A felicidade é inútil
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Só o inútil tira a vida da banalidade.
Torna-te menos frágil e sofrerás menos. As
Sem Norte para nortear. E sem Oriente para orientar.
“Atura-se com muita tranquilidade a dor no fígado alheio”.
Como propõe o russo Tchecov em seu último conto, “A noiva”.
Sendo vida, o buraco é mais embaixo. Haverá dor e sofrimento.
Pobres palavras. Tão poucas para dar conta da infinita complexidade do mundo.
Felicidade, deves ser bem infeliz Andas sempre tão sozinha Nunca perto de ninguém
Como as forças da natureza. O terremoto de Lisboa inspirou muitos dos grandes pensadores modernos.
Por isso, toda tentativa de definir felicidade fundada na anulação absoluta de sofrimento é absurda.
Quanto ao autor, bem, esse só escreveu. Ou melhor, falou gravando no celular. Porque não enxerga. E não digita.
Porque se afirmasse não conhecer “nada” sobre “tudo”, estaria a caminho da sabedoria. Hipótese mais do que descabida.
Quanto a sua injusta condenação, não hesitava em sentenciar: mais vale ser vítima de uma injustiça do que praticá-la.
Para donos de livraria, a felicidade deveria ter mais a ver com alargamento de repertório, agilização da mente, sofisticação da alma.
Então, aí vai. Ame. Ame o mundo. Tanto quanto puder. No limite que conseguir. Eis o que estava faltando. Só o amor é positivo. Assim, em vez
toda reclamação advém de um desalinhamento entre um flagrante de ocorrência no mundo fora de nós e alguma expectativa a respeito desse mesmo mundo em nós.
Perceba que, nessa perfeição absoluta, Deus não teria ido além dele mesmo. O mundo não passaria de sua extensão. Um puxadinho divino. Tudo seria mais do mesmo.
Haja sabedoria! É certo que aceitar a própria finitude, o fim da vida em qualquer tempo e lugar, é condição de uma existência mais tranquila. Afinal, morreremos mesmo.
O valor do aprender, medido pela alegria do repertório alargado, em diálogo com o desconhecido, desdenha de toda empregabilidade. Conhecimento que dispensa toda aplicação vindoura.
A beleza do que está sendo ensinado se esgota ali. A delícia de ler os clássicos gregos confere todo o valor daquela leitura. Com desdém para a sua incidência nas avaliações futuras.
Por essa representação pendular da vida, você pode escolher entre se dar mal lambendo a vitrine do que não pode comprar ou no entulho asfixiante de tudo que já comprou na vida e não deseja mais.
Não será absolutamente igual. Nunca. Mas assim é a vida. Inédita. Irrepetível. Virginal a cada instante. Por isso mesmo, uma improbabilidade sagrad <Você alcançou o limite de recortes para este item>
Mas, aqui, estamos aprendendo o que pensam pessoas tão incríveis como Marco Aurélio, filósofo imperador estoico, ou Comte-Sponville, professor e autor de quem sou fã, há muito tempo. Vale a pena deixá-los falar.
Você não deseja mais porque ele é seu. Não há como desejar o que se tem. Desde o Banquete de Platão sabemos disso. A fala de Sócrates no tal jantar é conhecida. O desejo é na falta. Só pelo que falta. Pelo que faz falta.
Lembro-me de uma frase que me desafiou. Acho que foi pelo tom de obviedade que o porta-voz imprimiu. – Os circuitos de consagração social serão tanto mais eficazes quanto maior for a distância social do objeto consagrado.
Felicidade, vamos fazer um trato Mande ao menos teu retrato Pra que eu veja como és Esteja bem certa, porém Que o destino bem cedo fará Com que teu rosto eu Eu vá esquecer Felicidade, não chore Que às vezes é bom A gente sofrer
Um pensador me encanta. Entre muitos outros, é claro. Não que conheça bem suas ideias. Tampouco quaisquer outras. Já vivi o suficiente para ter a singular certeza de não conhecer bem coisa alguma. De não saber quase nada sobre quase tudo.
A felicidade não é para nada. Porque nada importa além dela. Porque ela, por ela, não leva a nada. Nem pretende. Porque não é caminho para nenhuma outra coisa. Não é meio. Nem instrumento. É o fim da linha. Tudo que queríamos. Desde o começo.
Assim é com o sucesso nas provas, a vitória nos processos seletivos, o triunfo nos concursos. Toda civilização tem um cardápio bem estruturado de etapas que, se cumpridas com êxito, acabam por proporcionar um verdadeiro programa de vida feliz.
Por isso lamentar menos e esperar menos. Mas até aqui, só negações. Pura negatividade. A sabedoria de não fazer isso ou aquilo pode ajudar. Mas não basta. Fica faltando o positivo. A vida substantiva. A existência afirmativa. O que fazer no lugar.
Na afirmação de Aristóteles, os deuses também ficaram de fora. Não são homens nem mulheres. Vivem na eternidade. Num presente que não vira passado. Por isso não morrem. Nunca. Então também não dão risada. Só ri quem morre. Quem vai morrer. E sabe disso.
Não é outro o convite dos estoicos, atualizado, no pensamento contemporâneo, com elegância por Comte-Sponville: um pouco menos de lamentação, um pouco menos de esperança e um pouco mais de amor pelas coisas como elas são. Pelo jeito em que já se encontram.
No preciso instante em que alguém abre mão da vida, isto é, de continuar vivendo, em nome de uma ideia de coletivo justo, a ética vem à luz. Sócrates, recusando-se à fuga, decide pela morte. Cena apresentada na genialidade do pintor Jacques-Louis David em 1787.
Como assim, fugir? Evadir-se? Critão não entendera nada de seus ensinamentos. Sócrates jamais agiria contra as leis da cidade. Leis que traduzem uma ideia de justiça. Que decorrem – ou deveriam decorrer – de uma ordem maior, do todo. Que integram todo o universo.
Assim, em certa situação, alguém fez acontecer do seu jeito. De peito estufado. I did it my way. Tradução para o inglês do original francês Comme d’habitude. Não sei se é tão habitual assim alguém controlar as variáveis da vida e definir a parada por conta própria.
Assim, a ética, mais pra frente, acabou se tornando uma medida da vida feliz. Tanto quanto a felicidade, podemos nós concluir, tornou-se uma medida da vida ética. Contam nossas escolhas, nossas decisões. O que fazemos da vida, em suma. Pensando e vivendo de acordo.
Por isso, talvez, felicidade tenha virado uma obrigação. Como avalia Karnal, com a elegância de sempre: tão obrigatório que ninguém nem pensa mais em ser feliz de verdade. Mas apenas em aparentar. Satisfação que devemos ao mundo para que finalmente nos deixe em paz.
Assim, lamentar um pouco menos aqui se traduz em não se queixar do outro. De ninguém. Nunca, de preferência. Isto é, jamais conceber que devesse ter agido de maneira distinta. Não se indignar em momento algum. Mesmo ante iniciativa muito diferente daquela que esperávamos.
Viva de tal maneira a desejar a eternidade daquele instante. A não querer sair dali. A nunca estar com a mochila pronta. A jamais ficar olhando no relógio. Viva a lamentar o término. A não se conformar com o fim. Porque quando a vida é boa, é assim mesmo. Não queremos que acabe. Nunca.
Na comparação entre a vida afetiva e uma harpa, diria que as cordas correspondentes à tristeza são as mais longas. Mais graves. Vibram por muito mais tempo. Seguem longe após o dedilhar. Já as cordas da alegria são as curtinhas. Agudas e preguiçosas. Retomam o repouso o mais rápido que podem.
Toda execução de um projeto exigirá um novo agenciamento de matéria. Que enfrentará a resistência do que ora já é. Do disposto até então. Por vezes renhida. Como perguntava o nosso Mané Garrincha depois das estritas instruções do técnico: – Mas vocês já falaram com os russos sobre isso? Eles tão sabendo?
Fiquei sem resposta por muito tempo. Até ler Simone Weil. Explicando antiga tradição judaica. Se Deus ficasse em cima, de butuca, como se diz, controlando a perfeição do mundo, tudo seria mesmo perfeito. Mas, nesse caso, nós não seríamos como somos. E se não fôssemos como somos, nós simplesmente não seríamos.
Os sábios parecem sugerir que deixemos de lado nossas expectativas, na medida do possível. Que paremos de tentar supor como seria o mundo se ele fosse bom. Se esvaziássemos a mente de todos esses mundos imaginados, talvez estivéssemos mais livres para encarar a realidade de maneira plena, de corpo e alma. Glutões
Porque é da natureza da felicidade apresentar-se como inapreensível. Impossível de ter, reter, deter. Quando supomos agarrá-la, é porque já nos escapou. Quando tentamos detê-la, é porque já se evadiu. Damos de ombros a distância, resignados, quando estávamos certos da sua presença. E, quando menos esperada, eis que reaparece de supetão.
FELICIDADE TEM A VER COM SABEDORIA. Pensar a vida e viver o pensamento. Título que justifica a escolha da prefaciadora. Para mim, a Monja Cohen, dentre todas as pessoas que já encontrei pelo mundo, é a que melhor pensa a vida. E também a que mais consegue viver de acordo com o que pensa. Portanto, a monja é a pessoa mais sábia que já conheci. Para
Podemos inferir daí que quando um sábio escolhe a morte é porque sinaliza que existe algo na vida de valor superior a continuar vivo. Uma vida que supera a sobrevida. E que a dispensa, por assim dizer. O relato desse episódio deixa claro que a busca e preservação de uma ordem justa é superior a qualquer outro valor ou princípio. Até mesmo o da preservação da vida de um homem justo. –
Sob a massa aparente, crítica severa à loucura econômica e ao niilismo cultural de uma sociedade americana embriagada no pós-guerra, uma terrível constatação: não há de fato para onde correr. Nem todos os dólares do mundo garantiram felicidade ao pobre Gatsby. Salvo da pobreza, mas escravizado pelas contingências. Obrigado a viver longe da mulher que amava, enquanto construía para ela um castelo inabitado.
No entanto, ao longo das páginas, aqui e acolá, pode haver algum prazer. Uma satisfação. Decorrente da graça de uma ideia, da pertinência de algum exemplo. Mas que morre com a própria leitura. Nesse caso, o espírito do leitor sorri. Com o livro aberto entre as mãos. E se for generoso o bastante, seus lábios o acompanharão. Comunicando ao mundo o bom momento. Mas acaba aí. Nenhuma aplicação posterior é sugerida. Em
O dinheiro, na flutuação dos câmbios e das bolsas, denuncia o fracasso. Esfrega a cara na pobreza. Ou, para não cairmos de todos os pedestais, nos submete a uma queda significativa de padrão de vida. O prestígio, ante a mais simplória investida difamatória, nos arremessa na desconfiança e na decepção. O talento vem sempre acompanhado da inveja do desprovido. E a erudição nos condena ao vômito ante a tosqueira reinante no mundo.
Agostinho, contagiado pela esperança e, portanto, feliz ao seu modo, garante lindamente sobre o leito da mãe. – Ela morrerá e, logo, eu também. Nada mais pode nos separar. E o sábio africano continua: – Nossa conversa chegou à conclusão de que o prazer dos sentidos do corpo, por maior que seja, e por mais brilhante que seja essa luz temporal, não é digno de ser comparado à felicidade daquela vida, nem mesmo é digno de ser mencionado.
Para que eu, Clóvis, o editor Marcial, que nos lê em cópia, e você, leitor, pudéssemos, nós três, ter a chance de ser quem somos, isto é, imperfeitos, foi preciso que Deus, perfeito, autorizasse nossa imperfeição. Deixasse rolar. Aceitasse tudo que nos separa dele. – E por que faria isso? Por amor, uai! Uma forma de amor. Que se manifesta no recuo. Na retirada. Na ausência. No vazio. Como as pegadas na areia da praia. De quem já passou por ali. Mas se foi. E sozinho.
Dessa maneira, a ideia de que a felicidade dependeria de um mundo justo, bom, generoso, afetuoso, abundante – diferente do que é – dá lugar a um entendimento de vida feliz, estritamente determinado por uma educação espiritual. Em outras palavras, o caminho da felicidade deixa de ser uma ação transformadora do mundo e passa a ser uma intervenção sobre si mesmo. Aqui o superpop Descartes se junta ao time. Para ele, muito mais viável do que mudar o mundo inteiro é mudar-se a si mesmo.
Isso de vincular a felicidade ao sucesso me faz lembrar do oftalmo que me operou. Dez dias após a cirurgia, eu tinha perdido toda a visão do olho operado. Só então o jurado em Hipócrates, aprofundando seus estudos, descobriu que o silicone usado na minha cirurgia poderia necrosar a retina descolada. Em casos raros, claro. A despeito da cegueira irreparável, garantiu, com uma ponta indisfarçável de orgulho: – Olha, apesar da sua falta de visão, o trabalho foi bem feito. A retina está coladinha. Impecável.
Benjamin Button e seu curioso caso poderia aqui servir de holofote. Na inversão da seta do tempo, operada por Fitzgerald, nasce velho e morre bebê. Arranca do fim, com um eu bem definido. E, com o passar do tempo, vai identificando de onde ele veio. Em todas as nuances da sua construção. Na contramão de tudo, caminha do consistente ao resvaladiço. Do consolidado ao incipiente. Dia a dia vai perdendo atributos. Rareando em história. Encurtando trajetória. Perdendo experiência. Minguando em identidade. Até o quase zero. Do começo e fim da vida.
O importante aqui é Maria. Sua mãe. Rainha. E louca. A ponto de precisar se fazer acompanhar o tempo todo. Por damas. Encarregadas de impedir que, com suas loucuras, fizesse estragos. Assim, os lisboetas sempre a viam, em todas as suas aparições, acompanhada de outras mulheres. E diziam: – Lá vai Maria, com as outras. E a expressão ficou. Você conhece. Maria vai com as outras. Nos dias de hoje, “Maria vai com as outras” refere-se a alguém com personalidade fraca. Que abre mão de suas prioridades, desejos, interesses e gostos. Que não se posiciona. Que prefere aderir às preferências alheias a qualquer tipo de conflito. Que se habitua a delegar decisões.
Propõe que felicidade é prazer. Não haverá nunca uma sem o outro. São coincidentes, em suma. Pensando ao contrário, inconcebível qualquer felicidade na dor. Tanto quanto algum prazer francamente infeliz. Não custa lembrar que há, na história do pensamento, gente importante a acompanhá-lo. Como o jurista e filósofo inglês Jeremy Bentham, por exemplo. Epicuro é outro que não teria dito diferente. Muito antes de Bentham, e com maior consistência argumentativa. Stewart Mill, também inglês, um pouco depois do primeiro, reforça muito esse time. E assim, para o entrevistado e gente famosa, havendo prazer, haverá felicidade. Você pede ao interlocutor que explique melhor.
Professor. O senhor vai repetir essa aula em alguma sala hoje à noite? – Vou. Nesta mesma sala. – Se incomoda se eu vier assistir de novo? – Não. De jeito nenhum. Eis que levanta a mão novamente. Para outra pergunta. Talvez agora a verdadeira dúvida inicial. – Professor, o senhor permitiria que eu trouxesse a minha mãe? – Não entendi. Como assim? – Ah, professor. Toda vez que termina sua aula, almoço com ela. Conto o que aprendi. Tento até imitar o senhor. Mas fica ruim. Gostaria que ela mesma visse. Tenho certeza de que, se assistisse a uma aula, não perderia nenhuma outra. – Uma curiosidade. Por que exatamente a mãe? E sem medo de chacota ou bullying, o aluno menino, perante os colegas, esclarece sem receio. – Minha mãe é a pessoa que mais amo desde que nasci. Tudo que vejo e ouço de interessante, gostaria que ela estivesse junto. É o caso da sua aula.
And so what?!?! A obra de Shakespeare nos ajuda. Faz-nos mergulhar na difícil viagem do autoconhecimento, por intermédio de suas personagens. Escancarando a fragilidade do homem em face do mundo que lhe toca enfrentar. Sem mediação dos deuses. Na chave de peças como Hamlet e Otelo, homens empedernidos por decisões equivocadas refletem sobre suas vidas obscurecidas. De um passado desastroso. Em Hamlet, um príncipe deseja restabelecer a ordem quebrada pela morte suspeita de seu pai. Já Otelo assassina a mulher que ele acredita o haver traído. O primeiro, obcecado por vingança. O segundo, vítima de calúnias. A Otelo, diante da constatação de seu equívoco, resta o suicídio. Hamlet, um melancólico, reflete. No famoso monólogo “Ser ou não ser”. Encenado em centenas de montagens teatrais e cinematográficas a partir do século XVI. E no fim, quando a trama é esclarecida, triunfa a verdade. E Shakespeare se pergunta com a boca amarga: “So what?”. O nosso famoso “E daí?”. A ordem fora restabelecida. Mas e daí? Será mesmo que era isso o que mais importava? Sobra a indagação sobre o que realmente estava em jogo. O que de fato tinha valor. Afinal, as vidas se perderam. Arruinadas. Ninguém para apagar a luz. E fechar as portas do teatro. De felicidade, só mesmo o duro flagrante da sua estrita e rigorosa ausência.