Antropoceno: Notas Sobre a Vida na Terra - Guido Percu's Notes
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Antropoceno: Notas Sobre a Vida na Terra

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

Antropoceno: Notas Sobre a Vida na Terra

Kindle Highlights

o amor sobrevive à morte.

NOSSA CAPACIDADE DE NOS SURPREENDERMOS

A Distant Mirror: The Calamitous 14th Century,

Encyclopedia of the Black Death, de Joseph Byrne.

As citações de Octavia Butler são de A parábola dos talentos.

Susan Sontag escreveu que “a depressão é a melancolia sem o charme”.

Anaïs Nin: “Não vemos as coisas como elas são, as vemos como nós somos.”

Minha vida havia sido, para roubar uma expressão de Milan Kundera, insuportavelmente leve.

É claro que eles não vão ficar bem, mas vão sobreviver, e o amor que você deu a eles vai sobreviver.

a história é onde “tudo o que é inesperado em seu próprio tempo é narrado no papel como inevitável”.

Em Dubrovnik, a morte foi tão implacável que o governo ordenou que cada cidadão lavrasse um testamento.

Os relatos de testemunhas da Peste Negra foram retirados, em sua maioria, de The Black Death, de Rosemary Horrox.

“Nunca prediga o fim do mundo. Você quase certamente estará errado, e, se estiver certo, ninguém vai estar lá para lhe dar parabéns.”

“A finalidade do homem é o conhecimento, mas há algo que ele não pode saber. Ele não pode saber se o conhecimento vai salvá-lo ou matá-lo.”

a esperança é a resposta correta para o estranho e muitas vezes aterrorizante milagre da consciência. A esperança não é fácil nem comum. Ela é verdadeira.

Duas das principais instituições do Antropoceno são o estado-nação e a sociedade de responsabilidade limitada, ambas reais e poderosas — e, em algum nível, fabricadas.

A resistência aos antibióticos não é um problema do futuro — este ano, cerca de cinquenta mil pessoas nos Estados Unidos vão morrer infectadas por Staphylococcus aureus.

“Para qualquer um que esteja tentando descobrir o que fazer da vida: PRESTE ATENÇÃO AO QUE VOCÊ PRESTA ATENÇÃO. Essa é basicamente toda a informação de que você precisa.”

O livro An Introduction to Global Health Delivery, da Dra. Joia Mukherjee, explora em detalhes as muitas razões pelas quais a pobreza é o maior problema de saúde da humanidade.

Barthold Georg Niebuhr, um historiador do século XVIII, escreveu certa vez: “Tempos de peste são sempre aqueles em que prevalece o lado bestial e diabólico da natureza humana.”

“Muito provavelmente uma doença que há muito me acompanha em breve me enviará para além daquela fronteira da qual nenhum viajante retorna.” Mesmo no leito de morte, Burns sabia como construir uma frase.

Para pessoas como eu, colonizadas por bactérias com uma agressividade fascinante, não existe nostalgia dos anos dourados de outrora porque, em qualquer momento do passado, eu já estaria morto e enterrado.

da cólera vieram dos seguintes livros: The Cholera Years, de Charles Rosenberg; Cholera: The Victorian Plague, de Amanda Thomas; O mapa fantasma, de Steven Johnson; e Cholera: The Biography, de Christopher Hamlin.

Na época, como em 2020, os pobres tinham muito mais chances de morrer. Na Hamburgo do século XIX, as pessoas mais pobres tinham uma probabilidade dezenove vezes maior de morrer de cólera do que as pessoas mais ricas.

Somos a única parte do universo conhecido que sabe que está em um universo. Sabemos que estamos girando em torno de uma estrela que um dia nos engolirá. Somos a única espécie que tem consciência de que possui um tempo de vida.

Na época, como em 2020, a culpa pela disseminação da doença foi atribuída a estrangeiros e grupos marginalizados. “Através de vagabundos irlandeses de Sunderland, a cólera foi trazida duas vezes para o nosso meio”, afirma um relato inglês.

Na época, como em 2020, a oposição às medidas de saúde pública estava fora de controle. Um observador americano do século XIX escreveu que as medidas de isolamento “constrangem o comércio e a indústria do país com restrições desnecessárias”.

A palavra notícia carrega um segredo, no entanto: o que é notícia não é o que é notável ou importante, mas o que é novo. Várias das verdadeiras mudanças na vida humana não são impulsionadas por acontecimentos, mas por processos, que não costumam ser considerados novos.

Nunca mais vou falar com diversas das pessoas cujo amor me trouxe até esse momento, assim como você nunca mais vai falar com muitas das pessoas cujo amor lhe trouxe até seu momento atual. Brindamos a elas — e torcemos para que elas, em algum lugar, estejam brindando a gente.

Muitos de nós, doentes e saudáveis, fomos forçados ao isolamento. Muitos morreram separados daqueles que amam, se despedindo pelo telefone ou por chamada de vídeo. No New England Journal of Medicine, um médico escreveu sobre uma mulher que viu o marido morrer em uma sessão de FaceTime.

Ao anunciar Rich LeFevre, de 72 anos, Shea disse: “Quando somos jovens, bebemos café com leite e açúcar. Então envelhecemos e começamos a beber apenas com leite, depois puro, e aí bebemos café descafeinado, e, por fim, morremos. O nosso próximo participante está na fase do descafeinado.”

Maravilhando-me com a perfeição daquela folha, fui lembrado de que a beleza estética depende tanto de como e se você olha quanto do que vê. Do quark à supernova, as surpresas não acabam. O que está em falta é a nossa atenção, nossa habilidade e disposição para fazer o trabalho que a admiração requer.

Ao ler sobre a cólera no século XIX, por exemplo, encontramos inúmeros precedentes. Em meio ao pânico causado pela doença, a desinformação foi generalizada: distúrbios devido à cólera irromperam em Liverpool, com rumores de que pacientes hospitalizados estavam sendo mortos para que os médicos tivessem cadáveres para dissecar.

Quando você segura um microfone, aquilo que diz faz diferença, mesmo quando está só brincando. É tão fácil se esconder atrás do “só” de só brincando. É só uma piada. Só estamos fazendo isso pelos memes. Mas o ridículo e o absurdo conseguem moldar como entendemos nós mesmos e os outros. E a crueldade ridícula ainda é crueldade.

Para mim, há algum conforto em saber que a vida vai continuar mesmo sem a gente. Mas eu diria que, quando nossa luz se apagar, será a maior tragédia da Terra. Embora eu saiba que os seres humanos têm um exagerado sentimento de autoimportância, também acho que somos, de longe, a coisa mais interessante que já aconteceu no planeta.

Na parte final de seu diário sobre a peste, Clyn escreveu: “Para que a escrita não pereça com o escritor, ou a obra não falhe com o operário, deixo pergaminhos [extras] para que continuem o trabalho, caso alguém ainda esteja vivo no futuro.” Abaixo desse parágrafo, um breve adendo em caligrafia diferente: “Aqui, ao que parece, o autor morreu.”

Os vírus são apenas cadeias de RNA ou DNA vagando por aí. Eles não podem se replicar a menos que encontrem uma célula para invadir. Portanto, não são seres vivos, mas tampouco são seres não vivos. Quando um vírus toma conta de uma célula, ele faz o que a vida faz: usa a energia para se reproduzir. Os vírus me lembram que a vida é mais um contínuo do que uma dicotomia.

Em 1340, a cidade natal de al-Maqrizi, o Cairo, era a maior do mundo fora da China, com uma população de cerca de seiscentos mil habitantes. No entanto, a partir do verão de 1348, pelo menos um terço dos residentes do Cairo morreu em um período de oito meses. O famoso viajante Ibn Battuta relatou que, no auge da peste na cidade de Damasco, 2.400 pessoas morriam por dia.

O escritor americano Mark Twain, por exemplo, nasceu quando o cometa resplandecia acima do céu de Missouri. Setenta e quatro anos depois, ele escreveu: “Vim para cá com o cometa Halley em 1835. Ele vai voltar no ano que vem, e espero partir com ele.” E, de fato, morreu em 1910, quando o Halley reapareceu. Twain tinha um talento e tanto para estrutura narrativa, sobretudo no tocante a biografia.

O papa Clemente VI observou: “Não pode ser verdade que os judeus (…) sejam a causa ou razão da peste, pois, em muitas partes do mundo, a mesma peste (…) aflige os próprios judeus e muitas outras raças que nunca viveram com eles.” Ainda assim, em muitas comunidades, a tortura e os assassinatos continuaram a acontecer, e as ideias antissemitas sobre conspirações internacionais secretas se propagaram.

“A mudança”, escreveu Octavia Butler, “é a única inevitável, irresistível, contínua realidade do universo”. E quem sou eu para dizer que não iremos mais mudar? Quem sou eu para dizer que Butler estava errada quando escreveu que “O destino da Semente da Terra é criar raízes entre as estrelas”?IV Hoje em dia, escolho acreditar que nossa persistência e nossa capacidade de adaptação vão nos permitir continuar mudando com o universo por muito, muito tempo.

quando lhe pediram para calcular a área de terra em cada condado inglês, Halley “pegou um grande mapa da Inglaterra e cortou o maior círculo completo que podia no mapa”. O diâmetro daquele círculo equivalia a 111,57 quilômetros. Ele então pesou o círculo e o mapa completo, concluindo que, como o mapa era quatro vezes mais pesado que o círculo, a área da Inglaterra era quatro vezes a da área do círculo. Seu resultado apresenta uma diferença de 1% dos cálculos atuais.

Para mim, um dos mistérios da vida é por que ela quer existir. A vida envolve muito mais trabalho bioquímico do que equilíbrio químico, mas, apesar disso, os estafilococos buscam desesperadamente ter esse trabalho. Pensando bem, eu faço a mesma coisa. O estafilococo não quer prejudicar as pessoas. Ele nem sabe que elas existem. Só quer ser, como eu quero continuar sendo, como aquela hera quer se espalhar pela parede, ocupando cada vez mais espaço. Quanto? Tanto quanto puder.

Em “Sobre estar doente”, Virginia Woolf escreve que “torna-se realmente estranho que a doença não tenha encontrado o seu lugar, juntamente com o amor e a batalha e a inveja, entre os grandes temas da literatura. Romances, pensaríamos, teriam sido devotados à gripe; epopeias, à febre tifoide; odes, à pneumonia; poemas, à dor de dente. Mas não.”XVIII Ela prossegue: “Entre as desvantagens da doença como tema de literatura, está a pobreza da língua. O inglês, capaz de expressar os pensamentos de Hamlet e a tragédia de Lear, não tem palavras para o calafrio e a dor de cabeça.”

Desconfio muito das tentativas de ver o lado bom do sofrimento humano, sobretudo o sofrimento que — como no caso de quase todas as doenças infecciosas — é distribuído injustamente. Não estou aqui para criticar a esperança de outras pessoas, mas, pessoalmente, sempre que ouço alguém fazer poesia sobre os males que vêm para o bem, penso em um poema maravilhoso de Clint Smith, chamado “When people say ‘we have made it through worse before’”, ou “Quando as pessoas dizem ‘já passamos por coisas piores’”. O poema começa assim: “tudo o que ouço é o vento batendo contra as lápides / daqueles que não sobreviveram.”

Em 1902, o jovem engenheiro Willis Carrier foi chamado para resolver um problema em Buffalo, em Nova York: uma gráfica precisava imprimir uma revista, mas as páginas estavam se deformando devido à umidade do verão. Carrier criou um aparelho que basicamente invertia o processo de aquecimento elétrico, fazendo o ar passar por bobinas frias em vez de quentes. Isso reduzia a umidade, mas também tinha o útil efeito colateral de diminuir a temperatura ambiente. Carrier fez mais pesquisas sobre o que chamou de “tratamento de ar”, e a empresa que ele cofundou, a Carrier Corporation, continua sendo uma das maiores fabricantes de ar-condicionados do mundo.

Os Estados Unidos, assim como a Walt Disney Company, não são reais como um rio é real. Ambos são ideias nas quais acreditamos. Sim, o país tem leis, tratados, uma constituição etc., mas nada disso impede que um país se divida ou desapareça. Da arquitetura neoclássica, que tenta dar aos Estados Unidos uma sensação de permanência,16 aos rostos nas notas de dólar, a nação precisa continuamente convencer seus cidadãos de que é real, boa e digna de lealdade. O que não é tão diferente do que a Walt Disney Company tenta fazer quando reverencia seu fundador e apresenta sua rica história. Tanto a nação quanto a empresa só podem existir se ao menos algumas pessoas acreditarem nelas. E, nesse sentido, elas realmente são reinos mágicos.

Nesse ponto, ao menos na minha experiência, a vida real é exatamente o oposto de Mario Kart. Na vida real, quando você está à frente, recebe inúmeros itens mágicos para chegar ainda mais longe. Depois que um dos meus livros virou um best-seller, por exemplo, meu banco me ligou para informar que não me cobraria mais taxas pelo uso do caixa eletrônico, mesmo que eu usasse um caixa de outro banco. Por quê? Porque as pessoas com dinheiro no banco recebem todo tipo de vantagem apenas por terem dinheiro no banco. Ainda há itens mágicos muito mais poderosos, como o de se formar na faculdade sem dívidas, ou o de ser branco, ou o de ser homem. Isso não significa que as pessoas com bons itens terão sucesso, é claro, ou que aquelas que não os recebem não terão. No entanto, rejeito o argumento de que essas vantagens estruturais são irrelevantes. O fato de nossos sistemas político, social e econômico favorecerem os que já são ricos e poderosos é o maior fracasso do ideal democrático americano. Eu

“Auld Lang Syne” era uma canção popular durante a Primeira Guerra Mundial. Versões dela foram cantadas em trincheiras não apenas por soldados britânicos, mas por franceses e também por alemães e austríacos, e a música teve um pequeno papel em um dos momentos mais estranhos e belos da história mundial, a Trégua de Natal de 1914. Na véspera de Natal daquele ano, em parte do fronte ocidental da guerra na Bélgica, cerca de cem mil tropas britânicas e alemãs saíram de suas trincheiras e se encontraram na assim chamada terra de ninguém entre as linhas de frente. Henry Williamson, de dezenove anos, escreveu para a mãe: “Ontem, os britânicos e os alemães se encontraram e se deram as mãos no território entre as trincheiras e trocaram presentes […] Esplêndido, não acha?” Um soldado alemão lembrou que um soldado britânico “pegou uma bola de futebol da trincheira deles, e logo começaram um jogo animado. Que coisa espantosamente maravilhosa, e ainda assim tão estranha, aquilo foi.” Em outro lugar do fronte, o capitão Sir Edward Hulse relembrou de um coro de canções de Natal que “acabou com ‘Auld Lang Syne’, que todos nós, ingleses, escoceses, irlandeses, prussianos, de Wüttenberg etc. cantamos. Foi absolutamente incrível, e, se eu tivesse visto isso em uma película cinematográfica, teria jurado que era uma mentira”.

Staphylococcus aureus continuou sendo uma infecção extremamente perigosa até que outro cientista escocês, Alexander Fleming, descobriu, por acidente, a penicilina. Certa manhã de segunda-feira, em 1928, Fleming percebeu que uma de suas culturas de Staphylococcus aureus tinha sido contaminada por um fungo, o penicílio, que parecia ter matado todas as bactérias estafilococos. Ele comentou em voz alta: “Que curioso.” Fleming usou o que chamou de “suco de mofo” para tratar alguns pacientes, curando inclusive a sinusite de seu assistente, mas percebeu que seria muito difícil produzir em massa a substância antibiótica secretada pelo penicílio. Foi apenas no fim da década de 1930 que um grupo de cientistas em Oxford começou a testar seus estoques de penicilina, primeiro em ratos e, em 1941, em um ser humano, um policial chamado Albert Alexander. Após ser ferido por estilhaços durante um bombardeio alemão, Alexander estava prestes a morrer de infecções bacterianas — em seu caso, Staphylococcus aureus e Streptococcus. A penicilina causou uma melhora expressiva no quadro do policial, mas os pesquisadores não tinham uma quantidade suficiente da droga para salvá-lo. As infecções voltaram, e Alexander morreu em abril de 1941. Sua filha, Sheila, de sete anos, foi para um orfanato. Os cientistas procuraram cepas mais produtivas do fungo e, por fim, a bacteriologista Mary Hunt encontrou uma no melão de uma mercearia em Peoria, no estado de Illinois. Essa cepa se tornou ainda mais produtiva após ser exposta a raios X e radiação ultravioleta. Essencialmente, todas as penicilinas do mundo descendem do mofo daquele melão em Peoria.