Coisa de rico - Guido Percu's Notes
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Coisa de rico

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Coisa de rico

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A negação

— Só manter a nossa vidinha como ela é. Simples, com conforto.

A correlação de fino da magreza com a finesse da riqueza não é uma coincidência.

No Brasil, ser rico não é uma condição, é uma relação. Do ponto de vista nativo, ninguém é rico, mas está rico em relação a.

Ali, diante de mim, havia um homem rico, de mais de sessenta anos, deslocando boa parte da libido que lhe restava para as coisas de rico.

E um segundo continha o 0,01% dos mais ricos, com rendimentos acima de 300 mil reais mensais e um patrimônio superior a 150 milhões de reais

Do Oiapoque ao Chuí, de Xangai a Nova York, onde há gente vivendo junta, há a procura pela construção de bordas, limites e signos de distinção.

Um primeiro era formado pelo 0,1% mais rico do Brasil, com patrimônio acima de 26 milhões de reais e renda mensal maior do que 95 mil reais por mês,

Isso porque entre risinhos e afagos, com muita diplomacia e afeto, o papo seguia aquilo que o antropólogo Rolf Malungo, em pesquisa sobre masculinidade, chama de “lazer agonístico”.

O impacto da mudança de um padrão de vida, tanto para cima quanto para baixo, é enorme na vida de qualquer um. Com o dinheiro se vão as coisas, depois os amigos e, junto deles, se vai parte de si. É duro.

Nova York, Paris, Milão, Roma ou Londres para acompanhar de perto o périplo dos brasileiros pelo circuito Elizabeth Arden, como os globetrotters se referem à lista de cidades. Apostei nas amizades. Olívia era a amiga

Segundo os jornais, no auge da operação Lava Jato, ele cobrava em média de 8 milhões a 10 milhões de reais pela defesa de um único caso. Sendo que, durante o período mais intenso da pesquisa, eu encontrei com mais de duas dezenas dos seus clientes.

Uma pesquisa realizada pelo British Council em 2023 mostrou que 5% da população brasileira tem domínio da língua inglesa. Só 1% tem plena capacidade de entrar numa conversa, participar de uma reunião de trabalho ou assistir a uma palestra dando conta de todo o conteúdo.

No Brasil, a união entre um novo-rico e um tradicional é um caso desafiador. Não dá match. Apesar de ambos os grupos operarem a diferença sob o mesmo mecanismo, o manejo dos tempos (o legitimador para o dinheiro velho; e o transformador para os emergentes) é inconciliável

O argumento faz sentido na lógica da distinção à brasileira. Sabemos que os primeiros italianos partiram, em 3 de janeiro de 1874, do porto de Gênova, a bordo do La Sofia, rumo ao Espírito Santo, no Brasil, em busca de uma vida melhor nas fazendas de café, tanto tempo atrás.

Por mais que eu concorde com a premissa dos economistas de que “a riqueza de verdade está na propriedade de empresas, imóveis e investimentos”,1 não no consumo, como o leitor já deve perceber, discordo da ideia de que precisamos olhar para as coisas como meros indicadores de riqueza.

Para evitar os danos causados pelo contato contínuo da fibra do casco com as águas do rio, o empresário comprou o elevador de iates. Quando voltava dos passeios com a família pela região, o marinheiro responsável atracava entre os pilares do elevador e içava a embarcação, que então flutuava no ar.

Sem alterar o tom de voz, com controle dos gestos e da expressão, munidos de por favor; muito obrigado; não sei nem como te agradecer; faça esse favorzinho pra mim, por gentileza; deixa eu te explicar uma coisinha, querida, eles sacam suas armas e imobilizam os adversários, até que estes reconheçam sua superioridade.

comecei a perceber que o chamamento (Finja costume!) era mais do que um pedido ou uma ordem. Era uma categoria nativa. Isto é, uma expressão com força para revelar muito mais do que o significado original das palavras e com potência de marcar diferenças, expressar sinais e revelar os parâmetros de classificação em jogo.

Quando se davam conta da minha “estrangeirice”, rapidamente os endinheirados davam fim à conversa. Mas, como a riqueza não é identificada por padrões objetivos, antes de nos chutar de seus círculos, os ricos nos testam até concluírem se o interlocutor pertence ou não ao seu grupo. São os testes de reconhecimento, a tática usada para brecar a entrada de não ricos.

No entanto, a relação só se sustenta se ambas as partes forem capazes de manter a conversa sobre uma corda bamba. Nem um, nem outro pode levar todas. Quem sabe mais, tem mais, conhece mais, deve ter a cortesia de ceder o protagonismo para o adversário ao longo da conversa. Se perder a mão, será visto como um esnobe ou, no outro extremo, como alguém muito simples, de outro mundo.

O ascetismo burguês é uma forma eficaz de mostrar controle sobre a natureza e sobre si mesmo — traço representativo de um estado mais avançado no processo civilizatório, como analisado pelo sociólogo alemão Norbert Elias. Afinal, é dando atenção ao menor, àquilo que é supérfluo e que passaria despercebido para a maioria das pessoas, que o ricaço se vende como especial, excepcional.

Quando não tinham origem europeia definida, os novos-ricos tendiam a usar os dois sobrenomes da certidão de nascimento. Quem não nasceu Marchiori, Maletta, Varella, Roale, Beser, Bernadelli, Schultz ou Cohen, dava um jeito de juntar o nome das famílias materna e paterna como se fosse uma coisa só, como fizeram os Buarque de Holanda, os Viveiros de Castro, os Monteiro de Carvalho, os Mayrink Veiga e outras tantas famílias desde os tempos do Império.

modelo de pensamento pautado na capacidade imaginativa nega a maneira dura e pouco flexível usada pelos economistas e estatísticos para definir a posição de alguém na pirâmide social a partir da renda. De acordo com esse enfoque, o que importa são as fronteiras entre os grupos. Do ponto de vista nativo, o mais ou menos que interessa é aquele capaz de despertar a imaginação dos outros e deslocar o indivíduo de um lugar a outro da pirâmide social. Seja para cima ou para baixo.

No sistema classificatório brasileiro, os metidos a besta são indivíduos que têm um estilo de vida descompassado. Eles têm as coisas de rico, mas não têm dinheiro. Comem sardinha e arrotam bacalhau. Em suma, marcam a diferença sobre bases frágeis. Em geral vivem à base de crédito, financiamentos, afundados em dívidas. Assim como as moscas (não como as formigas), rondam as mesas fartas, as taças de champanhe, as iguarias, mas, ao redor, todos sabem que são estranhos, “de fora”.

Do ponto de vista nativo, básicas são as coisas que não cobram justificativa moral dos indivíduos que as compram. Eles podem consumir sem perder tempo explicando as razões da compra, uma vez que, quem tem, tem porque precisa. Já os supérfluos, quando consumidos, cobram um esforço extra. Os ricos precisam gastar energia justificando, com argumentos, as razões dos seus desejos. O cálculo passa longe do valor ou da exclusividade do produto ou serviço desejados. Não tem a ver com preço.

Não à toa, no Brasil, os objetos têm alma, vontades, intencionalidades, necessidades e desejos particulares. Sem pestanejar dizemos que o carro morreu, o computador não quer funcionar, o celular vai de mal a pior, que o conserto ressuscitou uma traquitana qualquer, ou aceitamos que as bolsas se sentem à mesa com as madames como se fossem companheiros de uma vida inteira — diferente do Velho Mundo, onde os pertencentes da clientela grã-fina são armazenados na chapelaria dos restaurantes durante o jantar.

Finja costume! é uma ode à diferença e à exclusão, tema central à dinâmica social brasileira. É uma artimanha para demarcar e informar a um grupo que ali, entre eles, alguém não partilha dos mesmos símbolos, valores e das mesmas condições financeiras. E mais: é uma forma de avisar aos “de fora” que, apesar da aparente igualdade, eles não estão entre iguais — como concluí nas mais de oitenta entrevistas com milionários que fiz para esta pesquisa. Finja costume! é mais do que um conselho ou uma advertência sobre o bom comportamento, é um iluminador das diferenças.

Do ponto de vista nativo, uma bolsa Chanel às cinco horas da manhã, no braço de uma trabalhadora doméstica, na estação da Luz, no centro de São Paulo, será falsa mesmo se a dona tiver prova de que comprou em uma loja da maison. Do mesmo modo, a coleção de bolsas falsas no espólio do estilista Clodovil Hernandes, conhecido pelo bom gosto e refinamento, jamais gerou qualquer dúvida. Por anos, ele transitou pelas mansões dos ricaços, foi recebido nos estúdios de televisão e ocupou as tribunas do Congresso Nacional sem que uma alma sequer duvidasse do poder do que carregava.

Nos anos de 1990, Eike namorou Patrícia Leal, trineta do conde João Leopoldo Modesto Leal, um magnata dos tempos da República Velha. A jovem fazia o estilo bela, recatada e do lar. Com berço, tinha “bons modos”, falava línguas, conhecia os melhores spots de Paris, Nova York e Londres e era reconhecida pela elegância de dar inveja às inimigas. Não por acaso, Zózimo Barrozo do Amaral, colunista social, definiu Patrícia como o tipo ideal das bem-nascidas cariocas. Por efeito de um dos seus textos, toda e qualquer riquinha bem cuidada era uma “patricinha”, em homenagem à primeira exemplar do tipo.

O hábito é antigo, mas resiste. Foi desse modo, aliás, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aprendeu com seus pais e avós a tratar os serviçais. Filho de uma família tradicional de militares, com estreitas relações com as elites do poder desde os tempos do Império, em seu livro de memórias o político lembra que coube à ex-primeira-dama Ruth Cardoso o papel de lhe ensinar a pedir um copo de água como uma pessoa comum.1 Até então, quando precisava se hidratar, ele só se preocupava em dizer “tenho sede”. Repetia: “tenho sede”. E rapidamente um empregado de uniforme, sem nome, corria para o servir.

A maioria dos mais de 1,4 milhão de italianos que vieram para o Brasil de 1874 a 1920 não fez a viagem por paixão pelos trópicos. Ao contrário, aqui desembarcaram porque a vida das pequenas propriedades do norte da Itália lembrava o inferno de Dante. Os dias eram atravessados por calamidade climática, fome e instabilidade política na Itália recém-unificada, o que fazia da dolce vita um prato amargo demais de se enfrentar. Sem perspectivas, a ralé italiana se meteu nos navios para substituir a mão de obra dos negros escravizados. Assumiram os barracões e viraram empregados de patrões acostumados a mandar com o açoite.

Conquistar é adquirir algo que já existe. Uma conquista é uma façanha que precisa ser ostentada como símbolo de dominação e poder. Os conquistadores são indivíduos que, por meio do seu esforço ou da sua sabedoria, se apropriaram de algo de outrem e então gozam disso, enquanto ostentam as benesses da posse. A grande batalha das elites brasileiras não é pela construção de um império, é pela conquista das coisas de rico. Eles partem da certeza de que as riquezas e os privilégios estão à disposição de todos. Mas só os conquistadores têm coragem e habilidades suficientes para chegar lá antes dos demais. Esse é o tema central de sua vida.

Há duzentos anos, numa longa viagem para catalogar a fauna e a flora brasileira, Saint-Hilaire deixou como herança um axioma que nos acompanha até hoje: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. A ideia caiu tão bem no pensamento brasileiro que, vez ou outra, as saúvas voltam à boca do povo. Lá estavam elas no centro dos tormentos de Policarpo Quaresma, personagem da obra de Lima Barreto, depois de tomarem o seu sítio e colocarem em risco seu patrimônio. E, de novo, nas elucubrações de Macunaíma, o herói sem caráter de Mário de Andrade, ao resumir o destino nacional: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”.

No dia seguinte, assinei cinco revistas sobre o dia a dia das elites (Caras, Marie Claire, Elle, Vogue e Casa Vogue). Tornei-me leitor assíduo de colunas sociais e dos blogs de Hildegard Angel, Lu Lacerda e Joyce Pascowitch para mapear os personagens com maior destaque na high society. Mergulhei nos arquivos de notinhas de Zózimo Barrozo do Amaral, maior jornalista desse métier, e decorei dezenas de sobrenomes de desde quando os Orleans e Bragança, os Monteiro de Carvalho, os Trussardi, os Barros da Silva e os Marinho figuravam no panteão da tradição da cena nacional. Fiz uma varredura bibliográfica dos livros que alguns membros das elites tinham escrito sobre eles mesmos. No final, descobri que a solução era voltar para a escola.

Desde a tenra infância, os americanos falam, ensinam e aprendem sobre finanças. Para incluir um ponto a uma conversa, eles pedem permissão para “acrescentar seus dois centavos na discussão” (may I add my two cents?); eles não convencem, mas vendem ideias (to sell an idea) de modo que os outros as comprem (to buy an idea); além de pay attention (prestar atenção, literalmente “pagar atenção”), pay a visit (fazer uma visita a um amigo, literalmente “pagar uma visita”) e pay respect (mostrar respeito por alguém, literalmente “pagar respeito”) como se falassem desde um guichê de um banco. Eles sempre pagam ou recebem, vendem ou compram e sabem exatamente quanto custa cada encontro. Afinal, tempo é dinheiro (time is money) e não há almoço grátis (there is no free lunch).

Talvez não haja estigma pior, posição mais desvalorizada na sociedade brasileira do que ser chamado de mão de vaca ou mesquinho. Por aqui, ninguém deseja ser filho, casado ou ter de conviver com um avarento. Eles são párias. Afinal, a única posse que interessa aos mãos de vaca é a do dinheiro. Eles podem comprar as coisas de rico, mas decidem poupar. Parte do estigma enfrentado pelos mãos de vaca vem do fato de quebrarem a lógica classificatória dos padrões de vida e, por consequência, burlarem a operação da diferença à brasileira. Se nós classificamos os indivíduos a partir da correlação entre dinheiro e coisas (padrão de vida), quem se nega a comprar com os recursos que tem, nega a lógica social, se coloca fora do jogo classificatório e, por consequência, é estigmatizado.

“Será mesmo um Pollock verdadeiro? Um primo-irmão daqueles do MoMA, o museu de Nova York?”. Era. Minha cicerone acabou logo com a magia. Calma, como se falasse do arranjo de flores da sala, me disse que a família não entendia nada de arte nem tinha admiração pelo artista. Estavam mais preocupados com o tamanho do quadro, com a fama do pintor e a capacidade de impressionar quem chegasse. Diferentemente da elite francesa, estudada por Pierre Bourdieu, os ricos brasileiros não investem em arte, não colecionam estantes abarrotadas de livro, não promovem saraus ou degustam iguarias em restaurantes de chefs de renome pela materialização de um gosto refinado tipicamente burguês. Eles o fazem por uso estratégico da capacidade imaginativa das coisas de rico, como se, na impossibilidade de falar das cifras, obrigassem todos a imaginá-las.

Rebeca, uma jovem advogada, me atirou dentro de uma nova leva de testes: a das relações. Decidiu se meter no papo e desfiar o nome de todos os seus amigos ricos, colecionadores, artistas e pintores famosos, como se tivesse certeza de que eu também os conhecia. O Joaquim a quem ela frequentemente se referia era Joaquim Monteiro de Carvalho, membro de uma das famílias mais tradicionais do Rio de Janeiro; a Betina era a de Luca, então namorada do Joaquim por anos; o Waltinho era Walter Salles, de quem ela sentia saudades desde os tempos em que frequentava a casa da família na Gávea, com os avós; o Zé era o renomado cineasta José Padilha, diretor do filme Tropa de elite, que levou multidões às salas de cinema. Sem falar no Edgar, o Grande Edgar, marido da Maria — a atriz Maria Clara Gueiros —, pai do Greg e ex-marido da Olivia, para se referir a Edgar Duvivier e a Olivia Byington, pais de Gregório Duvivier.

Enfurnados em suas mansões, carros blindados, elevadores privativos, escolas de elite e restaurantes exclusivos, os ricos tradicionais têm menos contato com indivíduos de outras classes do que os emergentes, ainda muito ligados à família e aos amigos de quando eram pobres. Assim, quando precisam operar a diferença, os quatrocentões brasileiros estão mais interessados em serem reconhecidos pelos seus do que pelos outros. E, por conta disso, se valem de objetos, assuntos e amizades só entendidos por quem nasceu e viveu nos mesmos círculos. A aparente simplicidade, no entanto, revela uma camada ainda mais perversa da opressão de classe. Ou o ricaço, sabendo da estrangeirice do interlocutor, nem se dá ao trabalho de ostentar seus hábitos de vida e bens de consumo, ou ostenta marcas e signos que o recém-chegado, por fazer parte de outro mundo, não tem a capacidade de perceber. Nos dois casos, evidencia-se a diferença. Olívia seguia o rito. Assim que nos sentamos à mesa, uma ricaça francesa foi ao nosso encontro para cumprimentá-la. — Olívia, querida, que prazer te encontrar aqui. Como está sua família? Falamos de você

Nos gastos rotineiros, Catarina colocou o condomínio, a internet, a TV a cabo, a mensalidade do clube, a escola dos filhos, comida (supermercado e hortifrúti), gastos com vestuário, academia, personal trainer, cursos extracurriculares, as quatro empregadas, o cozinheiro, os dois motoristas, custos trabalhistas, dentista, plano de saúde, nutricionista, combustível, remédios, manutenção da casa, troca anual dos carros e os impostos (IPVA, IPTU, INSS dos empregados, entre outros). Corri com o olho para o valor total: R$156 336,88 por mês. Um pouco mais de 111 salários mínimos mensalmente, em valores de 2024. Os custos variáveis se resumiam a gastos com saúde, seguro dos carros, reserva financeira para viagens dos filhos (uma estimativa de 80 mil reais de custo para cada ano), matrículas escolares, manutenção dos carros e eventuais multas, presentes de aniversário para amigos, gratificação para professoras, material escolar etc. A previsão girava por volta de um pagamento extra, a ser feito no mês de janeiro de cada ano, no valor de R$193 268,66 — como o advogado me mostrou. Sem nenhuma dificuldade, Catarina conseguiu elencar os hábitos de consumo da família, fez a estimativa de custo e chegou à conclusão de que precisaria de R$2 069 311,22 por ano. Para facilitar a vida do ex-marido, topava parcelas de R$174 442,60, sem os impostos, para garantir o básico a ela e seus rebentos.