Declínio e queda do Império Romano - Guido Percu's Notes
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Declínio e queda do Império Romano

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Declínio e queda do Império Romano

Kindle Highlights

Adriano.

história gótica

tivesse sido muito superior ao dos seus apóstatas.

A esperança, conforto melhor de nossa imperfeita condição,

e os festins humanos dos lestrigões15 jamais se repetiram no litoral da Campânia.

O povo trocou seus divertimentos preferidos pelo prazer mais empolgante da vingança,

História “pouco mais é do que o registro dos crimes, loucuras e desventuras da humanidade”.

república de Cartago degenerou hoje nos débeis e desorganizados Estados de Trípoli e Túnis.

Sêneca observa que os rios que outrora dividiam nações hostis correm agora pelas terras de cidadãos privados.

Os princípios de uma Constituição livre se perdem irrevogavelmente quando o Poder Legislativo é nomeado pelo Executivo.

Era tal o espírito conciliador da Antiguidade que as nações atentavam menos na diferença que na semelhança de seus cultos religiosos.

Os dezessete séculos que decorreram desde então nos ensinaram a não aceitar com demasiada literalidade a misteriosa linguagem da profecia e da revelação;

O reinado conjunto de ambos foi possivelmente o único período da História em que a felicidade de um grande povo se constituiu no único objetivo do governo.

No entanto, a Fenícia e a Palestina viverão para sempre na memória da humanidade já que a América tanto quanto a Europa receberam o alfabeto de uma e a religião de outra.

Se o declínio do Império Romano foi apressado pela conversão de Constantino, sua religião vitoriosa amorteceu a violência da queda e abrandou a índole violenta dos conquistadores.

Como se tinha o desejo por crime e se tolerava o casamento como um defeito, não discrepava dos mesmos princípios considerar o estado de celibato o mais próximo da perfeição divina.

enquanto a humanidade continuar a prodigalizar mais aplausos a seus destruidores do que a seus benfeitores, a sede de glória militar continuará a ser sempre o vício das personalidades mais enaltecidas.

Consinta-se pois ao historiador que respeitosamente corra o véu do santuário e acompanhe o progresso da razão e da fé, do erro e da paixão, desde a escola de Platão até o declínio e a queda do Império.

Podemos portanto chegar todos à aprazível conclusão de que cada época da história do mundo aumentou e continua a aumentar efetivamente a riqueza, a felicidade, o saber e quiçá a virtude da raça humana.

A virtude pública conhecida entre os antigos pelo nome de patriotismo advém de uma firme consciência de nosso interesse próprio na preservação e prosperidade de um governo livre do qual sejamos membros.

Seu reinado se distinguiu pela rara particularidade de fornecer pouquíssimos elementos à História, que pouco mais é, na verdade, do que o registro dos crimes, das loucuras e dos infortúnios da humanidade.

Nem a violência de Antíoco, nem as artimanhas de Herodes, nem o exemplo das nações circunvizinhas puderam jamais persuadir os judeus a combinar as instituições de Moisés com a elegante mitologia dos gregos.

O Concílio de Niceia estabeleceu a consubstancialidade do Pai e do Filho, que foi unanimemente recebida como o artigo fundamental da fé cristã pelo consenso das Igrejas grega, latina, oriental e protestante.

Era um propósito de autopreservação, não um princípio de liberdade, que animava os conspiradores contra Calígula, Nero e Domiciano. Atacavam a pessoa do tirano sem dirigir seu golpe à autoridade do imperador.

Cerca de 250 anos após a morte de Trajano, o Senado, ao lançar as costumeiras aclamações pela elevação de um novo imperador, fez votos de que ele pudesse ultrapassar a felicidade de Augusto e a virtude de Trajano.

A maior parte dos crimes que perturbam a paz interna da sociedade é produzida por coerções impostas aos apetites da humanidade pelas necessárias mas desiguais leis da propriedade, que confinam a uns poucos a posse dos objetos cobiçados por muitos.

Na linguagem dos pais da Igreja, Apolo e as Musas eram os órgãos do espírito infernal, Homero e Virgílio, seus servos mais eminentes, e a bela mitologia que impregnava e animava as composições de seu gênio visava tão só a celebrar a glória dos demônios.

A desatinada tentativa de Calígula de colocar sua própria estátua no templo de Jerusalém foi impossibilitada pela resolução unânime de um povo que temia menos a morte do que tal profanação idólatra. Seu apego à lei de Moisés igualava seu ódio pelas religiões estrangeiras.

As várias formas de culto que vigoravam no mundo romano eram todas consideradas pelo povo como igualmente verdadeiras, pelo filósofo como igualmente falsas e pelo magistrado como igualmente úteis. E assim a tolerância promovia não só a mútua indulgência como a concórdia religiosa.

É uma observação cediça, mas justa, a de que Roma vitoriosa foi subjugada ela própria pelas artes da Grécia. Aqueles autores imortais que ainda suscitam a admiração da Europa moderna não tardaram a tornar-se objeto favorito de estudo e imitação na Itália e nas províncias ocidentais.

O grego, o romano e o bárbaro, ao se encontrar diante de seus respectivos altares, facilmente se persuadiram de que, sob diferentes nomes e com diversas cerimônias, adoravam as mesmas deidades. A elegante mitologia de Homero deu uma forma bela e quase regular ao politeísmo do mundo antigo.

Quando meditamos na fama de Tebas e Argos, de Esparta e de Atenas, mal conseguimos nos persuadir de que tantas repúblicas imortais da antiga Grécia se perderam numa única província do Império Romano, que, dada a superior influência da liga acaica, era usualmente chamada de província de Acaia.

As pessoas de ambos os sexos que haviam sido educadas no desfrute do luxo e do bem-estar descobriram quão pouco é preciso para atender às necessidades da natureza e esbanjaram seus inúteis tesouros de ouro e prata na obtenção do grosseiro e frugal sustento que outrora teriam rejeitado com desdém.

As terras da Itália, que tinham sido originariamente divididas entre as famílias de proprietários libertos e indigentes, foram sendo compradas ou usurpadas pela avareza dos nobres e, na época que precedeu a queda da República, calculou-se que somente 2 mil cidadãos eram donos de riqueza independente.

Aceita-se como máxima salutar que a mais leve e frívola suspeita de uma moléstia contagiosa tem peso bastante para escusar as visitas dos amigos mais íntimos; mesmo os criados enviados a obter notícias decorosas não podem regressar a casa enquanto não tiverem passado pela cerimônia de uma ablução prévia.

Nas repúblicas de Atenas e Roma, a modesta simplicidade das casas particulares anunciava a igualdade de cidadania, enquanto a soberania do povo estava representada nos majestosos edifícios destinados a uso público; o espírito republicano não foi de todo extinto pela introdução da opulência e da monarquia.

A maçã era nativa da Itália, e os romanos, depois de terem experimentado o sabor mais suculento do damasco, do pêssego, da romã, da cidra e da laranja, contentaram-se com aplicar a todas essas novas frutas a denominação comum de maçã,17 discriminando-as entre si pelo epíteto adicional de seu país de origem.

Mas quando os poderes consular e tribunício foram unidos e investidos pela vida toda numa só pessoa, quando o general do exército se tornou ao mesmo tempo o ministro do Senado e o representante do povo romano, ficou impossível resistir ao exercício de sua prerrogativa imperial, cujos limites não eram tampouco fáceis de definir.

O poeta ou filósofo ilumina sua época e seu país mercê do empenho de uma só mente; todavia, tais poderes excelsos de raciocínio ou imaginação se constituem em produções raras e espontâneas; o gênio de Homero ou Cícero ou Newton suscitaria menos admiração se pudesse ser criado pela vontade de um príncipe ou pelas lições de um preceptor.

A aquisição do saber raramente atrai a curiosidade dos nobres, que aborrecem a fadiga e desdenham as vantagens do estudo; e os únicos livros que folheiam são as Sátiras de Juvenal e as verbosas e fabulosas histórias de Mário Máximo. As bibliotecas por eles herdadas de seus pais ficam fechadas, como lúgubres sepulcros, longe da luz do dia.

Muitos milhares de habitantes de Roma morreram em suas casas ou nas ruas por falta de sustento, e como os sepulcros públicos fora das portas estavam em poder do inimigo, o miasma que se desprendia de tantas carcaças pútridas e insepultas infectava o ar, pelo que as misérias da fome foram seguidas e agravadas pelo contágio de uma moléstia pestilencial.

Todavia, o declínio de Roma foi a natural e inevitável consequência da grandeza imoderada. A prosperidade fez com que amadurecesse o princípio de decadência; as causas de destruição se multiplicaram com a extensão das conquistas; e, tão logo o tempo ou os acidentes removeram os sustentáculos artificiais, a estupenda estrutura desabou sob seu próprio peso.

África está separada da Hispânia por um estreito exíguo, de cerca de vinte quilômetros, através do qual o Atlântico flui para o Mediterrâneo. As colunas de Hércules, tão famosas entre os antigos, eram duas montanhas que pareciam ter sido separadas uma da outra por alguma convulsão dos elementos; no sopé da montanha europeia, está hoje instalada a fortaleza de Gibraltar.

Quando a noiva, resistindo com relutância bem fingida, era forçada, nos ritos matrimoniais, a transpor o umbral de sua nova habitação, ou quando a lutuosa procissão se adiantava a passo lento em direção à pira funerária, o cristão se via obrigado a desertar nessas ocasiões as pessoas que lhe fossem mais caras para não inquinar-se da culpa inerente a tais cerimônias ímpias.

Desdenhando uma fuga ignominiosa, as virgens do cálido clima da África enfrentavam o inimigo bem de perto: consentiam que padres e diáconos lhes partilhassem o leito e se jactavam de sua imaculada pureza em meio às chamas. Mas a Natureza ofendida reivindicava por vezes seus direitos e esta nova espécie de martírio servia tão só para introduzir um novo escândalo no seio da Igreja.

O édito de Milão, a magna carta da tolerância, confirmava a todo indivíduo do Império Romano o privilégio de escolher e professar sua própria religião. Mas esse inestimável privilégio não tardou a ser violado; de par com o conhecimento da verdade, o imperador assimilou as máximas da perseguição; e as seitas que dissentiam da Igreja católica eram importunadas e perseguidas pelo cristianismo triunfante

A Europa está hoje dividida em doze reinos poderosos, conquanto desiguais, três respeitáveis comunidades e uma porção de Estados menores, ainda que independentes; as probabilidades de talentos reais e ministeriais multiplicaram-se, pelo menos em proporção ao número de seus governantes; e um Juliano ou uma Semíramis podem reinar no norte, enquanto Arcádio e Honório voltam a dormitar nos tronos do sul.

Se adotarmos a mesma média que, em circunstâncias semelhantes, se demonstrou aplicável a Paris, e sem distinção admitirmos cerca de 25 pessoas por casa, de qualquer tipo que fosse, podemos estimar razoavelmente o número de habitantes de Roma em 1,2 milhão — número que não se pode julgar excessivo para a capital de um poderoso império, embora exceda o da população das maiores cidades da Europa moderna.

E, embora houvesse banido os guardas pretorianos de Roma pelo assassínio de Pertinax e a desprezível transação com Juliano, logo depois julgou conveniente restabelecer a guarda em número quatro vezes maior que anteriormente. Assim, por ter descartado até mesmo as formas de autogoverno, e por ter deixado a capital à mercê dos soldados, Gibbon considera Sétimo Severo “o principal autor do declínio do Império Romano”.

Para a conveniência dos plebeus indolentes, a distribuição mensal de trigo se converteu numa cota diária de pão; um grande número de fornos foi construído e mantido com dinheiro público; e na hora marcada, todo cidadão munido de um talão subia o lance de escadas que houvesse sido prescrito para seu distrito ou divisão e recebia, como donativo ou a um preço muito baixo, três libras de pão para o consumo de sua família.

A casta severidade dos pais da Igreja em tudo quanto respeitasse ao comércio dos dois sexos resultava do mesmo princípio — a aversão por qualquer desfrute que pudesse satisfazer a natureza sensual do homem e degradar-lhe a natureza espiritual. Sua opinião favorita era a de que, se Adão se tivesse mantido obediente ao Criador, teria vivido para sempre num estado de virginal pureza, e algum inofensivo modo de vegetação teria povoado o paraíso com uma raça de seres inocentes e imortais

. Cômodo se recolheu para dormir, mas enquanto sofria os efeitos do veneno e da embriaguez, um jovem robusto, lutador profissional, entrou em sua alcova e o estrangulou sem resistência. O corpo foi secretamente retirado do palácio antes de a corte, ou a cidade, nutrir a mínima suspeita da morte do imperador. Esse foi o fim do filho de Marco, tão fácil se demonstrou aniquilar um tirano odiado que, pelos poderes artificiais do governo, oprimira durante treze anos tantos milhões de súditos,

Não obstante a propensão da humanidade a exaltar o passado e depreciar o presente, o estado de calma e prosperidade do Império era calorosamente sentido e francamente confessado tanto pelos provincianos quanto pelos romanos. Eles reconheciam que os veros princípios da vida social, das leis, da agricultura e da ciência, inventados primeiramente pela sabedoria de Atenas, haviam sido firmemente implantados pelo domínio de Roma, sob cuja auspiciosa influência os bárbaros mais ferozes se tinham unificado sob um mesmo governo e uma língua comum.

Havia uma antiga tradição de que quando o Capitólio foi fundado por um dos reis romanos, o deus Término (que imperava sobre as divisas e era representado, de acordo com o costume daquela época, por uma grande pedra) fora a única das divindades inferiores a recusar-se a ceder seu lugar ao próprio Júpiter. Dessa obstinação tiraram os augures a favorável inferência de ela se constituir em seguro presságio de que as fronteiras do poder romano jamais recuariam. Ao longo de épocas sucessivas, a predição, como costuma acontecer, contribuiu para seu próprio cumprimento.

a teologia de Platão poderia ter se confundido para sempre com as visões filosóficas da Academia, do Pórtico e do Liceu se o nome e os atributos divinos do Logos não houvessem sido confirmados pela pena celestial do último e mais sublime dos evangelistas. A revelação cristã, que se consumou no reinado de Nerva, revelou ao mundo o assombroso segredo de que o Logos, que estava com Deus desde o princípio e era Deus, que criara todas as coisas e para quem todas as coisas foram feitas, se encarnou na pessoa de Jesus de Nazaré, o qual nascera de uma virgem e sofreu a morte na cruz.

O descaso negligente ou até criminoso pelo bem-estar público os expunha ao desprezo e às censuras dos pagãos, que muito frequentemente perguntavam qual deveria ser a sina do Império, atacado de todos os lados pelos bárbaros, se toda a humanidade adotasse os pusilânimes sentimentos da nova seita. A essa pergunta insultante os apologistas cristãos davam respostas obscuras e ambíguas, por não terem desejo de revelar a causa secreta de sua segurança — a esperança de que, antes de completar-se a conversão da humanidade, a guerra, o governo, o Império Romano e o próprio mundo não existissem mais.

Mas Cômodo, desde a primeira infância, mostrou aversão por quanto fosse judicioso ou liberal e um pendor extremado pelos divertimentos da populaça — os esportes do circo e do anfiteatro, os combates de gladiadores e a caça de animais selvagens. Os mestres de todos os ramos do conhecimento que Marco proporcionara ao filho eram ouvidos com desatenção e desagrado; em compensação, os mouros e partos, que o ensinavam a lançar o dardo e a atirar com o arco, encontraram um discípulo que se comprazia em sua aplicação e cedo igualou o mais hábil de seus instrutores na firmeza do olho e na destreza da mão.

Tão sensíveis eram os romanos à influência da língua sobre os costumes nacionais que punham o maior empenho em estender, com o avanço de suas armas, o uso da língua latina. Os antigos dialetos da Itália, o sabino, o etrusco e o veneziano, caíram em esquecimento; nas províncias, porém, o Oriente se mostrava menos dócil do que o Ocidente à voz de seus preceptores vitoriosos. Essa diferença óbvia marcava as duas partes do Império com uma distinção de cores que, encoberta em certa medida durante o esplendor meridiano da prosperidade, se tornou aos poucos mais visível quando as sombras da noite começaram a baixar sobre o mundo romano.

Como a felicidade de uma vida futura é o grande objetivo da religião, quiçá não nos cause surpresa ou escândalo saber que a introdução, ou pelo menos o abuso, do cristianismo teve alguma influência no declínio e na queda do Império Romano. O clero pregava com êxito as doutrinas da paciência e da pusilanimidade; as virtudes ativas da sociedade eram desencorajadas e os últimos vestígios do espírito militar foram sepultados no claustro. Grande parte da riqueza pública e privada se consagrou às especiosas exigências da caridade e da devoção, e a soldada era esbanjada com turbas inúteis de ambos os sexos que só podiam alegar os méritos da abstinência e da castidade.

O amor às letras, quase inseparável da paz e do refinamento, estava em moda entre os súditos de Adriano e dos Antoninos, que eram eles próprios homens cheios de erudição e curiosidade intelectual. Tal amor se difundia por toda a extensão de seu império; as tribos mais meridionais dos bretões tinham adquirido o gosto da retórica; Homero e Virgílio eram traduzidos e estudados às margens do Reno e do Danúbio; e as mais generosas recompensas andavam em busca dos mínimos vislumbres de mérito literário.23 A física e a astronomia foram ciências cultivadas com êxito pelos gregos; as observações de Ptolomeu e as obras de Galeno são estudadas por aqueles que lhes aperfeiçoaram as descobertas e lhes corrigiram os erros;

O Cupido dos antigos era, no geral, uma deidade muito sensual; e as proezas amorosas de uma imperatriz, com exigir de sua parte gestos de audácia, raras vezes são suscetíveis de muita delicadeza sentimental. Marco parecia ser o único homem do Império que ignorava ou negligenciava os desregramentos de Faustina, os quais, segundo os preconceitos de cada época, trazem certa desonra ao marido ofendido. Ele nomeou vários dos amantes dela para postos honrosos e lucrativos, e durante uma união de trinta anos deu-lhe invariavelmente provas da mais terna confiança e de um respeito que não terminou com a vida dela. Em suas Meditações, agradece aos deuses terem-lhe outorgado uma mulher tão fiel, tão meiga, dotada de tão maravilhosa simplicidade de maneiras.

Refinamentos que tais, sob o odioso nome de luxo, têm sido severamente censurados pelos moralistas de todas as épocas, e talvez conviesse mais à virtude, tanto quanto à felicidade da humanidade, que todos possuíssem só as coisas necessárias, não as supérfluas, da vida. Mas na atual condição imperfeita da sociedade, o luxo, conquanto possa advir do vício ou da estultícia, parece ser o único meio capaz de corrigir a desigual distribuição da propriedade. O obreiro diligente e o artífice engenhoso, que não obtiveram quinhão algum na repartição da terra, recebem um tributo voluntário dos proprietários rurais; e estes se veem instigados, por uma questão de interesse, a desenvolver suas propriedades a fim de, com a produção delas, poder adquirir prazeres adicionais.

Mas a diversão mais animada e mais grandiosa da turba indolente eram os jogos e espetáculos públicos promovidos com frequência. A piedade dos príncipes cristãos havia suprimido os desumanos combates de gladiadores, mas o povo romano continuava a ter o Circo como o seu lar, o seu templo e a sede da república. A multidão impaciente já ao raiar do dia se apressava em garantir seus lugares e muitos havia que passavam uma noite de insônia e ansiedade nos pórticos adjacentes. Da manhã até o fim da tarde, indiferentes ao sol ou à chuva, os espectadores, que por vezes chegavam a 400 mil, conservavam-se avidamente atentos, os olhos fitos nos cavalos e áurigas, a mente agitada de esperança ou temor pelo êxito das cores que apoiavam; a felicidade de Roma parecia depender do desfecho de uma corrida.

Nossa curiosidade é naturalmente impelida a perguntar por que meios obteve a fé cristã vitória tão notável sobre as religiões estabelecidas do mundo. A tal indagação se pode dar uma resposta óbvia mas satisfatória, de que foi graças à convincente evidência da própria doutrina e à divina providência de seu grande Autor. Entretanto, como a verdade e a razão raras vezes têm recepção favorável no mundo, e como a sabedoria da Providência condescende frequentemente em fazer das paixões do coração humano e das circunstâncias gerais da humanidade os instrumentos com que executa o seu propósito, seja-nos ainda permitido perguntar (embora com a devida humildade), não em verdade quais as primeiras, e sim as segundas causas do rápido desenvolvimento da Igreja cristã. Ao que parece, foi ele favorecido e assistido, de modo efetivo, pelas cinco causas seguintes:

A República se ufanava de sua política generosa e era amiúde recompensada pelo mérito e pelos serviços de seus filhos adotivos. Houvesse ela sempre restringido a distinção de romano às antigas famílias dentro dos muros da cidade, esse nome imortal teria sido privado de alguns de seus mais nobres ornamentos. Virgílio era natural de Mântua; Horácio estava propenso a hesitar em considerar-se apuliano ou lucano; em Pádua, um historiador [Tito Lívio] foi julgado digno de registrar a majestosa série das vitórias romanas. A família patriótica dos Catões proveio de Túsculo; e a cidadezinha de Arpino se arrogava a dupla honra de ter produzido Mário e Cícero, o primeiro dos quais fez jus ao título, após Rômulo e Camilo, de terceiro fundador de Roma, enquanto o último, tendo salvo sua pátria das maquinações de Catilina, capacitou-a a disputar com Atenas a palma da eloquência.

O ilustre cognome de César ele o assumira como filho adotivo do ditador, não obstante fosse sensato demais para aspirar a ser confundido ou mesmo comparado com aquele homem extraordinário. Foi proposto no Senado que se dignificasse seu ministro com um novo cognome e, ao fim de uma seriíssima discussão, escolheu-se, entre diversos outros, o de Augusto, como o mais expressivo do caráter de concórdia e santidade que ele invariavelmente ostentava. Augusto era pois uma distinção pessoal, assim como César era uma distinção familiar. A primeira deveria naturalmente ter expirado com o monarca a quem fora conferida, e por mais que a segunda se difundisse por adoção e por linhagens femininas, Nero foi o último príncipe que podia alegar uma pretensão hereditária às normas da linhagem juliana. Todavia, à altura de sua morte, a prática de um século havia ligado inseparavelmente esses títulos à dignidade imperial, títulos preservados por uma longa série de imperadores, romanos, gregos, francos e germânicos, desde a queda da República à época presente.

Em suas censuras ao luxo, os pais da Igreja eram extremamente minuciosos e circunstanciais; entre os diversos artigos que lhes excitavam a piedosa indignação podemos enumerar as perucas, os trajes de outra cor que não a branca, os instrumentos de música, os vasos de ouro ou prata, as almofadas macias (visto que Jacó pousava a cabeça numa pedra), o pão branco, os vinhos estrangeiros, os cumprimentos públicos, o uso de banhos quentes e o hábito de barbear-se, o qual, segundo a expressão de Tertuliano, é uma mentira contra nossos próprios rostos e uma tentativa ímpia de melhorar a obra do Criador. Quando o cristianismo se introduziu entre os ricos e os elegantes, a observância desses singulares preceitos foi deixada, como o seria hoje, aos poucos que aspirassem à superior santidade. Mas é sempre fácil, tanto quanto agradável, para as classes inferiores da humanidade, alegar como mérito o desprezo daquela pompa e daqueles prazeres que a fortuna lhes pôs fora do alcance. A virtude dos cristãos primitivos, tal como a dos primeiros romanos, tinha a guardá-la, com muita frequência, a pobreza e a ignorância.

A voz pérfida da lisonja lembrava-lhe que com feitos da mesma natureza, a derrota do leão da Nemeia e a captura do javali de Erimanto, o grego Hércules conquistara um lugar entre os deuses e memória imortal entre os homens. Esqueciam-se somente de observar que nas eras primevas da sociedade, quando os bichos mais ferozes disputavam com o homem a posse de uma região desabitada, uma guerra vitoriosa contra eles era um dos trabalhos mais benéficos e mais inocentes do heroísmo. Na vida civilizada do Império Romano, as feras de há muito se tinham afastado da presença do homem e da vizinhança das cidades populosas. Surpreendê-las em seus esconderijos solitários e transportá-las até Roma para que pudessem ser pomposamente mortas pela mão de um imperador era uma empresa tão ridícula para o príncipe quanto deprimente para o povo. Ignorante dessas distinções, Cômodo sofregamente acolheu a gloriosa parecença e cognominou-se (como ainda lemos em suas medalhas) o Hércules romano. A maça e a pele do leão eram colocadas junto ao trono como as insígnias da soberania; e eram erigidas estátuas nas quais Cômodo revestia o caráter e os atributos do deus, cuja bravura e destreza ele se esforçava por emular no curso diário de seus ferozes divertimentos.