os nomes das coisas, mas não sua essência. Um descompasso entre o significante e o significado — sim, era isso, o fio comum que perpassava todas essas teorias.

longo trecho de praia deserta, chegaram ao Tribunal da Ira. Dante descreveu o lugar como o pântano do Estige, povoado de almas nuas e furiosas mergulhadas no lodaçal, golpeando umas às outras e a si mesmas. Almas fervilhando com tanta intensidade que sua raiva fazia a superfície borbulhar. Alice estremecera ao ler essa descrição — “Este hino gorgolejam pela goela,/pois em sua fala o verbo não se integra” —, porque era a primeira vez que um poeta parecia entender que a ira não era algo meramente externo; não era apenas um tornado devastador de gritos e fúria. Às vezes, você a engolia feito um carvão em brasa. Outras vezes, ela te queimava lentamente, de dentro para fora, até você sufocar. Alice se lembrou das noites que passara acordada, vasculhando os cantos da memória e se enfurecendo —, mas isso nunca a deixara inflamada por justiça, apenas a asfixiara com sua própria impotência. Tudo isso aconteceu comigo, pensava, o mundo é injusto e eu não posso fazer nada. Talvez fosse melhor me jogar em um rio.

Ela recorreu ao repertório padrão. Em intervalos ao longo do terreno, traçou todos os paradoxos de movimento de Zenão: Aquiles e a tartaruga, Atalanta na pista de corrida, a flecha em voo. Se Atalanta quisesse atravessar uma pista de corrida — se as criaturas de osso quisessem atravessar a área até o penhasco —, teria primeiro que chegar à metade do caminho, depois à metade da metade, e então à metade da metade da metade. Mas se continuasse dividindo as distâncias pela metade, ela teria que realizar um número infinito de tarefas e, portanto, provavelmente não conseguiria sair do lugar. E se as criaturas ósseas quisessem se mover — se, como uma flecha, quisessem atravessar o espaço do ponto A ao ponto B —, teriam que lidar com o fato de que, em qualquer momento isolado, se você congelasse a imagem de seus movimentos, elas estariam paradas. O tempo que levariam para alcançar Alice era composto por esses momentos estáticos, mas isso significava que estavam sempre parados, e nunca se mexiam. E não poderiam machucá-la se não conseguissem sair do lugar. Tudo isso era bobagem quando se tinha conhecimentos de cálculo básico. Mas as criaturas de osso não sabiam cálculo.