Homo Ferox
Kindle Highlights
Nada de novo no front.
Humanos são animais bioculturais
Redução da pobreza e da desigualdade
Os genes carregam a arma, e o ambiente puxa o gatilho.
Ao todo, mais de 15 milhões de homens vivos hoje poderiam descender do Grande Khan,
Mas, como diz meu ídolo Robert Sapolsky, zebras normalmente não desenvolvem úlceras
(a própria palavra “tabu”, aliás, vem dos idiomas de Tonga e Fiji, colonizadas por austronésios
Heródoto de Halicarnasso em sua História, monumental relato dos conflitos entre gregos e persas.
There but for the grace of God go I (“Se não for pela graça de Deus, é para lá que eu também vou”,
a natureza é aquela senhora bondosa que inventou a tuberculose, o mosquito da dengue e os terremotos.
As pessoas só lutam por coisas imaginárias. Neil Gaiman, Deuses americanos A arte da guerra é teologia
dilema que é a cooperação entre um número grande de indivíduos pertencentes a grupos que não se conhecem,
possibilidades. Exemplos famosos são as tribos do Japão pré-histórico, os indígenas da região noroeste do
Pois um gene, dileto leitor, nada mais é que a sequência de letras de dna que contém a receita para uma proteína.
não estou falando apenas das guerras escravagistas das formigas (sim, algumas delas escravizam formigas de outras espécies).
O igualitarismo seria outra barreira: não há cadeias de comando capazes de mandar o sujeito para lutar ou morrer numa trincheira
em sociedades com dezenas ou centenas de milhões de habitantes, ser “irmão” dos outros cidadãos ou “filho” da pátria “mãe” é ficção pura.
no caso de uma disputa, simplesmente não havia árbitros legítimos e imparciais para resolver as coisas sem briga — decerto não no sentido formal.
Divertida mente. Sabe a entidade cerebral verdinha e com cara de adolescente entojada chamada Nojinho? Ela poderia muito bem ser a encarnação da ínsula
teoria da evolução e a psicologia social: ingroup (“grupo interno”, grupo ao qual você mesmo pertence) e outgroup (“grupo externo”, o grupo dos outros).
Plutarco, escritor grego responsável pela célebre coleção de biografias comparativas de grandes líderes de Roma e da Grécia, as chamadas Vidas paralelas.
“A Bíblia ensina como se vai para o Céu, mas não como vai o céu”, já dizia o velho e sábio Galileu Galilei, num trocadilho que funciona melhor em italiano,
A “seta da miscigenação” sempre aponta no sentido que destacamos: homens vitoriosos monopolizando as mulheres dos vencidos e escravizando ou matando os coitados.
O grande clássico sobre a lógica do pensamento evolutivo ainda é este DAWKINS, Richard. O gene egoísta. Trad. de Rejane Rubino. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Privado do repouso de Hipnos, muitas noites tresnoitei, após dias a fio de sanguinosas pelejas, por mulheres alheias pugnando com bravos. Ilíada, canto IX, 325-328
Uma excelente síntese da história e do estado da arte da ciência da genética MUKHERJEE, Siddhartha. O gene: uma história íntima. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
todos nós amamos odiar nossos adversários políticos/religiosos/ideológicos/esportivos. Não existe nada mais humano que retratar um oponente como algo menos que humano.
Existem muitos e bons livros sobre as origens da produção de alimentos — pessoalmente, acho que o clássico irrepetível sobre o tema é Armas, germes e aço, do brilhante Jared Diamond
Do ponto de vista estritamente racional e empírico, de novo, o agnosticismo — não afirmar nem negar categoricamente a existência desses fenômenos — parece mais sólido que a descrença categórica.
Em criaturas como nós, o material genético fica acondicionado numa embalagem complexa de proteínas e subdividido em estruturas que, ao microscópio, às vezes parecem novelos em forma de X: cromossomos
Durante a década de 2010, o terrorismo matou uma média de 21 mil pessoas por ano no mundo — ou menos de um décimo das mortes causadas pela pandemia de Covid-19 apenas nos Estados Unidos no ano de 2020.
Em essência, hormônios são mensageiros e controladores bioquímicos de longa distância, produzidos e enviados por fábricas especiais, as glândulas, para orquestrar processos importantes para o organismo,
Importante livro sobre os mal-entendidos que envolvem as origens biológicas dos comportamentos humanos PINKER, S. Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
Democracia, no entanto, é um negócio que só funciona se você não deseja ver seus oponentes políticos no gulag, no paredão ou debaixo das rodas do primeiro caminhão que dobrar a esquina. Caso o leitor não tenha
Para mim, o número não é importante. Eu só queria ter matado mais. Não para me gabar, mas porque acredito que o mundo é um lugar melhor sem selvagens por aí tirando vidas americanas. Chris Kyle, Sniper americano
“Quanto aos homens, penso assim: Deus os põe à prova para mostrar-lhes que são animais. Pois a sorte do homem e a do animal são idênticas: como morre um, assim morre o outro, e ambos têm o mesmo alento” (Ecl 3, 18-19).
o mesmo vale para muitos outros aspectos da cultura romana, como o direito, os poemas de Virgílio e aquela estranha fusão de seita judaica apocalíptica e cultura imperial dos Césares chamada Igreja Católica Apostólica Romana.
uma das raízes da violência endêmica em vastas regiões do Brasil — o fato de termos um Estado que é um Leviatã preguiçoso, picareta e ausente para quem vive nas favelas do Rio ou na zona rural da Amazônia, entre outros lugares.
Uma figura esculpida em marfim de mamute, achada numa caverna da Alemanha, destaca-se mesmo no meio de tantas obras-primas: a estatueta de 40 mil anos tem corpo humano e cabeça de leão. Olhar para ela é como ver o momento em que a mitologia nasceu.
A chave para entender o significado desse palavrão bioquímico é a terminação “-ase” do nome, que deixa claro que estamos falando de uma enzima, ou seja, uma molécula cuja presença facilita reações químicas de “quebra” de outras moléculas do organismo.[
Todos os livros do primatologista holandês Frans de Waal são recomendadíssimos, mas este ajuda a entender o ponto de vista sobre comportamento animal adotado aqui DE WAAL, Frans. Are We Smart Enough to Know How Smart Animals Are? Nova York: Granta, 2017.
“Quando as neves caem e os ventos brancos sopram, o lobo solitário morre, mas a alcateia sobrevive”, explica lorde Eddard “Ned” Stark à sua filha rebelde Arya na série Game of Thrones (um lobo gigante é o brasão da família Stark no mundo criado por George R. R. Martin).
quanto mais machos adultos num bando, maior a taxa de mortes violentas. Os machos são, de longe, os principais agressores (em 92% dos casos, número que se aproxima assustadoramente do que vemos em seres humanos) e as principais vítimas (73% dos mortos são do sexo masculino).
Acontece que pastores só são gente pacífica e bucólica nos poemas meio bregas produzidos pelos literatos de Minas Gerais no século xviii. Rebanhos são riqueza móvel facilmente furtada, e culturas pastoris mundo afora são famosas pelo vigor com que se dispõem a retaliar ameaças.
há evidências experimentais de que isso acontece na vida real: pessoas que leem ficção rotineiramente têm capacidades mais refinadas de empatia, conseguindo inferir melhor os estados mentais de outras pessoas com base em poucos indícios, como a expressão facial em torno dos olhos.
Argumentação sólida, ainda que não isenta de problemas (e gigantesca em número de páginas) em favor de um declínio importante da violência humana nos últimos séculos PINKER, Steven. Os anjos bons de nossa natureza: por que a violência diminuiu. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
a interação online remove as inibições naturais que temos ao lidar com as demais pessoas. É por isso que fica muito mais fácil bancar o valentão e despejar sobre um completo desconhecido uma torrente de xingamentos que o sujeito jamais, em tempo algum, teria coragem de emitir na vida real.
Mas a situação mudaria muito de figura quando os cristãos se tornassem a força religiosa dominante do Império Romano algumas centenas de anos mais tarde, e o retrato hostil dos judeus no Evangelho de João (e em outros textos) acabaria sendo uma das inspirações para milênios de antissemitismo.
A chave é fazer a pessoa entender que todo mundo sabe muito pouco sobre as implicações práticas de qualquer decisão política. Com sorte, isso pode recalibrar a conversa e transformar potenciais inimigos em pessoas que estão buscando o bem comum de seu ingroup juntas, apesar dos abismos entre elas.
Os hinos nacionais, assim como as reformas de Clístenes, são instrumentos culturais cujo objetivo é fazer com que parentescos fictícios transmitam uma sensação de realidade, liberando inclusive os mesmos hormônios e neurotransmissores provocados pelos parentes de verdade, se a manipulação der certo.
“Acredito que o fator determinante das guerras não tenha sido o sedentarismo e a agricultura, mas a densidade das populações. Quando essa densidade aumenta, independentemente de serem populações de agricultores ou caçadores-coletores, se os recursos não forem suficientes, haverá competição e conflito”,
afirmar que os califas equivaliam a uma mistura de imperador com papa, embora a analogia seja imperfeita: eles não eram propriamente responsáveis pela formulação da ortodoxia islâmica, por exemplo, processo que estava mais a cargo da coletividade de especialistas na lei religiosa do Islã, os chamados ulemás.
Nunca é demais indicar outra vez o mais recente livro de mestre Sapolsky, (publicado no Brasil com o título Comporte-se) em especial pela clareza com que discute a conexão entre neurologia e endocrinologia SAPOLSKY, Robert M. Behave: the biology of humans at our best and worst. Nova York: Penguin Press, 2017.
Para os interessados num resumo mais simples, mas ainda assim confiável, sobre a chamada Revolta da Vacina, há este texto no portal da Fiocruz AGÊNCIA FIOCRUZ DE NOTÍCIAS. A Revolta da Vacina. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/noticia/revolta-da-vacina. Acesso em: 31 maio 2021.
Em poucas palavras: acredito (e nisso, creio que estou em boa companhia) que só vamos conseguir entender os elementos básicos do comportamento humano ao longo da história se adotarmos a perspectiva da biologia evolutiva e a mesclarmos, da forma mais harmoniosa possível, com os aspectos empíricos das ciências humanas.
Em resumo, divindades com o poder e o desejo de monitorar o comportamento humano e punir malfeitores são típicas de sociedades complexas e de grande escala, como as que são regidas por Estados. É dessa observação que vem a hipótese dos big gods, ou “deuses grandes”, formulada por Ara Norenzayan em seu livro homônimo. Por
Populações mais densas tendem tanto a explorar os recursos de um ambiente com mais intensidade quanto a disputar esses recursos de modo mais ferrenho — inclusive por meio do expediente de “sentar em cima” desses recursos para que ninguém ouse colocar as patas neles, o que explica, em grande medida, a gênese do sedentarismo.
O mecanismo por trás desses comportamentos não é tão complicado de entender. Sem a faxina de neurotransmissores proporcionada pela enzima, as sinapses dos portadores da mutação tenderiam a ficar sobrecarregadas, levando a problemas de sinalização neuronal e de funcionamento do cérebro que desembocariam em seu comportamento violento
Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, pois todos vós, que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus. E se vós sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa.
Todo falante da língua portuguesa precisa conhecer ao menos um pouco da obra do padre Antônio Vieira, maravilhar-se com o esplendor de sua linguagem e ficar boquiaberto com a sua capacidade de racionalizar o absurdo em certos textos BOSI, Alfredo (org.). Essencial padre Antônio Vieira. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.
Até meados do século xix, por exemplo, políticos dos Estados Unidos discutiam seriamente se era uma boa ideia permitir a imigração de raças “não brancas” para o país, como… irlandeses, italianos e judeus. Brancos “de verdade”, aparentemente, eram apenas os europeus de origem germânica e fé protestante. Por outro lado, porém, o etnocentrismo
Em algumas situações e culturas, “homem de verdade” é aquele sujeito que não leva desaforo para casa; em outras, pode ser o que se sobressai em cortesia, elegância, noblesse oblige (já houve épocas e lugares em que ambas as coisas foram importantes para o que se considerava excelência masculina — pense na França do século xvii, por exemplo).
Com efeito, se a nossa trajetória como espécie tem mais ou menos 300 mil anos, conforme já vimos, isso significa que passamos pelo menos 97% desse tempo como caçadores-coletores — sem contar os 6 milhões de anos anteriores da pré-história dos hominínios, que fariam a balança pender ainda mais em favor do estilo de vida baseado na coleta e na caça.
Sendo um filme infantil, é claro, Divertida mente não chega ao ponto de mostrar as consequências mais sombrias de uma ínsula hiperativa. Como veremos em capítulos vindouros, quando um demagogo consegue incitar multidões enfurecidas a praticar limpeza étnica, é essa região cerebral que lhes permite enxergar outras pessoas como “menos que humanas”: ratos, vermes, lixo.
Em Os anjos bons da nossa natureza, monumental livro sobre a redução da violência ao longo da história, o psicólogo canadense Steven Pinker aponta, entre as forças benfazejas que impulsionaram esse processo, um elemento surpreendente: a ascensão do romance: as narrativas de ficção em prosa, que se transformaram em fenômeno de massa no Ocidente a partir do século xviii.
O melhor guia sobre a biologia do comportamento humano para o público leigo feito até hoje. Para o livro, consultei a edição original, americana. Mas hoje já existe uma edição em português, Comporte-se: a biologia humana em nosso melhor e pior (Companhia das Letras, 2021) SAPOLSKY, Robert M. Behave: the Biology of Humans at Our Best and Worst. Nova York: Penguin Press, 2017.
especialização, além disso, costuma ser acompanhada da desigualdade, por alguns motivos simples. Em muitos casos, o excedente de alimentos pode ser monopolizado. O que acontece, por exemplo, se um grupo de sujeitos parrudos liderados por um brutamontes um pouco mais esperto consegue se apoderar do celeiro onde todo o trigo da vila foi depositado? Eis que nasce uma dinastia, ora.
Dois importantes neurocientistas brasileiros, Suzana Herculano-Houzel e Roberto Lent, são responsáveis pela conta mais exata já feita sobre o número de neurônios no cérebro de seres humanos e outros mamíferos, e um bom relato sobre esse trabalho está nesse livro HERCULANO-HOUZEL, Suzana. A vantagem humana: como nosso cérebro se tornou superpoderoso. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
aliás, a tese de que os romanos eram especialmente benquistos pelo Olimpo e pelas demais divindades, e por isso tinham adquirido territórios tão vastos, era um dos motores ideológicos da propaganda imperial. Ao não participarem dos ritos que garantiriam a continuidade desse êxito, os cristãos podiam acabar atraindo a punição divina contra a sociedade como um todo, afirmavam seus detratores.
O Duce (“líder”, em italiano), como era conhecido o chefe supremo dos fascistas, conseguiu ainda costurar o acordo diplomático que criou o atual Estado do Vaticano, devolvendo aos papas um território soberano (ainda que minúsculo) depois de décadas de uma situação precária na qual os pontífices viviam brigados com a Itália unificada, cuja capital, Roma, a própria Igreja reivindicava como sua.
Ao que parece, um índice de homicídios por 100 mil habitantes típico da Idade Média giraria em torno de 45 mortes por 100 mil habitantes — 50% superior, portanto, ao elevado número de mortes violentas registrado no Brasil em 2017, que foi de 31,6 assassinados por 100 mil habitantes. Na hoje pacata cidade universitária inglesa de Oxford, esse número chegou a 110 mortos/100 mil na década de 1340.
influência do ambiente, pelo que os biólogos andaram descobrindo, é capaz de alterar a chamada expressão gênica, ou seja, quando, como e onde os genes são lidos pelo organismo. Assim, ainda que o contexto ambiental normalmente não seja capaz de alterar seu dna, ele é certamente capaz de mudar quais pedaços do seu genoma estão “ativos”, o que, em termos de efeitos práticos, é quase a mesma coisa.
o peso dos cromossomos Y de origem europeia é desproporcional mesmo em nações muito miscigenadas, como o Brasil. Um estudo recente, que analisou o dna de mais de 1.200 homens de todas as regiões do país, estima que quase 90% das linhagens brasileiras do Y tenham vindo da Europa. É altamente improvável que tamanha vantagem reprodutiva de homens europeus e seus descendentes tenha sido obtida de modo pacífico
Quando surgem os contatos culturais de larga escala, o sincretismo se fortalece e não escandaliza ninguém. Assim como estamos habituados a identificar o Zeus dos gregos com o Júpiter dos romanos, os próprios gregos também passaram a dizer que Amon, ou Amun, divindade egípcia, equivalia a Zeus, ou que o deus fenício Melqart, da cidade de Tiro, correspondia a Héracles, ou Hércules, na forma derivada do latim que usamos.
(Não, você não leu errado — é “hominínios” mesmo. Sei que o termo consagrado e ainda muito utilizado em português é “hominídeos”; trata-se, porém, de uma nomenclatura desatualizada. “Hominídeos” é um termo da época em que se achava que os seres humanos modernos e seus ancestrais podiam ser classificados numa família taxonômica exclusiva deles, mas hoje todos os grandes símios são considerados membros da família também.
Cálculos feitos a partir de dados do século xix indicam uma expectativa de vida de 19 anos para os cativos nascidos no Brasil (contra quase 30 anos da população livre), que pode ser creditada, em grande parte, a uma mortalidade infantil de 40% (lembre-se de que a expectativa de vida é calculada com base na idade média de mortes da população — o número não significa que os escravizados morriam quase sempre no fim da adolescência).
Mas só o uso da força normalmente não é suficiente para manter essas unidades sociais grandalhonas juntas. Mecanismos culturais e políticos que atuem como “cola” simbólica — mitos, lendas, narrativas, bandeiras, hinos nacionais, a parafernália toda — costumam ser indispensáveis para que pessoas díspares continuem acreditando que são parte de algo maior que o grupo de seres humanos de pequena escala com o qual convivem no dia a dia.
têm aparecido exemplos de que esse tipo de modulação epigenética[ 24 ] pode ser transmitido de geração em geração — bem, ao menos por algumas poucas gerações; não está claro ainda quão duradouro pode ser o efeito da coisa. Tem gente que chama o fenômeno de herança neolamarckista, em homenagem ao maior saco de pancadas da teoria da evolução, o naturalista francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, chevalier (cavaleiro) de Lamarck
Ursula K. Le Guin, em seu livro No time to spare, colocou os pingos devidamente nos is ao rebater a ideia da seguinte maneira: “Quanto à acusação de escapismo, o que o escape significa? O escape da vida real, da responsabilidade, da ordem, do dever, da reverência — é isso que a acusação implica. Mas ninguém, exceto os mais criminalmente irresponsáveis ou pateticamente incompetentes, escapa para a prisão. A direção do escape é rumo à liberdade”.
Sir William Gerald Golding (1911-1993), o britânico que escreveu O senhor das moscas, que citei na epígrafe desta introdução, colocou as coisas da maneira mais clara possível em um de seus ensaios, refletindo sobre as atrocidades da Segunda Guerra Mundial: “Essas coisas […] foram cometidas de forma habilidosa, fria, por homens educados, médicos, advogados, homens com uma tradição de civilização por trás deles, contra seres de sua própria estirpe
Não me entenda mal — não acho que J.R.R. Tolkien não enxergue a ambivalência ética da guerra. Pelo contrário: sua obra de ficção é perfeitamente capaz de retratar com empatia até os inimigos mais malignos, ao contrário do que dizem muitos de seus críticos. Mas a reação instintiva à passagem, minha e de incontáveis sujeitos que nunca derramaram sangue na vida (graças a Deus), é de cantar e matar junto com os cavaleiros de Rohan, ainda que só na imaginação
ccns às vezes têm de enfrentar períodos sérios de escassez, mas, em geral, não passam fome e não precisam se matar de sol a sol para achar comida. De fato, costumam ter saúde e “qualidade de vida” (horas de lazer versus de trabalho, por exemplo) mais equilibradas do que as de agricultores pré-modernos. A vida deles é de “afluência sem abundância”, como diz o título do simpático livro do antropólogo britânico James Suzman sobre os !Kung e outros forrageadores do Kalahari.
morrer para proteger um filho ou um neto acaba garantindo que versões dos mesmos genes que, em grande medida, são responsáveis pela sua identidade biológica continuem se propagando por milênios. Eis a essência da chamada seleção de parentesco, como é conhecido esse aspecto da seleção natural. A seleção de parentesco, como vimos, baseia-se na aptidão inclusiva: a ideia de que a tal “sobrevivência dos mais aptos” dos livros de biologia inclui tanto o indivíduo quanto seus parentes próximos.
Todos esses mecanismos minam o consenso acerca de fatos básicos, que é uma das chaves do processo democrático. Falo aqui tanto da concordância sobre como o mundo realmente funciona — do tipo “a Terra é redonda”, “vacinas salvam vidas” — quanto dos objetivos mínimos de um governo democrático, como liberdade de pensamento, rede de proteção social, ausência de discriminação racial e religiosa (um consenso que, vale ressaltar, já não era a coisa mais sólida do mundo em países tão desiguais quanto o nosso).
É verdade que, em algumas doenças ditas monogênicas ou mendelianas (em homenagem, claro, ao abade agostiniano Gregor Mendel, fundador do estudo moderno da genética no século xix — aquele das ervilhas), problemas num único gene podem levar a efeitos seríssimos no sistema nervoso, incapacitando uma pessoa para o resto da vida. Mas esse tipo de problema severo acontece, em geral, porque o gene afetado é uma espécie de “chave mestra” de processos cruciais do organismo, daí os efeitos catastróficos de mexer com ele.
Segundo o pesquisador, os deuses grandes são uma adaptação do fenômeno religioso ao contexto peculiar das sociedades de grande escala, cujos desafios examinamos no capítulo anterior. Ou, dependendo de como “lemos” as evidências arqueológicas, os deuses grandes poderiam até ter ajudado a criar as sociedades de grande escala, no sentido de que a crença neles é que teria permitido a interação cooperativa e pacífica entre milhares de completos desconhecidos que caracteriza a existência de cidades, Estados e impérios.
O único critério do sucesso nesse sentido muito estrito é a capacidade de produzir mais cópias de si mesmo. Nada disso tem necessariamente algo a ver, portanto, com sofisticação intelectual, capacidade de produzir seres humanos mais felizes e equilibrados, retidão moral etc. Não equivale a “superioridade” em qualquer sentido usual. Quem acha que culturas ocidentais, basicamente de matriz europeia, dominaram a maior parte da Terra nos últimos quinhentos anos simplesmente porque são “as melhores” precisa ter isso em mente.
Há alguns indícios, vindos de documentos históricos dos dois lados, de que isso não foi só pura sorte ou autocontrole racional. A enormidade do que poderia vir a ser um apocalipse nuclear, somada aos resultados profundamente palpáveis e aterradores do único uso dessas armas contra seres humanos nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, teria criado uma mentalidade próxima do tabu religioso quanto ao uso de tais bombas. Em certo sentido, nossa humanidade passou a ser definida pela capacidade de não usar armas nucleares.
Excelentes apanhados sobre o Brasil colonial, com especial atenção às conexões entre escravidão indígena e africana e a economia, podem ser encontrados gratuitamente no podcast e no canal no YouTube do historiador Thiago Nascimento Krause, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) THIAGO KRAUSE. Disponível em: https://www.youtube.com/user/thiagokrause. Acesso em: 25 maio 2021. História do Brasil Colonial [podcast]. Disponível em: https://open.spotify.com/show/5YXFuBBxnnxOg39KmvEi7l. Acesso em: 25 maio 2021.
A pressão dos movimentos abolicionistas nos jornais, nas ruas e na política eleitoral, muitas vezes liderada por intelectuais negros como André Rebouças e José do Patrocínio, conseguiu a aprovação da Lei Áurea quando o Brasil estava sozinho ao ser o único país escravista do continente americano. Nesse processo, realizado aos 45 do segundo tempo, não faz muito sentido pensar em dom Pedro ii e na princesa Isabel como libertadores: eles apenas se renderam à tendência inevitável da economia e das relações geopolíticas do fim do século xix.
Os criadores dos primeiros rudimentos de instituições estatais muito provavelmente não passavam de brutamontes dotados de inteligência maquiavélica e instintos mafiosos, cobrando das populações dominadas tributos que eram pouco mais que uma “taxa de proteção”, mais parecida com as extorsões praticadas pelo crime organizado do que com o iptu ou o ipva. Enchiam suas fortalezas com espadas finamente decoradas, estábulos para seus animais e joias para suas esposas e concubinas, e ai do súdito que se recusasse a lhes fornecer suas filhas mais bonitas.
No lugar da organização social primeva de bandos e grupos regionais, surgiram primeiro as tribos, com milhares de membros e chefes mais ou menos permanentes (mas não hereditários nem incontestes); depois as chefias ou os cacicados, tipicamente com dezenas de milhares de membros, liderança hereditária, embriões de uma nobreza de sangue e construção de monumentos; e, por fim, o que ainda chamamos de Estados: centenas de milhares ou milhões de membros, burocracia, cobrança de impostos, registros escritos, guerras de larga escala, formação de impérios
Trata-se de um indicativo muito forte de que o conteúdo da opinião importa menos do que a sinalização de pertencimento ao grupo representado por Trump. Como o que importa é o sinal transmitido, e não o conteúdo, as coisas mais imbecis e contraproducentes acabam sendo politizadas, com resultados catastróficos. Foi o que vimos durante a pandemia de Covid-19, com a transformação do uso de máscaras, uma das poucas medidas eficazes e baratas contra o vírus Sars-CoV-2, em suposta marca de capitulação à esquerda e perda das liberdades individuais. Existem maneiras
Em primeiro lugar, convém ter em mente, mais uma vez, o quão “antinatural” é viver sob a égide de uma entidade política capaz de regular, de modo (supostamente) legítimo, a vida de milhões de pessoas, julgando e punindo os crimes que algumas delas cometem, fazendo incidir impostos sobre os bens que elas têm e consomem, ordenando que elas enviem seus filhos para a escola e os vacinem — enfim, você entendeu, a lista é grande. Essas e outras atribuições de um Estado moderno (ou antigo/medieval/da Renascença) foram, é claro, inventadas em algum momento do passado.
Esse seria o diferencial que os deuses grandes trazem para as sociedades complexas, segundo essa linha de pesquisa: com a ajuda deles, é possível confiar em desconhecidos — desde que eles acreditem no(s) mesmo(s) deus(es) que você — em níveis suficientes para que uma cidade-Estado ou um grande império funcionem. Minimiza-se, assim, a um custo relativamente baixo, o risco de coisas como taxas desenfreadas de criminalidade ou guerras civis fratricidas o tempo todo, ainda que esses males não sejam magicamente eliminados só porque existe uma igreja em cada esquina.
O mais curioso é que mesmo esse tipo peculiar de ingroup aparentemente não consegue subsistir sem alguma menção, por mais hipócrita que seja, a uma identidade e um código de conduta comuns. Os “salves” (comunicados “oficiais”, até onde isso é possível) emitidos em papel ou enviados em mensagens de WhatsApp pelas lideranças do pcc sempre citam os objetivos de “paz, justiça e liberdade” para os “irmãos do crime”, pedem colaborações para pagar advogados e sustentar as famílias dos membros que estão presos, criticam a “covardia” das forças policiais e de seus adversários.
O significado disso é importantíssimo: de modo geral, não faz sentido nenhum falar em “gene do vício em compras”, “gene do gosto por rock/pagode/funk proibidão” e tampouco, pelo amor de Deus, em “gene da homossexualidade”. São características complexas demais para serem influenciadas decisivamente por um único trechinho de dna — tanto que estudos sobre esse tema, por mais que peneirem o genoma de centenas de milhares de pessoas, normalmente acabam achando elos entre as características estudadas e ao menos centenas de genes, cada um com efeito inferior a 1% da variabilidade humana.
Foi assim que nasceram os cinco livros que compõem The Once and Future King (O único e eterno rei, na tradução algo imprecisa das edições brasileiras que saíram até agora). Assim como O Senhor dos Anéis, é uma obra escrita por um autor que gostava de iniciais na capa dos livros — T. H. (Terence Hanbury) White —, uma narrativa que nasce com sabor infantojuvenil e se transforma de modo inexorável conforme progride, atraída pela força gravitacional do sublime e do horrendo. Nessa versão da história, cujos primeiros momentos foram adaptados pela Disney na animação A espada era a lei, de 1963,
O primatologista e neurobiólogo Robert Sapolsky, da Universidade Stanford (eua), um de meus heróis científicos, resume tudo isso de forma poética e elegante neste parágrafo de seu mais recente livro, chamado Comporte-se, publicado em 2017: Em vez de funcionar com base em causas simples, a biologia funciona o tempo todo com base em propensões, potenciais, vulnerabilidades, predisposições, inclinações, interações, modulações, contingências, cláusulas do tipo “se… então”, dependências de contexto, exacerbação ou diminuição de tendências preexistentes. Círculos e voltas e espirais e fitas de Möbius.
a britânica Jane Goodall, foi testemunha ocular de outra guerra, a chamada Guerra dos Chimpanzés de Gombe, na Tanzânia. Durante quatro anos, dois bandos de chimpanzés que antes tinham feito parte do mesmo grande grupo, batizados de Kasakela e Kahama, enfrentaram-se em escaramuças sangrentas de fronteira (ou “reides”, se você quiser usar o termo técnico).[ 07 ] No fim das contas, todos os machos adultos do grupo Kahama foram eliminados por seus rivais do Kasakela. Algumas fêmeas do bando derrotado sofreram o mesmo destino, enquanto outras foram incorporadas ao grupo vitorioso, o qual, por fim, ampliou seu território anexando o dos vencidos.
última grande batalha de Théoden, rei de Rohan (a tradução é minha): Seu escudo dourado estava descoberto, e eis que ele brilhava como uma imagem do Sol, e a grama flamejou em verde à volta das patas brancas de seu corcel. Pois a manhã veio, a manhã e um vento do mar: e a escuridão foi removida, e as hostes de Mordor gemeram, e o terror as tomou, e elas fugiram, e morreram, e os cascos da ira cavalgaram por sobre elas. E então toda a hoste de Rohan irrompeu em canção, e eles cantavam enquanto matavam, pois o regozijo da batalha estava neles, e o som de seu cantar, que era belo e terrível, chegou até mesmo à Cidade. E eles cantavam enquanto matavam.
Sim, “jovens” é outra palavra-chave na presente discussão. Gente do sexo masculino com idade entre 15 e 30 anos parece ser a fatia demográfica crucial aqui. No mundo todo, rapazes nessa faixa etária correm o dobro do risco de serem assassinados quando comparados a homens entre 45 e 60 anos — e enfrentam risco seis vezes mais alto de morte violenta do que meninos abaixo dos 14 anos de idade. De novo, os dados sobre quem mata são menos confiáveis do que os que existem sobre quem morre, mas tudo o que sabemos sugere fortemente que jovens adultos do sexo masculino predominam entre os assassinos no mundo todo — e também entre a população que comete crimes violentos, de maneira geral. MORTE
a taxa de violência letal entre H. sapiens permaneceu num nível estatisticamente indistinguível do esperado — o número mágico dos 2%, de acordo com nossas raízes primatas. E parece que, conforme o modo de vida paleolítico foi chegando ao fim, houve uma mudança nesse padrão, com taxas de agressão mortal aumentando aos poucos, com algumas idas e vindas, até chegarem a 6% na Idade do Ferro no Velho Mundo (a partir de 3.200 anos atrás; um aumento muito semelhante aconteceu no Novo Mundo bem mais tarde, a partir de 1.500 anos antes do presente). Os continentes do lado de lá do Atlântico estavam na era dos gregos de Homero, do surgimento das tribos israelitas no Oriente Médio, dos celtas e germanos na Europa Ocidental.
No território helênico, o fim dos duelos aristocráticos entre “heróis” que arremessavam lanças, descritos por Homero, levou ao surgimento de exércitos compostos por massas de soldados de infantaria pesadamente armados, os hoplitas (por isso, esse processo às vezes é chamado de Revolução Hoplítica). O grosso desse novo tipo de força de combate era formado por donos de pequenas propriedades de terra e artesãos, que lutavam em formação fechadinha, com os escudos colados uns aos outros e as lanças em riste. Era uma forma simples e relativamente igualitária de guerra, que premiava a coesão entre os soldados — era muito difícil romper a muralha de escudos formada por hoplitas determinados — e o combate decisivo em campo aberto.
Afinal, para que essas novas encarnações dos grupos humanos funcionassem, era preciso que emergisse a interação pacífica e relativamente confiável entre gente que não tinha parentesco nenhum entre si, não tinha relações de amizade, não possuía informações sobre a reputação dos demais membros do novo grupo social e, aliás, possivelmente cruzaria com os ditos-cujos apenas uma vez na vida, ou nunca. Um legionário romano, neto de colonos que tivessem ido para a Bretanha (atual Inglaterra), muito provavelmente passaria a vida inteira sem colocar os pés na própria Roma e sem falar com um romano “nato”. O único jeito de impedir que essas unidades sociais comparativamente imensas se esfacelassem seria reforçar os laços simbólicos entre seus membros.
Mas as lavouras europeias no litoral e no planalto paulista, insaciáveis por mais e mais braços de cativos, rapidamente esgotaram o fornecimento de mão de obra que era possível conseguir por meio das guerras “justas” ou dos conflitos tradicionais dos Tupi, e boa parte dos colonos, de seus filhos mestiços gerados com índias e das tribos que eles tinham subjugado se transformou em caçadores de escravos, buscando “o remédio para sua pobreza no sertão”, como se dizia na época — porque, afinal, pobre era todo homem que não tivesse escravizados que trabalhassem para ele. Esse fenômeno está na raiz dos que chamamos hoje de “bandeirantes”. Com efeito, as primeiras gerações de moradores de São Paulo eram, acima de tudo, especialistas em capturar e escravizar gente.
Um dos trabalhos mais completos sobre a origem e evolução da guerra GAT, Azar. War in human civilization. Oxford: Oxford University Press, 2008. Obra clássica, importante (e ainda controversa) sobre a “guerra primitiva” KEELEY, Lawrence H. A guerra antes da civilização: o mito do bom selvagem. São Paulo: É Realizações, 2011. Visão menos pessimista sobre as raízes da violência humana FRY, Douglas. War, peace, and human nature: the convergence of evolutionary and cultural views. Oxford: Oxford University Press, 2013. Outra visão geral sobre as origens da guerra com uma análise muito clara, ainda que um pouco simplificada, de como ela pode ganhar escala com a complexidade social MORRIS, Ian. Guerra: o horror da guerra e seu legado para a humanidade. São Paulo: Leya, 2015.
A partir de agora, eis que este pingente de marfim de mamute pendurado no meu pescoço não apenas é bonitinho, mas também significa que eu sou membro da valorosa tribo dos Guerreiros-Mamutes, ou coisa que o valha. Se você carrega o mesmo pingente, ele é um sinal visível das conexões invisíveis que existem entre nós, assim como um escapulário ou uma camisa do Santos servem de emblema de pertencimento para quem os usa e de reconhecimento para quem os vê em correligionários ou companheiros torcedores. Pertencimento, reconhecimento e também fronteira, barreira e desafio para quem não é portador dos mesmos sinais visíveis de conexões invisíveis: aquilo que circunscreve e une um grupo também tem o potencial de lançar longe, simbolicamente, aqueles que não pertencem àquela unidade social.
um estudo recente assinado por pesquisadores da Universidade Stanford (eua) usa modelos matemáticos e análises etnográficas para propor que a ascensão de clãs de guerreiros tribais ao longo do Neolítico poderia estar por trás do mistério. O que sabemos sobre sociedades agropastoris relativamente simples, do tipo que existia antes do surgimento de Estados, indica que clãs desse tipo, formados a partir da suposta descendência de um ancestral comum masculino, eram bastante frequentes. Basta pensar nas tribos do Israel bíblico, descendentes, em tese, dos doze filhos do patriarca Jacó; ou, entre os gregos da Antiguidade, no fato de que quase todos os reis do Peloponeso, a península mais ao sul do território helênico, diziam pertencer a algum ramo dos heráclidas, o clã dos descendentes de Héracles (o nosso Hércules).
Além disso, há bons indícios de que a desigualdade brutal em si, além da pobreza propriamente dita, também é problemática. Em sociedades menos desiguais, a confiança que se tem no próprio ingroup, a ideia de que você tem oportunidades similares às da maioria das pessoas e será tratado de forma relativamente justa e imparcial, independentemente de sua origem ou riqueza, tende a ser elevada. E isso se reflete numa capacidade maior de atuar coletivamente, em maior respeito às leis e aos direitos dos demais — resumindo, num modelo de cidadania que funciona sem pancadaria de parte a parte. E o inverso tende a ser verdade em sociedades mais desiguais. 2) Promoção da democracia Outro quesito aparentemente óbvio, embora a década de 2010 tenha sido palco de uma espécie de ressaca democrática mundo afora e, claro, dentro do Brasil também.
Um mundo mais conectado comercialmente não apenas gera mais riqueza para todos como também aumenta a interdependência entre países e regiões — fazendo com que não valha a pena bombardear os sujeitos sem os quais você não conseguiria ter carros/celulares/camisinhas a bom preço. E aumentar as relações comerciais normalmente exige que você tenha uma compreensão no mínimo passável sobre as necessidades e a cultura do pessoal de fora. Começa a valer a pena o estudo da língua, da cultura e até da música pop desse povo esquisito. Portanto, pode ser um passo importante para reconhecer a humanidade essencial dos seus parceiros comerciais, e os frutos disso invariavelmente são positivos. O mecanismo ganhou até um apelido de fácil memorização — algo como “teoria McDonald’s das relações internacionais”: quando dois países têm franquias do McDonald’s, eles não vão guerrear entre si.
uma das anedotas mais repetidas em livros sobre a história norte-americana é a do encontro entre o presidente Abraham Lincoln e a escritora Harriet Beecher Stowe. Stowe escreveu A cabana do Pai Tomás, romance que dramatiza as duras condições de vida dos negros escravizados nos Estados Unidos e se tornou tanto um fenômeno de vendas, com 1,3 milhão de exemplares no ano de seu lançamento, quanto uma poderosa arma de propaganda abolicionista. Quando os Estados do sul e do norte do país entraram em conflito por causa do destino da escravidão nos Estados Unidos, conta-se que Lincoln teria dito a Stowe: “Então esta é a senhorinha que começou essa guerra enorme”. Depois que A cabana do Pai Tomás e alguns relatos escritos por ex-escravizados tornaram-se fenômenos de massa, ficou cada vez mais insustentável exigir que os escravizados continuassem a ser tratados como menos que humanos.
Recorde agora o que vimos sobre a construção imaginativa de ingroups de grande escala no capítulo 5 e perceba o brilhantismo do que Paulo está propondo nessa passagem (independentemente da verdade teológica ou não do texto). Em essência, o missionário judaico-cristão diz aos seus conversos gálatas que o batismo e a fé em Cristo dissolvem a identidade anterior que eles e todos os demais batizados, em qualquer lugar do mundo, poderiam ter. Eles adquiriram uma filiação espiritual nova, arrebentaram as barreiras étnicas que separavam judeus de “gregos” (no contexto, um termo que designa quaisquer pagãos em sentido amplo), as fronteiras sociais entre escravizados e livres e até as distinções entre homens e mulheres (ainda que Paulo relativize esse último ponto em outras epístolas). E, embora seus antepassados fossem louros barbudos e belicosos da distante Gália, feito versões de Asterix do mundo real, agora eles também são “descendência de Abraão” — espiritualmente, é como se tivessem se tornado tão judeus quanto o sumo-sacerdote em Jerusalém.
Alguns exemplos históricos mais concretos e recentes talvez ajudem a mostrar como coisas desse tipo teriam acontecido. O mais gritante envolve ninguém menos que Gengis Khan, o senhor da guerra mongol que, do lombo de seu cavalinho mirrado, construiu um dos maiores impérios que o mundo já conheceu. Em 2003, uma pesquisa liderada pelo geneticista Chris Tyler-Smith, hoje no Instituto Sanger, identificou uma variante do cromossomo Y, presente em quase 10% dos homens de uma região da Ásia que vai da China ao Uzbequistão, que teria começado a se espalhar há mais ou menos mil anos a partir da Mongólia, a terra natal do conquistador. Vale ressaltar que não há nada que se compare a essa situação no mundo: depois do gargalo do meio do Neolítico, os cromossomos masculinos voltaram a ter diversidade bastante alta, tanto que mais de 90% dos homens estudados pela equipe de Tyler-Smith carregava uma assinatura cromossômica única. Além de essa variante do Y ser estranhamente comum, existe uma associação considerável, tanto geográfica quanto étnica, entre os domínios do Império Mongol e a presença dela. E, por fim, o único grupo étnico do Paquistão onde tal assinatura genética está presente é o dos hazaras, que se consideram descendentes de Gengis.
exacerbar o potencial para a violência do sexo masculino por outro motivo: a própria prevalência da poliginia. Caso você não tenha reparado, a chamada razão sexual — ou seja, quantos membros de cada sexo existem na população — é mais ou menos meio a meio entre seres humanos. Para ser exato, os meninos nascem numa proporção um pouco maior, superando as meninas em 1% ou 2% dos nascimentos, mas a mortalidade entre eles também é mais alta e mais precoce, de modo que a coisa fica nivelada quando se chega à idade adulta. Ou seja, se de repente uma casta de poderosos começa a monopolizar as mulheres, as chances de que muitos homens comuns, membros da plebe, fiquem sem acesso a parceiras se torna praticamente uma certeza matemática. Como são raros os homens que se contentam com esse tipo de situação, uma possível válvula de escape são as incursões guerreiras contra grupos vizinhos para capturar esposas ou concubinas (ou, olhando a situação pela perspectiva oposta, as incursões cujo objetivo seja vingar ataques similares cometidos no passado). Um cenário desse tipo talvez seja um dos elementos mais importantes do pano de fundo social e cultural que deu origem aos primeiros clássicos literários do Ocidente, a Ilíada e a Odisseia, atribuídas ao poeta grego Homero, do século viii a.C.
Mas a história que me parece mais significativa vem do Vietnã e começa em 16 de março de 1968, quando soldados americanos deflagraram um massacre de civis desarmados no vilarejo de My Lai supostamente porque eles estariam abrigando guerrilheiros — não há evidências que apoiem essa justificativa, é bom destacar. O mais provável é que o grupo de atacantes, liderados pelo tenente William Calley Jr., simplesmente tenha descontado nos habitantes de My Lai a frustração de meses de marchas e baixas no interior vietnamita. Durante o ataque, até quinhentos civis, entre adultos, idosos e crianças, foram mortos, e mulheres foram estupradas múltiplas vezes. No entanto, três tripulantes — Hugh Thompson Jr., Glenn Andreotta e Lawrence Colburn — de um helicóptero americano detiveram o massacre. Eles pousaram no vilarejo achando que ocorria um combate entre seus compatriotas e os guerrilheiros e querendo ajudar. Contudo, perceberam o que realmente estava acontecendo e, quando um grupo de soldados se preparava para atacar civis que tinham se refugiado perto de um bunker, Thompson colocou seu helicóptero entre os militares e os vietnamitas. Mandou Andreotta e Colburn mirarem as metralhadoras da aeronave no grupo de americanos e dispararem caso o ataque aos civis continuasse. Por fim, os três ajudaram a resgatar os <Você alcançou o limite de recortes para este item>
Mas se entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem forem as do Rosário, orando e meditando os mistérios dolorosos, todo esse inferno se converterá em paraíso; o ruído, em harmonia celestial; e os homens, posto que pretos, em anjos […]. Mais inveja devem ter vossos senhores às vossas penas, do que vós aos seus gostos, a que servis com tanto trabalho. Imitai pois ao Filho e à Mãe de Deus, e acompanhai-Os com São João nos seus mistérios dolorosos, como próprios da vossa condição, e da vossa fortuna, baixa e penosa nesta vida, mas alta e gloriosa na outra. Peço desculpas ao leitor se estiver chovendo no molhado no que direi a seguir, mas é profundamente instrutivo (e estarrecedor) ver os mecanismos de racionalização (e, nesse caso, de teologização) do papel subalterno imposto a um outgroup em plena atividade até mesmo na cabeça de um sujeito brilhante e perfeitamente capaz de enxergar a injustiça e a violência da escravidão — ao menos no caso de outro outgroup, o dos indígenas. “Apesar” de serem negros, os cativos um dia seriam anjos; seus senhores deveriam ter inveja de seus padecimentos no engenho, porque faziam com que os “pretos” chegassem mais perto da salvação eterna. Com toda a sua eloquência, a passagem talvez seja o exemplo mais acabado da arquitetura mental que manteve a máquina de moer gente da escravidão funcionando a todo vapor no Brasil colonial.
Em seu livro O mundo até ontem, uma análise detalhada das sociedades tradicionais que ainda existem no século xxi, o biogeógrafo Jared Diamond explica a importância da reputação com uma cena hipotética ao mesmo tempo engraçada e aterrorizante. Imagine que você é um caçador-coletor que está viajando por seu território tradicional — uma floresta tropical, digamos — quando, não mais que de repente, um completo estranho aparece na sua frente. Numa situação mais favorável (do seu ponto de vista, ao menos), você poderia simplesmente despachar o sujeito desta para uma melhor a flechaços, e a distância, sem que ele nem tivesse notado sua presença. Afinal, aquele é o seu território e ele o está invadindo, o que justifica a punição sumária. Ou, se você não estiver carregando seu arco naquele dia e o intruso for particularmente robusto, talvez valha a pena sair correndo antes que aconteça um encontro no qual haja uma chance considerável de você levar a pior. No entanto, se o encontro é inevitável e nenhum dos dois é capaz de tomar uma atitude preventiva antes do contato, qual é o comportamento-padrão de um bom ccn? Iniciar uma longa conversa para saber se vocês têm amigos ou parentes em comum, é claro. Após algum tempo de rememoração genealógica, digamos que vocês descobrem que são primos de terceiro grau ou são amigos do mesmo xamã de um bando vizinho. Pronto, tudo resolvido: ninguém precisa crivar de flechas o fígado do outro, e ambos podem seguir viagem em paz.
CONCLUSÃO: A RELIGIÃO É A RAIZ DE TODOS OS MALES? Não — nem de longe. Ao menos do ponto de vista da Força Bruta, não faz sentido jogar esse peso imenso nas costas das religiões, mesmo quando enxergadas em conjunto. Um jeito relativamente simples de medir isso é estimar a proporção de guerras motivadas pela religião ao longo dos milênios. Existem poucas contagens desse tipo, mas uma delas chegou à conclusão de que apenas 10% dos conflitos ao longo dos últimos 1.800 anos tiveram um componente religioso. Outra, mais detalhada, tentou atribuir “notas” numa escala de 0 (nenhum envolvimento da religião, como a Guerra do Peloponeso, entre os gregos de 2.400 anos atrás) a 5 (papel central da religião, como as conquistas islâmicas do século vii e as Cruzadas). Essa escala foi aplicada a conflitos registrados ao longo dos últimos 3.500 anos (ou seja, na prática, desde o começo da história registrada). Resultado: algum componente religioso esteve presente em 40% dos conflitos, mas raramente foi o principal motivador deles. Por fim, eis mais um paradoxo num capítulo cheio deles. Em países muçulmanos com histórico de ações terroristas, a frequência com que as pessoas rezam (uma boa medida da fé pessoal) tem associação negativa com o apoio a essas ações. Ou seja, muçulmanos que rezam muito tendem a ser contrários ao terrorismo. Mas a maior frequência de idas às mesquitas tem associação positiva com o apoio à agressão de cunho religioso. Por fim, os muçulmanos que conseguem fazer o Hajj — a peregrinação solene ao santuário de Meca, obrigatória para todos os seguidores do Islã que puderem encarar a viagem ao menos uma vez na vida — aumentam sua tolerância tanto em relação a muçulmanos de outras origens étnicas quanto em relação a não muçulmanos. Esses dados sugerem que o crucial na potencialização da Força Bruta não é a experiência religiosa, que pode até amenizar tendências violentas, mas o contexto de grupo impulsionado pela ida frequente a um lugar de culto, reforçando a indefectível dicotomia ingroup versus outgroup, “nós” contra “eles”.