História De Uma Vacina: O Relato da Cientista Brasileira Que Liderou os Testes da Vacina Oxford/AstraZeneca no País
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ajudando a preparar o mundo para as próximas epidemias. Pois elas virão.
eu havia contraído o vírus Coxsackie B, que causa a doença popularmente conhecida como “abraço do diabo”.
Estava bem preparada para a entrevista. Levei um dossiê impresso com os dados epidemiológicos e de cobertura vacinal do Brasil e distribuí a todos os executivos presentes
câmeras da HBO, que fazia um documentário sobre a pesquisa da vacina de Oxford e tinha insistido em acompanhar o dia de um voluntário, além do cotidiano dos profissionais do centro de testes.
Desse tempo, carrego uma experiência rara entre meus pares e um dedo “comido” por um rato. O bicho despertou da anestesia no meio de uma operação e conseguiu roer parte de meu indicador antes que eu me defendesse.
O voluntário, a depender do sistema de randomização, poderia receber a Chadox ou a meningocócica ACWY. Nem voluntários nem funcionários sabem qual vacina foi aplicada. Os dados são revelados apenas ao final da fase 3, quando são feitas as análises de eficácia.
A fórmula foi batizada de ChAdOx1 nCoV-19, ou Chadox, na versão abreviada que adotamos informalmente nos corredores dos centros. Como a Universidade de Oxford assinou um acordo com a farmacêutica AstraZeneca, a Chadox também passou a atender por AZD1222, contemplando letras do nome da indústria.
Àquela altura, eu já estava casada com Ralf Clemens, o homem tido como o “monstro das vacinas” e que chefiava o departamento global de imunizantes da então GSK. Para evitar conflito de interesses, nunca tive vínculo hierárquico com ele na empresa. Morávamos na Bélgica, mas viajávamos muito, coordenando estudos clínicos em diferentes países ao mesmo tempo.
Foi para ela, Lily Weckx, que telefonei logo depois da conversa com Andrew. Lily é diretora do Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (Crie), um espaço de vacinação da Unifesp especializado no atendimento de pacientes com risco aumentado para doenças infeciosas, que oferece vacinas não ofertadas nos postos regulares e acompanha possíveis eventos.
Nelson Teich duraria pouco tempo no governo. Sua atuação foi importante para promover articulações essenciais para a pesquisa, como uma reunião da Anvisa com a MHRA (Medicines and Healthcare products Regulatory Agency). Mas ele deixou o posto no ministério ainda em maio, menos de um mês depois de assumir, e não chegou a ver o estudo ser aprovado pela Anvisa, o que aconteceu logo no início de junho.
Era preciso analisar a fundo os dados e as curvas de casos de rotavírus em diferentes países, e a decisão de realizar os testes na América Latina veio em seguida, amparada não apenas pelos números, mas também pelo contexto. Ralf e todo o time sabiam que milhares de crianças morriam da doença na África, mas sabiam também que a estrutura para os testes na América Latina era muito melhor. Se quisessem resultados rápidos para garantir o acesso ágil possível à vacina, era lá que teriam de testar.
Uma semana depois da reunião virtual com Oxford, já tínhamos patrocinadores e os dois centros de testes definidos. No Rio, a sede do estudo seria o Instituto D’Or, um prédio inteiro em Botafogo que nos foi cedido pela rede para recrutar e vacinar os voluntários. Em São Paulo, sob a batuta de Lily Weckx, faríamos a pesquisa no galpão da Unifesp, cuja reforma, patrocinada pela Fundação Lemann, começou antes mesmo de termos o protocolo do estudo aprovado pelo governo brasileiro — um risco que valia a pena correr.
Por isso, Trevor Mundel chamou a pesquisa de “estudo Hidra”, em referência ao monstro de várias cabeças da mitologia. A nova formulação foi criada para ter imunogenicidade igual à primeira e mais estabilidade genética — ou seja, um potencial menor de sofrer mutações que podem causar paralisia. Após o anúncio da OMS de que nossa vacina contra a pólio era a primeira a ser listada para uso emergencial na história, recebemos mensagens elogiosas e de agradecimento. Fiquei feliz quando Trevor Mundel me chamou de a melhor “testadora” de vacinas do mundo.
Denise Abranches, cirurgiã-dentista e coordenadora da odontologia do Hospital São Paulo. Despachada, ela dizia aos funcionários na entrada: “Acaba logo isso, gente, que eu quero entrar.” Eu ri. Denise era a primeira voluntária — e estava ali brigando para manter seu título. Fora a primeira a se inscrever e chegara na manhã de sábado horas antes da abertura, para garantir que não haveria outro inscrito mais rápido que ela. E não houve. Denise foi, como gosta de dizer, a primeira pessoa a entrar na pesquisa para a covid-19 no Brasil, a nossa número 1.
A cada alteração, seja no número de voluntários, seja no número de doses da vacina ou nos intervalos entre as doses, é necessária uma emenda no protocolo, que deve ser apresentada e aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, a Conep, e, depois, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. Como pesquisadora de vacinas há décadas, eu conhecia os trâmites das agências regulatórias em diferentes países. Antes da pandemia, os projetos no Brasil levavam cerca de três meses até a aprovação, mas eu sabia que o país, a exemplo de outras nações, havia acelerado os processos para acompanhar o ritmo covid.
Litza Gusmão, famosa nos corredores do hospital pelas soluções para driblar a falta de equipamentos de segurança durante a pandemia. Um exemplo do trabalho de Litza: para que cada funcionário do hospital pudesse guardar sua máscara N95 por 15 dias, ela comprou pela cidade 2 mil potes de plástico, daqueles de cozinha, e gravou manualmente o nome do dono em cada um. Em vez de jogar fora a máscara após o turno de trabalho, o profissional de saúde a esterilizava e guardava em seu respectivo pote, o que permitia o uso do equipamento pelo prazo máximo recomendado antes do descarte. Assim, durante toda a pandemia, não houve falta de máscaras no São Rafael.
Trevor pediu que liderássemos, em 2012, um programa para o desenvolvimento da nova vacina oral contra a pólio. A pesquisa se estenderia até 2020, quando publicamos resultados na revista Lancet1 em meio à pandemia, quando no Brasil os estudos de Oxford já estavam em curso e eu preparava 22 centros na América Latina para receberem pesquisas de vacinas de covid-19. A pesquisa da pólio foi considerada outro marco na história das vacinas. A chamada nOPV2 foi o primeiro imunizante a ter o uso emergencial analisado e recomendado pela OMS, em novembro de 2020 — e, como a própria organização ressaltou, abriu caminho para as vacinas da covid-19 que chegariam em seguida.
interesse de Bill Gates por saúde global começou no final dos anos 1990, quando, como ele gosta de contar, leu no New York Times uma reportagem sobre os milhares de crianças em países pobres que morriam vítimas de doenças para as quais havia prevenção ou que já estava até mesmo erradicadas nos Estados Unidos. Então, o fundador da Microsoft mandou o artigo do jornal ao pai, William H. Gates Sr., com uma mensagem: “Pai, talvez possamos fazer algo para resolver isso.” Pouco tempo depois, no ano 2000, surgia a Fundação Bill e Melinda Gates, que, em duas décadas, investiu mais de 50 bilhões de dólares em projetos de educação e saúde, como o desenvolvimento de medicamentos e vacinas.
Bill Gates sabia que, iniciada a corrida pela vacina no primeiro trimestre de 2020, dezenas de imunizantes chegariam à fase de testes clínicos até o final daquele ano. Para que isso pudesse acontecer, os produtos tinham de encontrar centros de recrutamento e acompanhamento de voluntários preparados. Caso contrário, corria-se o risco de ter fórmulas prontas à espera e competindo por centros, profissionais e ambientes equipados para os testes. A epidemiologia e a localização geográfica também eram parte importante da escolha dos centros — daí a relevância de se preparar vários deles ao redor do globo. Não sabíamos como a pandemia iria se comportar e quanto tempo iria durar; nesse contexto, esperar estava fora de cogitação.
Na época, os números do rotavírus começavam a ganhar as páginas dos jornais, como se, até aquele momento, o mundo não soubesse da existência do problema. Uma reportagem do New York Times publicada em 9 de abril de 1996 trazia o próprio Glass falando sobre o vírus a partir de artigos que publicara na revista Science daquele mês. Ele dizia ao jornal que “o rotavírus é democrático” e mencionava a estimativa de mortes de crianças nos países pobres e de hospitalização em países ricos. Os dados da doença citados pelo jornal naquele momento, aliás, despertaram Bill Gates para o assunto do desenvolvimento de vacinas. O fundador da Microsoft costuma contar que lia a reportagem e pensava: “Isso não pode estar certo. Eu leio os jornais o tempo todo. Onde estão as notícias sobre esses milhares de crianças morrendo?” Anos mais tarde, ao criar a Fundação Bill e Melinda Gates, ele daria especial atenção à saúde global — e em consequência, ao desenvolvimento de vacinas.
“Sue, você tem interesse em fazer o estudo da nossa vacina no Brasil?” Minha primeira reação foi: “Você quer isso para quando?” Naquela época, eu já estava envolvida com o desenvolvimento de duas vacinas para a covid-19 — uma de RNA mensageiro, da empresa alemã CureVac, e outra baseada em proteínas, da chinesa Clover. Eu era membro do comitê científico de ambas, mas os projetos ainda estavam muito distantes da fase 3, de comprovação da eficácia. A oportunidade que Andrew me oferecia naquele momento era a de estar na linha de frente e tentar acelerar o processo de testagem muito antes do que eu esperava. Era a chance de pôr em prática as habilidades que desenvolvi ao longo de uma carreira dedicada às vacinas e de salvar vidas em meio a uma crise sanitária sem precedentes na história recente. Ao terminarmos a reunião, quase sem perceber, eu já havia começado a saga para que o Brasil tivesse um braço da pesquisa de Oxford e, assim, pudesse ter acesso a uma das mais promissoras vacinas contra a covid-19 em desenvolvimento no mundo.
Em 2016, apenas 46 casos foram registrados no mundo todo. A quase erradicação é fruto das vacinas, em especial da fórmula oral, que, diferentemente da injetável, cria a chamada imunidade de rebanho. Paradoxalmente, é também ela a responsável indireta pelos novos surtos de pólio, causados por um vírus derivado da própria vacina. O chamado cVDPV2 é excretado por quem foi imunizado e atinge os que não estão imunes à doença — ou seja, a causa dos novos surtos não é diretamente relacionada à vacina, mas à queda nas vacinações, como reconheceu a OMS. A vacina oral tradicional de pólio é feita do vírus inativado e, se crianças não forem imunizadas e viverem em condições precárias de saneamento básico, o patógeno enfraquecido, eliminado nas fezes, pode circular entre os indivíduos. Ao longo do tempo, esse vírus sofre mutações e chega a uma nova forma que, por fim, pode causar paralisia como um evento adverso muito raro. Surtos recentes na África e em alguns países da Ásia e da Oceania foram provocados por essa mutação. Em 2019, a OMS registrou 368 casos no mundo.
Opas, a Organização Pan-Americana da Saúde, peça-chave para as pesquisas e introdução de vacinas na América Latina. O chefe de vacinas na Opas era, então, Ciro Quadros, que mais tarde seria nomeado pela OMS o “herói das Américas em saúde pública”. Ele era temido na indústria, conhecido por nem mesmo receber os médicos das empresas e por ser duro nas reuniões. Era uma ponte importante para projetos como o do rotavírus. E eu conseguia fazer esses contatos por conta do respeito conquistado como pesquisadora acadêmica. Por muitos meses, eu pegava o trem cedo na Filadélfia em direção a Washington, onde está a sede da Opas, na esperança de me encontrar com membros do comitê de vacinas, jamais esperando ser recebida pelo grande chefe, só por alguém de seu time. Iniciei as conversas semanais apresentando o projeto de desenvolvimento clínico, os estudos epidemiológicos e suas atualizações. Quando o próprio Ciro Quadros apareceu no meio de uma das reuniões, gelei. Fiquei sem palavras. E lá estava ele: o homem que interrompeu uma guerra na África para vacinar contra a varíola e ajudar na erradicação do vírus. Eu mal podia acreditar.
O apoio de Ciro Quadros foi fundamental para o desenvolvimento e registro da vacina de rotavírus da GSK e abriu muitos caminhos para um melhor entendimento entre a indústria e a Opas. Aprendi muito com ele e tenho a honra de dizer que trabalhamos muito juntos, e por muitos anos, até que ficamos amigos. Eu o convidei para a palestra de abertura do mestrado em vacinologia da Universidade de Siena, anos mais tarde. Foi um grande reconhecimento tê-lo pessoalmente na inauguração. Depois, já na Fundação Gates, em projetos como o da nova vacina da pólio, eu o chamei para presidir o comitê independente de segurança, função que ele cumpriu de forma brilhante até seus últimos dias. Doutor Ciro, como eu o chamava, morreu em 2014 e foi um nome fundamental para a erradicação da pólio nas Américas. Semanas antes de sua partida, durante uma reunião de comitê em que eu representava a Fundação Gates, já bem abatido, ele segurou minha mão e disse: “Sue, corra com esses resultados para que eu possa ver uma nova vacina nascendo.” Infelizmente, isso não aconteceu. O “herói das Américas”, que contribuiu para o desenvolvimento da nova vacina oral para a pólio, não pôde ver a fórmula registrada, o que só aconteceria anos mais tarde.
Trevor lembrou que, em abril de 2020, havia me apresentado ao CEO da Fundação Lemann, Denis Mizne. Na ocasião, a entidade ligada ao empresário Jorge Paulo Lemann tinha manifestado interesse em investir em projetos de vacinas para a covid-19. Ainda que o foco da fundação seja a educação, Denis vinha pensando no que a organização poderia fazer para ajudar na saúde desde uma conversa em que o próprio Jorge Paulo Lemann, que preside o conselho, dissera estar disposto a apoiar alguma iniciativa importante na área. Algo que fosse grande e decisivo. Na avaliação deles, o Brasil estava deslocado do debate de vacinas, dizendo que não ia aderir às regras da OMS, num momento de tensão e antagonismo, com todo o debate voltado para equipamentos de proteção e leitos de UTI. O CEO da Fundação Lemann passou então a acionar contatos pelo mundo, a fim de, como ele mesmo diz, “aprender” de que forma poderia ajudar. Havia sido o protagonismo da Fundação Gates na área da saúde (e de vacinas) que levara Denis Mizne a Trevor Mundel. O brasileiro tinha perguntado ao executivo da entidade o que ele faria se estivesse no Brasil. Trevor teria respondido que o país precisava entrar no mapa da vacina, e o melhor jeito de fazer isso era abrigar testes clínicos — então ele fez a ponte e me apresentou por e-mail ao CEO da Fundação Lemann.
Na época, eu já tinha adotado o que passei a chamar de “ritmo covid” — precisava avançar mais rápido do que a doença que, naquela semana, registrava por aqui, em média, 10 mil novos casos por dia. Enviei um e-mail a Denis Mizne já com Andrew Pollard em cópia, explicando que ele era o chefe da pesquisa da vacina de Oxford e que gostaríamos de fazer os testes no Brasil. Denis respondeu no ato. Marcamos uma reunião para a manhã do dia 10 de maio. Ele foi direto: “Não me mande nada, não preciso de projeto detalhado, cuide da vacina. Gaste 100% do seu tempo fazendo isso. Eu vou checar se conseguimos o patrocínio. Já prometo que não vou dar trabalho e vou ser rápido.” E de fato ele foi. Pouco depois, já nos enviou um e-mail com a resposta. Denis tinha telefonado para Jorge Paulo Lemann no instante em que encerramos nossa conversa e contou que introduziu o assunto ao empresário com a frase: “Acho que encontrei aquele projeto grande e decisivo.” Ele explicou a Lemann que a vacina de Oxford era a primeira a chegar nos testes de fase 3 e perguntou se podia embarcar no projeto. Fiquei surpresa com a rapidez da resposta de Denis. Achei que levaria dias para ouvir algo, mas em minutos ele escreveu e disse apenas: “Está aprovado.” Eu chorei, e meses depois, quando encontrei Denis pessoalmente, em São Paulo, ele me confidenciou que também tinha me dado a resposta com lágrimas nos olhos.
A ideia me ocorrera pela primeira vez em 2002, num encontro com Nelson Mandela na Cidade do Cabo. Eu ainda trabalhava como diretora de vacinas da GSK para a América Latina quando fui convidada para uma conferência na África do Sul com ministros da Saúde de 32 países em desenvolvimento. A vacinação no continente africano estava em queda. Faltavam vacinas e também capacidade operacional para a produção. Representantes da indústria, como Jean Stéphenne, falaram sobre o financiamento de fórmulas para países em desenvolvimento e sobre estratégias para acelerar a introdução de novos imunizantes nessas regiões. Os líderes do encontro terminaram por elaborar um documento que depois viria a ser apresentado no Fórum Econômico Mundial e em outros encontros globais. Mandela era o convidado de honra. Sua esposa, a moçambicana Graça Simbine Machel, uma proeminente ativista dos direitos humanos, sentou-se ao meu lado no auditório. Ela falava português e conversamos sobre saúde pública nos países em desenvolvimento. O discurso de Mandela me deixou em prantos. Ele pedia que países ricos e indústrias investissem no desenvolvimento da África. Meu incômodo com a atuação das farmacêuticas naquela região só fez aumentar depois daquele encontro. Quando realizei estudos na África, senti uma diferença muito grande no preparo dos profissionais e dos centros de testes. O trabalho que tínhamos feito na América Latina ao investir em pesquisas clínicas na região havia deixado uma estrutura <Você alcançou o limite de recortes para este item>
O patrocínio da Fundação Lemann cobriria todos os custos do estudo em São Paulo. Para os testes no Rio, porém, eu ainda não tinha um patrocinador, mas imaginava quem procurar. Acionei Rodrigo Gavina, cirurgião torácico e vice-presidente da Rede D’Or. Nos anos 2000, em meio à pesquisa da vacina do rotavírus, o maior estudo que eu tinha feito até então e um dos maiores estudos de fase 3 da história, tive seguidos pneumotórax — quando o pulmão colapsa e uma bolha de ar surge entre as duas camadas da pleura, a membrana que reveste o órgão. O tratamento é cirúrgico. Foi Rodrigo quem me operou e acompanhou minha recuperação, e acabamos ficando amigos. Quando telefonei para ele com a intenção de pedir financiamento para a pesquisa, eu já estava tão submersa que me esqueci que era domingo. Ele estava voltando de uma viagem com a família, na estrada, e insistiu para que eu contasse o motivo da ligação. Eu me segurei e telefonei de volta na segunda-feira. Rodrigo era minha melhor ponte com a Rede D’Or, o maior grupo hospitalar privado do Brasil e que tem um braço dedicado à pesquisa, o Instituto D’Or, cuja sede fica no Rio de Janeiro. Naquele momento da pandemia, em que o sistema de saúde se debatia para driblar o colapso, os investimentos da rede estavam voltados aos hospitais de campanha e tinham sido criados 500 novos leitos de UTI para atender pacientes de covid. Rodrigo hoje comenta que não se falava de vacina naquela época como viria a se falar depois, e Oxford estava na frente. Ele então levou o projeto ao fundador da Rede D’Or, Jorge Moll Filho, que, por sua vez, deu o aval para o financiamento do estudo. Segundo Rodrigo, quando foram erguidos os hospitais de campanha a busca por parceiros levou uma semana, mas com a vacina, não — era uma decisão que precisava ser tomada de um dia para o outro, não havia tempo para pensar.
Desde o início de 2020, a organização do fundador da Microsoft esteve envolvida com o desenvolvimento de tratamentos e vacinas para a covid-19. Em março daquele ano, Bill Gates foi a público instar as farmacêuticas a trabalharem com agilidade e cooperação, pedindo que compartilhassem dados para contribuir com o combate à pandemia. Seu envolvimento com emergências sanitárias globais vinha de muito antes, desde a criação da CEPI, a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias. Trata-se de uma espécie de consórcio formado por governos (como Noruega, Alemanha, Reino Unido, Japão entre outros) e fundações filantrópicas (como BMGF e Wellcome Trust), lançado oficialmente no Fórum Econômico Mundial de Davos em 2017, com a missão de direcionar recursos para a produção de vacinas. A importância da CEPI foi reforçada num encontro em Berlim em 2018, com a presença de Bill Gates, Angela Merkel e outros líderes. Eu estava lá e pude testemunhar decisões importantes para a saúde pública global. Foram revisados marcos de desenvolvimento de algumas vacinas, como as de tuberculose, e anunciou-se a criação do primeiro escritório da Fundação Gates na Alemanha. Naquele encontro, o maior investidor do consórcio, a Noruega, mostrou que voltaria o foco para financiamentos de projetos de imunizantes contra doenças com potencial de causar epidemias, identificadas pela OMS em uma lista chamada blueprint. As cinco doenças prioritárias da lista eram: febre de Lassa, infecção pelo vírus nipah, chicungunha, febre de Rift Valley e MERS, a síndrome respiratória causada por um tipo de coronavírus. Era este, aliás, o patógeno com o qual Oxford já lidava no início de 2020, com recursos da própria CEPI. Com pequenos ajustes, a universidade pôde adaptar o trabalho para o SARS-CoV-2, causador da covid-19, e assim saiu na frente na corrida por uma vacina para o novo coronavírus.