A arte de viajar - Guido Percu's Notes
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A arte de viajar

📅 May 21, 2026 📁 books 🌱

A arte de viajar

Kindle Highlights

A única causa da infelicidade do homem é não saber como ficar quieto em seu quarto. Pascal, Pensées [Pensamentos],

os principais ingredientes para a felicidade não podem ser materiais ou estéticos, mas serão sempre teimosamente psicológicos

experiência da viagem pelo país estranhamente sem graça em comparação com uma tarde na seção de arte holandesa do Louvre, onde a essência de sua beleza estava reunida em algumas salas.

“A vida é um hospital em que cada paciente está obcecado com a ideia de mudar de cama. Este quer sofrer em frente ao radiador, e aquele imagina que melhoraria se estivesse junto à janela.”

Era difícil dizer com exatidão quando o inverno chegou. O declínio foi gradual, como o de uma pessoa que alcança a velhice, imperceptível no dia a dia, até que a estação se tornou uma realidade certa e inexorável.

Des Esseintes chegou à situação paradoxal de se sentir mais na Holanda — ou seja, em contato mais intenso com os elementos que amava na cultura holandesa — ao contemplar imagens selecionadas desse país num museu do que ao viajar com dezesseis peças de bagagem e dois criados pelo território propriamente dito.

Tóquio, Amsterdã, Istambul. Varsóvia, Seattle, Rio. As telas sustentam toda a ressonância poética da última frase de Ulisses, de James Joyce, ao mesmo tempo registro dos lugares onde o romance foi escrito e, não menos importante, símbolo do espírito cosmopolita por trás de sua composição: “Trieste, Zurique, Paris.”

e um cubículo de compensado de madeira em que um funcionário da alfândega, sentado e vestindo um imaculado terno marrom, contemplava com ar de curiosidade e de espanto, sem nenhuma pressa (como um erudito percorrendo as páginas de um manuscrito nas prateleiras de uma biblioteca), os passaportes de uma fila de turistas que se estendia para fora do terminal e já chegava perto da pista de pouso.

“a imaginação era capaz de proporcionar um substituto mais do que adequado à realidade vulgar da experiência concreta”. A experiência concreta em que aquilo que viajamos para ver é sempre diluído no que poderíamos ver em qualquer lugar, em que somos afastados do presente pela ansiedade em relação ao futuro e em que nossa apreciação dos elementos estéticos fica à mercê de confusas exigências físicas e psicológicas.

Ao meio-dia, rumamos para o sul em direção à paróquia de São João, e lá, numa colina coberta por árvores, encontramos um restaurante numa das alas de uma velha mansão colonial. No jardim, havia um abricó-de-macaco e uma tulipeira africana que exibia flores em forma de trombetas voltadas para baixo. Um folheto nos informava que a casa e os jardins haviam sido construídos pelo administrador Sir Anthony Hutchison em 1745, tendo custado a soma aparentemente enorme de 46 mil quilos de açúcar.

“Como poucas pessoas estão agora se deliciando com esse espetáculo sublime que o céu apresenta inutilmente à humanidade adormecida! O que poderia custar aos que saíram para uma caminhada ou se acotovelam à entrada de um teatro olhar para o alto por um momento e admirar as constelações brilhantes que reluzem sobre suas cabeças?” O motivo de não olharem era que nunca o haviam feito antes. Caíram no hábito de considerar seu universo tedioso — e ele atendeu devidamente às suas expectativas. 5.

Não se fala muito sobre as nuvens visíveis durante o voo. Ninguém parece achar impressionante que, em algum ponto acima de um oceano, voemos através de uma vasta ilha de algodão-doce que seria um assento perfeito para um anjo ou mesmo para o próprio Deus num quadro de Piero della Francesca. Na cabine, ninguém se levanta para anunciar com a ênfase necessária que, além da janela, estamos voando sobre uma nuvem, algo que, sem dúvida, teria prendido a atenção de Leonardo e Poussin, Claude e Constable.

Nossa capacidade de extrair felicidade de objetos estéticos ou de bens materiais parece, na verdade, depender de forma crítica da satisfação prévia de uma série mais importante de necessidades emocionais ou psicológicas, entre elas compreensão, amor, comunicação e respeito. Não apreciaremos — não somos capazes de apreciar — jardins tropicais luxuriantes e encantadores chalés de madeira à beira-mar quando um relacionamento com o qual estamos comprometidos subitamente se revela impregnado de incompreensão e ressentimento.

A natureza prodigalizava toda a sua benevolência. Era como se, ao criar aquela pequena baía em forma de ferradura, ela quisesse compensar seu temperamento difícil em outras regiões e decidisse mostrar, para variar, apenas sua generosidade. As árvores forneciam sombra e leite, o fundo do mar estava coberto por conchas, a areia era fina e da cor de trigo maduro, e o ar — mesmo à sombra — tinha um calor profundo e envolvente, muito diferente da fragilidade do calor no norte da Europa, sempre pronto a ceder, mesmo no alto verão, a uma friagem que demonstrasse ter mais autoridade.

Entre 1799 e 1804, Alexander von Humboldt viajou pela América do Sul, posteriormente intitulando o relato do que havia visto de Viagens às regiões equinociais do novo continente. Nove anos antes, na primavera de 1790, um francês de 27 anos, Xavier de Maistre, fez uma viagem ao redor de seu quarto, posteriormente intitulando o que havia visto de Viagem ao redor do meu quarto. Satisfeito com suas experiências, De Maistre empreendeu, em 1798, uma segunda viagem. Dessa vez, viajou durante a noite e se aventurou até o peitoril da janela, posteriormente intitulando a experiência de Expedição noturna ao redor de meu quarto.

Um guia de viagem pode nos dizer, por exemplo, que o narrador passou uma tarde inteira viajando para chegar à cidade X nas montanhas e, depois de uma noite em seu mosteiro medieval, acordou com um alvorecer nebuloso. Mas nunca passamos uma tarde simplesmente viajando. Sentamo-nos num trem. Temos dificuldade para digerir o almoço. O forro do assento é cinza. Contemplamos um campo lá fora. Voltamos o olhar para o interior do trem. Lampejos de ansiedade se atropelam em nossa consciência. Notamos a etiqueta presa a uma mala depositada na prateleira acima dos assentos à frente. Tamborilamos no parapeito. Uma unha quebrada no dedo indicador puxa um fio da roupa. Começa a chover. Algumas gotas formam uma trilha de sujeira pela janela empoeirada. Perguntamo-nos onde guardamos a passagem. Voltamos a olhar para o campo. Continua a chover. Finalmente, o trem se movimenta. Passa por uma ponte de ferro e logo se detém, inexplicavelmente. Uma mosca pousa na janela. E é possível que mal tenhamos chegado ao fim do primeiro minuto de um relato detalhado dos acontecimentos por trás da enganadora frase “ele passou a tarde viajando”.