Ética a Nicômaco (Clássicos da literatura mundial) - Guido Percu's Notes
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Ética a Nicômaco (Clássicos da literatura mundial)

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Ética a Nicômaco (Clássicos da literatura mundial)

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felicidade é uma atividade;

o homem é naturalmente um ser social.

Tudo que é feito por ignorância não é voluntário;

a benevolência, quando recíproca, torna-se amizade.

é mais característico da virtude fazer o bem do que recebê-lo,

Pois sem amigos ninguém escolheria viver, embora possuísse todos os outros bens.

como aconteceu com os argivos quando se uniram aos espartanos ao tomá-los como siciônios.

Ninguém deve, então, ser considerado feliz enquanto viver. Devemos, como diz Sólon11, aguardar o fim?

como os rústicos, torna-se de certo modo insensível. A temperança e a coragem, portanto, são destruídas pelo

A temperança e a coragem, portanto, são destruídas pelo excesso e pela carência, e preservadas pelo comedimento.

E o provérbio de que os amigos têm tudo em comum é expressão da verdade, pois a amizade depende da comunhão de bens.

Mas essas pessoas desejam passar juntas os seus dias e a sua vida, pois somente assim alcançam o propósito de sua amizade.

nem a do marido para a esposa é igual à da esposa para o marido. A virtude e a função de cada uma dessas pessoas são diferentes,

Os que são amigos em função da utilidade separam-se quando a vantagem acaba porque não amavam um ao outro, mas somente o proveito.

Por esse motivo as amizades também são passageiras. Mas o amor pelo caráter, como já foi dito, perdura porque só depende de si mesmo.

Aqueles que são amigos com base na virtude anseiam por fazer o bem um ao outro (uma vez que essa é uma marca da virtude e da amizade),

uma amizade assim, como se poderia esperar, é permanente, pois eles encontram um no outro todas as qualidades que os amigos devem ter.

Ninguém é ofendido por um homem que o ama e que lhe faz bem – se for uma pessoa de sentimentos nobres, vinga-se fazendo o bem ao outro.

Uma vez que raramente se encontra um homem divino – para usar o epíteto dos espartanos, que chamam “divino” um indivíduo que muito admiram

Mas parece estranho, quando se atribuem todas as coisas boas a um homem feliz, recusar-lhe amigos, que são considerados os maiores bens externos.

Em geral, a benevolência surge em razão de alguma excelência ou de algum mérito quando um homem parece, a outro homem, belo, corajoso ou algo assim,

E o homem que supera o outro nos serviços que presta não reclamará de seu amigo, uma vez que consegue o que almeja: cada um deles deseja o que é bom.

A felicidade, mais que tudo, parece corresponder a essa descrição, uma vez que sempre a buscamos por si mesma e nunca como meio para conseguir outra coisa.

A distância não desfaz a amizade em absoluto, mas apenas a atividade. Contudo, a ausência duradoura parece, na verdade, fazer os homens esquecerem sua amizade;

dever-se-ia retribuir aqueles com os quais estudamos filosofia, pois seu valor não pode ser medido em dinheiro, e nenhuma honra está à altura dos seus serviços.

Tirânico também é o governo dos senhores sobre os escravos, no qual somente se tem em vista a vantagem dos senhores. Esta, porém, parece ser uma forma correta de governo,

Finalmente, todos os homens amam mais o que conquistaram com o esforço de seu trabalho. Por exemplo, os que fizeram a sua riqueza amam-na mais do que aqueles que a herdaram;

os que prestaram um serviço ao outro sentem amizade e amor por aqueles aos quais serviram, mesmo que estes não lhes sejam de nenhuma utilidade e que nunca venham a sê-lo. Isso

Já a timocracia degenera em democracia; ambas são coextensivas, pois têm como ideal o governo da maioria, e aqueles que não têm posses são contados como iguais aos que as têm.

felicidade ser um primeiro princípio, pois é por causa dela que todos nós fazemos tudo que fazemos, e o primeiro princípio e causa dos bens é, afirmamos, algo valioso e divino.

as virtudes não surgem em nós nem por natureza, nem contrariamente à natureza; na verdade, estamos adaptados por natureza para recebê-las, e elas são aperfeiçoadas pelo hábito.

pois o rei os confere a seus súditos se, sendo um homem bom, cuida do bem-estar deles como um pastor zela por suas ovelhas (e por esse motivo Homero chamou Agamenon “pastor dos povos”).

Desse modo, para o homem, a vida de acordo com a razão é a melhor e a mais agradável, uma vez que a razão, mais do que qualquer outra coisa, é o homem. Essa vida, portanto, também é a mais feliz.

Em relação à vida dedicada ao ganho do dinheiro, é realizada sob compulsão, e a riqueza não é, evidentemente, o bem que buscamos; ela é algo útil, apenas, e quem a deseja na verdade ambiciona outra coisa.

Cada qual julga bem as coisas que conhece, e destas é um bom juiz. Assim, o homem que foi educado em um assunto é um bom juiz nesse assunto, e o homem que recebeu uma educação completa é um bom juiz no geral.

Mas os homens bons serão amigos por si mesmos, ou seja, em virtude de sua bondade. Esses são amigos no sentido absoluto do termo, ao passo que os outros são amigos por acidente e por semelhança com os primeiros.

Agora, que já conversamos sobre as virtudes, as formas da amizade e as variedades do prazer, resta discutir em linhas gerais a natureza da felicidade, uma vez que afirmamos ser ela a finalidade da natureza humana.

Muito bom é aquele que conhece todas as coisas por si mesmo; Bom, aquele que ouve os homens quando dão bons conselhos; Mas aquele que não sabe, nem leva a sério a sabedoria de outra pessoa Esse é uma criatura inútil4.

Também é estranho fazer do homem extremamente feliz um solitário, pois ninguém escolheria a posse do mundo inteiro com a condição de viver sozinho, uma vez que o homem é um ser político cuja natureza é viver em sociedade.

A amizade, porém, não é apenas necessária mas também nobre, pois louvamos aqueles que amam seus amigos, e consideramos uma coisa boa ter muitos deles. Pensamos, além disso, que as mesmas pessoas são bons homens e bons amigos.

Todos esses atributos, é evidente, pertencem acima de tudo ao filósofo. Ele, portanto, entre todos os homens, é o mais caro aos deuses. E será, presumivelmente, o mais feliz. De modo que também nesse sentido o filósofo será mais feliz do que qualquer outro homem.

Duas coisas que muito contribuem para a amizade são uma educação comum e a semelhança de idade, pois “pessoas da mesma idade se apegam”, e aqueles que foram criados juntos tendem a viver como camaradas; é por esse motivo que a amizade dos irmãos é semelhante à dos camaradas.

Esclarecemos o bastante que a virtude moral é um meio-termo e em que sentido é assim; esclarecemos também que ela é um meio-termo entre dois vícios, um dos quais envolve o excesso e outro, a deficiência, pois sua natureza é visar ao que é intermediário nas paixões e nas ações.

Da mesma maneira, é impossível que duas pessoas sejam amigas sem, antes, sentir benevolência uma pela outra, mas o fato de ter benevolência pelo outro não significa ter amizade, pois somente desejam o bem um do outro, e não cooperariam mutuamente nem se ocupariam em dar-se ajuda.

Dessa maneira, uma vez que a amizade depende mais de amar do que de ser amado, e os que amam seus amigos são louvados, amar parece ser a virtude característica dos amigos, de modo que apenas aqueles que amam na medida justa são amigos duradouros, e somente sua amizade resiste ao tempo.

Cada classe valoriza muito o que é seu e o que oferece; ainda assim, a retribuição deve ser feita nos termos fixados por aquele que recebe. Mas este, sem dúvida, deve avaliar uma coisa não pelo valor que ela parece ter quando já a possui, mas pelo valor que lhe atribuía antes de possuí-la.

Não devemos seguir aqueles que nos aconselham a ocupar-nos com as coisas humanas, uma vez que somos humanos, e com coisas mortais, uma vez que somos mortais. Devemos, até onde nos for possível, tornarmo-nos imortais e usar o máximo de nossos esforços para viver de acordo com o que há de melhor em nós.

também são consideradas marcas maiores da amizade. Não se pode ser amigo de muitas pessoas, no sentido de ter com elas uma amizade perfeita, assim como não se pode amar muitas pessoas ao mesmo tempo (pois o amor é, de certa maneira, um excesso de sentimento, e por natureza dirige-se a apenas uma pessoa).

mas estes são inferiores, uma vez que não agem movidos por sentimentos de honra e sim por medo, e não para evitar o que é vergonhoso, mas o que é doloroso. Seus senhores os obrigam como fez Heitor: Mas se eu deparar com algum covarde que treme e se esconde longe da luta, Em vão ele haverá de escapar dos cães.

Podem-se encontrar semelhanças entre as constituições e, por assim dizer, modelos delas nas famílias. A associação de um pai com seus filhos tem a forma da monarquia, uma vez que o pai cuida dos filhos; é por isso que Homero [na Ilíada] chama “pai” a Zeus; e o ideal da monarquia é ser uma forma paternal de governo.

Mas o filósofo, mesmo quando sozinho, pode contemplar a verdade, e quanto melhor fizer isso, mais sábio será. Pode talvez contar com colaboradores, mas ainda assim é o mais autossuficiente de todos. Essa atividade parece a única a ser amada por si mesma, porque nada deriva dela além da contemplação, enquanto das atividades

É necessário evitar tudo que seja agradável ou que proporcione prazer, pois nosso julgamento acerca disso não é imparcial. Devemos, então, sentir pelo prazer aquilo que os mais velhos sentiam por Helena e em todas as circunstâncias repetir o que eles diziam; pois se rejeitarmos o prazer teremos probabilidades menores de nos perder.

Também se discute se o homem feliz precisa ou não de amigos. Diz-se que aqueles que são extremamente felizes e autossuficientes não têm necessidade de amigos, pois possuem tudo que é bom e, como são autossuficientes, não precisam de mais nada, enquanto um amigo, sendo um outro “eu”, fornece o que um homem não consegue por esforço próprio.

Existem três espécies de constituição e um número igual de desvios – perversões, por assim dizer, dessas espécies. As constituições são monarquia, aristocracia e, em terceiro lugar, a que se baseia na posse de bens e que parece apropriado chamar timocracia, embora a maioria das pessoas a denomine governo do povo. A melhor é a monarquia, e a pior, a timocracia.

O tirano olha para sua própria vantagem; o rei, para a vantagem de seus súditos. Um homem não é rei a menos que baste a si mesmo e supere seus súditos em todas as coisas boas. Um homem assim não precisa de mais nada, e portanto não olhará para seus próprios interesses, mas para aqueles de seus súditos, pois o rei que não for assim terá somente um mero título de realeza.

A amizade entre os bons, e somente ela, é à prova de calúnias, pois ambos não dão ouvidos facilmente às coisas que uma pessoa qualquer fala sobre quem se conhece há muito tempo e em quem se confia. E é entre os bons homens que existe a confiança e o sentimento expresso pelas palavras “ele nunca me faria uma deslealdade” e todas as outras coisas exigidas por uma verdadeira amizade.

A amizade perfeita é a dos homens que são bons e semelhantes em virtude, pois desejam o bem uns aos outros quando são bons em si mesmos. Aqueles que desejam o bem a seus amigos por eles mesmos são os mais verdadeiros, uma vez que o fazem por causa de sua própria natureza e não por acidente. Portanto, essa amizade dura tanto tempo quanto eles são bons – e a bondade é uma coisa duradoura.

Pois é necessária, como dissemos, não apenas a virtude completa, mas também uma existência completa, uma vez que muitas mudanças ocorrem na vida, bem como todo tipo de eventualidades; o mais próspero dos homens pode sofrer grandes infortúnios na velhice, como acontece com Príamo no Ciclo Troiano10; e ninguém considera feliz uma pessoa que experimentou tais dificuldades e terminou miseravelmente.

Tudo indica que o bem pertence à arte dominante, mais autorizada, aquela que é mais verdadeiramente a arte mestra. Essa ciência é a política, pois é ela que determina quais ciências devem ser estudadas em um Estado, quais ciências os cidadãos devem aprender e até que ponto devem aprendê-las; e vemos que se enquadram nisso até mesmo as capacidades mais respeitadas, como a estratégia, a economia, a retórica.

Presumivelmente, então, é bom não ter tantos amigos, mas apenas o suficiente para o propósito da convivência, pois parece realmente impossível ser um grande amigo de muitas pessoas. Por esse mesmo motivo, não podemos amar várias pessoas simultaneamente; o ideal do amor é ser uma espécie de excesso de amizade, e isso só podemos sentir por uma pessoa. Portanto, segue-se que só podemos sentir uma grande amizade por poucas pessoas. Isso parece ser confirmado na prática,

Uma vez que o homem injusto é ganancioso, deve ter alguma relação com os bens – não todos os bens, mas aqueles que dizem respeito à prosperidade e à adversidade, e que, tomados de modo absoluto, são sempre bons, mas nem sempre o são para uma pessoa em particular. Os homens desejam essas coisas e as buscam com diligência, mas não deveriam fazê-lo porque isso é o contrário do que deveria ser. Deveriam, antes, pedir aos deuses que as coisas que são boas em absoluto o fossem também para eles, e escolhê-las.

A associação entre marido e mulher parece ser aristocrática, porque o homem governa de acordo com seu valor e nas questões em que um homem deve governar, mas as questões que convêm a uma mulher ele entrega à esposa. Se o homem governa em tudo, a relação degenera em oligarquia, pois ao proceder assim ele não age de acordo com o valor respectivo de cada sexo, nem governa em virtude de sua superioridade. Às vezes, porém, são as mulheres que governam, porque são herdeiras; então seu governo não é baseado na excelência, mas na riqueza e no poder, como nas oligarquias.

Visto que o homem sem lei é injusto e o cumpridor da lei é justo, fica evidente que todos os atos legítimos são, em certo sentido, justos, porque os atos prescritos pela arte legislativa são lícitos, e cada um deles, dizemos nós, é justo. As leis, em suas disposições sobre todos os assuntos, visam à vantagem comum, seja de todos, seja dos melhores, seja daqueles que detêm o poder ou algo do gênero; de modo que, em certo sentido, nós chamamos justos apenas aqueles atos que tendem a produzir e a preservar, para a sociedade política, a felicidade e seus componentes.

Portanto, uma vez que cada uma dessas características pertence ao homem bom em relação a si mesmo, e ele se relaciona com seu amigo como se o fizesse consigo (pois seu amigo é um outro “eu”), a amizade também é considerada um desses atributos, e aqueles que os têm são amigos. Se existe ou não amizade entre um homem e ele mesmo é uma questão que podemos descartar por enquanto. Parece haver amizade na medida em que ele é dois ou mais, a julgar pelos atributos de amizade mencionados acima, e pelo fato de que o extremo da amizade é comparado ao amor que sentimos por nós.

Poder-se-ia afirmar que o amor é um sentimento e a amizade, um estado de caráter, pois podemos sentir amor até mesmo por coisas inanimadas. Mas o amor mútuo envolve escolha e a escolha surge de uma disposição de caráter; e os homens desejam o bem àqueles a quem amam por eles mesmos – não como resultado de um sentimento, mas como resultado de uma disposição de caráter. Ao amar um amigo, os homens amam o que é bom para eles mesmos; o homem bom, ao se tornar amigo, passa a ser um bem para seu amigo. Cada qual ama o que é bom para si, e retribui a amizade com benevolência e simpatia porque a amizade é considerada como igualdade, e a benevolência e a simpatia são encontradas principalmente na amizade dos bons.

Por esse motivo também se pergunta se a felicidade deve ser adquirida pela aprendizagem, pelo hábito ou por algum outro tipo de treinamento, ou se ela nos é oferecida por algum tipo de providência divina ou pelo acaso. Se os homens recebem alguma dádiva dos deuses, é razoável pensar que a felicidade seja uma delas e, com certeza, entre todas as coisas humanas, esta seria mais certamente uma dádiva divina, uma vez que é a melhor. Mas essa questão talvez fosse mais apropriada em outro tipo de investigação; a felicidade, mesmo que não seja concedida pelos deuses, vem como resultado da virtude ou de algum processo de aprendizagem ou treinamento, e parece estar entre as coisas mais divinas; pois aquilo que conquistamos como prêmio e finalidade da virtude é a melhor coisa do mundo, algo divino e bem-aventurado.

Porque a amizade é uma parceria, e, assim como um homem é para si mesmo, assim o é para seu amigo; para ele, a consciência de seu ser é desejável, e, portanto, também o é a consciência do ser de seu amigo, e essa consciência se torna ativa quando ambos convivem. Desse modo, é natural que procurem o convívio. E de tudo que a existência significa para cada classe de homens; daquilo que, para eles, proporciona valor à vida, disso mesmo desejam ocupar-se na companhia de seus amigos. Por esse motivo, alguns bebem juntos, outros jogam dados juntos, outros participam de atividades atléticas, da caça ou do estudo da filosofia, com os homens de cada classe passando seus dias nas ocupações que mais amam na vida, então desejam viver com seus amigos, além de fazer e compartilhar as coisas que lhes dão a sensação de viver juntos.

Falamos que a felicidade não é uma disposição, pois, se assim fosse, poderia pertencer a alguém que passasse a existência inteira adormecido, vivendo como um vegetal, ou poderia pertencer àqueles que sofressem os maiores infortúnios. Se essas implicações são inaceitáveis, devemos antes classificar a felicidade como uma atividade, conforme já afirmamos. E, se algumas atividades são necessárias e desejáveis por algum motivo externo a elas, enquanto outras o são por si mesmas, evidentemente a felicidade deve ser incluída entre aquelas desejáveis por si mesmas e não entre as desejáveis em razão de outra coisa. Isso porque à felicidade não falta nada: ela é autossuficiente. E são desejáveis por si mesmas as atividades nas quais nada se busca além da própria atividade. Considera-se que as ações virtuosas são dessa natureza, pois praticar atos nobres e bons é desejável por si só.

As ações, então, são chamadas justas e temperantes quando são como aquelas que o homem justo ou temperante pratica; contudo, não é temperante o homem que as pratica, e sim aquele que as pratica como o fazem os homens justos e temperantes. É bem certo, então, afirmar que é pela prática de atos justos que se forma o homem justo, e é com atos temperantes que o homem se torna temperante; sem essa prática, ninguém teria nem sequer a perspectiva de tornar-se bom. Mas a maioria das pessoas não faz isso. Refugia-se na teoria e pensa que está sendo filósofa e que se tornará boa dessa forma, comportando-se quase como os pacientes que ouvem com atenção os seus médicos, mas não fazem nenhuma das coisas que eles prescrevem. Assim como a saúde de tais pacientes não vai se restabelecer com esse tipo de atitude diante do tratamento, a alma dos teóricos não se tornará melhor com tal curso de filosofia.

Nesses casos não é possível definir exatamente até que ponto os amigos podem permanecer amigos, pois a amizade pode sobreviver ao desaparecimento de muitos dos elementos que a compõem, mas, quando uma das partes vive afastada, muito longe, como acontece com os deuses, cessa a possibilidade da amizade. Esta é, de fato, a origem da questão sobre se os amigos realmente desejam para seus amigos os melhores bens, como o de tornar-se deuses, uma vez que nesse caso seus amigos vão deixar de sê-lo e, portanto, não mais lhes serão bens (porque os amigos são um grande bem). A resposta é que, se estivéssemos certos ao dizer que o amigo deseja o melhor para o seu amigo por ele mesmo, deve permanecer como é; portanto, é a ele, na medida em que segue sendo um homem, que o outro deseja os melhores bens. Mas talvez não lhe deseje todos os maiores bens pois é a si mesmo, acima de qualquer outro, que cada homem deseja o bem.

Alguns pensam que nos tornamos bons por natureza, outros pelo hábito ou pelo ensino. A contribuição da natureza, evidentemente, não depende de nós, mas está presente, como resultado de determinadas causas divinas, naqueles que são verdadeiramente afortunados. No que diz respeito aos argumentos e ao ensino, suspeitamos que não tenham uma influência poderosa em todos os homens; é preciso, primeiro, cultivar a alma dos estudiosos por meio de hábitos, tornando-a capaz de nobres alegrias e nobres aversões, como se prepara a terra que deve nutrir a semente. Aqueles que se deixam governar pela paixão não ouvirão o argumento que poderia dissuadi-los, nem entendê-lo caso o ouçam. E como podemos persuadir alguém com tal disposição a mudar de vida? Em geral, a paixão não parece ceder ao argumento, mas à força. Portanto, é condição prévia indispensável a existência de um caráter que tenha uma certa afinidade com a virtude, amando o que é nobre e odiando o que é vil.