A arte de pensar
Kindle Highlights
uma verdadeira estrada real rumo ao conhecimento.
o pensamento é um processo coletivo e não individual.
umas poucas linhas impressas são alimento suficiente para o pensamento
“Ils regardent ce que je regarde, mais ils ne voient pas ce que je vois”,
Colecionar é especializar-se, e especialização é sinônimo de concentração.
O desejo de parecer, em vez de realmente ser, pode viciar até as operações legítimas do intelecto.
A arte de pensar é a arte de ser eu mesmo, e essa arte só pode ser aprendida se estivermos sozinhos.
Um homem que lê, na verdade, toma emprestados os pensamentos de outro homem, e isso indica um desejo de pensar.
Qualquer leitura que fazemos, precisamos, primeiro, compreendê-la e, quando a tivermos compreendido, criticá-la.
Quanto mais tentamos ser o que não somos, menor é a nossa chance de alcançar aquilo que realmente podemos vir a ser.
Para a maioria das pessoas, a leitura significa uma forma vergonhosa de matar o tempo, disfarçada com um nome pomposo.
Enquanto obras-primas constarem como livros “incluídos em nossa lista”, a leitura medíocre terá preferência garantida.
A atenção é mais um hábito do que um dom, e saber disso pode incentivar aqueles que desejam viver em sintonia com sua alma.
O eunuco etíope que ia lendo Isaías na estrada de Gaza não teria sido ouvido por Filipe se não estivesse lendo em voz alta.
Montaigne se queixa do jeito formal de ler. “Meus pensamentos adormecem quando estão sentados”, diz ele, “portanto eles e eu caminhamos”.
Certamente, o hábito dos professores do liceu francês de dedicar duas horas a vinte linhas de Sêneca é um treinamento intelectual de primeira categoria.
Existe um abismo entre aqueles que desejam que um poema seja tão acessível quanto o jornal matutino e aqueles possuidores, ou que estão à procura, de cultura.
Vidas paralelas de Plutarco foi combustível de alta qualidade para as mentes da elite de todas as nações, até ser considerado um clássico em vez de um livro divertido.
É preciso haver poemas que você jamais esqueça. Quando dispuser de alguns minutos, feche os olhos e aprecie um deles, e apreciará como o faria com qualquer lembrança querida.
— Monsieur, c’est l’Histoire Romaine (uma breve pausa), et je vais arriver à Jules César! — Como sabe que vai chegar a Júlio César? — perguntei. — Oh! Já li esse livro muitas vezes.
Caso deseje usar os livros como auxiliar do pensamento, devem ser livros que não sejam mera diversão ou que adormeçam sua mente, mas que, pelo contrário, a mantenham bem desperta e alerta.
Agora, é verdade que a filosofia, a história e as ciências têm seus clássicos, assim como a literatura, que não devem ser ignorados. Platão ou Darwin não podem estar ausentes de nossa biblioteca.
Se, por acaso, você souber dois idiomas, experimente fazer uma tradução artística e inteligente, ainda que apenas quatro linhas por dia. O hábito da compreensão total será uma recompensa magnífica.
Que elas fiquem longe das trivialidades, e, em vez delas, abasteçam a mente com conhecimentos de valor. Deixe que vagueiem livres por essa massa de informações e o pensamento se produzirá ativamente.
concentramo-nos no momento em que temos interesse em algo ou encontramos prazer nisso. A arte de pensar é, em grande parte, a descoberta do que satisfaz nosso intelecto sem nenhum esforço ou inquietação.
Não fazer um registro do que aprendemos ou pensamos é tão insensato quanto arar e semear a terra com grande sacrifício e, quando chega a hora da colheita, virarmos as costas para ela e não pensarmos mais no assunto.
como podemos convocar qualquer grande homem para nos fazer companhia ao nos sentirmos sozinhos, e nossas horas importantes não podem ser dedicadas a uma ocupação mais útil do que o estudo da vida ou das idéias dos grandes homens.
Tarefas, monografias valendo nota e os comentários de gente pedante são de longe responsáveis por isso. Tanto que, do momento em que um grande livro não é tido como tal, ele, de pronto, recupera seu valor original como leitura absorvente.
A meditação da manhã das pessoas piedosas é um fardo para elas enquanto depender de um livro de apoio e não se tornar pessoal, ou seja, em português claro, egoísta. De outra forma, esperamos pelo livro, ou por algum orientador, que realize o pensamento necessário por nós.
Qualquer um que tenha lido os melhores livros, não apenas os clássicos, mas os críticos e os cientistas das duas últimas gerações, adquiriu, além de informações, um método para pensar. A inteligência é tão contagiosa quanto a graça e a perspicácia costumavam ser no século XVIII.
Enquanto um autor não adquirir o hábito de “só escrever seu livro”, como Joubert diz, “quando ele já estiver pronto em sua mente”, ou não puder dizer honestamente, como Racine: “Minha tragédia está terminada, agora só tenho de escrever os versos”, ele será vítima do erro do aluno.
Nossos manuscritos devem espelhar nossa leitura, nossas meditações, nossos ideais e como os abordamos na vida. Qualquer um que tenha adquirido o hábito de registrar seus pensamentos dessa forma sabe que perder seus papéis significaria também uma perda para suas possibilidades de pensar.
A leitura tampouco ajudará sua mente no que você acha que é o caminho certo. A imobilidade absoluta, um cigarro fumado em paz, dez minutos na janela aberta, um passeio sozinho no parque ou, às vezes, uma xícara de chá o aproximará mais da fonte legítima de seus pensamentos do que qualquer outra coisa.
Digo-lhe que a literatura é a expressão de si, e nossa individualidade é o nosso eu, que deveria ser nossa principal preocupação. No entanto, enriquecemos aquele nosso pobre eu por toda a vida com dinheiro, e por toda a vida o empobrecemos, roubando-lhe aquilo que faz dele o nosso eu, até que nada mais reste.
Se, no momento em que um livro ou jornal levanta uma questão que exige alguma informação ou reflexão suplementar, bocejamos, inquietamo-nos ou procuramos logo fazer outra coisa, detestamos pensar. Se, ao tentar refletir, sentimos cansaço, sono ou uma tendência a simplesmente repetir palavras, não sabemos o que é pensar.
A qualidade do que se lia também era excelente. Havia poucos livros, e eles custavam caro, de modo que ninguém os acumulava indiscriminadamente. Nem o advento da impressão modificou a composição das bibliotecas: livros religiosos, de poesia e filosofia eram a base, e para leituras leves havia Homero e os livros de história.
Essa forma decisiva e bem agressiva de perguntar a um volume: “O que tem a declarar” conduz às informações de modo ativo e vigoroso. A formação ou a cultura, porém, não pode ser alcançada pelos mesmos métodos arbitrários, elas requerem mais tempo, mais amor e uma combinação de crítica e humildade que é mais facilmente descoberta pela experiência do que definida por palavras.
Os nomes das operações mentais que agora são abstratos não o eram originalmente. Ver e conhecer são a mesma palavra em grego; ponderar, que soa tão intelectual, obviamente significa pesar; pensar é o descendente espectral de uma palavra muito mais áspera que significa parecer; lógica e fala são a mesma palavra; e — contra o excesso de orgulho intelectual — idéia significa imagem!
Ninguém é capaz de pensar por nós e ninguém pode nos dizer o que agirá como luz ou sombra em nosso pensamento. O livro que nos faz pensar é o livro que não conseguimos fechar depois de ler a primeira página por estarmos extasiados com o que ele nos transmite, ou aquele que repousamos no colo depois de ler uma página, porque o que ele diz nos leva, irresistivelmente, a questionar, contra-argumentar ou complementar.
Alguma vez já analisou o que se passava em sua mente ao apreciar uma palestra ou um concerto? Por vezes, você se deleitou em seguir o assunto ou a música com clareza maior do que a habitual. Muitas outras vezes, o discurso ou o tema deram margem a alguma atividade furtiva nas profundezas do seu ser e, durante uma hora, você desfrutou do melhor de você. A arte de pensar é apenas a arte de ser assim, da forma mais fácil e freqüente possível.
Você acha… acha que minhas cartas são literatura? — Algumas delas devem ter sido. Mas as que escreve para mim hoje em dia certamente não são. Você nunca diz uma palavra sobre o que pensa ou sente; conta-me o que anda fazendo ou o que outros fazem, mas jamais analisa as motivações deles ou as suas, como faria, como de fato constantemente faz, enquanto conversa sobre os outros na área de fumantes. Suas cartas são repletas de trivialidades e cheias de clichês.
Isso é o que os clássicos fazem quando não são destruídos pelos que os ensinam, ou, acima de tudo, quando não são colocados lado a lado com leitura de baixa qualidade na certeza de torná-los parecidos com o pão rústico de Auvergne comparado a doces baratos. Nenhum material inferior oferecido aos nossos filhos, enquanto assistimos impotentes, jamais poderá lhes proporcionar o sentimento de júbilo, ou melhor, a diversão que os grandes livros naturalmente produzem.
Eles deixam a escola ou a faculdade aos dezoito ou vinte e dois. Nesse estágio, as necessidades acadêmicas os obrigaram a ler livros sérios e a lê-los seriamente. No que diz respeito à educação, eles estavam indo na direção certa. A primeira coisa que o mundo e sua chamada civilização fazem por eles é convencê-los de que as obras-primas são tediosas, os livros didáticos ou enciclopédias dão sono e que só a literatura leve significa liberdade. Doravante, o ato de ler será uma força
Afortunados são os escritores que, como Byron, Shelley, Barrès e alguns filósofos, começaram a publicar seus pensamentos ainda na adolescência ou recém-saídos dela. Esses não são atormentados pelo fantasma do “tudo já foi dito”. Todos os grandes lugares-comuns que prosseguem fascinando o mundo, assim como fascinam as crianças, são como novidades que ninguém ainda olhou de frente como eles. Pereant qui ante nos nostra dixerunt! O que quer que pensem lhes parece merecedor de expressão e até de publicação.
O que funciona são bons livros, ler apenas obras-primas, e nunca ler, mas estudar sempre, em suma, um tratamento mental hercúleo regular a que eu sei que não posso me submeter. Ainda assim, sei que se tivesse de repassar esses capítulos novamente, eu deveria fazer dezenas de coisas que, conforme vou lendo, vinha querendo fazer. Gosto da garotinha com seu Júlio César, e detesto ‘tits détails, sempre detestei, penso eu, porque se eu fosse realmente frívolo não deveria estar lendo essas bobagens irresistíveis.
Leia resenhas se elas o ajudarem a pensar, ou seja, se elas deixarem em sua mente imagens que permanecerão vivas quando você tiver esquecido de onde vieram. Leia uma antologia de Shakespeare, na velocidade de quatro linhas por dia, se as citações de Shakespeare exercerem sobre você a influência mágica que têm sobre certas pessoas. Leia sobre álgebra, leia a vida dos grandes inventores e dos homens de negócios notáveis, leia aquele tipo de livro que você e mais ninguém sabe ser um formador de pensamento para você.
No entanto, eles temem a solidão e o único antônimo para diversão é tédio. Em viagens, eles aprendem algo sobre o mundo, pelo menos superficialmente, e a vida social dá aos mais capazes um acervo de fatos, embora seja surpreendente observar o pouco que eles sabem sobre a natureza humana. Tempo para pensar eles não têm; gosto para conversas sérias ou bons livros, eles raramente têm, ou, se têm, logo perdem. Eles vivem com base em seus instintos mais elementares, buscando a felicidade no prazer, nos negócios ou no poder.
O que poderia parecer mais próximo da insanidade, no século XVI, do que uma negação do fato — pois era um fato — de que o Sol gira em torno da Terra? Galileu não se importou: sua bravura intelectual deveria ser ainda mais admirável para nós do que sua coragem física. E não custou menos a Henri Poincaré afirmar, trezentos anos depois, que havia tanta verdade científica na antiga noção quanto na doutrina de Galileu. Einstein, ao negar o princípio de que duas paralelas nunca se encontram, deu outra prova extraordinária de independência intelectual. Quantas
Jamais esqueci do domingo ensolarado, em 1914, quando as edições extras dos jornais anunciando notícias de Sarajevo circularam nas ruas. Entreouvi pouca gente falando de história, mas a maior parte desviou a atenção da trágica abertura do maior drama da história para o vencedor de Longchamps, pois era dia do Grand Prix. É difícil passar uma semana sequer, durante esses anos cheios de história que vivemos, sem que nos deparemos com a oportunidade para uma especulação elevada, ainda que natural. Ainda assim, a maioria insiste em falar sobre fulano ou beltrano
Quando as pessoas lêem, o que elas lêem? Certamente não Tomás de Aquino ou as Pandectas. Muitos fingem ler a Bíblia, mas quantos realmente leram? De cada mil pessoas, três ou quatro leram os poetas, e elas são vistas com a mesma surpresa e desconfiança direcionadas aos próprios poetas. O que é produzido em grande escala, alardeado pela publicidade e ampliado pela crítica, é ficção. Romances enchem as livrarias e abarrotam nossas estantes de livros. No campo, onde há pouco tempo para ler, as pessoas lêem romances. Na cidade, onde nunca há tempo para nada, o que as pessoas fingem ler são romances.
Os professores devem atribuir o maior valor ao exercício escolar chamado análise literária. O aluno é colocado diante de uma peça literária de valor e examina sua construção, o que significa lê-la e relê-la diversas vezes, captando a idéia principal que lhe deu origem, e observando como essa idéia se sustenta ao longo de seu desenvolvimento. A primeira vez que um menino ou uma menina faz esse exercício sem nenhuma preocupação escolar e percebe que só um pouco de atenção é suficiente para realizá-lo, ele ou ela se torna, de imediato, um adulto. Muitos jamais se esquecem da maravilhosa sensação do crescimento inesperado.
O aluno comum detesta escrever um texto porque suas experiências passadas não foram nada agradáveis. Ele sabe que depois de escrever algumas linhas cria-se um vácuo ante a necessidade de ter de escrever a qualquer custo. Ele jamais viveria essa condição degradante se, antes da primeira experiência, fosse ensinado a não escrever uma única palavra do texto até tê-lo completo na mente e pudesse verbalizá-lo em linguagem simples, mas clara. Deixe-o descobrir, pensando em voz alta o assunto em questão, que nada é mais fascinante do que decidir-se sobre algo que valha a pena, e que escrever o resultado dessa investigação não tem importância especial, mas certamente será fácil, e o fantasma do texto como uma luta inútil contra o vácuo desaparecerá para sempre.
A bela visitante é como uma borboleta, que não é a mesma depois de capturada. Assim, ela não deve ser capturada. Se sua mão busca um pedaço de papel e rabisca algumas palavras temendo que outro pensamento supere o primeiro, você se sentirá agradecido, mesmo se tiver de lamentar, por várias vezes, a concisão a que foi forçado. No entanto, se você for meticuloso ao extremo, e se, em sua alegria pela visita, luta para não perder nenhum aspecto dela, inserindo-a de modo forçado em seu sistema intelectual e anotando avidamente toda a riqueza que ela lhe transmite, você a matará. O que há de melhor nos Pensamentos de Pascal? Certamente as partes não concluídas; quanto mais sucintos esses lembretes, mais profunda a impressão. La Bruyère terminava seus retratos e, entre eles, intercalava
Que livros deveríamos ler, então? O princípio que nunca falhou em conferir superioridade à atividade pensante de um homem é o velho e conhecido preceito: NÃO LEIA BONS LIVROS — a vida é muito curta para isso —; LEIA APENAS OS MELHORES. Essa receita simples é tão infalível quanto o ar puro e a boa alimentação para a saúde física. Ainda assim, é fato que dezenove entre vinte pessoas da atualidade estremecem diante dela. “Obras-primas de novo”, vociferam, “A Eneida, a Divina Comédia, Paraíso perdido, já ouvimos isso antes: melhor ser comum do que ficar entediado”. A noção de que obras-primas são livros escolares entediantes interpretados por professores maçantes, ou matéria de exame, é um produto extraordinário da educação. A ignorância é, com certeza, menos fatal, por não criar um complexo de inferioridade como o do aluno consciente de sua falta de familiaridade com a melhor literatura. Esse fantasma, porém, pode ser facilmente exorcizado se modificarmos o princípio acima para: LEIA APENAS O QUE LHE DER O MAIOR PRAZER.
A compreensão é o primeiro e fundamental passo na leitura, mas uma imensa maioria não se importa com ela. Entendem ou acham que entendem o que é óbvio: o resto consideram como um erro ou um capricho do escritor. Certa vez, testei uma quantidade de leitores com a passagem de Aurora Leigh em que a Sra. Browning define filosofia como “empatia com Deus” (II, 293). Apenas um deles pareceu achar que havia algo de instigante naquela expressão. Outros foram visivelmente levados pelo ritmo ou fascinados pela abstração superficial da passagem. Quando convidados a concentrar a atenção naquela “empatia com Deus”, a maioria afirmou que era improvável, porém perfeitamente inteligível. No entanto, quando perguntados sobre o que aquelas palavras perfeitamente inteligíveis significavam, tiveram de admitir que não sabiam dizer, e só dois ou três queriam escutar. Nenhum arriscou uma conjectura ou tentou chegar a alguma. Sua atitude foi aquela inculta que considera que, se as pessoas usarem qualquer outra linguagem que não a do dia-a-dia, não deveriam esperar ser entendidas.