A virada
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Os dentes do tempo
Em busca de Lucrécio
“Em nome de Deus e do lucro”.
a arte sempre penetra pelas frestas particulares da vida psíquica de cada um.
Tinha acesso, como sugere a própria palavra “secretário”, aos segredos do papa. E
“Mas, voltando aos livros…” É essa a escapatória, a fuga do medo, do pasmo e da dor.
Para Poggio, era isso o que representava estar mergulhado num livro antigo: “livre para ler”.
Da natureza é uma raríssima realização, uma grande obra filosófica que também é um grande poema.
em Florença, a Primavera de Botticelli, uma pintura que, não por coincidência, foi influenciada por Da natureza
Mas bibliotecas, museus e escolas são instituições frágeis; elas não conseguem sobreviver a ataques prolongados.
Numa das grandes transformações culturais da história do Ocidente, a busca da dor triunfou sobre a busca do prazer.
(Um século depois, Lutero, à frente de um desafio mais bem-sucedido, comentou: “Somos todos hussitas sem sabê-lo”.)
Comparado com as forças assoladoras da guerra e da fé, o Monte Vesúvio foi mais bondoso com o legado da Antiguidade.
“Contra outras coisas é possível obter segurança, mas no que se refere à morte nós, humanos, vivemos numa cidade sem muros”.
Quando o cristianismo garantiu definitivamente sua posição, conseguiu destruir quase todas as manifestações desse riso hostil.
Embora o papiro e o pergaminho fossem absurdamente duradouros (muito mais que nosso papel barato ou nossos dados computadorizados
O platonismo deu ao cristianismo seu modelo de alma; o aristotelismo, sua Causa Primeira; o estoicismo, seu modelo de Providência.
a única cópia que sobreviveu do livro de Sêneca sobre a amizade foi decifrada sob um Antigo Testamento copiado no fim do século vi.
Tornou-se cada vez mais um traço de elegância entre os romanos ricos ter grandes bibliotecas particulares em suas casas na cidade e no campo.
Valla admitia, mas não eram suas ideias, e sim as de um porta-voz do epicurismo num diálogo literário.7 No fim do diálogo, não é o epicurismo,
Mesmo as bibliotecas monásticas mais celebradas da Idade Média eram minúsculas em comparação com as da Antiguidade ou com as que existiam em Bagdá ou no Cairo.
O que o filósofo grego oferecia não era ajuda para morrer, mas ajuda para viver. Libertado da superstição, Epicuro ensinava, você se veria livre para buscar o prazer.
Daí o fato de que muitas traduções modernas do poema de Lucrécio para o inglês reconfortantemente o fazem denunciar como “superstição” o que o texto latino chama apenas de religio.
É um diálogo no estilo de Cícero, uma forma muito estimada na época por escritores que queriam manifestar opiniões controversas ou até perigosas sem se responsabilizar plenamente por elas.
Ao ouvir Poggio, um supersticioso poderia ter suspeitado de um caso singular de feitiçaria, a bibliomancia; um homem mais sofisticado poderia ter diagnosticado uma obsessão psicológica, a bibliomania;
Os volumes que os romanos empilhavam em suas bibliotecas eram menores que a maioria dos livros modernos: eram em geral escritos em rolos de papiro.11 (A palavra “volume” vem de volumen, termo latino para algo que foi rolado ou enrolado.)
Mas, ao fazê-lo, poderia muito bem ter pronunciado as palavras que Freud supostamente disse a Jung quando seu barco chegava ao Porto de Nova York para receber as boas-vindas de seus admiradores americanos: “Mas eles não sabem que nós estamos trazendo a peste?”.
herege inglês John Wycliffe, que por sua defesa da tradução vernácula da Bíblia, sua insistência no primado da fé nas escrituras sobre as obras e seus ataques contra a riqueza do clero e a venda de indulgências tinha sido condenado pela Igreja no século anterior.
Hoje, muito do que Da natureza diz a respeito do universo parece profundamente familiar, pelo menos entre o círculo de pessoas interessadas neste texto. Afinal, muitos dos argumentos centrais da obra estão entre as fundações sobre as quais se ergueu a vida moderna
A semelhança com o modelo das bibliotecas públicas de nossa sociedade atual não é acidental: nossa noção de que uma biblioteca é um bem público e nossa ideia da aparência que deve ter um lugar como esse derivam precisamente de um modelo criado em Roma milhares de anos atrás.
E, para o poeta grego Eveno, a traça era o inimigo simbólico da cultura humana: “Comedor de páginas, maior adversário das Musas, destruidor absconso, que sempre te alimentas do que roubas ao saber, por que, negra traça, ocultas-te entre as sacras frases, produzindo a imagem da inveja?”.
Mas a poesia era atraente, sedutoramente linda. E podemos ver com uma clareza alucinatória o que pelo menos um italiano, mais adiante no século xv, entendeu dela: só nos basta olhar para a grande pintura da Vênus de Botticelli, onde ela surge, atordoantemente linda, da matéria inquieta do mar.
compreender a extensão em que a Eneida, o grande épico de Virgílio, era uma longa tentativa de construir uma alternativa a Da natureza: pio onde Lucrécio era cético; patriota militante onde Lucrécio aconselhava o pacifismo; advogando uma renúncia sóbria onde Lucrécio se entregava à busca do prazer.
Sem querer emular as elites pagãs ao colocar os livros ou a escrita no centro da sociedade, sem afirmar a importância da retórica ou da gramática, sem valorizar nem a erudição nem o debate, os monges se tornaram os maiores leitores, bibliotecários, conservadores e produtores de livros do mundo ocidental.
Ouro, prata, joias, vestes purpúreas, casas feitas de mármore, propriedades bem cuidadas, pinturas devotas, garanhões ataviados e outras coisas dessa natureza oferecem um prazer cambiante e superficial; os livros dão deleite que vai ao tutano dos ossos. Eles nos falam, consultam, e juntam-se a nós numa viva e vívida intimidade.
Morremos de medo de catástrofes futuras e nos vemos num estado de contínua miséria e angústia, e por medo de nos vermos miseráveis, nunca deixamos de sê-lo, sempre de língua de fora atrás da riqueza e nunca entregando nossa alma ou nosso corpo a um momento de paz. Mas os que se contentam com pouco vivem um dia por vez e tratam cada dia como um dia de festa.
Fora os fragmentos carbonizados de papiros recuperados em Herculano e outro depósito de fragmentos descoberto em pilhas de detritos na antiga cidade egípcia de Oxyrhynchus, não há manuscritos da Grécia antiga e do mundo romano que tenham sobrevivido. Tudo que chegou até nós é cópia, na maioria das vezes muito distante no tempo, no espaço e na cultura, em relação ao original.
Historiador lúcido, ponderado e incomumente imparcial, Amiano parece ter pressentido o fim iminente. Sua descrição de um mundo exaurido por impostos abusivos, a ruína financeira de grandes parcelas da população e o perigoso declínio no moral do exército evocavam vividamente as condições que possibilitaram, cerca de vinte anos depois de sua morte, que os godos saqueassem Roma.
Quando o século chegou ao fim, os impressores, especialmente o grande Aldo de Veneza, prensavam textos latinos com uma fonte cujas clareza e elegância continuam inigualáveis cinco séculos depois. Essa fonte foi baseada na bela caligrafia de Poggio e de seus amigos humanistas. O que Poggio fazia à mão para produzir uma única cópia logo seria feito mecanicamente para produzir centenas.
Shakespeare teria certamente encontrado Lucrécio num de seus livros preferidos: os Ensaios de Montaigne. Os Ensaios, publicados originalmente em 1580 e traduzidos para o inglês por Florio em 1603, contêm quase cem citações diretas de Da natureza. E não são só as citações: há uma profunda afinidade entre Lucrécio e Montaigne, uma afinidade que vai além de qualquer passagem em particular.
É por essa razão que se diz que o soberano alexandrino Ptolomeu Filadelfo embarcou no dispendioso e ambicioso projeto de encomendar a cerca de setenta eruditos uma tradução da bíblia hebraica para o grego. O resultado — conhecido como a Septuaginta (da palavra latina para “setenta”) — foi para muitos dos primeiros cristãos o principal acesso ao que passamos a chamar de Antigo Testamento.
A sala de leitura, de formato retangular ou semicircular, e às vezes iluminada por uma abertura circular no teto, era enfeitada com bustos ou estátuas em tamanho real de escritores consagrados: Homero, Platão, Aristóteles, Epicuro e outros. As estátuas funcionavam como funcionam para nós, como uma honraria, um gesto de reconhecimento para os escritores canônicos que toda pessoa civilizada deveria conhecer.
Com essa visão contrastante de italianos angustiados, obcecados pelo trabalho e excessivamente disciplinados, e alemães tranquilos e despreocupados, Poggio acreditou ter entrevisto por um momento a busca da felicidade epicurista como o bem maior. Ele sabia muito bem que essa busca ia a contrapelo da ortodoxia cristã. Mas em Baden era como se tivesse se visto no limiar de um mundo mental em que as regras cristãs não mais se aplicavam.
Basta pensar nos jantares da corte papal — regados a fofocas espirituosas, além de uma comida fantástica e de bebidas servidas por belos rapazes imberbes. E, para aqueles cujos gostos não se inclinam para Ganimedes, há os abundantes prazeres de Vênus. Amantes, matronas adúlteras e cortesãs de todos os tipos ocupam um lugar central na cúria, e isso é muito adequado, já que os deleites que oferecem têm lugar central na felicidade humana.
E quando o jovem par se abraça mais, Com mãos e coxas juntas, quase iguais; Na espuma do desejo pleno se reviram, Murmuram, ambos, sem parar, expiram, Da língua vão tentar fazer arpão, Com que forçar caminho ao coração. Em vão; navegam raso sem que afundem, Pois corpos não perfuram nem se fundem, Qual certamente é então o seu intento Ao encenar tal fúria de um momento. E jazem enredados pelo amor, Até se dissolverem no fervor.* (4.1105-14)
O evento mais memorável dos turbulentos anos de Savonarola foi a famosa “Fogueira das Vaidades”, quando os ardentes seguidores do frade saíram pelas ruas reunindo objetos de pecado — espelhos, cosméticos, roupas sedutoras, livros de canções, instrumentos musicais, cartas de baralho e outros artefatos de jogos, esculturas e pinturas com temas pagãos, as obras dos poetas antigos — e jogaram tudo numa enorme pira acesa na Piazza della Signoria.
É impossível viver de maneira prazerosa, Filodemo continuava, “sem viver de maneira prudente e honrada e justa, e também sem viver de maneira corajosa, temperada e magnânima, e sem fazer amigos, e sem ser filantrópico”. Essa é a voz de um autêntico seguidor de Epicuro, uma voz recuperada em tempos modernos de um rolo de papiro enegrecido por um vulcão. Mas está longe de ser a voz que todos os familiarizados com o termo “epicurismo” esperariam.
Mas o autor do poema em questão não acreditava em milagres. Ele achava que nada podia violar as leis da natureza. Propunha em vez disso o que chamava de uma “virada” — o termo latino mais usado por Lucrécio para isso era clinamen —, um movimento inesperado e imprevisível da matéria. O ressurgimento de seu poema foi uma dessas viradas, um desvio imprevisto da trajetória direta — neste caso, rumo ao olvido — que aquele poema e sua filosofia pareciam seguir.
Contra os hipócritas não é uma obra escrita na esteira de Martinho Lutero por um polemista da Reforma, mas um século antes por um burocrata papal que vivia e trabalhava no centro da hierarquia católica romana. Isso indica que a Igreja, embora pudesse reagir e de fato reagisse com violência ao que percebia como seus desafios doutrinais ou institucionais, estava disposta a tolerar pesadíssimas críticas vindas de seu próprio seio, inclusive de figuras seculares como Poggio.
O fato de que Lucrécio e muitos outros fizeram mais do que simplesmente se relacionar com Epicuro — eles o festejavam como alguém de sabedoria e coragem divinas — dependia não de suas credenciais sociais, mas do que consideravam ser o poder de salvação que existia em sua visão. O núcleo dessa visão pode ser reduzido a uma única ideia incandescente: tudo que já existiu e tudo que ainda existirá é montado a partir de partículas indestrutíveis de dimensões diminutas, mas inimaginavelmente numerosas.
A negação da Providência e a negação da vida após a morte eram as duas colunas mestras de todo o poema de Lucrécio. Thomas More então ao mesmo tempo abraçava de maneira ativa o epicurismo — a adoção mais profunda e mais inteligente desse pensamento desde que Poggio recuperou De rerum natura um século antes — e cuidadosamente lhe arrancava o coração. Todos os cidadãos de Utopia são encorajados a buscar o prazer; mas aqueles que acham que a alma morre com o corpo ou que acreditam que o acaso governa o universo, escreveu More, são presos e escravizados.
No mesmíssimo momento em que Savonarola incitava seus ouvintes a rir da tolice dos atomistas, um jovem florentino copiava tranquilamente, por conta própria e na íntegra, o texto de Da natureza. Embora sua influência possa ser detectada, ele não o mencionou uma só vez de maneira direta nos famosos livros que veio a escrever. Ele era esperto demais para fazer uma coisa dessas. Mas sua letra foi identificada conclusivamente em 1961: a cópia foi feita por Niccolò Machiavelli. A cópia que Maquiavel fez de Lucrécio está preservada na Biblioteca Vaticana, ms Rossi 884.
E em 1509, quando Rafael pintou a Escola de Atenas no Vaticano — sua magnífica visão da filosofia grega —, parecia estar sublimemente confiante de que toda a herança clássica, não apenas a obra de uns poucos escolhidos, podia viver em harmonia com a doutrina cristã que vinha sendo debatida de forma intensa pelos teólogos retratados na parede oposta. Platão e Aristóteles estão no centro do quadro luminoso de Rafael, mas há espaço sob aquele amplo arco para todos os grandes pensadores, inclusive — se as identificações tradicionais estão corretas — Hipátia de Alexandria e Epicuro.
Igreja os sutis argumentos com que Tomás de Aquino, no século xiii, tentou, a partir de Aristóteles, reconciliar a transubstanciação — a metamorfose da água e do vinho consagrados no corpo e no sangue de Jesus Cristo — com as leis da física. A distinção de Aristóteles entre “acidentes” e “substância” da matéria possibilitava explicar como algo com a aparência, o cheiro e o gosto de um pedaço de pão podia de fato (e não meramente num nível simbólico) ser a carne de Cristo. O que os sentidos humanos percebiam eram apenas os acidentes do pão; a substância da hóstia consagrada era Deus.
Para eventos dessa magnitude, os historiadores e os artistas deram imagens memoráveis à humanidade: a Queda da Bastilha, o Saque de Roma, ou o momento em que os marujos esfarrapados das naus espanholas cravaram sua bandeira no Novo Mundo. Esses emblemas da mudança sócio-histórica podem ser enganadores — a Bastilha quase não tinha prisioneiros; o exército de Alarico se retirou rapidamente da capital do império; e, nas Américas, a ação verdadeiramente definitiva não foi o desfraldar da bandeira, mas a primeira vez em que um marujo espanhol doente e contagioso, cercado por nativos espantados, espirrou ou tossiu.
é contraposto a uma ilha imaginária, Utopia (nome que significa “não lugar” em grego), cujos habitantes estão convencidos de que “ou toda ou a parte principal da felicidade humana” está na busca do prazer. Esse mandamento central do epicurismo, a obra deixa bem claro, está no coração da oposição entre a boa sociedade de Utopia e a sociedade corrupta e perversa de sua Inglaterra natal. Ou seja, More compreendeu com clareza que o princípio do prazer — que recebe sua expressão mais vigorosa no espetacular hino a Vênus, de Lucrécio — não é um aprimoramento decorativo da existência habitual; é a ideia radical que, levada a sério, mudaria tudo.
Nesse desaparecimento generalizado, todas as obras dos brilhantes fundadores do atomismo, Leucipo e Demócrito, e quase todas as de seu herdeiro intelectual Epicuro sumiram. Epicuro foi extraordinariamente prolífico.3 Ele e seu principal oponente filosófico, o estoico Crisipo, escreveram, dizia-se, mais de mil livros. Mesmo se essa cifra for um exagero, ou se contar como livros o que consideraríamos ensaios ou cartas, o registro escrito era claramente imenso. Esse registro não mais existe. Fora três cartas citadas por um antigo historiador da filosofia, Diógenes Laércio, junto com uma lista de quarenta máximas, quase nada de Epicuro sobreviveu.
A maioria dos livros do mundo antigo tinha a forma de rolos — como os rolos da Torá que os judeus usam em seus cultos até hoje —, mas no século iv os cristãos tinham optado quase todos por um formato diferente, o códex, do qual derivam os livros que conhecemos. O códex tem a imensa vantagem de propiciar ao leitor uma facilidade muito maior para se localizar na leitura: o texto pode ser convenientemente paginado e indexado, e as páginas podem ser viradas com rapidez até se chegar ao ponto desejado. Foi só com a invenção do computador, com suas funções superiores de busca, que pôde surgir um verdadeiro desafio ao formato magnificamente simples e flexível do códex.
Museu, com seu sonho de reunir todos os textos, todas as escolas, todas as ideias, não estava mais no centro bem protegido de uma sociedade civil. Nos anos que se seguiram, a biblioteca praticamente deixou de ser mencionada, como se suas grandes coleções, praticamente a suma da cultura clássica, tivessem desaparecido sem deixar vestígios. Elas não devem ter desaparecido de uma única vez — um ato de destruição tão gigantesco teria ficado registrado. Mas se perguntamos onde foram parar aqueles livros todos, a resposta não está apenas no trabalho veloz das chamas dos soldados e nos lentos e longos esforços invisíveis das traças. Ela está, ao menos simbolicamente, no destino de Hipátia
em Da natureza, de que a filosofia de Epicuro iria libertar toda a humanidade de sua abjeta miséria. Ou, melhor, More levava a sério a universalidade que é o sentido grego original da palavra “católico”. Não bastaria que o epicurismo iluminasse uma pequena elite num jardim murado; ele teria de se aplicar à sociedade como um todo. Utopia é um conjunto, visionário e detalhado, de instruções para sua aplicação, da construção de moradias públicas à medicina para todos, de centros de atenção às crianças à tolerância religiosa e à jornada de trabalho de seis horas. A questão central da famosa fábula de More é imaginar as condições que possibilitariam que uma sociedade inteira fizesse da busca da felicidade seu objetivo coletivo.
O problema quintessencial da religião — e a mais clara manifestação da perversidade que reside em seu núcleo — é o sacrifício de um filho pelo pai. Quase todos os credos religiosos incorporam o mito de um sacrifício desse tipo, e alguns chegam efetivamente a realizá-lo. Lucrécio tinha em mente o sacrifício de Ifigênia por seu pai Agamêmnon, mas também podia ter notícia da história judaica de Abraão e Isaac e de outras histórias similares do Oriente Próximo, pelas quais os romanos de seu tempo tinham cada vez mais interesse. Escrevendo em torno de 50 a.C., ele não podia, claro, ter antevisto o grande mito sacrificial que viria a dominar o mundo ocidental, mas não ficaria muito surpreso com ele ou com as imagens infinitamente reiteradas e expostas do filho ensanguentado e assassinado.
A maior e mais relevante obra com esse espírito crítico foi escrita pelo grande inimigo de Poggio, Lorenzo Valla. Valla ficou famoso por usar seu brilhante domínio da filologia latina para demonstrar que a “Doação de Constantino”, o documento em que o imperador romano supostamente entregava o Império Ocidental ao papa, era falsificada. Depois da publicação desse seu trabalho de detetive, Valla corria considerável perigo. Mas a tolerância da Igreja para as críticas internas se estendia, pelo menos durante um breve período do século xv, até suas margens mais distantes: o papa humanista Nicolau v acabou nomeando Valla para um posto de secretário apostólico, e assim esse espírito independente e crítico tornou-se, como Poggio, um empregado da própria cúria que havia exposto e ridicularizado de maneira tão implacável. Poggio não tinha a radicalidade e a originalidade de Valla. Um dos interlocutores em Contra os hipócritas acena brevemente com
O fato de Hipátia ter apoiado Orestes quando ele se recusou a expulsar a população judia da cidade pode ajudar a explicar o que aconteceu em seguida. Começaram a circular boatos de que seu profundo envolvimento com astronomia, matemática e filosofia — tão estranho, afinal, numa mulher — era sinistro: ela devia ser uma bruxa, praticar magia negra.25 Em março de 415, a multidão, motivada por um dos capangas de Cirilo, entrou em erupção. Na volta para casa, Hipátia foi arrancada de sua carruagem e levada a uma igreja que antes tinha sido um templo ao imperador. (O cenário não foi acidental: ele representava a transformação do paganismo na única e verdadeira fé.) Ali, depois de ter as roupas rasgadas, sua pele foi arrancada com cacos de cerâmica. A turba então arrastou seu cadáver para fora dos muros da cidade e o queimou. Seu herói, Cirilo, acabou canonizado. O assassinato de Hipátia significou mais do que o fim de uma pessoa notável; ele efetivamente marcou o declínio da vida intelectual alexandrina e foi o sinal da morte de toda a tradição intelectual
Entre aqueles para quem Lucrécio ainda era um guia crucial, antes de sua absorção se tornar completa, estava um rico fazendeiro da Virginia com uma inteligência cética inquieta e uma inclinação para a ciência. Thomas Jefferson tinha pelo menos cinco edições latinas de Da natureza, além de traduções do poema para o inglês, o italiano e o francês. Era um de seus livros favoritos, por confirmar sua convicção de que o mundo é apenas a natureza, e que a natureza consiste somente de matéria. Mais ainda, Lucrécio ajudou a dar forma à certeza de Jefferson de que a ignorância e o medo não eram componentes necessários da existência humana. Jefferson levou essa herança da Antiguidade por caminhos que Lucrécio não poderia ter previsto, mas com que Thomas More, lá no começo do século xvi, tinha sonhado. Jefferson não tinha se retirado, como urgia o poeta de Da natureza, dos violentos conflitos da vida pública. Em vez disso, ele havia dado a um documento político de importância histórica, na fundação de uma nova república, um torneio nitidamente lucreciano. Esse torneio configurava um governo cujos fins não eram apenas garantir a vida e a liberdade de seus cidadãos, mas também servir “à busca da Felicidade”. Os átomos de Lucrécio haviam deixado suas marcas na Declaração de Independência.
Era apenas Epicuro, Lucrécio escreveu, quem poderia curar a condição miserável do homem que, mortalmente entediado em casa, sai correndo para sua estância de veraneio apenas para descobrir que lá se encontra tão deprimido quanto antes. Na verdade, na opinião de Lucrécio, Epicuro, morto mais de dois séculos antes, era nada menos que o próprio salvador. Quando “a vida humana jaz contorcendo-se ignominiosamente no pó, esmagada pelo peso terrível da superstição”, Lucrécio escreveu, um homem de suprema bravura surgiu e tornou-se “o primeiro que se arriscou a confrontá-la audaciosamente”28 (1.62ss). Esse herói — um herói divergente em todos os aspectos de uma cultura romana que tradicionalmente se orgulhava de sua dureza, seu pragmatismo e sua virtude militar — era um grego que triunfou não pela força das armas, mas pelo poder do intelecto. Da natureza é a obra de um discípulo que transmite ideias desenvolvidas um século antes. Epicuro, o messias filosófico de Lucrécio, nasceu perto do fim de 342 a.C. na ilha de Samos, no mar Egeu, onde seu pai, um mestre-escola ateniense de poucos recursos, havia ido parar como colonizador.29 Muitos filósofos gregos, inclusive Platão e Aristóteles, vinham de famílias ricas e se orgulhavam de seus ancestrais distintos. Epicuro decididamente não tinha como dizer a mesma coisa.
heresia oficialmente especificada no veredicto foi “ter acreditado e sustentado a doutrina, falsa e contrária às divinas e sagradas Escrituras, de que o Sol é o centro do mundo e não se move de leste para oeste e que a Terra se move e não é o centro do mundo”. Em 1982, porém, um estudioso italiano, Pietro Redondi, descobriu um documento nos arquivos do Santo Ofício que alterou essa imagem. O documento era um memorando que detalhava as heresias encontradas em Il saggiatore. Em especial, o inquisidor encontrou marcas de atomismo. O atomismo, na explicação do inquisidor, é incompatível com o segundo cânone da décima terceira sessão do Concílio de Trento, a sessão que determinou o dogma da Eucaristia. Se você aceita a teoria do Signor Galileu Galilei, observa o documento, então vai encontrar no Santíssimo Sacramento “os objetos de tato, visão, paladar etc.” característicos do pão e do vinho, e terá também de dizer, segundo a mesma teoria, que essas características são produzidas em nossos sentidos por “partículas muito reduzidas”. E com isso concluirá “que no Sacramento deve haver partes substanciais de pão e vinho”, uma conclusão abertamente herética. Trinta e três anos depois da execução de Bruno, o atomismo continuava sendo uma crença que as forças vigilantes da ortodoxia estavam determinadas a suprimir.
Reflete também algo extraordinário a respeito do mundo mental ou espiritual em que viviam, algo registrado numa das cartas do romancista francês Gustave Flaubert: “Precisamente quando os deuses tinham deixado de existir, e o Cristo ainda não viera, houve um momento singular na história, entre Cícero e Marco Aurélio, em que só o homem existiu”. Não há dúvidas de que se pode contestar essa afirmação. Para muitos romanos, pelo menos, os deuses não tinham realmente deixado de existir — até os epicuristas, às vezes com fama de ateus, achavam que os deuses existiam, ainda que muito afastados das questões dos mortais —, e o “momento singular” a que Flaubert se refere, de Cícero (106-43 a.C.) a Marco Aurélio (121-180), pode ter sido mais longo ou mais curto do que sugerem suas referências temporais. Mas a percepção central é sustentada com eloquência pelos diálogos de Cícero e pelas obras encontradas na biblioteca de Herculano. Muitos dos primeiros leitores daquelas obras evidentemente não tinham um repertório de crenças e de práticas determinadas pelo que se dizia ser a vontade divina. Eram homens e mulheres cujas vidas eram livres dos ditames dos deuses (ou de seus sacerdotes). Estando sós, como diz Flaubert, eles se viam na posição peculiar de ter de escolher entre visões bastante divergentes da natureza das coisas e estratégias contraditórias para a vida.