Escassez - Guido Percu's Notes
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Escassez

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Escassez

Kindle Highlights

Os pobres não economizam o bastante.

Abundância significa libertar-se de escolhas.

“Benihana” (ou, melhor ainda, hibachi chef) no YouTube

Uma agenda apertada lhe deixa à beira de se atrasar para todas as reuniões.

Por escassez, queremos dizer ter menos do que você acha que precisa. Sendhil

Os prazos são eficientes precisamente porque criam escassez e focam a mente. Assim

E, quando temos dinheiro fácil, compramos coisas que jogaremos fora e esqueceremos.

Quando temos tempo livre, esbanjamos e desperdiçamos as horas de maneira despreocupada.

Pobreza traz escassez em cada aspecto que sustenta quase todos os outros aspectos da vida.

Henry David Thoreau: “Um homem é rico na proporção do número de coisas das quais pode abrir mão.”

Um orçamento maior não só torna as decisões menos complicadas; ele reduz a complexidade da arrumação.

menor do orçamento disponível, cada vez mais granular. Um orçamento maior não só torna as decisões menos

Isso sugere uma receita: sempre que possível, converta comportamentos vigilantes em ações de uma vez só.

Algum dia você já disse: “Não quero tomar essa decisão importante agora; minha largura de banda está reduzida”?

Ser um bom pai exige muitas coisas. Mas requer, sobretudo, a cabeça livre. Esse é um luxo que os pobres não têm.

Existem os ingredientes comuns: entrar no túnel, fazer empréstimo, a falta de folga, a taxa da largura de banda.

Como o economista Abhijit Banerjee descreve, a taxa de tentação é regressiva; pesa mais sobre aqueles que têm menos.

Economistas chamam isso de utilidade marginal decrescente: quanto mais você tem, menor é o valor de cada item a mais.

Escapar dela exige, primeiramente, formular um plano, algo que a mentalidade da escassez não acomoda sem dificuldade.

Ao contrário do ideal de Milton Friedman da “liberdade para escolher”, a folga nos deixa com liberdade para não escolher.

A escassez não apenas aumenta os custos do erro, como proporciona mais oportunidades de errar, de fazer escolhas equivocadas.

E um design melhor terá de incorporar insights fundamentais sobre foco e largura de banda que surgem da psicologia da escassez.

folga suficiente para absorver pequenos sustos. E ainda assim, mesmo aqueles que deveriam saber disso costumam menosprezar a folga.

A escassez é mais do que o simples desprazer de ter muito pouco. A escassez muda a maneira como pensamos. Ela se impõe em nossas mentes.

Deixamos de criar folga porque focamos no que precisa ser feito no momento e não pensamos o suficiente em tudo que pode surgir no futuro.

É difícil fingir escassez. O dividendo dela acontece por conta de sua imposição sobre nós, que capta nossa atenção em detrimento de todo o resto.

Esses problemas surgem porque, em condição de abundância, não temos noção do valor de US$10. E essa ambiguidade pode nos deixar sujeitos a manipulações.

Os pobres nesses estudos se comportam de maneira mais “racional”. Estão mais perto, neste caso, do ideal econômico racional, mais perto do homo economicus.

A própria pobreza taxa a mente. Mesmo sem um pesquisador por perto para nos lembrar da escassez, a pobreza reduz a inteligência fluida e o controle executivo.

Nossos dados sugerem que a causalidade vai, de maneira no mínimo igualmente forte, na outra direção: que a pobreza, a mentalidade da escassez, causa o fracasso.

Para entender os pobres, precisamos reconhecer que eles focam, entram no túnel e cometem erros; que lhes falta não apenas dinheiro, mas também largura de banda.

Entrar no túnel dessa maneira cria a tendência a fazer um empréstimo. Como apenas a escassez imediata entra no foco de visão, os empréstimos são particularmente atraentes.

Quando o tempo é curto, você tira mais proveito dele, seja no trabalho ou no prazer. Chamamos isso de dividendo de foco, o resultado positivo da captura da mente pela escassez.

Ambientes que criam espaço para erros, que depois são penalizados, são um desafio para todos nós. Mas são particularmente desafiadores para quem está em um contexto de escassez.

Uma largura de banda sobretaxada significa uma capacidade reduzida de processar novas informações. O quanto você absorverá de uma aula se sua mente está constantemente se afastando?

Há poucas evidências de que a capacidade de ter força de vontade aumente com o uso. (Pense em como isso seria irônico em relação à crença comum: os pobres tendo uma força de vontade maior!)

Oferecer empréstimos com taxas altas para lidar com incêndios que estão acontecendo. Esses empréstimos serão atraentes no túnel, e podemos usar as taxas altas para criar uma conta-poupança.

Para um profissional, essas ações são automáticas. Nesse nível de habilidade, o foco extra impede que a coordenação do músculo aconteça da maneira mais rápida e natural. Atletas engasgam porque focam.

costumamos ignorar a largura de banda quando organizamos nosso tempo. Pensamos naturalmente no tempo necessário para completar nossa lista de afazeres, e não na largura de banda que isso exigirá ou receberá.

Focar é positivo: a escassez foca nossa concentração no que parece importar mais no momento. Entrar no túnel, não: a escassez nos leva a entrar no túnel e negligenciar outras coisas, possivelmente mais importantes.

O presente está iminentemente claro, enquanto as contingências futuras são menos prementes e mais difíceis de imaginar. Quando o futuro intangível fica cara a cara com o presente palpável, a folga parece ser um luxo.

Não há nada de maravilhoso em trabalhar quarenta, cinquenta ou sessenta horas por semana. Mas há algo importante em deixar sua mente refrescar um pouco, maximizar a largura de banda efetiva em vez das horas trabalhadas.

têm um material abundante, bastante barro para gastar. As vespas podem se permitir folgas, construir de maneira negligente, porque o material de construção que usam é barato. As abelhas não podem porque seu material é caro.

Nessa visão, o ambulante cai de novo na armadilha da escassez porque não tem folga suficiente em seu orçamento para resistir aos sustos que enfrenta. Sustos maiores do que a folga o empurram de volta à psicologia da escassez.

As informações de difícil entendimento nos formulários sobre financiamentos de casa de baixo custo serão particularmente mal compreendidas por aqueles que vivem em escassez financeira (e terão consequências maiores para eles).

Sem o luxo da folga, passamos a entender o valor de cada centímetro de espaço em nossas malas. Os pobres precisam saber o valor de US$1; os ocupados, o valor de uma hora; e as pessoas que estão de dieta, o valor de uma caloria.

É importante enfatizar que a tolerância a faltas não é um substituto da responsabilidade pessoal. Pelo contrário: a tolerância a faltas é uma maneira de assegurar que, quando as assumem, os pobres possam melhorar, como muitos o fazem.

deve haver situações em que a escassez dá ao pobre um sentido do valor das coisas que falta àqueles que vivem em abundância. E quando a falta de um valor claro leva a erros previsíveis, o pobre evitará os erros que aqueles em abundância cometem.

Pesquisadores dessa área têm comparado a força de vontade a um músculo, que se cansa com o uso. Segundo essa explicação, uma necessidade persistente de resistir a uma tentação se esgotaria, tornando muito mais difícil escapar da armadilha da escassez.

poder de concentração é também o poder de excluir coisas. Em vez de dizer que a escassez nos faz “focar”, poderíamos facilmente dizer que a escassez nos leva a entrar no túnel: concentrar com determinação a atenção na administração da escassez presente.

De maneira semelhante, o preço do tempo (“isso corresponde a quatro horas de trabalho”) é enganoso porque em muitos casos você não seria capaz de optar por menos horas de trabalho se deixasse de comprar um item, nem trabalharia mais horas se o comprasse.

softwares observou que quando sua equipe começava a trabalhar sessenta horas por semana, o trabalho realizado era muito maior nas primeiras semanas. Mas na quinta semana os funcionários estavam fazendo menos do que quando trabalhavam em semanas de quarenta horas.

Assim como não podemos fazer cócegas em nós mesmos com eficiência, é extremamente difícil nos enganarmos para trabalhar mais fingindo um prazo. Um prazo imaginário será apenas isso: imaginado. Nunca vai capturar nossa mente da mesma maneira que um prazo de verdade.

Pesquisadores têm documentado, por exemplo, uma tendência ao aqui e agora que chamam de desconto hiperbólico, ou tendência ao presente. Valorizamos exageradamente os benefícios imediatos à custa dos benefícios futuros: é por isso que é difícil poupar, ir à ginástica

Esta é uma característica básica da mente: focar em algo inibe conceitos concorrentes. Inibição é o que acontece quando você se zanga com uma pessoa e fica mais difícil se lembrar de características boas dela: o foco nas características irritantes inibe as lembranças positivas.

como a escassez nos modifica. A escassez captura a mente. Assim como os participantes famintos do estudo tinham a comida em suas mentes, quando experimentamos qualquer tipo de escassez, somos absorvidos por ela. A mente se direciona automática e fortemente para as necessidades não supridas

Nesta discussão, argumenta-se que períodos de escassez podem produzir comportamentos que acabam nos puxando para a armadilha da escassez. E, com essas armadilhas, o que de outro modo seriam períodos de abundância pontuados por momentos de escassez podem logo se tornar uma escassez perpétua.

O pagamento automático de contas é um bom exemplo. Uma pessoa ocupada que opta pelo pagamento automático de contas já não corre o risco — quando está no túnel do trabalho — de se esquecer de pagar as contas. Ou então está livre para ignorar as contas, mas, quando o faz, elas ainda são pagas.

Quando compramos algo em uma condição de abundância, não sentimos que precisamos desistir de coisa alguma. Psicologicamente, isso é agradável. Mas pode ser um obstáculo para tomar decisões. Se você não sabe do que está desistindo, é difícil imaginar o que uma coisa custa e se ela vale a pena.

Essas descobertas são importantes porque demonstram como as pessoas violam rotineiramente os modelos de comportamento humano “racionais” dos economistas. Se o valor que uma pessoa associa a US$1 muda com tanta facilidade, as análises de comportamento econômico tradicionais estão seriamente distorcidas.

A diferença entre alguém que vive no mundo em desenvolvimento com US$1 por dia e alguém que vive no mundo desenvolvido com US$100 por dia tem pouco a ver com o comportamento e tudo a ver com a geografia do nascimento. Mas alguma escassez — como no caso dos ambulantes — é, em parte, resultado do comportamento humano.

Os pobres não estão sozinhos em sua escassez compulsória. Quem está de dieta porque enfrenta um sério problema de saúde, o profundamente solitário e os ocupados porque precisam ter dois empregos para pagar o aluguel têm pouca escolha. A falta de arbítrio tende a resultar em uma forma particularmente extrema de escassez.

Nossos resultados poderiam ser interpretados como uma sugestão de que ser pobre torna as pessoas melhores em economia do que os profissionais no assunto. Pode-se também ficar tentado a concluir que os economistas seriam melhores em seu ramo se fossem menos bem pagos, mas pelo menos um dos autores discorda dessa conclusão.

Voltando ao ponto onde começamos, isso sugere uma grande virada no debate sobre a capacidade cognitiva dos pobres. Nós argumentaríamos que os pobres têm, sim, uma capacidade produtiva menor do que aquela dos abastados. Isso acontece não por eles serem menos capazes, mas porque parte de suas mentes é capturada pela escassez.

Existe sempre um fluxo constante de casos “inesperados”. Por que não reservar uma sala de operações para ser usada apenas para os casos não programados? Assim, todas as outras salas de operações poderiam ficar bem cheias e continuar livres de surpresas, e todas as cirurgias não planejadas iriam para uma sala especialmente designada.

Em todo os Estados Unidos, os armários de cozinha estão cheios de sopas, gelatinas e comida enlatada que há muito não são usadas. Esse fenômeno é tão comum que pesquisadores de comida lhe deram um nome: chamam esses itens de os rejeitados do armário. Alguns estimam que um em cada dez itens comprados na mercearia está destinado a se tornar um rejeitado do armário.

Mas, em grande parte do tempo, nós não sentimos como se tivéssemos um prazo rígido. Durante longos períodos, trabalhamos com a sensação de que tínhamos tempo de sobra. E durante esses períodos, como se poderia prever, o tempo era esbanjado. Não exatamente desperdiçado, mas a produtividade por dia — medida em palavras escritas, digamos — ficava longe de onde poderia ter ficado.

O Keep the Change (que tem sido criticado por outros motivos, incluindo juros baixos e taxas altas) faz uma coisa muito bem: leva as pessoas a poupar não tentando controlar seus impulsos para gastar, mas aproveitando esses impulsos. As pessoas são negligentes para poupar, então o programa as leva a poupar enquanto estão fazendo o que fazem mais naturalmente, ou seja, consumir.

“Há poucas imagens mais comuns nas discussões correntes da administração de pesquisa e desenvolvimento do que a de uma equipe de engenharia sobrecarregada trabalhando muitas horas para concluir o projeto nos últimos dias antes do lançamento.” O combate a incêndios não leva apenas a erros; leva a um tipo muito previsível de erro: tarefas importantes, mas não urgentes, são negligenciadas.

O combate à pobreza tem sido uma luta morro acima. Programas e mais programas têm sido malsucedidos ou, na melhor das hipóteses, tido um sucesso modesto. As redes de segurança social tendem a ser pegajosas. Nos Estados Unidos, quando uma pessoa cai na rede de segurança social, está fadada a cair muitas outras vezes. E os programas de treinamento parecem ser apenas moderadamente eficientes.

A escassez não é simplesmente uma disparidade entre recursos e desejos em geral. Mesmo que, como no caso do ambulante, haja muitos dias com folga, são os dias de escassez que importam. Para se livrar de uma armadilha da escassez, não basta ter mais recursos do que desejos. É importante ter folga (ou algum outro mecanismo) suficiente para lidar com os grandes sustos que podem surgir a qualquer momento.

O dinheiro, pelo menos até certo ponto, também é avaliado de acordo com o pano de fundo. É por isso que nos importamos mais em economizar 40% em um livro de US$20 do que em economizar 1% em uma geladeira de US$1 mil. Em Chennai, Alex simplesmente viu o dinheiro mais ou menos como seus olhos veriam um palito de fósforo: relativo ao pano de fundo. Sessenta rupias pareceram muito quando o preço justo era quarenta.

Ben enfrenta um mundo mais desafiante que o de Alex. Como eles próprios admitiram, ambos cederam a uma tentação de US$200 e fizeram uma compra tola. Pagaram o mesmo preço pela jaqueta de couro. Alex pode ignorar o erro. Ben, não. Erros iguais, consequências diferentes. O mundo de Ben não é mais desafiador por ele enfrentar um vendedor mais insistente ou taxas de juros mais altas. É mais desafiador porque lhe falta folga.

E como a escassez taxa a largura de banda, isso sugere que a escassez não apenas pode diminuir a inteligência fluida como também reduzir o autocontrole. Por isso, o estudante australiano fala de maneira ríspida com o pesquisador chinês, o executivo consumido pela apresentação iminente fala de maneira ríspida com a filha e o funcionário que está pensando nas contas não pagas fala de maneira ríspida com um cliente grosseiro.

O mesmo é válido para o auxílio-alimentação. Lembre-se de que os beneficiários não conseguiam distribuir sua renda ao longo do mês. É preciso usar muita largura de banda para planejar, lembrar-se, controlar e fazer escolhas. Por que não pagar os benefícios semanalmente? Ou, se necessário, fazer uma combinação: um pagamento inicial grande para cuidar das grandes despesas mensais e depois pagamentos menores para as despesas semanais?

Os pobres têm seus próprios aviões no ar. Estão fazendo malabarismo com o aluguel, as contas atrasadas, e contando os dias para receber o próximo salário. A largura de banda deles é usada para administrar a escassez. Assim como os controladores de tráfego aéreo, eles podem estar com a cabeça zumbindo. Um observador externo que estivesse na sala de estar deles sem saber sobre todos aqueles aviões no ar concluiria que faltam habilidades a esses pais.

Há muitas situações na vida em que manter o foco pode ser um desafio. Procrastinamos no trabalho porque nos distraímos a toda hora. Compramos produtos com preços altos na mercearia porque nossas mentes estão em outro lugar. Um prazo apertado ou a falta de dinheiro faz com que nos concentremos na tarefa à frente. Com as mentes focadas, tendemos a errar menos por descuido. Isso faz muito sentido: a escassez nos captura porque é importante, merece nossa atenção.

Agora, suponha que em outro contexto Sendhil tivesse proposto: “Alex, quero que você passe dez minutos em uma sauna, de roupa, com o som das buzinas dos carros estourando em seus ouvidos. Ah, de vez em quando eu também vou jogar poeira no seu rosto. Mas, para fazer isso valer a pena, aqui estão US$0,50.” Alex provavelmente não aceitaria. O mais provável é que procuraria um novo orientador na faculdade. Mas esta foi a escolha que ele aceitou em Chennai. Não apenas aceitou; insistiu nela. Por quê?

Schoar reuniu as principais boas práticas gerais e elaborou uma aula de “educação financeira” diferente, baseada nessas práticas. Sua aula foi mais curta e muito mais fácil de entender. Utilizou muito menos a largura de banda, e isso apareceu nos dados. O comparecimento foi muito maior e, ao fim da aula sobre boas práticas, os clientes estavam empolgados e pedindo mais; muitos até disseram que pagariam por outra aula. Em geral, é preciso induzir as pessoas a voltar a uma aula de educação financeira.

Mas não temos quase nenhuma informação sobre o lado cognitivo da economia. Assim como nossa largura de banda individual parece flutuar, é provável que a largura de banda da sociedade também flutue. Será que poderíamos descobrir que a recessão econômica de 2008 também produziu uma profunda recessão cognitiva? Talvez a largura de banda tenha diminuído significativamente. E se, quando o desemprego estava aumentando, a qualidade das decisões estivesse caindo? Não temos os dados para responder a essas perguntas.

Nos meses seguintes, eles caíram de novo na armadilha, pouco a pouco. Ou melhor, deveríamos dizer um a um. No fim do ano, eles haviam acumulado tantas dívidas quanto aqueles cujas dívidas não haviam tido nossa interferência. Portanto, embora as explicações padrões não sejam sustentadas pelos dados — os ambulantes não voltam a cair na armadilha imediatamente — também não se sustenta a visão de que aqueles que estão em uma armadilha da escassez precisam apenas de uma única infusão de dinheiro que os livre da dívida.

Esta é a época em que a renda obtida na colheita anterior se esgotou. É quando, em nossos estudos, as pessoas mostram inteligência fluida menor e controle executivo reduzido. Ao mesmo tempo, é quando os agricultores têm pouco a fazer além de esperar pela hora da colheita. Dados sobre a utilização do tempo sugerem que eles trabalham pouquíssimas horas nesses dias. E, ainda assim, há muito malabarismo acontecendo. Fazer malabarismo não quer dizer ficar estressado em cima da hora; quer dizer ter muita coisa na cabeça.

Essa explicação para o empréstimo é diferente das habituais. Para explicar por que os pobres fazem empréstimos demais, não precisamos apelar à falta de educação financeira, à avareza de emprestadores predatórios ou a uma tendência exagerada à autoindulgência. Para explicar por que os ocupados adiam as coisas e se atrasam, não precisamos apelar ao fraco autocontrole, à compreensão deficiente ou à falta de habilidade para administrar o tempo. Em vez disso, fazer empréstimo é uma simples consequência de entrar no túnel.

Entrar no túnel nos faz pensar em produtos financeiros de uma maneira diferente. Algumas decisões financeiras surgem naturalmente. Alguém tem um incentivo para assegurar que você pague seu empréstimo ou aluguel. Essa pessoa ou instituição, assim como o assistente, levará o incentivo para o seu túnel, não importa o quanto você já tenha avançado dentro dele. A poupança, por outro lado, não tem assistentes dedicados que cuidem dela e, sem a intervenção feita por meio de um comportamento, acabará quase sempre fora do túnel.

Embora as pesquisas sobre criação de filhos sejam obscuras, algumas ações surgem de maneira muito clara, e são bastante intuitivas. A coerência está quase no topo da lista. Para as crianças, aprender coisas — disciplina, regras de conduta, sensação de conforto — é difícil e gera ansiedade se os pais são incoerentes em suas afirmações e atitudes. Mas é mais fácil falar do que fazer. É difícil ser um bom pai ou uma boa mãe, mesmo quando você sabe como tem que agir. Coerência exige atenção, esforço e determinação constantes.

Outros especialistas sugeriram usar um “preço do tempo”. Suponha que você ganhe US$20 por hora quando trabalha (líquido: depois de deduzir custos de deslocamento, impostos e por aí em diante). Quando você compra uma máquina de fazer sorvete de US$80, comprometeu quatro horas de trabalho; e quando opta por um pacote de televisão a cabo mensal US$60 mais caro, comprometeu mais três horas de trabalho todo mês. (Um latte grande por dia exigiria aproximadamente mais cinquenta horas de trabalho por ano.) Quando estava decidindo sobre o

malabarismo é o motivo pelo qual eventos previsíveis são tratados como sustos. Ao fazer malabarismo, você se concentra nas bolas prestes a cair e negligencia as que estão mais no alto. Quando aquelas bolas caem “de repente”, são novas para o malabarista que está no túnel — são um susto, se você preferir. Um observador poderá ver a bola caindo por um bom tempo. Como partes desinteressadas, podemos ver a mensalidade escolar aproximando-se. Para o pobre que está fazendo malabarismo com suas finanças, ela só se torna real quando o pagamento é iminente.

Esses estudos corroboram nossa hipótese mais geral sobre o mundo: o motivo pelo qual os pobres fazem empréstimos é a própria pobreza. Não há necessidade alguma de recorrer à miopia ou à inaptidão para finanças a fim de explicar. Emprestadores predatórios certamente podem facilitar esse tipo de empréstimo, mas não são o motivo principal. Esse forte impulso para fazer empréstimos, a exigência de juros altos e os empréstimos potencialmente crescentes — do tipo que leva a uma corrida degringolada e parece tão imprudente — são consequências diretas do túnel.

Eles fizeram os agricultores adquirirem o fertilizante previamente, comprando-o durante a colheita, quando eles estavam cheios de dinheiro, para recebê-lo na época do plantio. Com essa mudança simples, o percentual de agricultores quenianos que comprou e usou o fertilizante subiu de 29% para 45%, um aumento expressivo. O fracasso foi evitado transferindo uma decisão importante de uma época em que os agricultores estavam com pouco dinheiro e, o que é mais importante, com pouca largura de banda, para uma época em que estavam ricos em dinheiro e largura de banda.

Para a pessoa menos ocupada, a folga absorve o erro, minimizando as consequências. A pessoa ocupada, por outro lado, não pode desprezar o erro tão facilmente. Cada hora acrescentada vem à custa de outra coisa. O mesmo erro tem consequências maiores. Acabamos de ver como a folga pode ser ineficiente. Compramos itens destinados a se tornar rejeitados do armário e usamos o tempo e o dinheiro de maneira ineficiente. Aqui, vemos que a folga proporciona uma eficiência escondida. Ela nos dá espaço para manobrar, para rearrumar quando erramos. E nos dá espaço para falhar.

Portanto, se você quer entender os pobres, imagine a si mesmo com a cabeça em outro lugar. Você não dormiu bem na noite passada. Tem dificuldade para pensar com clareza. O autocontrole parece um desafio. Você está distraído e é facilmente perturbado. E isso acontece todos os dias. Além de todos os desafios materiais trazidos pela pobreza, há também um desafio mental. Sob essa ótica, o elefante na sala já não parece tão intrigante. As falhas dos pobres são, antes de mais nada, parte integrante do infortúnio de ser pobre. Nessas condições, todos nós teríamos (e temos!) falhado.

Para os pobres, isso significa vida financeira complicada. Pesquisas detalhadas no fascinante livro Portfolios of the Poor [As finanças dos pobres, em tradução livre] mostram que os pobres usam em média cerca de dez instrumentos financeiros distintos. Em Bangladesh, um desses instrumentos, um empréstimo de curto prazo e sem taxas de juros, foi usado mais de trezentas vezes em 42 lares ao longo de um ano. Em qualquer momento desse período, os pobres dessas pesquisas deviam ou haviam emprestado dinheiro a inúmeras fontes — uma miscelânea criada durante meses ou anos dentro do túnel com o problema mais premente do momento.

Décadas de pesquisas mostram que mesmo — ou melhor, principalmente — nas melhores épocas tendemos à procrastinação, a um foco exagerado no presente e a surtos de impreciso otimismo. Adiamos trabalhos que precisam ser feitos. Desperdiçamos dinheiro que deveria ser economizado. Utilizamos mal nossa abundância, poupando e realizando muito pouco, o suficiente para afastar a escassez que poderia surgir. É claro que tanto ricos quanto pobres fazem isso. Mas os ricos, como têm folga, saem-se bem, enquanto pobres e ocupados, que continuam com muito pouca folga, estão a um susto de distância da queda em uma armadilha da escassez.

Temos alguns amigos abastados que são frugais. Muitas vezes, quando contamos a eles sobre nosso trabalho, eles concordam e dizem: “É assim que eu sou: muito cuidadoso com o dinheiro.” Mas a frugalidade não captura a experiência da escassez. O frugal tem uma consciência íntegra sobre o dinheiro. O pobre tem de ser vigilante nas escolhas. Ao fazer uma compra, o frugal calcula se o preço é “bom”. O pobre, em contrapartida, tem de perguntar a si mesmo do que terá de desistir para pagar esse preço. Sem se envolver em escolhas reais, o frugal, assim como a maioria daqueles que vivem em abundância, tem dificuldade de dar sentido a US$1.

Outra consequência é a produtividade reduzida no trabalho. Quase todas as tarefas — de processar pedidos em uma lanchonete drive-thru a arrumar prateleiras de uma mercearia — exigem memória funcional, a capacidade de guardar várias informações ativas na mente até que as utilizemos. Ao taxar a memória funcional, a pobreza nos leva a um desempenho inferior. Ela nos torna menos produtivos, porque nosso processador mental está ocupado com outras preocupações. Isso cria uma situação trágica, em que os pobres — aqueles que mais precisam dos salários por seu trabalho — são também aqueles que têm sua produtividade mais pesadamente taxada.

Os pobres, em suma, são grandes conhecedores do valor de US$1. Eles têm seu próprio indicador interno, pelo qual avaliam esse valor. Não se baseiam no ambiente para ter ideia de quanto vão pagar. As necessidades prementes no topo da mente ajudam a gerar uma escala interna própria. Ter esse indicador interno significa que o pano de fundo os afeta menos, assim como as batidas precisas dos músicos experientes. As pessoas do sopão não mostraram a mesma tendência de Alex em Chennai, ou de inúmeras outras pessoas de renda mais elevada, porque tinham menos tendência a usar características arbitrárias do contexto para valorizar o dinheiro.

Quando pensamos em ter muito pouco (tempo, dinheiro, calorias), focamos nas implicações físicas da escassez: menos tempo para nos divertirmos, menos dinheiro para gastarmos. A taxa da largura de banda sugere que há outro déficit, talvez mais importante. Agora precisamos nos virar com menos recursos mentais. A escassez não apenas nos leva a fazer empréstimos demais ou a deixar de investir. Ela nos deixa deficientes em outros aspectos da vida. Ela nos torna mais bobos, mais impulsivos. Precisamos sobreviver com menos mente disponível, com menos inteligência fluida e com um controle executivo reduzido, o que torna a vida muito mais difícil.

A largura de banda reduzida também tornou a aula mais fácil de ser absorvida e mais eficiente. Em pesquisas posteriores, os estudantes tinham mais tendência a implementar as boas práticas do que os complexos conceitos de contabilidade. E isso apareceu no resultado financeiro. Os faturamentos, as vendas nos negócios, aumentaram para os diplomados em boas práticas, sobretudo em semanas ruins, quando as práticas aprimoradas podem ser mais importantes: eles tiveram faturamentos 25% maiores nesses períodos. Em contrapartida, o treinamento tradicional em alfabetização financeira não teve impacto algum. A lição é clara: economizar na largura de banda pode produzir retornos mais elevados.

É claro que não estamos sugerindo que os pobres são sempre mais racionais. O que eles têm é uma habilidade específica: são melhores em gastar o que possuem no momento. Eles fazem US$1 render mais. Tornam-se especialistas em valor de dinheiro. Essa expertise pode fazer com que pareçam mais racionais, menos propensos a incoerências, em alguns contextos. Mas a expertise local também pode se tornar um obstáculo. Junto com o foco advindo da expertise vem a entrada no túnel. E, com ela, vem um monte de consequências negativas. 5. Empréstimos e miopia Não há nada na perspectiva de uma batalha intensa, incessante, pelas necessidades simples da vida que encoraje a olhar adiante, tudo para desencorajar o esforço. JACOB

Hoje em dia, os pesquisadores compreendem melhor a psicologia do engasgo. Nos esportes, muitas ações podem ser conscientes ou automáticas. Você pode pensar no movimento de seu braço quando está fazendo um lance livre. Pode focar no movimento completo de uma tacada de golfe. Ou pode fazê-lo automaticamente, com a mente desligada. Para atletas profissionais, essas atividades são tão rotineiras que eles as fazem incrivelmente bem e de forma quase automática. Na verdade, eles são melhores quando as fazem de forma automática. (Da próxima vez que descer correndo uma escada, pense no movimento de seus pés. Mas, por favor, não nos responsabilize se quase tropeçar. Embora você seja um usuário de escadas profissional, pensar na tarefa o tornará muito menos eficiente

Satélites como o Orbiter são construídos pouco a pouco por várias subempreiteiras. Os propulsores, fabricados por uma empresa, estavam interpretando as informações que recebiam em libras, medida do sistema inglês para medição de força. O processador central, fabricado por uma empresa diferente, estava fornecendo dados em newtons, medida do sistema internacional de unidades. Toda vez que o processador dizia “X”, os propulsores ouviam “4,45 vezes X”. (Quando o processador dizia “10”, isso significava 10 newtons, mas os propulsores ouviam “10 libras”, o equivalente a 44,5 newtons.) Resultado: a Orbiter reduziu demais a velocidade e foi apanhada pela força da gravidade de Marte. Para um projeto dessa importância, esta foi uma mancada cômica, com consequências sérias.

Você pode pensar que só um economista poderia usar a palavra fascinante associada à expressão taxa de juros, mas considere isso. Quase todo ambulante tem uma pequena folga no orçamento, algo que pode ser retirado. Ele pode comprar uma xícara de chá, uma guloseima como o dosa, ou um doce para um filho ou neto. Suponha que, em vez de pagar 5 rupias por esses itens todo dia, ele usasse essa quantia para comprar suas próprias mercadorias. Assim, pegaria menos 5 rupias emprestado todos os dias. Pode parecer que assim o ambulante precisaria de duzentos dias para se libertar da dívida de 1 mil rupias. Na verdade, ele precisaria de apenas cinquenta dias. Este é o poder do compounding (ainda mais quando a taxa de juros é alta). Cinco por cento por dia permite um compounding rápido.

Sempre existem coisas mais prementes a fazer do que economizar. Então pusemos a conta-poupança de volta ao túnel por um instante, deixando-a no topo da mente. Depois de perguntarmos às pessoas para que elas estavam poupando, e quanto, enviaríamos a elas, ao fim de cada mês, um breve lembrete, uma mensagem de texto ou uma carta. Esse lembrete benigno, por si só, aumentou as poupanças em 6%, um efeito incrivelmente grande considerando o quanto o lembrete era infrequente e não intrusivo. (As mensagens, afinal de contas, são muito menos evidentes ou claras do que um assistente em pé à sua porta.) Conseguimos aumentar as poupanças não por meio de educação ou roubando a força de vontade das pessoas, mas simplesmente lembrando-as de algo importante que elas tendem a ignorar quando entram no túnel.

uma sensação subjetiva de ter mais necessidades do que recursos. Isso está acima e além dos limites físicos reais — apenas muito dinheiro, tempo e assim por diante — que todos nós necessariamente enfrentamos. O conceito da arrumação traz essa distinção para um foco preciso. Os limites físicos e as escolhas estão sempre ali: as malas, não importa quão grandes sejam, têm um tamanho fixo. Mas não as experimentamos assim. Uma mala pequena nos faz sentir a escassez. Percebemos as escolhas; sentimos que temos muito pouco espaço. Uma mala pequena também pode tornar a escassez objetivamente mais complicada de administrar. Uma mala grande não só permite mais espaço; ela remove a sensação de escassez. Não sentimos apenas que temos espaço suficiente; sequer notamos as escolhas. Embora os limites reais e as escolhas sejam universais, a experiência não é.

Se pudermos ajudar essas pessoas, criaremos uma nova largura de banda. O que é inerente a esses incêndios é que eles são graves, existe uma necessidade imediata de dinheiro. Essa necessidade não é de grandes investimentos; é de pequenas quantias — para comprar um uniforme escolar, por exemplo. Explicando de maneira diferente, o que os pobres mais querem o agiota pode oferecer com facilidade: uma pequena quantia de dinheiro, providenciada depressa — e devolvida depressa — para ajudá-los em uma necessidade urgente. Em vez disso, o tipo de ajuda financeira oferecido aos pobres costuma ser construído sobre o princípio oposto: quantias de dinheiro, de modestas a grandes, fornecidas de maneira prudente e lenta. Esses empréstimos podem ser úteis para investimentos. Mas se as pessoas estão ocupadas apagando incêndios, não terão largura de banda para investimentos.

isso não significa que a única maneira de evitar as armadilhas seja ter uma riqueza suficiente para resistir a todos os sustos. Não significa que a única maneira de resolver o problema do ambulante seja dar-lhe ainda mais dinheiro. Em vez disso, essa discussão destaca a necessidade de instrumentos para amortecer os sustos. Se o ambulante tivesse um empréstimo de baixo custo ou uma poupança líquida no banco — para ser utilizada apenas em emergências — isso lhe daria a folga necessária nesses momentos críticos. De modo semelhante, um seguro contra alguns desses choques também resolveria o problema. É claro que muitos percebem os benefícios desses amortecedores. Mas os benefícios parecem ser bem maiores do que havíamos previsto. Eles se tornam amortecedores não apenas para administrar o risco. São também proteções contra uma escorregadela de volta à armadilha da escassez.

Um estudo sobre cuidados parentais teve como foco controladores de tráfego aéreo. O que torna os controladores de tráfego aéreo interessantes é que seu trabalho muda diariamente e pode ser intenso. Em alguns dias, há muitos aviões no ar, as condições do tempo são ruins e ocorrem congestionamentos e atrasos. Nesses dias, a carga cognitiva — ficar longas horas no túnel para que todos os aviões aterrissem com segurança — é muito grande. Outros dias são mais relaxados, com menos aviões no ar ou na mente. O que os pesquisadores verificaram foi que o número de aviões no ar em um determinado dia prognosticava a qualidade dos cuidados com os filhos naquela noite. Mais aviões tendiam a resultar em pais piores. Ou, se você não se importa com um enquadramento mais vulgar, pense da seguinte maneira: o mesmo controlador de tráfego aéreo agia como “classe média” depois de um dia de trabalho fácil e agia como “pobre” depois de um dia de trabalho difícil.

Os pobres continuam pobres, os solitários continuam solitários, os ocupados continuam ocupados, e a dieta fracassa. A escassez cria uma mentalidade que a perpetua. Se tudo isso parece desanimador, considere o ponto de vista alternativo: os pobres são pobres porque lhes faltam habilidades. Os solitários são solitários porque não são carismáticos; as pessoas de dieta não têm força de vontade; e os ocupados são ocupados porque lhes falta a capacidade de organizar suas vidas. Nessa visão alternativa, a escassez é a consequência de profundos problemas pessoais, muito difíceis de mudar. A mentalidade da escassez, por sua vez, é um resultado contextual, mais sujeito a remédios. Em vez de ser uma característica pessoal, a mentalidade da escassez é o resultado de condições ambientais criadas pela própria escassez, que, com frequência, podem ser administradas. Quanto mais entendemos a dinâmica de como a escassez atua sobre a mente humana, mais provavelmente podemos encontrar maneiras de evitar, ou pelo menos aliviar, a armadilha da escassez.

nas melhores épocas tendemos à procrastinação, a um foco exagerado no presente e a surtos de impreciso otimismo. Adiamos trabalhos que precisam ser feitos. Desperdiçamos dinheiro que deveria ser economizado. Utilizamos mal nossa abundância, poupando e realizando muito pouco, o suficiente para afastar a escassez que poderia surgir. É claro que tanto ricos quanto pobres fazem isso. Mas os ricos, como têm folga, saem-se bem, enquanto pobres e ocupados, que continuam com muito pouca folga, estão a um susto de distância da queda em uma armadilha da escassez. Ficar afastado da armadilha da escassez exige mais do que abundância. Exige abundância suficiente para que, mesmo depois de gastar demais ou procrastinar, ainda tenhamos folga suficiente para administrar a maioria dos sustos. Abundância suficiente para que, mesmo depois de uma extensa procrastinação, ainda sobre tempo para administrarmos um fim de prazo inesperado. Permanecer fora da armadilha da escassez exige folga suficiente para lidar com os sustos que o mundo traz e com os problemas que impomos a nós mesmos. Juntando tudo isso, vemos que as armadilhas da escassez surgem por vários motivos interligados, que se estendem a partir da mentalidade de escassez central. Entrar no túnel nos leva a fazer empréstimos e usar os mesmos recursos físicos com menos eficiência, o que nos põe um passo atrás. Como entramos no túnel, negligenciamos e depois nos vemos com a necessidade de fazer malabarismos. A armadilha da escassez se torna

Isso nos dá uma receita de onde olhar para “derrubar” descobertas tradicionais da psicologia comportamental, isto é, aquelas descobertas que dependem de construir valores a partir de um contexto local arbitrário. Dentro dessa linha, pessoas têm demonstrado pensar em dinheiro como se este estivesse compartimentado em contas separadas. Estudos verificaram, por exemplo, que quando o preço da gasolina sobe, as pessoas passam a usar gasolina de qualidade inferior. Agimos como se fôssemos “mais pobres” mesmo quando o custo maior da gasolina não afeta nosso orçamento geral de forma concreta. E mesmo assim agimos como se fôssemos mais pobres “em gasolina”. (Pense nisso: se dinheiro fosse o problema, você poderia, de maneira igualmente fácil, economizar comprando biscoitos mais baratos ou jogando menos golfe.) Isso acontece porque o dinheiro é guardado em contas setorizadas: um choque negativo na conta da gasolina (preços mais altos) leva você a apertar os centavos (e a uma qualidade inferior) naquela conta. Essa ideia de contabilidade mental tem muitas implicações. Esse é o motivo pelo qual, por exemplo, gastamos uma restituição de imposto de US$2 mil de maneira bem diferente de um aumento de US$2 mil no valor de nossas ações. Nos dois casos, estamos mais ricos em US$2 mil, mas tratamos as duas contas (“dinheiro livre” versus “conta da aposentadoria”) como separadas e desiguais, e muitas vezes temos propensões muito diferentes para consumir o dinheiro. Os pobres teriam uma tendência menor a mostrar esse efeito.