A inovação destruidora
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de visu
“Tu ne peux pas avoir le beurre, l’argent du beurre et le sourire du laitier”
O que chamo aqui, por comodismo, de “discurso patronal” tem em geral um alcance preciso, e até mesmo muito preciso. Estou, porém, convencido de que é preciso ir mais longe,
O sábio é exatamente o contrário. Ele é aquele que, tendo, como Ulisses, vencido seus medos, encontra-se em situação de pensar e de amar livremente, capaz de inteligência e de abertura para os outros.
Sem ser imoral, o capitalismo, pelo menos no estado quimicamente puro e não se levando em conta os corretivos que o Estado assistencial contém, é perfeitamente amoral, pois intrinsecamente desprovido de sentido.
quanto mais rica for sua vida interior, quanto mais você for estruturado pelos valores não apenas morais, mas culturais e espirituais estáveis e fortes, menos você experimenta a necessidade de consumir a toda hora.
Como insiste meu amigo Nicolas Bouzou em seu excelente livro On entend l’arbre tomber mais pas la forêt pousser [Ouve-se a árvore cair, mas não a floresta crescer], do qual retiro grande parte das análises que se seguem.
eu considero, sob certos aspectos, a civilização europeia superior a todas as outras, não por eurocentrismo, mas porque ela é a única, como já dizia Kant em 1784, em O que é o Iluminismo?, que permitiu aos cidadãos saírem da infância e alcançar a idade adulta.
No século XIX, mesmo as mais audaciosas utopias não chegam — em matéria de liberdade dos costumes e de justiça social — aos pés do que as democracias europeias — apesar de todos os seus defeitos e crises que se quiser evocar — nos oferecem na realidade e que começam a nos cansar tanto.
Vimos desaparecerem pouco a pouco todos os fundamentos da cultura “clássica”, aquela que se ensinava na escola: a figuração na pintura, a tonalidade na música, as regras tradicionais do romance, do teatro, da dança, e até mesmo do cinema, sem falar do projeto de 1968 de acabar com as diferentes faces da “moral burguesa”, fossem elas religiosas ou laicas.
É por isso que Schumpeter, desde o final dos anos 1920, estava convencido de que o capitalismo acabaria por se autodestruir, e de modo algum pelas razões que Marx tinha anunciado — de modo geral, uma luta de classes exasperada pela pauperização das massas —, mas, ao contrário, porque seu sucesso econômico e social seria insuportável para a casta dos intelectuais cuja missão não encontraria limite algum.
Ao contrário do discurso absurdo do anticapitalismo de botequim, não foi a economia liberal que mergulhou as massas na miséria, mas foi ela que as tirou de lá, e isso porque certamente foi a única infraestrutura econômica que, se não engendrou, pelo menos adotou necessariamente uma vida política que autorizava movimentos sociais e permitia a crítica sindical ou política, inclusive a mais radical, de seus próprios fundamentos.
De fato, tive com frequência a oportunidade de dizer e de escrever, é verdade que nosso continente parece tetanizado pela angústia, temos medo de tudo: do sexo, do álcool, do fumo, da rapidez, dos OGM [organismos geneticamente modificados], do buraco na camada de ozônio, das nanotecnologias, das micro-ondas, da Turquia, da globalização, do aquecimento global, das antenas de celulares, de meu amigo Claude Allègre, que motivou uma petição de pesquisadores ecologistas, assustados com seu tom livre, e de mil coisas ainda mais abomináveis.
Inicialmente, como diz Schumpeter sobre uma fórmula que aparece mais de uma vez em sua escrita, a lógica da “destruição criadora” leva, por natureza, a destronar “os reis e os papas”, em outras palavras, a desconstruir pela raiz as tradições aristocráticas e religiosas — o que explica de resto a hostilidade secular da Igreja contra o capitalismo tanto, ou mais, que contra o socialismo. O discurso do papa Francisco contra os ricos, o mundo do dinheiro e da finança o comprova, ainda em nossos dias; mas para quem quiser ir mais longe, basta ler as passagens que o Catecismo oficial do Vaticano dedica às sociedades capitalistas para se convencer disso.
Se o artista contemporâneo se declara anarquista e nem por isso deixa de sonhar viver como um milionário, seu mecenas ou seu comprador, contudo, se enraíza na elite do mundo liberal. Um empreendedor, mesmo que “preocupado com o social”, não deixa de ser um capitalista que se sente lisonjeado de ser acariciado no ponto certo pelos artistas inovadores e subversivos. Estes finalmente lhe dão a sensação elogiosa de não ser um materialista inculto, ávido por lucro, mas um homem inteligente, um amigo das artes e das letras. Finalmente, não lhe desagrada que eles critiquem com palavras seu capitalismo triunfante, desde que esposem nos atos sua lógica mais essencial, a da inovação destruidora. Aí reside a fonte de seus mais deliciosos arrepios.
Mostrarei adiante — porém com mais profundidade — como os movimentos boêmios, inclusive Maio de 1968, conquanto quisessem ser inicialmente e antes de tudo “antiburgueses”, realizaram na verdade — sem saber, ou querer — os desígnios mais profundos do capitalismo moderno, abrindo a via ao mundo do hedonismo e do hiperconsumo. Contudo, podemos compreender desde já, sem sermos exageradamente “economicistas”, marxistas ou schumpeterianos, que todas essas revoluções na cultura e também nos costumes são — se não o reflexo do capitalismo (sua “superestrutura”, diria Marx) — pelo menos o reflexo de tendências pesadas que são rigorosamente inseparáveis da lógica da inovação destruidora — por isso elas só se manifestaram em democracias liberais, e em nenhum outro lugar.
Como eu já havia sugerido — agora deixando mais compreensível —, o capitalismo produz como seu duplo político o único regime, o da democracia liberal, que autoriza sua própria denúncia, sob todas as formas possíveis e imagináveis, desde as contrarrevolucionárias mais reacionárias até as mais radicais anticapitalistas de esquerda. É assim que ainda se encontram na França intelectuais monarquistas, lado a lado com seus colegas maoistas, sem que os poderes públicos tenham algo a criticar. Nenhum partido político é censurado, salvo se incitar o ódio racial — e, mesmo assim, não em todos os países capitalistas, dos quais alguns, como os Estados Unidos, autorizam a publicação de todas as opiniões, inclusive as mais detestáveis, em nome da liberdade de expressão reconhecida pela primeira emenda.
E isso significaria que vivemos a era do vazio, do desencanto do mundo, da melancolia democrática, da derrota do pensamento e da deserção cívica? Não creio. Nisso reside exatamente a ilusão arquetípica dessa consciência infeliz que ama tanto não amar. O que vivemos não é absolutamente o eclipse do sagrado, o fim dos valores, mas sua encarnação numa nova face, a da humanidade. Foi o que chamei de “segundo humanismo”, baseado na divinização do humano, ou a “transcendência na imanência” na própria humanidade. Em meus livros anteriores, mostrei como ele se ligava historicamente à “revolução do amor”, ou seja, à transição, na velha Europa, do casamento arranjado pelos pais e pelas aldeias ao casamento escolhido pelos indivíduos, por amor e para o desabrochamento do amor no seio da família moderna. Não retomarei a questão. Façam
Na verdade, para que serve o Estado? Não apenas para conduzir uma política em princípio orientada para o interesse geral, mas também, e talvez mesmo antes de tudo, para oferecer um lugar em que o corpo social faça uma representação de seu futuro e, por assim dizer, se conscientize de si mesmo. Ele é para a nação um pouco como o equivalente do cérebro para o corpo humano, o espaço da consciência de si. Quando ele deixa de ser crível, quando não é nem amado, nem mesmo detestado, mas desprezado, olhado como insípido, incolor e inodoro, então é a tentação da desobediência civil que se instaura: manifestantes que quebram sem pudor os bens públicos, cidadãos que fogem do imposto, prefeitos que não querem mais aplicar a lei, como se as decisões do poder legislativo pudessem a partir de agora ser escolhidas à la carte; em resumo, é a república, a res publica, que se abre aos maus ventos.
Imaginem se eu dissesse a Hugo, quando ele escrevia Os miseráveis no início dos anos 1860, que, no século seguinte, o ensino e a medicina seriam gratuitos, acessíveis até mesmo aos mais pobres e aos estrangeiros; que os operários seriam beneficiados com aposentadorias e férias remuneradas; que a liberdade de opinião seria garantida e que ninguém corria mais o risco de ser exilado em Guernesey ou em outra parte por ter criticado o governo; que não se trabalharia setenta ou oitenta horas por semana em fábricas insalubres, mas 35 em lugares adequados; que máquinas voadoras permitiriam a todos descobrir o vasto mundo em tempo recorde; que uma estranha janela aberta todas as noites em milhões de lares ofereceria a quem o desejasse meios de se informar, assistir, ou mesmo participar de debates contraditórios; de ouvir sobre livros ou teatro diretamente por aqueles que os produzem: ele, sem dúvida, teria dado uma gargalhada!
De fato, o impulso fundamental que mantém em movimento a máquina capitalista é impresso pelos novos objetos de consumo, pelos novos métodos de produção e de transporte, pelos novos mercados, pelos novos tipos de organização industrial — todos eles elementos criados pela iniciativa capitalista […]. A abertura de novos mercados nacionais ou externos e o desenvolvimento das organizações produtivas, desde o ateliê de artesanatos e a manufatura até as empresas amalgamadas, tais como a U. S. Steel, constituem exemplos do mesmo processo de mutação industrial — se me permitem essa expressão biológica — que revoluciona incessantemente, de dentro, a estrutura econômica, destruindo continuamente seus elementos envelhecidos e criando do mesmo modo elementos novos. Esse processo de “destruição criadora” constitui o dado fundamental do capitalismo: é nele que consiste, em última análise, o capitalismo, e todo empreendimento capitalista deve, quer queira, quer não, adaptar-se a ele.