Guia de um astronauta para viver bem na Terra
Kindle Highlights
E, como eu já sabia, efêmero.
focar na jornada, não na chegada ao destino.
Ele me ajudou a promover eventos em sites como o Reddit,
sobre como era a sua vida na cidade de Wuhan, para onde ele tinha se mudado,
de falhas nos motores a problemas nas maçanetas de portas e nos computadores e suas soluções.
Eis a lição: ter boa liderança significa liderar o caminho, não exigir que os demais façam o mesmo que você.
O desafio é evitar ser engolido pelos momentos grandiosos, reluzentes, que fazem as pessoas perderem a cabeça.
Então fizemos algo digno da era espacial: chegamos à Mir usando um canivete. Nunca deixe o planeta sem um destes.
Eu não voltaria mais à Estação Espacial Internacional, mas tudo bem. É na Terra que moram todas as pessoas que amo.
eles vão de devotos a ateus; pois, seja qual for o sistema de crenças de cada um, a viagem espacial costuma reforçá-lo),
Em 2007, Suni Williams correu a maratona de Boston no espaço, e demorou apenas quatro horas e 24 minutos para completar o percurso.) Também
Ainda assim, sei que a maior parte das pessoas, eu inclusive, tende a aplaudir as coisas erradas: os exageros heroicos e espalhafatosos, em vez do trabalho de anos.
Quando começamos a pensar que, nas nossas vidas, só contam os momentos grandiosos e reluzentes, estamos nos preparando para nos sentirmos uns perdedores durante grande parte do tempo.
astronautas com grande talento para a fotografia, como o meu amigo Don Pettit, que sabia o suficiente para pedir câmeras e lentes especiais quando viajou à Estação Espacial Internacional.
Na verdade, a questão verdadeira é se queremos ser felizes. Eu não precisava sair do nosso planeta para encontrar a resposta certa. Conhecendo a resposta, fui capaz de amar a minha vida fora da Terra.
Pessoalmente, prefiro me sentir bem. Portanto, para mim, tudo conta: os pequenos momentos, os momentos medianos, os sucessos que chegam às páginas dos jornais, mas também os momentos que vivo, que ninguém fica sabendo.
Seu ego não é ameaçado por pedirem que você organize um armário ou desembrulhe as meias de alguém. Na verdade, pode gostar de fazer isso se acreditar que tudo o que está fazendo contribui de alguma forma para a missão.
Quando se é a pessoa com menos experiência na sala, não é o momento de se mostrar. Você ainda não sabe o que não sabe — e não importam suas habilidades, sua experiência e seu nível de autoridade, sempre haverá algo que você não sabe.
No entanto, o êxito precoce é um péssimo professor. Quando isso acontece, somos recompensados por nossa falta de preparação e, quando nos vemos no meio de uma situação para a qual devemos nos preparar, não somos capazes. Não sabemos como fazê-lo.
Quando me deram uma mesa ao lado de John Young, um dos primeiros astronautas da Gemini, um dos 12 únicos homens que pisaram na Lua, além de comandante da primeira missão com um ônibus espacial, não senti que realizei meu sonho. Eu me senti um mosquito.
Se eu definisse o sucesso como um conceito estreito, limitado a picos, a experiências de alta visibilidade, teria me sentido muito frustrado e infeliz naqueles anos. A vida é muito melhor quando nos sentimos colecionando dez vitórias por dia, não uma vitória a cada dez anos.
Na nossa volta, no verão, nos encontraríamos com uma delegação de construtores do foguete para o tradicional brinde ao êxito e à amizade — brinde que incluía uma mínima e simbólica gota de combustível do foguete, o que, mesmo misturado com água, continua com gosto de querosene: um horror.
Fui parte integrante de uma equipe que viajou 135 vezes no ônibus espacial, que colocou o telescópio Hubble em órbita, que construiu parte da Mir, que ajudou a construir a Estação Espacial Internacional. Ao longo do caminho, nós nos recuperamos de dois acidentes devastadores (do Challenger e do Columbia,).
Estamos numa bolha que contém apenas nós mesmos, depois afastamos os olhos do que estamos fazendo e o universo surge, de supetão, diante dos nossos olhos. A imagem é opressora, visualmente, e nenhum outro sentido é capaz de nos alertar para o fato de que estamos a ponto de sermos atacados por uma beleza crua.
Quem era vice-presidente há três mandatos? Que filme ganhou o Oscar de melhor filme há cinco anos? Quem ganhou a medalha de ouro em patinação nas últimas Olimpíadas? Eu, um dia, soube todas essas respostas. Quando essas coisas acontecem, são um grande evento, mas logo depois passam a ser lembradas apenas pelos seus protagonistas. O
As lágrimas precisam de gravidade. Na Terra, um pequeno conduto gera lágrimas que escapam dos olhos, levando junto algum agente irritante, depois escorrendo para baixo, passando por nossas bochechas e secando o nosso canal lacrimal, o que faz com que o nosso nariz escorra. Porém, na falta de gravidade, as lágrimas não escorrem para baixo.
Evan queria que eu fizesse mais uma coisa: o primeiro clipe espacial. Queria que eu cantasse “Space Oddity”, de David Bowie. Ele fez tal sugestão pouco após a minha chegada à Estação Espacial Internacional, ao mesmo tempo que reunia tudo o que seria necessário na Terra para realizar tal proeza, como entrar em contato com as pessoas certas e que pudessem me ajudar a editar o material.
A Estação Espacial Internacional é uma espaçonave que pesa mais de quatrocentas toneladas e, incluindo suas terminações, cobertas de um acre de painéis solares, é do tamanho de um campo de futebol americano. Do lado de dentro, o espaço é maior que o de uma casa de cinco quartos. É tão grande, com tantos módulos incorporados, que qualquer pessoa poderia passar um dia inteiro sem ver um colega de tripulação.
Num dado momento, como Chris havia solicitado anteriormente, pedi que ele falasse algumas palavras sobre Marq Gibbs, um antigo mergulhador veterano do Neutral Buoyancy Laboratory que nos ajudava nas simulações de passeios no espaço e que havia morrido na semana anterior, dormindo, de modo inesperado, aos 43 anos. Chris queria homenageá-lo antes de voltar ao interior da Estação, deixando claro que o trabalho de muita gente é necessário para que qualquer EVA seja possível.
Eu não me sentia triste porque a nossa missão chegava ao fim. Na verdade, sabia que aquela seria uma experiência que ninguém tiraria de mim. Tratava-se de uma experiência passageira, sem dúvida, mas faria parte de mim para sempre, e eu estava 100% pronto para ir embora. Fizemos algo sem precedentes e quase impossível: construímos com sucesso um atracador para futuras visitas de ônibus espaciais. Ao nos prepararmos para a partida, havia um sentimento palpável de triunfo no interior da nossa espaçonave.
Os benefícios concretos e os produtos científicos resultantes do nosso trabalho no espaço alcançaram campos tão distintos quanto a agricultura, a medicina e a robótica. As informações reunidas pelos ônibus espaciais e pela Estação Espacial Internacional ajudaram a aprimorar o Google Maps; experiências com diferentes dietas e protocolos de exercícios revelaram como poderíamos evitar, de forma permanente, um tipo debilitante de osteoporose; a maquinária robótica hoje utilizada no interior de usinas nucleares nocivas ao homem é descendente direta do Canadarm2… E a lista não para por aqui. Grande parte do
Quando voltamos à Terra, muita gente nos perguntou se as coisas haviam ocorrido conforme o planejado. A verdade é que nada aconteceu como planejado, mas tudo estava de acordo com o nosso treinamento. Essa foi uma das lições fundamentais da STS-74: não presuma que você sabe tudo e tente estar pronto para qualquer coisa. A outra lição, pelo menos para mim, é que, quando se é um novato, querer ser um zero é uma boa estratégia. Meus objetivos foram modestos — cumprir minhas responsabilidades com o melhor da minha capacidade e não distrair ou causar problemas para mais ninguém da tripulação — e eu os alcancei.
A verdade é que todos os dias me parecem enriquecedores, na Terra ou fora dela. Eu trabalho com afinco em tudo o que faço, seja consertando uma rachadura no meu barco ou aprendendo a tocar uma canção nova no violão. Encontro satisfação nas pequenas coisas, como jogar palavras cruzadas pela internet com a minha filha Kristin (sempre mantemos uma partida em aberto), ler a carta de um aluno do primeiro ano que quer ser astronauta ou recolher embalagens de chiclete jogadas no chão. Por conta disso, além do fato de a Nasa ter me oferecido tanta experiência para descer a ladeira, eu não tinha medo da aposentadoria.
Poder ver o mundo inteiro transforma radicalmente a nossa perspectiva. Não é algo apenas inspirador, mas um acontecimento que nos deixa muito menos arrogantes. Sem dúvida, isso deixou claro como seria uma bobagem dar muita importância aos meus 53 anos no planeta. Eu sentia orgulho do que a nossa tripulação fez enquanto estávamos na Estação Espacial Internacional, sobretudo por conta do recorde de experiências científicas que completamos, e também pelo fato de Tom e Chris Cassidy terem feito aquele passeio emergencial no espaço. Porém, nos anais da exploração espacial, não teríamos direito a mais que uma nota de rodapé, e isso se tivéssemos sorte.
Aliás, já no espaço, eu tive a grande oportunidade de tocar uma canção com Ed Robertson, do grupo Barenaked Ladies, que escrevi ainda na Terra, chamada “I.S.S. (Is Someone Singing?”).1 Nós tocamos a música para o Music Monday, evento televisionado organizado pela Coalizão pela Educação Musical. Nele, de modo simultâneo, quase um milhão de crianças de todo o mundo cantavam comigo a minha canção enquanto eu flutuava no laboratório japonês da Estação Espacial Internacional. Coordenar tudo isso exigiu um grande planejamento, mas ter todas aquelas crianças pensando e cantando sobre a Estação Espacial foi inspirador e incentivador, fazendo valer a pena cada minuto do planejamento do evento. Honestamente, ainda fico emocionado quando vejo o vídeo.
Eu só consigo explicar o que aconteceu em seguida dizendo que o meu filho teve um tempo livre no final do ano. Durante anos, ele foi um ávido jogador de vídeo game, e aquele era um jogo com um objetivo: a educação do público. No meio-tempo, grande parte das pessoas que trabalhavam com comunicações na Nasa e na CSA também estava de folga, e quando elas voltaram aos seus escritórios, no começo do ano, ficaram surpresas e um pouco alarmadas. No dia 2 de janeiro, eu tinha 42.700 seguidores no Twitter. No dia 7, eram quase 115 mil. De repente, surgiram artigos em jornais e revistas, e também na internet, sobre as fotos que eu estava postando no Twitter, com William Shatner, e sobre os fatos interessantes da vida no espaço. O que estava acontecendo?
E não podíamos nos lamentar. O meu pai era um trabalhador incansável, não acreditava que as crianças deveriam reclamar e desaprovava o lamento, pois acreditava ser contagioso e destrutivo. Aliás, comparar dados de quanto uma situação pode ser injusta, complicada ou ridícula costuma unir as pessoas e, algumas vezes, é por isso que as queixas parecem não ter fim, pois tal cadeia reforça a sensação de que estamos lutando sozinhos contra o mundo inteiro. Da mesma maneira, com uma velocidade incrível, o calor da união potencializa o azedume do ressentimento, fazendo com que trabalhos duros sejam encarados como ainda mais intoleráveis, o que não ajuda a terminá-los. O lamento é a antítese do comportamento expedicionário, que trata de reunir as tropas ao redor de um objetivo comum.
Sim, como água. Água potável, aliás. Até 2010, a água na Estação Espacial Internacional chegava em grandes e compridas bolsas de lona entregues pelo ônibus espacial ou por veículos de suprimento, mas o atual sistema de purificação que existe a bordo permite a reciclagem de seis mil litros de água por ano. Usando filtros e um destilador que gira para criar gravidade artificial e movimentar a água desperdiçada, somos capazes de transformar o suor, a água que usamos para lavar alguma coisa e até o nosso xixi em água potável. Isso pode soar nojento (e admito que eu preferia não pensar no xixi quando tomava um gole de água fria armazenada numa bolsa), mas a água na Estação é mais pura do que a que sai de torneiras de muitos lares norte-americanos. E o gosto é exatamente igual a… água.
A próxima coisa a sair: a fralda. O orgulho me impele a declarar que nunca usei a minha, mas aqueles que a usaram ficam particularmente felizes em removê-la. Depois disso, ficamos apenas com nossas roupas de baixo de mangas e pernas compridas — 100% algodão, pois em caso de incêndio, ele chamusca bem, sem derreter ou queimar. A maioria dos astronautas fica em suas ceroulas até o momento de acoplar na ISS, trocando de roupa relutantemente apenas porque sabem que haverá câmeras de TV e olhares de horror de outros membros da equipe se forem cumprimentados por alguém com a roupa de baixo suja. A abordagem da higiene na Soyuz é quase a mesma de um acampamento. Decência é um conceito relativo em um veículo daquele tamanho; por exemplo, não há banheiro, então se precisar usá-lo, seus colegas de tripulação desviarão o olhar educadamente enquanto você pega algo que parece um aspirador portátil com um pequeno funil amarelo acoplado. É fácil de usar: vire o botão para a posição “ligar”, confira se o fluxo de ar está mesmo funcionando, então o segure perto o suficiente para não voar xixi para todo lado.
“Chris, você se lembrou de usar o líquido para evitar o embaçamento?” Claro que eu tinha me lembrado. Na noite anterior, eu havia polido o visor da minha roupa, pois assim ele não ficaria embaçado como uma máscara de esqui. “Pois a gente acha que você não fez isso muito bem. Provavelmente, não retirou o líquido por completo.” Segundo eles, a solução que usei era basicamente detergente para lavar louça. Pense nisso misturado a algumas gotas de água soltas: o que invadiu os meus olhos deve ter sido sabão. A minha primeira resposta a essa novidade foi: “Sério? A gente usa detergente? Um xampu de bebê, desses que não fazem chorar, não seria uma opção?” Mas a minha segunda resposta foi: “Da próxima vez, vou ser mais cuidadoso com os detalhes.” Uma caminhada no espaço, junto a um equipamento de vários milhões de dólares que era (e continua sendo) absolutamente vital para a construção da Estação Espacial Internacional, foi ameaçada por conta de uma microscópica gota de solução de limpeza. Quando saí para a minha EVA seguinte, dois dias mais tarde, limpei o meu visor com tanta força que fiquei surpreso ao ver que não o arranhei. Mais tarde, a Nasa trocou a solução que usávamos para limpar nossos visores por algo menos nocivo. Porém, nesse meio-tempo, graças ao meu descuido altamente vociferado, todos os astronautas passaram a limpar enlouquecidamente o interior de seus visores. Quando dois homens também ficaram parcialmente cegos em seus passeios no espaço, o Controle de Missões já conhecia o problema: “Você se lembra de Hadfield? O problema é a solução para evitar o embaçamento.” Por isso é tão importante ficar atento às pequenas coisas. E, mesmo no meu tipo de trabalho, aquilo era uma pequena coisa.