Marcelo Gleiser - A Dança do Universo - Guido Percu's Notes
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Marcelo Gleiser - A Dança do Universo

📅 November 29, 2022 📁 learning 🌱

Marcelo Gleiser e a busca humana para entender o Universo

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Kindle Highlights

Copyright © 1997 by Marcelo Gleiser

“Eu conheço um pouco sobre a Natureza, mas quase nada sobre o Homem”.

a Natureza realmente é, fundamentalmente incerta, fundamentalmente dual.

a teoria da relatividade geral é um dos maiores feitos do intelecto humano.

De acordo com Aristóteles, Tales de Mileto foi o fundador da filosofia ocidental

a busca do conhecimento é o antídoto contra a cegueira causada pela repressão e pelo medo.

ADLER, Mortimer J. (ed.) Great books of the western world. Chicago, IL: Encyclopedia Britannica, 1990.

Eu medi os céus, agora, as sombras eu meço. Para o firmamento viaja a mente, na terra descansa o corpo.

A luz, essa amiga do medo, carrega consigo os segredos da teoria da relatividade e da mecânica quântica.

os mitos de Criação (ou cosmogônicos — do grego kosmogonos), que abordam o problema da origem do Universo.

Esses exemplos mostram que o poder de um mito não está em ele ser falso ou verdadeiro, mas em ser efetivo.

8 Em uma de suas citações mais conhecidas, Heráclito diz que “não se poderia penetrar duas vezes no mesmo rio”.

O conhecimento não representa necessariamente sabedoria, mas com certeza a ignorância nunca é uma opção razoável.

EINSTEIN, Albert. The meaning of relativity. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1956. ______ Autobiographical

A posição de Einstein era consequência da “religiosidade” que inspirava sua criatividade científica, do seu misticismo racional.

Yin e Yang como seu brasão de armas, com a seguinte inscrição em latim “Contraria sunt complementa”, “Os opostos se complementam”.

“não acredite em autoridade, acredite na sua razão. Confronte sempre suas ideias com a realidade antes de determinar sua validade”,

ocidental. Após derrotar os persas em uma série de conflitos durante as primeiras décadas do século V a.C., a civilização grega viveu um século e

Quando lhe perguntaram o que era difícil, Tales respondeu: “Conhecer a si próprio”. Quando lhe perguntaram o que era fácil, respondeu: “Dar conselhos”.

Mudança, para melhor ou para pior, sempre demanda coragem. Abandonar velhas ideias, que em geral nos trazem uma confortável sensação de segurança e controle, não é nada fácil.

Na primeira página do livro ele escreveu Amicus Plato amicus Aristoteles magis amica veritas, “Platão é meu amigo; Aristóteles é meu amigo; mas minha melhor amiga é a verdade”.

eletromagnetismo. Durante o inverno de 1820, o físico dinamarquês Hans Christian Oersted (1777-1851), amigo de outro Hans Christian mais interessado em contos de fada do que em ciência,

Mitos são histórias que procuram viabilizar ou reafirmar sistemas de valores, que não só dão sentido à nossa existência como também servem de instrumento no estudo de uma determinada cultura.

Segundo os poemas homéricos, o Universo tinha a forma de uma casca de ostra (como o escudo do herói Aquiles), cercada por um rio-oceano, sem dúvida inspirado em ideias semelhantes vindas dos babilônios.

Acredito que o misticismo, se interpretado como a incorporação da nossa irresistível atração pelo desconhecido, tem um papel fundamental no processo criativo de vários cientistas tanto do passado como do presente.

Principalmente devido a santo Tomás de Aquino (1225-1274), a teologia cristã abraçou ideias aristotélicas, criando uma nova “cosmologia cristã”. A Terra voltou a ser esférica, ocupando seu trono no centro do Universo

Evitando a questão mais complicada da “singularidade inicial”, ou seja, o ponto a partir do qual o próprio espaço e o tempo apareceram e no qual as leis da física deixam de funcionar (o “aleph” de Jorge Luis Borges?),

Nossa linguagem é limitada pela nossa percepção bipolar do mundo, algo que encontramos anteriormente neste livro, quando discutimos como os mitos de criação tentam representar o Absoluto, que transcende essa polarização.

A teoria da relatividade especial é uma teoria de absolutos, mesmo que ela tenha sido (e ainda seja) interpretada como uma teoria de relativos nas suas muitas encarnações fora da física, de jantares em família a círculos mais acadêmicos

Dos universos míticos de nossos ancestrais até as especulações teocientíficas de Newton, um tema comum emerge: uma profunda associação da Natureza com o Divino, inspirada pelo incontrolável desejo de entender o Universo e nosso lugar nele.

Segundo o cronógrafo Apolodoro (século II a.C.), Tales nasceu em 624 a.C.; já o grande historiador grego Diógenes Laércio (século III d.C.) escreveu que Tales morreu durante a quinquagésima oitava Olimpíada (548-545), com a idade de 78 anos.

Forjada por santo Agostinho durante o século V d.C., a tênue conexão com o passado se dava através de um platonismo transvestido, que desprezava qualquer interesse nos fenômenos naturais, ao mesmo tempo encorajando o debate de questões teológicas.

Devemos aceitar como um axioma incontestável que, em todas as operações da arte e da Natureza, nada é criado; uma quantidade idêntica de matéria existe antes e depois do experimento. Esse princípio é fundamental na arte da experimentação em química.

Alguns autores consideram Pitágoras o fundador da ciência, enquanto outros, levados pela enorme repercussão do seu pensamento em várias áreas do conhecimento, consideram Pitágoras “o fundador da cultura europeia em sua vertente mediterrânea ocidental

as hipóteses, quer metafísicas ou físicas, quer de qualidades ocultas ou mecânicas, não têm lugar na filosofia experimental. Nessa filosofia as proposições particulares são inferidas dos fenômenos, e depois tornadas gerais pela indução [grifos meus].**

A mecânica quântica demanda séria atenção. No entanto, uma voz interna me diz que esse não é o verdadeiro Jacó. A teoria é sem dúvida muito bem-sucedida, mas ela não nos aproxima dos segredos do Velho Sábio. De qualquer forma, estou convencido de que Ele não joga dados.

A expansão e a contração do fole revelavam, mesmo que por apenas alguns instantes, os segredos do Universo, a dança de Xiva e a harmonia das esferas, o que pode e o que não pode ser conhecido, o brilho nos olhos de meu pai. Existem tantas maneiras de compreender o mundo…

A física atômica é uma ciência experimental, baseada numa firme estrutura conceitual, sendo que a ideia da validação experimental de uma teoria não existia para os gregos, tendo entrado na ciência apenas no século XVII, com Galileu. Mais ainda, a visualização dos átomos como

Mesmo hoje, devido às severas dificuldades em medir distâncias intergalácticas, a determinação precisa da idade do Universo ainda é alvo de muita controvérsia em astronomia. Estimativas flutuam entre 10 bilhões e 20 bilhões de anos, minha escolha pessoal sendo em torno de 15.

Eles também haviam demonstrado que a frequência que brilhava com maior intensidade mudava com a temperatura, passando do vermelho ao azul à medida que a temperatura aumentava. (É por isso que notamos a mudança de cor na espiral do fogão elétrico ao aumentarmos sua temperatura.)

Portanto, o carbono, o oxigênio e outros elementos pesados, que não só fazem parte de nosso organismo como também são fundamentais para nossa sobrevivência, foram sintetizados no interior de estrelas moribundas antes de serem projetados através do espaço interestelar. Nós somos filhos das estrelas.

No mundo do muito pequeno, o estrato contínuo da física clássica tem de ser substituído pela descontinuidade inerente ao quantum. Números inteiros novamente aparecem em ciência, de mãos dadas com a física do átomo. As ideias pitagóricas, nunca esquecidas por completo, reemergem com uma força surpreendente

Na minha opinião, que também é defendida por outros colegas, como, por exemplo, Paul Davies, é a questão da origem das leis da física que lida de fato com “A Pergunta”. Infelizmente, a resposta para tal pergunta está além do alcance das teorias físicas, pelo menos do modo como elas são formuladas no momento

Ele era um indivíduo multidimensional, que tentou entender o mundo ao seu redor através de vários caminhos. Dedicou-se ao estudo da alquimia e da teologia do mesmo modo que se dedicou ao estudo da física, lendo tudo o que havia sido escrito sobre determinado assunto para, então, recriá-lo a seu próprio modo.

Fraunhofer catalogou centenas dessas linhas escuras, mostrando que os espectros provenientes da Lua e dos planetas eram idênticos ao espectro solar: com isso, ele demonstrou que a Lua e os planetas apenas refletiam a luz solar, conforme Galileu havia inferido duzentos anos antes, ao estudar as fases de Vênus.

As crenças pessoais de um cientista em geral dão forma e direção à sua pesquisa: a ciência carrega a marca de seu criador. Mesmo no caso em que pesquisas na mesma área e tópico estejam sendo desenvolvidas independentemente por dois cientistas, a apresentação e o enfoque do discurso científico são sempre únicos.

Essas ideias de separação entre ciência e religião formaram o núcleo do movimento conhecido como Iluminismo, que floresceu no século XVIII. Claro que, na prática, o grau dessa separação variava bastante, por exemplo, do ateísmo radical de Pierre Simon, o marquês De Laplace, ao cristianismo racional de Benjamin Franklin.

Talvez mais relevante que os vários detalhes de seu legado cultural, os gregos nos ensinaram como é importante nos perguntar sobre o mundo à nossa volta e sobre nós mesmos. Seu amor pela razão e sua fé no uso do raciocínio como instrumento principal na busca do conhecimento formam o arcabouço fundamental do estudo científico da Natureza.

O frade franciscano de Oxford, Roger Bacon (c. 1219-1292), escreveu: “Se pudesse ditar a ordem das coisas, queimaria todos os livros de Aristóteles, pois seu estudo é uma grande perda de tempo, e só pode causar erro e aumentar nossa ignorância”. E, em outro manuscrito: “Parem de ser dominados por dogmas e autoridade; olhem para o mundo!”.

Será possível que Galileu se considerava o “Mensageiro das Estrelas”? Que ele acreditava haver sido escolhido por Deus para “reprogramar” a atitude da Igreja em relação ao arranjo dos céus?.7 Embora essa possibilidade seja ainda considerada como especulativa, visto sob esse prisma o conflito entre Galileu e a Igreja ganha uma nova dimensão.

O calor é energia em forma desorganizada; fazer com que o calor gere trabalho mecânico organizado não é nada fácil. Como consequência, na evolução de qualquer sistema, o estado final será necessariamente mais desorganizado (terá maior entropia) do que o estado inicial. Esse resultado fundamental é conhecido como segunda lei da termodinâmica.

melhor descrição do Universo da Alta Idade Média é encontrada no poema A divina comédia, de Dante Alighieri, terminado em 1321. Aí, Dante reconta sua viagem pelos três destinos possíveis após a morte, o Inferno, o Purgatório e o Céu. Partindo do Inferno em direção ao Céu, Dante atravessa todas as esferas celestes, na ordem definida por Aristóteles

De acordo com uma lenda bem suspeita, quando Galileu finalmente se pôs de pé, ele sussurrou as palavras “eppur si muove”, “e mesmo assim ela se move”. Verdadeira ou não, essa lenda simboliza a força com que Galileu acreditava em suas ideias, que nem mesmo a humilhação sofrida durante o longo julgamento abalou. E ele certamente teve a palavra final.

Mesmo que, na prática, a pesquisa na fronteira do conhecimento seja muitas vezes interpretada de modo diferente, ao final as várias opiniões convergem e a teoria é aceita ou refutada. Caso contrário, a ciência perderia sua universalidade. O subjetivismo aparece no processo criativo científico, mas não no seu produto final, conforme comentei anteriormente.

Na minha opinião, essa teoria [científica da Criação] é imune a qualquer questionamento de natureza metafísica ou religiosa. Ela permite que o materialista negue a necessidade de um Ser transcendental […] Já para o crente, ela remove qualquer tentativa de aproximação com Deus […] Ela é semelhante ao Deus Invisível de Isaías, escondido no início [da Criação].

“Usando apenas seus dados, será que você pode me dizer onde você está?”. Lembrando-se de sua física de vestibular, você sabe como calcular sua aceleração a partir de seus dados. Você obtém a mesma aceleração medida na superfície da Terra, respondendo à Voz: “É claro, como eu medi uma aceleração idêntica àquela medida na superfície da Terra, devo estar na Terra”.

o currículo de Cambridge ainda era firmemente baseado no pensamento aristotélico. Em Cambridge, como na maioria das universidades europeias da época, uma educação liberal consistia no trivium (retórica, gramática e lógica), seguido do quadrivium (geometria, aritmética, música e astronomia), que incluía uma introdução à física aristotélica e à geometria euclidiana.

A rica tapeçaria de ideias que exploramos até agora é tecida por esse tema comum, que, espero tê-lo convencido, faz parte das próprias raízes da ciência ocidental. Dada a importância desse tema, é talvez surpreendente que quando ensinamos ciência hoje em dia não se faça nenhuma menção à religião, a menos que seja para enfatizar que as duas não devem ser confundidas.

Para mim, não é claro que a beleza e a ordem que tantas vezes encontramos na Natureza não possam ser simplesmente resultado do acaso, de acidentes sem nenhum objetivo ou “plano final”. Por outro lado, também não é claro que tudo seja produto do acaso. O que confunde essa discussão é que, com frequência, a beleza é resultado de um compromisso entre acaso e otimização.

O raciocínio quantitativo tornou-se sinônimo de ciência, e com tal sucesso que a metodologia newtoniana foi transformada na base conceitual de todas as áreas de atividade intelectual, não só científica, como também política, histórica, social e até moral. Como comentou Isaiah Berlin, “nenhuma esfera do pensamento ou da vida escapou às consequências dessa mutação cultural

É importante que tenhamos em mente as diferenças fundamentais entre um enfoque religioso e um enfoque científico das questões cosmológicas. A linguagem é diferente, os símbolos são diferentes. As teorias científicas têm sempre de ser testadas por experimentos, ao contrário da relativa liberdade dos criadores de mitos; mas as questões são as mesmas, isso não podemos negar.

Nossa galáxia, a Via Láctea, é apenas uma entre bilhões de outras, sendo sua posição perfeitamente irrelevante. Nosso planeta não ocupa uma posição especial no sistema solar, nosso Sol não ocupa uma posição especial em nossa galáxia, e nossa galáxia não ocupa uma posição especial no Universo. O que temos de especial é a habilidade de nos maravilharmos com a beleza do cosmo.

conquistadores”.2 Agora podemos entender por que a Igreja condenou a busca do conhecimento “pagão”, ou seja, conhecimento sobre assuntos fora da esfera da religião. O barbarismo que corrompia o corpo era o mesmo que corrompia a mente; qualquer apropriação de informação através dos sentidos decerto só poderia levar à corrupção da alma. As tentações carnais, dependentes que são

A supermente de Laplace estava morta. No mundo do muito pequeno, o observador tem um papel fundamental na determinação da natureza física do que está sendo observado. Mais ainda, os resultados de experimentos só podem ser dados em termos de probabilidades. A certeza é substituída pela incerteza, o determinismo, pelas probabilidades, os processos contínuos, pelos saltos quânticos.

supermente de Laplace estava morta. No mundo do muito pequeno, o observador tem um papel fundamental na determinação da natureza física do que está sendo observado. Mais ainda, os resultados de experimentos só podem ser dados em termos de probabilidades. A certeza é substituída pela incerteza, o determinismo, pelas probabilidades, os processos contínuos, pelos saltos quânticos. Como

Essa divisão do Universo em dois domínios será extremamente atraente para a teologia medieval cristã. Infelizmente, a igreja também irá adotar (e corromper) uma das piores características do pensamento platônico, sua aversão à ciência observacional. Como resultado, o desenvolvimento de uma ciência baseada na observação da Natureza permanecerá em estado de hibernação até a Renascença. O

A importância desse episódio é tamanha que, em 1982, o papa João Paulo II discursou sobre a necessidade de um estudo mais profundo dos eventos, “para remover as barreiras, ainda incitadas em muitas mentes pelo episódio Galileu, que possam obstruir uma relação frutífera entre ciência e fé”.1 Enfim, em 1992, o papa revogou oficialmente a condenação de Galileu pela Igreja, datada de 360 anos antes.

para mim é muito provável que, no princípio, Deus tenha formado a matéria a partir de partículas sólidas, maciças, duras e impenetráveis […] [essas partículas são] tão duras que é impossível cortá-las ou dividi-las em pedaços; nenhum poder ordinário pode dividir o que Deus gerou como uma unidade na primeira Criação.25 No universo infinito de Newton, a razão era a única ponte possível até o Divino.

A hipótese atomista é, talvez, a ideia pré-socrática de impacto mais óbvio na ciência moderna. Conforme aprendemos no segundo grau, todos os elementos químicos são compostos por átomos, que, por sua vez, são compostos por prótons, nêutrons e elétrons. Embora existam várias analogias entre as ideias de Leucipo e Demócrito e a teoria atômica moderna, essas analogias exibem sérias limitações, e podem de fato confundir mais do que informar.

Galileu acreditava que todas as nebulosas eram aglomerados de estrelas, que pareciam difusas devido a sua enorme distância. Kant concordava com Galileu, mas foi mais além. Assim como as estrelas se agrupam sob sua atração gravitacional para formar nebulosas, grupos de nebulosas também formam aglomerados, que Kant chamou de “universos-ilhas”. Kant acreditava que o Universo tinha uma estrutura hierárquica, criado “de acordo com a infinitude do grande Construtor”.

Tryon propôs que o Universo como um todo surgiu a partir de uma flutuação do vácuo, a partir do “nada quântico”. Essa proposta pode ser classificada como um modelo que propõe que o Universo teve uma origem temporal a partir do “nada”. Entretanto, devemos nos lembrar que o significado do termo nada, aqui e em outros modelos que sugerem uma criação quântica do Universo, deve ser interpretado sob a lente da mecânica quântica, o “vácuo quântico”, e não o Nada metafísico representando o vazio absoluto.

É indiscutível que a teologia lida com assuntos de natureza divina e que, portanto, ocupa uma posição régia entre as ciências. Mas, ao adquirir dessa maneira a mais alta autoridade, se ela não descer de vez em quando ao nível mais mundano das outras ciências, e se não mostrar nenhum interesse nesses assuntos por eles não serem sacros o suficiente, então seus professores não devem arrogantemente assumir a autoridade de decidir controvérsias pertinentes a profissões que eles não estudaram nem praticaram.

Em graus diferentes, todos fazemos parte dessa aventura, todos podemos compartilhar o êxtase que surge a cada nova descoberta; se não por intermédio de nossas próprias atividades de pesquisa, ao menos ao estudarmos as ideias daqueles que expandiram e expandem as fronteiras do conhecimento com sua criatividade e coragem intelectual. Nesse sentido, você, eu, Heráclito, Copérnico e Einstein somos todos parceiros da mesma dança, todos dançamos com o Universo. É a persistência do mistério que nos inspira a criar.

A criação do mundo não terminou até que P’an Ku morreu. Somente sua morte pôde aperfeiçoar o Universo: de seu crânio surgiu a abóbada do firmamento, e de sua pele a terra que cobre os campos; de seus ossos vieram as pedras, de seu sangue, os rios e os oceanos; de seu cabelo veio toda a vegetação. Sua respiração se transformou em vento, sua voz, em trovão; seu olho direito se transformou na Lua, seu olho esquerdo, no Sol. De sua saliva e suor veio a chuva. E dos vermes que cobriam seu corpo surgiu a humanidade.

Gamow tentou escapar da União Soviética várias vezes, onde ele concluiu ser impossível trabalhar livremente em pesquisa. A filosofia partidária havia invadido as universidades, determinando o que podia e o que não podia ser estudado pelos cientistas. Por exemplo, qualquer estudo em cosmologia, ou outros tópicos relacionados à relatividade geral de Einstein, estava proibido, pois eles eram considerados contrários ao materialismo dialético. O dogmatismo necessariamente leva à ignorância. E a ignorância inspira o dogmatismo

Se assumirmos que “algo” criou “tudo”, caímos em uma regressão infinita; quem criou o algo que criou o tudo? Como podemos entender o que existia antes de “tudo” existir? Se dissermos que “nada” existia antes de “tudo”, estamos assumindo a existência de “nada”, o que implicitamente assume a existência de um “tudo” que lhe é contrário. Nada já é muito, como na história de Alice no País das Maravilhas, em que o Rei Vermelho pergunta a Alice: “O que você está vendo?”, e Alice responde: “Nada”. O rei, impressionadíssimo, comenta: “Mas que ótimos olhos você tem!”.

Propôs que a deflexão de um raio luminoso por um campo gravitacional intenso poderia, em princípio, ser observada se a luz de uma estrela distante passasse suficientemente próxima do Sol durante seu trajeto em direção à Terra. Como durante um eclipse solar a luz do Sol é temporariamente bloqueada, os astrônomos poderiam medir a posição da estrela e compará-la com medidas tomadas quando o Sol não está entre a estrela e a Terra. Se os astrônomos detectassem uma mudança na posição da estrela, a conclusão seria clara: a luz é de fato defletida por campos gravitacionais.

A hipótese nebular foi um terrível choque para os teístas, seguidores dos passos de Newton: para que invocar Deus como criador da ordem observada no sistema solar, quando simples argumentos mecânicos são suficientes? (Ninguém parece ter se preocupado com a questão da origem da nuvem gasosa.) Bombardeado por argumentos dessa natureza, o Deus dos teístas foi sendo aos poucos substituído pelo Deus “relojoeiro” dos deístas, o qual, após criar o Universo, deixa-o evoluir sob o controle das leis da física, tal como um relógio funcionando sob a ação de seus próprios mecanismos.

Talvez ainda mais importante do que as respostas sejam as perguntas, que revelam tão claramente o que significa ser humano. Conforme escreveu Milan Kundera no seu romance A insustentável leveza do ser: De fato, as únicas questões realmente sérias são aquelas que até uma criança pode formular. Apenas as questões mais inocentes são realmente sérias. Elas são as questões sem resposta. Uma questão sem resposta é uma barreira intransponível. Em outras palavras, são as questões sem resposta que definem as limitações das possibilidades humanas, que descrevem as fronteiras da existência humana.

Você não tem de acreditar nos cientistas. Você tem de compreender suas ideias. Mais ainda, você deve duvidar seriamente de qualquer cientista que tente convencê-lo, baseado em argumentos científicos, da futilidade de sua crença religiosa. Em contrapartida, você também deve duvidar de qualquer sacerdote que tente convencê-lo, baseado em argumentos religiosos, da futilidade da ciência moderna. O importante aqui é evitar uma competição entre ciência e religião. Ciência não é um sistema de crenças, mas um sistema de conhecimento desenvolvido com o objetivo de organizar a realidade à nossa volta.

Mesmo que seja possível usar relatividade geral e mecânica quântica na construção de modelos matemáticos que descrevam de modo autoconsistente uma possível “origem”, na minha opinião modelos por si sós não são suficientes para que realmente possamos entender a origem do Universo. Já que todos esses modelos supõem a validade das leis da física como ferramenta fundamental em sua construção, eles, por definição, não podem explicar qual a origem das próprias leis da física. Se simplesmente supusermos que as leis da física foram criadas juntamente com o Universo, cairemos forçosamente numa regressão infinita.

Numa primeira leitura de Lucrécio, podemos achar que ele propaga essa ideia da fria racionalidade da ciência. Mas, se lermos com mais cuidado, veremos que, por trás da defesa da atitude racional, podemos discernir a outra face da ciência, sua face humana. Para os atomistas, a ciência deve ser entendida como uma resposta a uma necessidade social, a necessidade de liberar as pessoas da escravidão causada pela superstição e pelo medo do sobrenatural. Seu poder reside precisamente nessa universalidade, na sua independência intrínseca de qualquer subjetividade. Isso não significa que não existe lugar para individualidade

Os artigos de Penzias e Wilson e do grupo de Princeton apareceram lado a lado numa edição do Astrophysical Journal de 1965. Por sua descoberta, Penzias e Wilson ganharam o prêmio Nobel em 1979. Gamow, que morreu em 1968, deve ter sorrido (na verdade, sendo Gamow, ele provavelmente festejou como louco e saiu para um passeio em sua motocicleta) quando finalmente viu seu trabalho ser comprovado. O Universo primordial era mesmo uma fornalha que cozinhou os elementos mais leves, deixando uma radiação composta por fótons em frequências de micro-ondas como lembrança das extremas condições físicas que reinaram durante o início de sua história.

  1. um objeto em movimento sofre uma contração de seu comprimento na mesma direção em que ele se move; 2) um relógio em movimento bate mais devagar; 3) massa e energia podem ser convertidas entre si; 4) não podemos determinar se os constituintes fundamentais da matéria são ondas ou partículas, a famosa “dualidade onda-partícula”; 5) ao observarmos um sistema físico influenciamos seu comportamento; não existe mais uma separação clara entre observador e observado; 6) a presença de matéria deforma a geometria do espaço e altera o fluxo do tempo; 7) não podemos determinar a localização de um objeto — apenas afirmar a probabilidade de ele estar aqui ou ali.

Após derrotar os persas em uma série de conflitos durante as primeiras décadas do século V a.C., a civilização grega viveu um século e meio de grande esplendor, inspirada pela liderança de Péricles, que governou Atenas por 32 anos, de 461 a 429. Nem mesmo as amargas disputas entre Atenas, Esparta e outros Estados, que acabaram resultando na Guerra do Peloponeso, entre 431 e 404, conseguiram ofuscar o incrível nível de sofisticação atingido durante esse período. Nas palavras de H. G. Wells, “[…] durante esse período o pensamento e o impulso criativo e artístico dos gregos ascenderam a níveis que os transformaram numa fonte de luz para o resto da História”.

A ciência tem o poder de expandir nossa percepção do mundo, permitindo-nos explorar mundos invisíveis e fascinantes, sejam eles células, átomos ou mesmo estrelas ou galáxias distantes. Esse é, provavelmente, um dos motivos que inspiram tantas pessoas a dedicarem suas vidas ao estudo da Natureza. De vez em quando elas se deparam com algo de novo, um mundo previamente invisível, que irá expandir nossos horizontes intelectuais, desafiando nossa imaginação. E, às vezes, esse mundo novo será também importante sob um ponto de vista mais prático. Sem o conhecimento da célula ou do átomo, muitos dos nossos avanços na área médica ou tecnológica simplesmente seriam impossíveis.

Para que seres vivos possam se desenvolver, é necessário que se alimentem de produtos encontrados em seu meio ambiente, deixando para trás restos ou excrementos desnecessários para seu metabolismo. Embora a ordem esteja surgindo localmente (o ser vivo), globalmente (o ser vivo e o meio ambiente) a entropia continua sempre a crescer. No final, a desordem sempre vence. Parece deprimente? Pense na outra alternativa: um mundo com entropia constante é um mundo sem mudanças, sem surpresas. Tudo seria ou estático ou perfeitamente cíclico, sempre voltando ao seu ponto de partida, num movimento que se repete por toda a eternidade. Essa, eu acredito, é uma alternativa muito mais deprimente. O preço do novo é o declínio da ordem.

Como vimos, a cosmologia é a única disciplina da física que lida com questões que podem também ser legitimamente formuladas fora do discurso científico. Essa característica faz com que a cosmologia, assim como os cosmólogos, seja percebida de modo um pouco diferente do resto das disciplinas científicas ou mesmo de outros cientistas. (O mesmo pode ser dito de biólogos estudando questões relacionadas com a origem da vida.) Em geral, os livros sobre as propriedades de materiais magnéticos ou lasers não são muito populares em comparação com os livros sobre o Universo, mesmo sendo os materiais magnéticos ou os lasers muito mais importantes no nosso dia a dia do que as questões sobre o modelo do big bang ou sobre os buracos negros.

Podemos agradecer a Benjamin Franklin (1706-1790) por essa grande invenção. No verão de 1752, durante uma tempestade semelhante à que descrevi, Franklin decidiu comprovar sua hipótese de que os raios eram relacionados com a eletricidade. Quando os raios começaram a cair, Franklin e seu filho corajosamente saíram para soltar uma pipa feita de seda. Eles amarraram uma chave à linha da pipa, notando que, quando o “fogo elétrico” atingia a pipa, a chave soltava faíscas. Mudando os objetos amarrados à linha da pipa, Franklin podia “coletar” a eletricidade dos raios. Ele também descobriu que, se a linha da pipa estivesse ligada diretamente ao chão, o raio descarregava-se completamente, sem causar nenhum dano. E assim nasceu o para-raios!

Embora corretamente aprendamos na escola que a física newtoniana é um modelo de pura racionalidade, desonraríamos a memória de Newton se desprezássemos o papel crucial de Deus em seu Universo. Talvez seja verdade que para entender seus achados científicos não precisamos investigar seus interesses de natureza mais metafísica. Mas sua ciência é apenas metade da história. Newton via o Universo como manifestação do poder infinito de Deus. Não é exagero dizer que sua vida foi uma longa busca de Deus, uma longa busca de uma comunhão com a Inteligência Divina, que Newton acreditava dotar o Universo com sua beleza e ordem. Sua ciência foi um produto dessa crença, uma expressão de seu misticismo racional, uma ponte entre o humano e o divino.

mais profunda emoção que podemos experimentar é inspirada pelo senso do mistério. Essa é a emoção fundamental que inspira a verdadeira arte e a verdadeira ciência. Quem despreza esse fato, e não é mais capaz de se questionar ou de se maravilhar, está mais morto do que vivo, sua visão, comprometida. Foi o senso do mistério — mesmo se misturado com o medo — que gerou a religião. A existência de algo que nós não podemos penetrar, a percepção da mais profunda razão e da beleza mais radiante no mundo à nossa volta, que apenas em suas formas mais primitivas são acessíveis às nossas mentes — é esse conhecimento e emoção que constituem a verdadeira religiosidade; nesse sentido, e nesse sentido apenas, eu sou um homem profundamente religioso.

Universo. O debate entre ciência e religião restringe-se na maior parte das vezes à discussão de sua mútua compatibilidade: será possível que uma pessoa possa questionar o mundo cientificamente e ainda assim ser religiosa? Acredito que a resposta é um óbvio sim, contanto que seja claro para essa pessoa que ambas não devem interferir entre si de modo errado, ou seja, que existem limites tanto para a ciência como para a religião. Cientistas não devem abusar da ciência, aplicando-a a situações claramente especulativas, e, apesar disso, sentirem-se justificados em declarar que resolveram ou que podem resolver questões de natureza teológica. Teólogos não devem tentar interpretar textos sagrados cientificamente, porque estes não foram escritos com esse objetivo.

Por exemplo, na religião hindu, na qual o tempo tem uma natureza circular, a Criação é repetida eternamente, num ciclo de criação e destruição simbolizado pela dança rítmica do deus Xiva: Na noite do Brama (a essência de todas as coisas, a realidade absoluta, infinita e incompreensível), a Natureza é inerte e não pode dançar até que Xiva assim o deseje. O deus se alça de seu estupor e, através de sua dança, envia ondas pulsando com o som do despertar, e a matéria também dança, aparecendo gloriosamente à sua volta. Dançando, Ele sustenta seus infinitos fenômenos, e, quando o tempo se esgota, ainda dançando, Ele destrói todas as formas e nomes por meio do fogo e se põe de novo a descansar.5 A dança de Xiva simboliza tudo que é cíclico no Universo, incluindo sua própria evolução.

A terceira, e mais importante, razão para o domínio exercido pelo pensamento aristotélico sobre o mundo ocidental foi a apropriação de suas ideias pela Igreja cristã. Até o século XII, a teologia cristã era influenciada principalmente pelo neoplatonismo de santo Agostinho, desenvolvido no início do século V em suas Confissões e em A cidade de Deus. Paralelamente à influência neoplatônica, alguns elementos do pensamento aristotélico foram apropriados pela Igreja durante esse mesmo período. O retorno total de Aristóteles se dá no século XIII, devido à influência de santo Tomás de Aquino. Conforme veremos a seguir, a cosmologia de Aristóteles servia como uma luva a uma teologia baseada na separação entre a vida na Terra, decadente e efêmera, e a perfeita e eterna existência no Paraíso.

Este magnífico sistema do Sol, planetas e cometas poderia somente proceder do conselho e domínio de um Ser inteligente e poderoso. […] Nós o conhecemos somente por suas invenções mais sábias e excelentes das coisas e pelas causas finais; o admiramos por suas perfeições; mas o reverenciamos e adoramos por causa de seu domínio: pois nós o adoramos como seus serventes; e um deus sem domínio, providência ou causas finais não é nada além de Destino e Natureza. A necessidade metafísica cega, que certamente é a mesma sempre e em todos os lugares, não poderia produzir nenhuma variedade de coisas. Toda aquela diversidade das coisas naturais que encontramos adaptadas a tempos e lugares diferentes não se poderia originar de nada a não ser das ideias e vontade de um Ser necessariamente existente.

Era bastante claro para mim que o paraíso religioso da juventude, agora perdido, era uma primeira tentativa para que eu pudesse me libertar do “meramente pessoal”, de uma existência dominada por vontades, expectativas e desejos primitivos. Lá fora está esse mundo imenso, existindo independentemente de nós, seres humanos, enorme e eterno enigma, ao menos parcialmente acessível à nossa razão. Eu entendi que a contemplação desse mundo era uma nova forma de liberação […] A possibilidade de compreendermos esse mundo impessoal de modo racional tornou-se para mim, consciente ou inconscientemente, o objetivo supremo […] Talvez o caminho para esse paraíso não fosse tão confortável e seguro como o caminho para o paraíso religioso; mas ele provou ser confiável, e eu nunca me arrependi de minha escolha.

inesperado”.27 A astrologia continuou a exercer um papel social importante na sociedade romana, antes de sua repressão pela Igreja cristã a partir do século IV, especialmente devido à influência do pensamento de santo Agostinho, expresso em seu livro A cidade de Deus. Um ponto de importância central nesse debate era a questão do livre-arbítrio; já que na astrologia antiga o Universo era essencialmente mecanicista, o indivíduo jamais teria a liberdade de escolher seu destino, o futuro estando controlado pelos movimentos celestes. Essa noção violava a onipotência do Deus cristão, fazendo com que a astrologia se tornasse inaceitável. Tentativas para aliviar a tensão entre a Igreja e a astrologia argumentavam que “as estrelas não impõem, apenas sugerem”, deixando ao indivíduo a escolha final de seu destino, guiado em princípio por Deus. Embora

Pela primeira vez em toda a História, é possível lutar numa guerra diferente de todas as outras, uma guerra sem vencedores. Conforme escreveu Oppenheimer após a detonação da primeira bomba atômica no deserto do estado americano do Novo México, nós esperamos até que os efeitos mais imediatos da explosão houvessem se acalmado para sairmos de nossos abrigos. A atmosfera geral era extremamente solene. Sabíamos que o mundo jamais seria o mesmo. Algumas pessoas riam, outras choravam. Mas a maioria permaneceu em silêncio. Eu me recordei de uma passagem das escrituras hindus, o Bagavad-Gita: Vishnu está tentando convencer o Príncipe a concluir suas tarefas. Para pressioná-lo, ele assumiu sua forma com vários braços e disse: “Agora sou a Morte, destruidora de mundos”. Acho que todos nós, de uma forma ou de outra, estávamos pensando a mesma coisa.13

Talvez nenhum outro astrônomo do século XVIII conhecesse o céu com a precisão do inglês William Herschel. Ele gostava de comparar o céu a um jardim, “que contém uma enorme variedade de seres”.7 Com a devoção obsessiva de um botânico semienlouquecido, armado com os maiores telescópios da época, Herschel decidiu mapear os céus. Em 1788, ele tinha um telescópio com um espelho de 130 centímetros de diâmetro. Próximo à sua morte, em 1822, Herschel havia descoberto um novo planeta, Urano; produzido um catálogo com 2500 nebulosas; desenvolvido a nova disciplina conhecida como astronomia estelar, e tentado, pela primeira vez, desenvolver um esquema de classificação para as várias nebulosas, criando os nomes “nebulosa planetária” e “aglomerado globular”. Mais do que qualquer outro antes dele, Herschel contemplou a imensa riqueza escondida nas profundezas do cosmo.

A massa é uma forma de energia, a famosa equação E = mc2. Mesmo que um objeto esteja em repouso, ele tem energia “armazenada” em sua massa, m. O que acontece, porém, quando o objeto está em movimento? Ele deve ter mais energia do que quando está em repouso. De modo a acomodar esse fato óbvio, Einstein propôs que a massa de um objeto aumenta com a sua velocidade, tendendo a um valor infinito à medida que ele se aproxima da velocidade da luz; desse modo, para acelerarmos um objeto até a velocidade da luz, precisaríamos de uma quantidade infinita de energia. Em outras palavras, nenhum objeto com extensão espacial e com massa pode atingir a velocidade da luz. Ela é, mesmo que as histórias de ficção científica insistam em afirmar o contrário, a velocidade mais alta da Natureza. Apenas a genial imaginação poética de um adolescente precoce podia viajar tão rápido.

Copérnico postula que o Sol é o centro da órbita de todos os planetas e, portanto, do Universo; que a Lua, e apenas a Lua, gira em torno da Terra; que a Terra gira em torno de seu eixo; e que a Terra e os outros planetas giram em torno do Sol em órbitas circulares. Com esse arranjo, Copérnico literalmente destruiu o universo aristotélico, baseado na divisão do cosmo nos domínios sublunar e celeste. Se a Terra não ocupa mais o centro do Universo, a divisão do cosmo nos domínios do ser (a Lua e tudo acima) e do devir (abaixo da Lua) deixa de fazer sentido, assim como a hierarquia moral adotada pela teologia medieval cristã, que parte do Inferno, no centro da Terra, ponto de maior decadência e corrupção, e vai até a esfera empírea, ponto da mais elevada virtude. O centro do cosmo não é mais o diabo, mas sim a fonte de toda luz e energia, o responsável pela geração da vida na Terra, “o deus visível”.

Um belo exemplo vem dos índios Hopi, dos Estados Unidos. Nele existem duas personagens principais, Taiowa (o Criador, representando o Ser) e Tokpela (o espaço infinito, representando o Não Ser). O primeiro mundo foi Tokpela. Mas antes, se diz, existia apenas o Criador, Taiowa. Todo o resto era espaço infinito. Não existia um começo ou um fim, o tempo não existia, tampouco formas materiais ou vida. Simplesmente um vazio incomensurável, com seu princípio e fim, tempo, formas e vida existindo na mente de Taiowa, o Criador. Então Ele, o infinito, concebeu o finito: primeiro Ele criou Sotuknang, dizendo-lhe: “Eu o criei, o primeiro poder e instrumento em forma humana. Eu sou seu tio. Vá adiante e perfile os vários universos em ordem, para que eles possam trabalhar juntos, de acordo com meu plano”. Sotuknang seguiu as instruções de Taiowa; do espaço infinito ele conjurou o que se manifestaria como substância sólida, e começou a moldar as formas concretas do mundo.

Conforme vimos antes, a restrição fundamental que devemos enfrentar quando tentamos entender a origem de “tudo” é a limitação imposta pela nossa percepção bipolar da realidade; o processo ou entidade responsável pela Criação tem necessariamente que criar ambos os opostos, estando portanto além dessa dicotomia. A solução encontrada para esse problema pelas várias culturas é essencialmente religiosa. Em geral, todas as culturas assumem a existência de uma realidade absoluta, ou simplesmente de um Absoluto, que não só abrange como transcende todos os opostos. Esse Absoluto é o elemento central na estrutura de todas as religiões, dando assim um caráter religioso aos mitos de criação. O Absoluto, então, incorpora em si a síntese de todos os opostos, existindo por si só, independente da existência do Universo. Ele não tem uma origem, já que está além de relações de causa e efeito. Esse Absoluto pode ser Deus, ou o domínio de vários deuses, ou o Caos Primordial, ou mesmo o Vazio, o Não Ser.

Em outras palavras, não é o “Deus tapa-buracos”, invocado toda vez que atingimos o limite das explicações científicas, que faz com que a religião tenha um papel dentro do contexto científico. Se queremos encontrar um lugar para a religião na ciência moderna, devemos examinar as motivações subjetivas de cada cientista, e não o produto final de suas pesquisas. Ao assumir essa posição, estou me aliando a Einstein, que escreveu que “religião sem ciência é cega, e ciência sem religião é aleijada”.26 Com isso Einstein queria dizer que, no estudo de fenômenos naturais, a religião não deve fechar seus olhos aos avanços científicos, como, por exemplo, no episódio entre Galileu e a Igreja católica. Contudo, talvez de modo mais surpreendente, Einstein acreditava que a prática científica necessita de uma espécie de inspiração religiosa; ou, mais dramaticamente, que a devoção à ciência e a fé que implicitamente temos na razão humana como instrumento capaz de desvendar os mistérios da Natureza são, em sua essência, atitudes religiosas.

A Natureza era respeitada e idolatrada, sendo a única responsável pela sobrevivência de nossa espécie, a qual vivia basicamente da caça e de uma agricultura bastante rudimentar. Na esperança de que catástrofes naturais tais como vulcões, tempestades ou furacões não destruíssem as suas casas e plantações, ou matassem os animais e peixes, várias culturas atribuíram aspectos divinos à Natureza. Os pormenores desse processo de deificação da Natureza variam de acordo com a localização, clima ou com o grau de isolamento de um determinado grupo. Em certas culturas, vários deuses controlavam (ou até personificavam) as diferentes manifestações naturais, enquanto em outras a própria Natureza era divina, a “Deusa-Mãe”. Rituais e oferendas procuravam conquistar a simpatia divina, garantindo assim a sobrevivência do grupo. Através dessa relação com os deuses, os indivíduos buscavam ordenar sua existência, dando sentido a fenômenos misteriosos e ameaçadores. Por outro lado, a relação com os deuses tinha também uma função social, impondo valores morais e éticos que eram fundamentais para a coesão do grupo.

No início de 1665 encontrei um método para a aproximação de séries e a regra para expressar qualquer potência de qualquer binômio nos termos dessas séries. No mesmo ano, em maio, descobri o método de tangentes de Gregory e Slusius e, em novembro, o método direto de fluxões [o que nós hoje chamamos de cálculo diferencial], e no ano seguinte, em janeiro, a teoria das cores e, em maio, o método inverso de fluxões [o que nós chamamos de cálculo integral]. No mesmo ano comecei a pensar na força da gravidade estendendo-se até a órbita da Lua e, […] usando a regra de Kepler para os períodos dos planetas [proporcional à distância do centro de suas órbitas elevada à potência de 3/2], deduzi que as forças que mantêm os planetas em órbita têm de ser inversamente proporcionais ao quadrado da distância entre os planetas e o centro de suas órbitas; e daí comparei a força necessária para manter a Lua em sua órbita com a força da gravidade na superfície da Terra e descobri que elas concordam de modo bastante satisfatório. Tudo isso ocorreu durante os “anos da peste” 1665-1666. Pois nesses dias eu estava no auge da minha inventividade e me preocupava com matemática e filosofia mais do que em qualquer período desde então.

A expressão mais brilhante do papel social e religioso do atomismo é, para mim, encontrada no poema De rerum natura, “Da natureza das coisas”, escrito pelo poeta romano Lucrécio (96-55 a.C.): Nem mesmo o brilho do Sol, a radiação que sustenta o dia, pode dispersar o terror que reside na mente das pessoas. Apenas a compreensão das várias manifestações naturais e de seus mecanismos internos tem o poder de derrotar esse medo. Ao discutir esse tema, nosso ponto de partida será baseado no seguinte princípio: nada pode ser criado pelo poder divino a partir do nada. As pessoas vivem aterrorizadas porque não compreendem as causas por trás das coisas que acontecem na terra e no céu, atribuindo-as cegamente aos caprichos de algum deus. Quando finalmente entendermos que nada pode surgir do nada, teremos uma imagem muito melhor de como formas materiais podem ser criadas, ou como fenômenos podem ser ocasionados sem a ajuda de um deus. E, um pouco mais adiante: Porque a mente quer descobrir, através do uso da razão, o que existe no longínquo e infinito espaço, longe dos problemas desse mundo — aquela região onde o intelecto sonha em penetrar, aonde a mente, livre, estende seu voo em direção ao desconhecido.19 Que lúcida argumentação em favor de uma descrição científica da Natureza!

As ideias de Doppler foram confirmadas de modo extremamente dramático pelo meteorologista holandês Christopher Buijs-Ballot, em 1845. Usando suas conexões com membros do governo, Buijs-Ballot conseguiu obter por alguns dias uma locomotiva e um trecho de uma ferrovia. Sua ideia era simples: se o efeito Doppler está relacionado com o movimento da fonte de ondas, por que não testá-lo usando notas musicais num trem em movimento? Ele convenceu um grupo de músicos da seção de sopros de uma orquestra a emitir a mesma nota, de pé num vagão aberto puxado pela locomotiva a uma velocidade constante conhecida. Numa plataforma ao lado da ferrovia, Buijs-Ballot colocou um grupo de especialistas capazes de distinguir notas musicais de ouvido. Fazendo com que o trem passasse em frente ao grupo de especialistas com velocidades diferentes, Buijs-Ballot podia testar a fórmula de Doppler. Os pobres músicos tiveram que soprar seus trombones e trombetas até ficarem roxos, lutando contra o barulho ensurdecedor da locomotiva e contra a densa fumaça negra voando ao seu encontro. Felizmente, após várias tentativas, os especialistas finalmente confirmaram a mudança de tom prevista pela fórmula de Doppler.15 O efeito Doppler me faz recordar as raras ocasiões em que ouvi meu pai tocar acordeão, um velho Scandalli que fazia parte da família havia muito tempo.

Agora vem a parte mais interessante. Em vez de um passageiro andando com velocidade v na direção do vagão-restaurante, imagine que o passageiro que estava sentado se levanta e aponta uma lanterna na direção leste ( → ). “Fácil”, você diz, “a luz da lanterna irá se mover com velocidade c em relação ao trem e com velocidade V + c em relação à pessoa na estação. Certo?” Errado! Se isso fosse verdade, poderíamos imaginar uma situação em que o passageiro apontaria sua lanterna na direção oeste ( ← ) e, se a velocidade do trem na direção leste ( → ) fosse igual à velocidade da luz, então a pessoa na estação veria um raio de luz em repouso, em contradição frontal com a teoria de Maxwell. Mas então como a teoria de Maxwell pode ser reconciliada com o princípio da relatividade? Como solução, Einstein sugeriu que a velocidade da luz no vácuo (espaço vazio) não é como qualquer outra velocidade, mas é especial; a velocidade da luz é a velocidade limite de processos causais na Natureza, a velocidade mais alta com que a informação pode viajar. Mais do que isso, a velocidade da luz é independente da velocidade de sua fonte. O passageiro segurando a lanterna mede a velocidade das ondas de luz produzidas pela lanterna como sendo c, assim como a pessoa que está de pé na estação. Com essa hipótese, a teoria de Maxwell pode ser reconciliada com o princípio da relatividade.

Agora podemos entender por que a Igreja condenou a busca do conhecimento “pagão”, ou seja, conhecimento sobre assuntos fora da esfera da religião. O barbarismo que corrompia o corpo era o mesmo que corrompia a mente; qualquer apropriação de informação através dos sentidos decerto só poderia levar à corrupção da alma. As tentações carnais, dependentes que são dos cinco sentidos, sem dúvida levavam à danação eterna. Como o estudo da Natureza necessariamente dependia do uso dos sentidos, ele também foi considerado conhecimento “pagão”, capaz de corromper a virtude cristã. Nas palavras de santo Agostinho, Agora menciono uma outra forma de tentação ainda mais variada e perigosa. Pois acima da tentação carnal, que se baseia nas delícias e prazeres sensuais — e cujos escravos, ao distanciarem-se de Vós, provocam sua própria destruição —, existe também a tentação da mente, que, utilizando-se dos cinco sentidos, motivada por vaidade e curiosidade, realiza experimentos com o auxílio do corpo, em busca de conhecimento e sabedoria […] Assim, os homens investigam os fenômenos da Natureza — aquela parte da Natureza externa aos nossos corpos — mesmo que esse conhecimento não tenha nenhum valor para eles: eles estão interessados apenas na busca do conhecimento, puro e simples […] Certamente os teatros não me atraem mais, nem tenho interesse em estudar os movimentos celestes.3

Em outros mitos, o Caos é representado de modo mais abstrato, fazendo inicialmente parte do Absoluto, junto com a Ordem. Encontramos um belíssimo exemplo no poema Metamorfoses, do romano Ovídio (43 a.C.-18 d.C.), escrito por volta do ano 8 d.C., uma rara expressão de interesse por essas questões vinda da literatura romana. Antes de o oceano existir, ou a terra, ou o firmamento, A Natureza era toda igual, sem forma. Caos era chamada, Com a matéria bruta, inerte, átomos discordantes Guerreando em total confusão: Não existia o Sol para iluminar o Universo; Não existia a Lua, com seus crescentes que lentamente se preenchem; Nenhuma terra equilibrava-se no ar. Nenhum mar expandia-se na beira de longínquas praias. Terra, sem dúvida, existia, e ar e oceano também, Mas terra onde nenhum homem pode andar, e água onde Nenhum homem pode nadar, e ar que nenhum homem pode respirar; Ar sem luz, substância em constante mudança, Sempre em guerra: No mesmo corpo, quente lutava contra frio, Molhado contra seco, duro contra macio. O que era pesado coexistia com o que era leve. Até que Deus, ou a Natureza generosa, Resolveu todas as disputas, e separou o Céu da Terra, a água da terra firme, o ar Da estratosfera mais elevada, uma liberação. E as coisas evoluíram, achando seus lugares a partir Da cega confusão inicial. O fogo, esse elemento etéreo, Ocupou seu lugar no firmamento, sobre o ar; sob ambos, a terra, Com suas proporções mais grosseiras, afundou; e a água Se colocou acima, e em torno, da terra.

No diagrama a seguir, apresento uma classificação dos mitos cosmogônicos. Figura 1.1: Uma classificação dos mitos cosmogônicos. Os “mitos com Criação” podem ser subdivididos em três grupos, de acordo com o agente que efetua a Criação. O Universo pode ser criado a partir da ação de um Ser positivo, que pode ser um deus, uma deusa ou vários deuses. O Universo pode também aparecer a partir do Vazio absoluto, o Ser Negativo ou o Não Ser, sem a intervenção de uma entidade divina. Ou, finalmente, o Universo surge através da tensão entre Ordem e Caos, ambos partes do Absoluto inicial. Aqui, as potencialidades de Ser e Não Ser coexistem simultaneamente, sem que exista ainda uma separação entre os opostos. Essa tensão por fim gerará a matéria, que, por meio de um processo contínuo de diferenciação, toma as várias formas que se manifestam no mundo natural. Nos três casos, podemos visualizar o tempo como uma reta que tem sua origem no ponto t = 0, o instante inicial. Os “mitos sem Criação” podem ser subdivididos em dois grupos. Como não existe um momento definido de criação, as únicas possibilidades são um Universo que existe e existirá para toda a eternidade, ou um Universo que é continuamente criado e destruído, em um ciclo que se repete para sempre. No primeiro caso, podemos visualizar o tempo como uma linha reta que se origina num ponto infinitamente distante de onde estamos agora. Portanto, todos os pontos na linha reta são equivalentes, e o que definimos como o início do tempo passa a ser uma escolha subjetiva. Nós é que escolhemos quando começamos a contar a passagem do tempo. No segundo caso, podemos visualizar o tempo como um círculo que sempre retorna ao seu ponto de partida. Novamente, não existe nenhum ponto especial que possamos identificar como o início do tempo.