Calma sob pressão - Guido Percu's Notes
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Calma sob pressão

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Calma sob pressão

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Quando Antonio Palocci teve de deixar o Ministério da Fazenda, em março de 2006,

Ao contrário do que muitos políticos pensam, quanto menos eles falam contra os juros, mais eles ajudam os juros a caírem.

Durante todo o período democrático, o único governo no qual houve de fato controle fiscal foi no primeiro governo Lula, quando Palocci era o ministro da Fazenda.

Mesmo aqueles que participavam das discussões diziam que o teto não conseguiria chegar em 2018. Bom, chegou até 2021, quando surgiram as medidas políticas eleitoreiras do governo Bolsonaro.

Palocci entendeu um conceito que muitos economistas da esquerda se recusam a aceitar: o gasto público tem efeito apenas até um certo ponto. O que gera emprego e crescimento de um país é o setor privado, não o público.

Até que meses depois, na coluna Panorama Político do jornal O Globo, o jornalista Ilimar Franco publicou uma nota cifrada com o seguinte título: “a raiva passou”. Um diretor do BC me perguntou o que era, e eu disse: “É um recado. Está tudo certo”.

A lição mais importante para o sucesso econômico de um governo é ter a política monetária (do Banco Central) e a política fiscal (do Ministério da Fazenda) andando na mesma direção – desde que essa direção seja a correta, obviamente. Isso vale para um governo de esquerda, de direita, liberal ou heterodoxo.

Palocci foi um excelente ministro. Tivemos uma relação muito franca. Ele não era economista, mas médico sanitarista, e montou na Fazenda uma equipe de economistas de primeira linha, como Joaquim Levy, Marcos Lisboa, Bernard Appy e, posteriormente, Murilo Portugal. Era um time que sabia o que estava fazendo.

então primeiro-ministro de Singapura, Lee Kuan Yew, anunciou a independência à população e chorou. Isso foi reportado à época como tristeza, porque Singapura era pobre e teria de começar a sobreviver de forma isolada. No livro que escreveu posteriormente, ele apresenta outra versão: diz que chorou de alegria.

Conseguimos aprovar a Lei do Cadastro Positivo. Até aquela época, o banco era dono do cadastro do cidadão: se a pessoa fosse tentar abrir um crédito em outro banco, não seria possível este outro banco ter acesso ao cadastro. Conseguimos aprovar no Congresso um projeto para que o cadastro passasse a ser propriedade do cliente, não do banco. Isso viabilizou muitas coisas, inclusive o Pix, o open banking etc.,

O que ocorria tanto nos governos militares como nos democráticos era um gasto público sem limite, com o pressuposto de que o Banco Central financiaria a máquina pública através da expansão da base monetária. O BC fazia isso, só que o resultado se chama hiperinflação. O Brasil teve a mais longa hiperinflação da história: foram praticamente quinze anos seguidos com taxas de inflação acima de 100% ao ano, em alguns anos ultrapassando a marca dos 1.000%.

Tempos depois, fui fazer no Brasil um workshop dado por um psicólogo alemão chamado Bert Hellinger, que havia criado outra corrente de psicologia, Constelações Familiares. Ele defendia a ideia de que algumas características familiares podiam ter sido transmitidas subconscientemente. Mas Hellinger só falava alemão e pouca coisa de inglês. Toda a sua aula era traduzida simultaneamente para o português por uma jovem muito segura, sem sotaque alemão, mas com um leve acento mineiro. Começamos a nos conhecer. Ambos tínhamos relacionamentos anteriores. Nossa conexão foi evoluindo até ela se mudar comigo para os Estados Unidos e finalmente nos casarmos.

Como essa era a primeira reunião do BC sob o mandato de Lula, o mundo caiu. Deputados e senadores do PT chiaram. Eu fui em frente. Se Lula queria de fato controlar as expectativas, ele precisava mostrar que o BC não ia se curvar às pressões políticas. Logo depois, José Dirceu, então ministro da Casa Civil e ex-presidente do PT, disse publicamente que o presidente Lula iria ordenar a queda dos juros na reunião seguinte. O mercado balançou e esqueceu todo o nosso esforço para mostrar a seriedade da política econômica, apesar da Selic em 25,5%. Exemplo de como essa taxa era alta: descontada a expectativa da inflação, ela significava uma taxa real de 16,4%. Mas a questão não era de números. Era de confiança.

No início de 2007, fui a Nova York para uma série de reuniões pelo Banco Central. No aeroporto John Fitzgerald Kennedy, peguei um carro de aluguel e, por coincidência, a motorista era brasileira. Ela se apresentou, começou a falar e, para seguir a conversa, perguntei como estavam as coisas. Eloquente, ela me contou que havia comprado uma casa financiada, e como essa casa havia dobrado de preço no mercado, ela a havia usado como garantia para tomar um segundo empréstimo para comprar outra casa. Ela, então, tinha duas hipotecas. A primeira casa havia sido alugada e com o dinheiro ela pagava o empréstimo da segunda. “E os preços do mercado imobiliário continuam subindo! Agora, a minha meta é comprar uma terceira casa”, ela me contou, otimista. Eu não disse nada para não a assustar, mas pensei comigo: Não tem como isso dar certo.