Epaminondas - Guido Percu's Notes
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Epaminondas

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Epaminondas

Kindle Highlights

Vincular o bem viver ao que não se pode controlar — como os aplausos alheios — é caminhar para a ruína.

Ela, a femeazinha, quando está muito brava, pronuncia todas as sílabas do meu nome. E-pa-mi-non-das. O som mais forte vem no “non”.

Sentem-se perdidos sem um senhor. Talvez por isso mesmo, desde sempre, tenham, genuflexos, reverenciado líderes autoritários que os aliviem do fardo de serem livres.

Em certos nichos de relacionamento, indivíduos com maior lucidez dos próprios sentimentos são tidos por frios, gelados, pouco vibrantes, apáticos e sem iniciativa. Merecendo assim avaliação negativa.

Sabem que vão se desintegrar. E se vangloriam disso. Estão convencidos de serem os únicos a sabê-lo. Gosto do verbo vangloriar-se. Porque entre nós, gatos, sabemos há séculos que toda glória é mesmo vã.

Ora, quando suas mentes se encontram de fato preenchidas, não há espaço, naquele instante ao menos, para outras preocupações. Desse modo, algum controle pode haver sobre conteúdos da mente que amedrontam.

Seus silêncios de olhar enternecido são como convites de coragem, para que abramos seu baú sem medo. Com Laerte não há risco. Sua generosidade faz lembrar de Hermes fartando-se de ambrosia nos jarros do Olimpo.

Esquecem, ingênuos humanos, que a Vida ganha sempre. Não a de cada um. Essa dura o tempo de uma boa refeição. Refiro-me à Vida. Essa com V grande. A que se vai de nós mas nunca morre. Que sai correndo dos velórios para as maternidades.

Os meus vieram juntos. Para que fizessem companhia um ao outro e se divertissem entre eles enquanto eu não estou. Sugestão da minha vizinha que mora com um solteirão rabugento. Com efeito. Humanos se deprimem quando ficam muito tempo sós.

Se fizessem como nós e não dessem bola, não chamassem a atenção para essa finitude, apresentando-a como devastadora, se simplesmente vivessem enquanto há vida, poupariam dois constrangimentos: o de temer o fim e o de filosofar para combater esse temor.

Você que leva uma vida estúpida, subindo degrau a degrau em algum tipo de carreira, com promessas de felicidade reservada aos degraus de cima, passe a viver, a partir de agora, regozijando-se no agora e do agora. Desfrute onde está. Onde quer que esteja.

Mas os pitis passam rápido. Muitos deles, já serenos, não demonstram nenhuma vergonha pelo descontrole. Como não foram educados para lidar com o que sentem, nem sequer identificam o próprio despreparo. Não parece ser algo que lhes traga muito prejuízo na convivência.

Enquanto não se derem conta de que as emoções são tema tão relevante quanto os mais relevantes nos processos de educação, continuarão conhecendo detalhes de reprodução celular e, ao mesmo tempo, atentando contra a vida, arrebatados por suas tristezas, dores e angústias.

Por ignorar que, embora os elementos fundamentais dos quais são feitos sejam eternos, a associação particular destes em corpos como o de cada um de nós, essa é marcada pela finitude. É temporal. Dura só um pouquinho. Em relação aos tempos da Vida, menos do que um piscar de olhos.

Aliás, se suas mentes estivessem sempre, isto é, o tempo todo mesmo, povoadas pela vida vivida, pelo mundo efetivamente encontrado, não haveria temor de nenhum tipo. Tristes humanos. Sofrem por dentro. Dilaceram-se em pensamentos e pelo temor por eles desencadeados. Sem que, em muitos casos, nada, absolutamente nada em volta justifique tamanha devastação.

O belo é belo pelo tipo de experiência que enseja e ponto final. Fica por aí. Não precisa de mais nada. O belo não é meio. Não é instrumento. Não é útil. Independe de outros interesses. Todo belo termina no agradável. No regozijo. Bem. Nada impede que o belo seja também útil. Mas não por conta da sua beleza. Sua eventual utilidade não respinga no atributo de belo que porventura tenha recebido de alguém.

Na ausência dos dois irmãos, e em conversa com outros interlocutores, eu já flagrei a mocinha dizendo que seu homem, sim, é trabalhador, sério e ambicioso. Enquanto que o cunhado, bem, esse não passa de um doidivanas, sem rumo na vida. No curral da hipocrisia, as trombetas da castidade encobrem a lascívia gemida; e a insistência iluminada na virginal alvura deixa no escuro a orgia dos amantes rolando no lodaçal.

Essa Vida que nos dá tudo também nos tira tudo. Nos faz viventes, alimentando-se das nossas entranhas. Precisa que nos desintegremos para seguir adiante. Querendo ou não, oferecemos a nossa vida felina, com v pequeno, para que a Vida com V grande seja eterna. O todo eterniza alimentando-se de suas partes. E cada uma dessas partes, por um certo tempo, ganha um vale-vida. Direito provisório, dado pela natureza, de viver.

Esse tesão de viver, alguns humanos mais instruídos chamam de Eros. Tempos atrás, conferiam a esse tesão tamanha importância que o tomavam por um Deus. É isso mesmo. Deus Eros. Preste atenção. Não leia por ler. Não é incrível? Chamar de deus essa disposição que temos para a vida. Não uma disposição conceitual, genérica, impessoal e descolada das experiências concretas. Eros é o tesão de cada um. De levantar da cama e curtir o fato de ainda estar vivo.

Há os que não sabem que nada sabem. Porque não sabem nem isso. Mas esses tampouco pensam saber algo. São ignorantes humildes. Há os que sabem que nada sabem. São os sábios, tipo Sócrates e mais dois ou três. Há os que acham que sabem o que não sabem. São ignorantes soberbos. E há os superespeciais. Esses não só pensam saber o que não sabem, mas têm certeza de serem os únicos. São ignorantes soberbos e privilegiados. Como ficou longa a nomenclatura, alguns os chamam pelo apelido: elite.