Como ler literatura: um convite
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Toda obra de literatura remete, mesmo que apenas inconscientemente, a outras obras.
Mas veremos adiante que os leitores nem sempre precisam seguir mansamente o que imaginam que o autor tinha em mente.
A ambiguidade pode ser enriquecedora, como sabem todos os que estudam literatura, mas também pode ser letal, como descobrirá o protagonista.
“Era uma vez” avisa ao leitor que não faça certas perguntas, como “É verdade?”, “Onde aconteceu?”, “Foi antes ou depois de inventarem os sucrilhos?”.
Na frase inicial de 1984, de George Orwell, pelo contrário, apenas uma palavra se destina a isso: Era um dia frio e claro de abril, e os relógios batiam as treze.
Existe outra frase de abertura na Bíblia que rivaliza em esplendor retórico com o primeiro verso do Gênesis. Está no começo do Evangelho de São João: “No princípio estava o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”.
é difícil imaginar uma frase inicial que prenda mais do que a de Poderes terrenos, romance de Anthony Burgess: “Era a tarde de meu 81o aniversário e eu estava na cama com meu catamita, quando Ali anunciou que o arcebispo tinha vindo me ver”.
O erro mais comum dos estudantes de literatura é ir diretamente ao que diz o poema ou o romance, deixando de lado a maneira como se diz. Ler desse modo é abandonar a “literariedade” da obra – o fato de ser um poema, uma peça ou um romance, e não um texto sobre o grau de erosão do solo no Nebraska.
sobre as técnicas que o romance usa para construir os personagens. Ninguém pergunta sobre as atitudes que o próprio livro adota em relação a essas figuras. Os juízos no livro são sempre coerentes ou podem ser ambíguos? E as imagens, o simbolismo e a estrutura narrativa do romance? Reforçam ou enfraquecem o que sentimos sobre os personagens?
Uma das frases iniciais mais famosas da literatura inglesa é: “É uma verdade universalmente reconhecida que um solteiro na posse de uma boa fortuna deve estar na necessidade de uma esposa”. Esta, a primeira frase de Orgulho e preconceito, de Jane Austen, geralmente é vista como uma pequena obra-prima de ironia, embora a ironia não chegue a saltar propriamente da página.
Milton escreve Lícidas da mesma forma como podemos ir ao enterro de um colega por quem não sentimos nenhuma afeição especial. Não é hipocrisia. Pelo contrário, hipócrita seria simular uma dor que não se sente. Ao comparecer ao funeral de um conhecido, espera-se que tenhamos os sentimentos adequados aos procedimentos da cerimônia em si. Da mesma forma, os sentimentos de Milton nesse poema estão associados a suas estratégias verbais. Não correspondem a uma profunda dor por detrás.
Nesses breves exercícios críticos, procurei mostrar algumas das várias estratégias possíveis da crítica. Pode-se avaliar a textura sonora de uma passagem, pode-se analisar o que parecem ser ambiguidades significativas, pode-se examinar o uso da gramática e da sintaxe. É possível observar as atitudes emocionais que uma passagem parece adotar diante do que está apresentando; é possível enfocar alguns paradoxos, discrepâncias e contradições reveladoras. Às vezes, pode ser importante rastrear as implicações tácitas do que está sendo dito. Julgar o tom de uma passagem, suas mudanças e variações, pode ser igualmente produtivo. Pode ser proveitoso tentar definir o tom exato de um texto. Pode ser melancólico, informal, tortuoso, coloquial, conciso, fatigado, loquaz, teatral, irônico, lacônico, simples, corrosivo, sensual, oblíquo e assim por diante. O que todas essas estratégias críticas têm em comum é uma acentuada sensibilidade à linguagem. Mesmo os pontos de exclamação podem merecer
Por feitiço vosso nesta ilha longe do lar, Mas libertai-me de meus grilhões Com o auxílio de vossas boas mãos. O que Próspero faz é pedir os aplausos do público. É uma das coisas que ele quer dizer com “o auxílio de vossas boas mãos”. Aplaudindo, os espectadores no teatro reconhecerão que aquilo a que estiveram assistindo era uma obra de ficção. Se não o reconhecerem, eles e os personagens no palco ficarão como que presos para sempre dentro da ilusão teatral. Os atores não poderão sair de cena, o público continuará imobilizado no auditório. É por isso que Próspero fala do perigo de ficar confinado em sua ilha mágica “por feitiço vosso”, referindo-se à relutância do público em abandonar a fantasia em que está envolvido. O que precisam fazer, pelo contrário, é bater palmas e assim o libertar, como se ele estivesse solidamente agrilhoado na ficção imaginária do público, incapaz de se mover. Aplaudindo, os espectadores admitem que se trata simplesmente de uma peça teatral; mas essa admissão é essencial para que o drama tenha efeitos reais. A menos que aplaudam, saiam do teatro e voltem ao mundo real, serão incapazes de utilizar qualquer coisa que a peça lhes tenha revelado. O feitiço precisa ser rompido para que a magia funcione.