Deuses para Clarice - Guido Percu's Notes
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Deuses para Clarice

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Deuses para Clarice

Kindle Highlights

Eros é desejo.

Cronos, gourmand mas pouco gourmet,

Eu só posso me alegrar que você bisbilhote as minhas estantes.

“A arte existe”, diz Nietzsche, “para que tanta realidade não nos destrua”.

O amor não é mera reunião. É uma forma muito particular de transformação mútua.

Chama-se Afrodite por ter sido concebida por “Aphros”. Termo grego para a bruma do mar. Matéria

Deméter é feminino. Em latim, chama-se Ceres. Nome próprio que deu origem ao vocábulo “cereais”.

Diotima, filósofa e sacerdotisa, ensinou a Sócrates, na última hora, tudo o que ele acabaria dizendo n’O banquete.

tiram o véu entorpecedor da Matrix com o qual Morpheus faz seu papel às avessas: acorda-os para a reflexão filosófica.

Escolher, decidir, deliberar são tarefas que se impõem na hora de viver. Somos condenados a elas. Condenados a ser livres.

Se Platão tiver razão, há uma ideia de beleza que não varia de época para época ou de lugar para lugar. Uma beleza absoluta. Mas

O céu na cabana de Serra Negra deixa claro o quanto aqui na cidade não vemos muita coisa além de poluição. Triste e cinzento Urano urbano.

Se pensarmos assim, os deuses são imortais enquanto houver homens para perceber o mundo. O fim da humanidade representará o fim deles também.

Zeus incendeia Tífon e joga uma montanha sobre ele, fazendo surgir o monte Etna, o vulcão, para jamais esquecermos a luta entre o Caos e o Cosmos.

As Erínias estão presentes quando alimentamos o ódio planejando a vingança; como dissemos, ao alimentarmos os deuses, ao cultuá-los, nós os imortalizamos.

Interessante como em grego as palavras Eros e Eris são parecidas. Os dois são deuses. Isso pode sugerir que amor e ódio são mais próximos do que se imagina?

um grande nome da nossa literatura. Euclides da Cunha. Autor da obra Os Sertões. Que passou muito tempo em expedição. E, quando voltou, também foi assassinado pelo amante da mulher.

Dessa forma, é descabida a tentadora interpretação de Caos como masculino – representando a angústia e a insegurança – e Gaia como feminino – representando a segurança da terra firme.

Por isso, é bem bonito que, nesta narrativa, o primeiro gênero definido seja feminino. E que a própria Terra – convertida em deusa – inaugure essa forma de classificar os seres vivos.

Em O banquete, Sócrates esclarece que esse desejo é sempre pelo que falta. Pelo que faz falta. Isto é, pelo que gostaríamos de ter, mas não temos; de ser, mas não somos; de fazer, mas não fazemos.

“Todo mito é um símbolo psicológico essencial para entendermos quem somos. Suas imagens e narrativa não devem ser lidas e entendidas literalmente – não são mentiras, são metáforas.” Joseph Campbell

Ela se encoleriza e tenta o último empreendimento possível para manter o amante: oferece-lhe a imortalidade e a juventude eterna. Mas Ulisses diz “nã <Você alcançou o limite de recortes para este item>

Para você ter uma ideia do quanto esses antigos receavam todo tipo de paixonite, imagine que a palavra pathos, que em grego significa emoção, também quer dizer doença. Daí “patologia”, o estudo das doenças.

Se a grande virtude é estar conforme a sua posição, em harmonia com o seu próprio papel, o maior pecado é pretender mais do que isso. É agir para ir além e pretender para si mais do que o acordado na divisão original.

Como o grande Lucrécio no poema intitulado “Da natureza das coisas”. Não há quem detone mais radicalmente esse tipo de sentimento. Não sabemos por quais experiências o pobre Lucrécio terá passado para ter tanta convicção.

Será que Gaia quer mesmo uma força hegemônica controlando um universo cósmico, organizado, ajustado, harmônico, perfeito etc.? Ou ela imagina o universo como uma tensão permanente entre as forças da ordem e as forças do Caos?

Os Titãs são também dotados de extraordinária força. O que justifica, até hoje, o uso da palavra “titã” para indicar indivíduos de força descomunal. Pela mesma razão, entre os minerais, o titânio é um metal de rara consistência.

Zeus cria uma expectativa de ordem. Que agride o Caos na medula. Essa ordem é o contrário do Caos. O seu outro. O negativo. Por isso, não poderia haver ordem sem Caos. Nem Caos sem ordem. Tanto quanto não haveria nunca Norte sem Sul.

Segundo Aristófanes, passamos a vida tentando encontrar a metade que falta. E, quando isso acontece, há amor. Único e para sempre. Porque a nossa outra metade é uma só. Amor de dois que na re-união resgatam a unidade anterior à amputação.

Inicialmente, três deusas. Denominadas Erínias. Palavra inspirada em Eris. A deusa Eris. Que, em grego, quer dizer “ódio”. Filha da deusa Nix. A noite. Que a concebeu sozinha. Sem genitor. Como Gaia concebeu Urano. A noite é mãe solteira do ódio.

Esses Titãs, imortais, estão sendo alimentados agora por nós, pela narrativa que fazemos deles. Parece-me que a eternidade dos deuses está na narrativa mítica, na linguagem: os deuses só existem se lhes prestarmos culto, se cuidarmos deles. Assim,

Segundo Joseph Campbell, um dos maiores estudiosos sobre o assunto no mundo, a mitologia é um conjunto de símbolos, imagens e conceitos de caráter metafórico que tenta reproduzir o todo da experiência humana em uma cultura, durante certa época da história.

Mas Ulisses é mais do que simples luta pela sobrevivência. É personagem que simboliza a astúcia. E também a curiosidade. Nunca perde uma oportunidade de ver o que há para ser visto. De conhecer o que houver para ser conhecido. De experimentar o mundo. Sempre que possível.

Dessa forma, amaríamos aqueles que desejamos. As coisas que desejamos. As experiências que desejamos. Na intensidade de nossos desejos. E na duração dos mesmos. Como Eros e desejo são sinônimos, nosso amor dura enquanto dura o desejo. E acaba quando este último desaparece.

Nossos grandes pensadores nascem na Índia, há cinco mil anos, na mesma época em que Moisés atravessa o Mar Vermelho, dando origem às histórias e à ética da Bíblia. Na Grécia Antiga, em 800 a.C., acredita-se, surge a Ilíada e a Odisseia. Junto a isso, aparece a mitologia grega.

Mais do que isso. Perde também a capacidade de projetar o futuro. De antecipar na mente o devir. Assim, para o comedor de lótus, não há passado. Nem futuro. Sendo deliciosa a ingestão, vive os prazeres do instante. Mas é incapaz de se lembrar do que viveu. Bem como de planejar o amanhã.

A matéria que nos constitui já esteve presente em outras coisas. Ou em outros corpos. Em outros tempos. Somos um agenciamento original de matéria nada original. Nesse caso, cada um de nós seria, de um lado, radicalmente inédito, mas, de outro, um reaproveitamento. Uma continuidade, portanto.

Se tudo for mesmo assim, nossa alma continuará elucubrando mesmo após nossa morte. Uma alma pensante sem corpo, sem matéria, em contato íntimo com as ideias. Buscando verdades o tempo todo. Olha o deus Eros aí. Patrocinando essa busca. Num autêntico amor pelo conhecimento que não morre nunca.

E eis que surge Eros, pela boca de Sócrates, construído por Platão no diálogo O banquete. O erótico, o ter e o ser como ausência que busca a satisfação insatisfeita – só desejo o que não tenho, e o que tenho se esvai enquanto efemeridade –; o objeto desejado se desmancha e abre, pela sua ausência, a permanência do desejo.

Hécate concede ou retira como bem lhe apraz. Multiplica peixes, ou não; dá de comer, ou não; traz felicidade, ou não; acende luz verde ou vermelha nas esquinas e nas alfândegas. Uma pitada de aleatório, dando ao mundo alguma liberdade, conferindo às engrenagens algum molejo. Fissuras por onde as coisas poderão ou não passar.

As coisas – e os corpos com vida – surgem a partir desse algo. Se Caos é o nada, o nascimento de Gaia é, de fato, um problema. Para Lavoisier e para todos nós, herdeiros do pensamento moderno. Quem sabe, por inquietação parecida, Tomás de Aquino, há quase mil anos, não tenha definido Deus com causa sui, isto é, causa de si mesmo.

No amor e na guerra, não há regras. Nenhuma autenticidade. Nenhum alinhamento moral entre sentimentos e discursos. Nenhuma coerência exigida entre os afetos e suas manifestações. Pelo contrário. Estrategicamente, Afrodite faz acreditar no que não sente. Sabe ocultar, como exímia jogadora de pôquer, qualquer sentimento que possa fragilizá-la.

Se pudéssemos reunir a energia e o estrago causado por todos os terremotos, maremotos, tsunamis e vulcões ocorridos ao longo da história humana, tudo isso junto não passaria do ressonar delicado de uma virgem ruiva de cabelos lisos adormecida sobre a relva da tarde se comparado com a chegada dos seis reforços incorporados ao esquadrão do refluxo.

Se normalmente os filhos nascem do prazer, do gozo e do orgasmo, as Erínias nascem do sangue, do sofrimento, da agressão. Seu papel no mundo será o de vingar o pai. O ódio será o combustível afetivo de que sempre precisarão para empreender seus projetos vingativos. Toda vez que forem mencionadas na narrativa dos mitos será em articulação de vingança.

Você já ouviu falar em “buraco negro”. Chama-se assim porque, dada a sua densidade, exerceria irresistível atração sobre tudo o que lhe fosse exterior. Um superaspirador. Que, na falta de luz, aspira no escuro. Nossa! Não há como não pensar em Caos, que também é um buraco negro. Viu? Caos é deus. Mas é também um buraco negro. Sem luz. Irresistível. Sem fim.

Não só em nós. Mas em tudo que vive. Na árvore que resiste, ainda que plantada em lugar inóspito em meio a veículos, ônibus e agressões humanas; ou no animal que escapa do seu predador, ali está Eros, tornando a vida possível, desde o seu estágio mais embrionário até o seu último suspiro. Esse deus não está no meio de nós. Está em nós. É condição da nossa vida.

E assim a guerra dos deuses começa. A princípio, doze contra seis. A primeira versus a segunda geração. Filhos contra netos. Prole de Urano contra a de Cronos. Encurralados contra engolidos. Filhos da castração versus filhos do vômito. Titãs contra Olimpianos. Deuses da terra contra deuses das vísceras. Conservadores versus subversivos. Em suma: Cronos versus Zeus.

Era mais ou menos isso que acontecia quando um deus pisava na bola e queria mais para si do que lhe era devido. Pretendia além do seu quinhão. Ambicionava mais do que lhe havia tocado na divisão fundamental do universo. Contra o justo e ajustado proveito de todos. O nome disso era húbris, que vem do grego hybris, e significa “tudo que passa da medida, descomedimento”.

Acho que esses narradores tinham certeza da eternidade do universo. Assim, na morte de um de seus elementos, como no desaparecimento de um de nós, essa mesma matéria se reorganizaria em outras formas de vida, assegurando a eternidade do deus. A morte nada mais seria do que uma forma particular de transformação em que um tipo de organização da matéria dá lugar a outro.

Quanto ao deus Eros, bem, esse só se deixa ver indiretamente. Na performance de Gene Simmons, vocalista do Kiss. No Olodum. Na Bombonera ou no Maracanã. No Haka, dança de guer-ra dos All Blacks, time de rugby da Nova Zelândia. Na Serena Williams ou no Lugano na final do mundial contra o Liverpool. Um deus sempre mediado pela vida de todas as criaturas em que ele se manifesta.

Zeus e Têmis terão filhos que também representam harmonia entre as partes do universo. Eunômia, que em grego quer dizer “a boa lei”. Diké, a justa repartição das coisas do mundo. Finalmente, as Moiras, deusas do destino, encarregadas de dividir os fortúnios e os infortúnios entre nós, mortais. Em meio a tudo que as Moiras distribuem, destacamos a duração da vida de cada um. O tempo da finitude.

Estamos falando de Eros, uma energia que vem de longe. Por isso, talvez, de verdade o mais antigo dos deuses. Foi o que disse Fedro, primeiro convidado a discursar em O banquete. Todas as criaturas surgidas em Gaia, deuses e mortais, também contarão com uma parte dessa energia que lhes garante a vida. Trata-se da mesma energia que lá no começo era toda concentrada e hoje se encontra espalhada. Então,

Toda produção artística rica – como é o caso desta teogonia – pode conversar com seus receptores em distintos níveis de complexidade. Lembro-me de um programa da televisão francesa dedicado à obra O vermelho e o negro, de Stendhal. Com a presença de vários especialistas, animado por Bernard Pivot. Na minha leitura, um romance de ascensão social e amores frustrados. Ao assisti-lo, tive a estranha sensação de não ter lido o mesmo livro.

Assim, em alguns enfrentamentos de torcidas organizadas, marcados pela internet, bem longe do cenário lúdico do futebol, a Eris de cada um comanda as ações. Encontros eríticos, portanto. O mesmo acontece em reuniões de condomínio. Em que cada condômino pede bênção especial à filha da noite antes de sair de casa. Na minha experiência, algumas reuniões departamentais em universidades não ficam nada atrás. Verdadeiros templos de louvor ao ódio.

O céu é a parte percebida do universo. É o universo percebido por nós. É o tanto que conseguimos ver dele. É como ele se apresenta aos nossos sentidos. À nossa visão. Ao homem, em suma. Por isso, o céu só é céu em função da Terra. A partir dela. Olhando para cima. Contemplação de quem vive na Terra. Um espetáculo só visto daqui. Por isso, o céu depende da Terra. Dependência mais que suficiente para defender a relação de maternidade entre Gaia e Urano.

Pelo mito relatado por Aristófanes em O banquete, passamos a vida tentando resgatar a unidade original. Porque haverá, em alguma parte do mundo, uma outra metade que um dia já constituiu conosco um ente único. E que está fazendo falta. Se essa reunião se produzir, haverá amor. Onde dois convertem-se num só. Porém, esse mito coloca ênfase nas duas metades. E na justaposição das mesmas. Ficou faltando para mim a mistura. O desaparecimento radical das metades enquanto partes do todo.

A cabana é o meu lugar. Onde a vida antecipou um tiquinho de céu. Com fragmentos de eternidade. Onde os tempos da alma se dissolvem em instantaneidade pura. E as agendas viram pó. Onde não há justificativas. Por falta de quem as cobre. Onde não há explicações. Por falta de causas e efeitos. Onde não há “eus”. Por falta de outros. Nem enfadonhas identidades. Com suas pálidas distinções. A cabana é reconciliação amável com o real. Que, de tão rara e especial, merece mesmo a alcunha de céu. Mas

Agora esses narradores forçaram a barra. Quem não aceitaria a proposta de viver para sempre na juventude? Eu, por exemplo. Faria exatamente como fez Ulisses. Decidiria da mesmíssima maneira. Agradeceria muito pela hospedagem. Pelo passado compartilhado, ainda que meio à força. Pela proposta de eternidade. Argumentaria que se deuses, como ela, vivem para a eternidade, outros vivem na finitude. Que a morte, para nós, é o fim da vida. Que uma vida de mortal só será bem vivida se chegar ao seu fim.

Não podemos deixar de destacar o paralelismo entre a estratégia de Urano e a de seu filho: ambos, com o intuito de bloquear as gerações, o tempo, a história e as transformações, impediam que seus filhos vivessem normalmente. Urano, tolhendo-lhes a saída do ventre da mãe, e Cronos, condenando-lhes a viver em seu próprio ventre. Um, pelo sexo; o outro, pela gastronomia. Tentam prevenir-se de qualquer revolução que comprometa o exercício do seu poder. Lutam como podem para conservar a posição que ocupam.

O sabor geral tem o entusiasmo das primeiras histórias. Talvez esteja mais próximo dos relatos iniciais. Ainda antes da invenção da escrita. Da pólis. Da moeda. Quando esses relatos não eram histórias. Nem metáforas. Nem filosofia. Quando eram a coisa em si. Apenas mitos, ou melhor: mythos. Quando eram cantados de cor. Em fórmulas ritmadas, repetidas e ouvidas presencialmente pelo público. Como se emanassem dos próprios deuses. De seu mundo, de onde vieram esses cânticos, onde não havia qualquer dúvida sobre a ideia de divindade.

Tal como Ulisses, eu também não pagaria o preço da eternidade exigido por Calipso. Esquecer seu lugar. Sua gente. Sua ilha. Sua casa. Sua história. Deixar de ser Ulisses. Deixar de ser herói. Deixar de ser o vitorioso de Troia. Deixar de ser Ulisses das mil e uma artimanhas. Abrir mão de si pela eternidade. A identidade de todo homem requer a aceitação, implícita que seja, da sua finitude. Tal como Ulisses, que continuou Ulisses, Clóvis, que não tem nada de herói e nenhuma façanha no currículo, também não abriria mão de continuar sendo Clóvis.

As raízes dessa guerra se encontram na ambiguidade das relações entre os deuses e os homens. Os deuses imortais não querem conhecer o envelhecimento, o conflito entre gerações. Relegam tudo isso aos homens, mortais. Estes quebram um galho enorme. São, portanto, bastante úteis. Por outro lado, o amor, a paixão e o prazer erótico são a outra face da violência, do conflito, do desejo de triunfar sobre o adversário. Assim, pelos casamentos, os homens se reproduzem e nasce gente demais. A Terra fica superpovoada. E os deuses, irritados, acabam se livrando deles em massa. Uma boa guerra resolve o problema por um bom tempo. Os homens são muito barulhentos.

Os deuses são bem ciosos dessa privacidade. No relato de Aristófanes em O banquete, de que já falamos quando apresentamos o deus Eros, você e eu, todos nós humanos, éramos bolotinhas. Com tudo em dobro do que temos hoje. E a vida era muito boa. Até o bendito dia em que as bolotinhas decidiram bisbilhotar lá em cima. Só para ver como era a morada dos deuses. Curiosidade pura. Para chegar lá, treparam umas nas outras. Não deu outra. Os deuses se sentiram invadidos. E as castigaram duramente. Pensaram até em eliminá-las. Mas decidiram parti-las ao meio. Dividindo-as em duas metades. Tal como somos hoje. Amputados da outra parte. Carentes, faltantes e desejosos.

Essa ordem universal sempre esteve por um fio. Resultou de guerras e conflitos vencidos já na prorrogação. Em dramáticas disputas por pênaltis. As resistências à sua implementação foram colossais. Exigindo dos vitoriosos uma força extraordinária. Tenacidade a cada enfrentamento. Inteligência e muita astúcia. Sem o que Caos teria permanecido hegemônico até hoje. Eu acho que os narradores estão tentando nos alertar que a tal ordem universal estará sempre ameaçada. Nada está resolvido em definitivo. Exato. O Cosmos foi conquista progressiva e provisória. Afinal, seus adversários são deuses. Imortais. Por mais imobilizados e vigiados que possam estar, sempre tentarão se manifestar. Desordenar. E contarão com entusiastas. Porque sempre haverá quem se sinta melhor na desordem.

constante uso, alguns desses computadores humanos – com processadores mais potentes – começam a estabelecer regras, leis, começam a escrever um manual de instruções que acabam tornando a máquina muito mais interessante e rica, expandindo sua utilidade, por assim dizer. Uma das capacidades extraordinárias da máquina humana é capturar, através de uma outra máquina, a fotográfica, o Tempo. Implacável, o Tempo, como a lava de um vulcão, destrói tudo por onde passa. Os fotógrafos ajudam-nos a entender, segundo o conceito antigo dos hindus, essa peça teatral cósmica. Os filósofos são nossos aliados naturais, pois são, acima de tudo, poetas. Freud diz que, onde custou a chegar com suas pesquisas, os poetas já haviam passado fazia muito tempo. E assim nascem a arte e a filosofia.

Querida. De novo, eu te lembro o jeito grego de pensar. Ninguém explica melhor isso do que o filósofo Luc Ferry. Em muitos de seus livros. Mas vamos tentar nós aqui. Lembra que Zeus organizou o Cosmos? Universo harmônico? Onde cada peça se encontra no seu lugar? Cada deus ocupando o seu espaço? Todo mundo cumprindo o seu papel? Tudo e todos perfeitamente dispostos e aptos para fazer o que deles se espera? Muito bem. Nós, mortais como Ulisses, também fazemos parte desse todo. Por isso, haverá, para cada um de nós, um papel a cumprir. E mais do que isso. Um lugar natural. Onde nossa natureza se adaptaria perfeitamente. Onde a especificidade dos nossos recursos encontra terreno mais fértil. Tendemos a procurar esse lugar. Como a pedra procura o chão. E a fumaça procura o ar.

Acho que Ponto é deus das águas salgadas, das ondas. Tem a ver com nossa experiência no mar. Você se lembra de quando decidimos dar um mergulho na praia do Leme, já no final da tarde? Numa das poucas vezes que fomos ao Rio juntos. Embora fizesse muito calor, a água estava geladíssima. Você se divertiu muito. Adorou aquela aventura inesperada. Improvisada. Batia com as mãos nas ondas. Mergulhava quando eram mais altas. Esse é Ponto brincando com você. Poseidon é deus dos mares e dos oceanos. Mais difícil ter a experiência de algo tão imenso. Por isso, é um deus mais presente na imaginação que nas experiências. Coisa para navegador. Para geógrafo. Se você perguntar para o Amyr Klink por que Poseidon é deus, ele, com certeza, saberá te responder. Assim vejo os dois deuses. Entendimento que, a rigor, só vale para mim mesmo.

Sobre duas delas, você e seus amigos provavelmente nunca devem ter ouvido falar. Assim como eu quando li a narrativa. Para quem quiser impressionar o professor, ou qualquer outro interlocutor, vale a pena decorar: Alecto e Tisiphone. Já a terceira Erínia é bem mais conhecida nas “quebradas”. Tem notoriedade que transcende os mitos. Seu nome é usado nos quatro cantos do mundo para indicar ações femininas cruéis. Trata-se de Megera. Essa todo mundo conhece. Ou pelo menos já ouviu falar. A terceira filha nascida de Urano amputado e de seu sangue. Megera. Quantas sogras já foram nomeadas assim? Irmãs, mães e tias? Patroas também não escapam. Toda vez que, repetidamente, alguém do sexo feminino desagrada com um comportamento dolosamente entristecedor tem muita chance de ser tratada pelo nome da Erínia mais famosa. Gente ruim. Que nem tem a fecundação com sangue como desculpa.

Temos que nos remeter ao jeito grego de pensar. O que mais importava para eles era o funcionamento do Cosmos instituído por Zeus. A virtude de cada um tinha a ver com a capacidade de se harmonizar com esse universo cósmico. As pessoas mais virtuosas eram consideradas superiores. Por conta da sua participação nesse novo mundo criado por Zeus. Uma concepção hierárquica, portanto. Para tudo e todos. Uns melhores do que outros. Mais valorosos. Ou menos. Assim, por exemplo, se o papel de uma vaca no Cosmos fosse dar leite, vacas leiteiras são superiores às demais. Em caso de sacrifício, seriam as últimas a ter que sucumbir. O mesmo se aplica para joelhos que dobram. Para olhos que enxergam. Sapos que engolem mosca. Ora, pensando dessa forma, a vida de Ulisses teria que ser protegida a qualquer preço. Por se tratar de um homem excepcionalmente virtuoso. E essa proteção era considerada justa por todos. Inclusive pelos inferiores a ele. Que, no caso, foram escalados para ir na frente verificar que lugar era aquele.