10 histórias para tentar entender um mundo caótico: Felicidade, corrupção, saúde, violência, meio ambiente, desigualdades, amor, racismo e tantos outros … em transformação
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E eu me perguntava: esta é a Europa da civilização e do humanismo?
Nem todos admitem que a evangelização pode ser vista como uma forma de violência e de opressão.
John le Carré tinha razão quando escreveu que o lar é para onde você vai quando fica sem casa. Aqueles refugiados tinham encontrado no amor seu lar.
Alexandre Dumas que, n’Os três mosqueteiros, diz: “Estranho destino que leva os homens a destruírem-se uns aos outros por interesses de pessoas que lhes são estranhas e que na maior parte das vezes nem lhes sabem da existência.”
Quando chegamos a Tam Coc, perdi o fôlego. Tive vontade de chorar de emoção. A paisagem era uma das coisas mais bonitas que já vi na vida. O verde que cobria as montanhas, o azul da água, os barquinhos que navegavam com tanta calma naquele rio. Sim, aquelas quase três horas de estrada haviam valido a pena.
Hoje, pensando no meu comportamento nesse dia, me lembro de um trecho do livro A resposta, de Kathryn Stockett, no qual duas empregadas domésticas negras do Mississippi, nos anos 1960, comentavam que suas patroas brancas tinham tão poucos problemas sérios nos quais pensar que passavam a vida inteira se perguntando se eram felizes o bastante.
JAMIL: A própria biografia do dinheiro é uma história de poder. Uma das explicações mais lúcidas da transição ao dinheiro que eu conheço é de Eli Cook, da Universidade de Haifa. O historiador é autor de The Pricing of Progress: Economic Indicators and the Capitalization of American Life, em que relata essa revolução que, hoje, nos parece tão normal.
Eu não sinto prazer em receber os calendários dos Médicos sem Fronteiras, com fotos das crianças subnutridas sendo atendidas. Mas sei a importância disso. Deixo-os expostos em casa, para que, além de mim, minha enteada e meu marido também os vejam diariamente, nos lembrando de quão privilegiados somos e de quão importante é o ato de olharmos para o lado.
Obviamente, nesse caso estamos falando desta perigosa palavra: patriotismo. Você ama seus filhos. Mas os ama o suficiente para enviá-los a uma guerra por amor a uma nação? Essa é uma equação que eu jamais consegui entender. Albert Camus rejeitava a ideia de que um país pudesse ser amado, inclusive por ser complexo demais para que o fosse em sua totalidade.
capitalismo, portanto, não é apenas a existência de mercados, mas também de investimento capitalizado, ato pelo qual elementos básicos da sociedade e da vida – inclusive recursos naturais, descobertas tecnológicas, obras de arte, espaços urbanos, instituições de ensino, seres humanos e nações – são transformados (ou “capitalizados”) em ativos geradores de renda.
Ian Bremmer, no livro Nós contra eles, afirma que há provas que confirmam que a desigualdade é efetivamente uma fonte de violência. Ele aponta que uma análise feita pelo site FiveThirtyEight usando dados públicos do FBI e do Southern Poverty Law Center indicou que a desigualdade “é um importante indicador de crimes e incidentes de ódio”. Dados obtidos tanto antes
Cook ainda ironiza o poder do dinheiro ao falar da confusão entre o que é sinal de sucesso e o valor do ser humano: “No início do século XXI, a principal prioridade da sociedade americana passou a ser a sua linha de crédito, o patrimônio líquido tornou-se sinônimo de autoestima e um empresário bilionário que repetidamente apontou sua própria riqueza como prova de sua aptidão para o cargo foi eleito presidente.”
“Pensei que não existe nada menos material que o dinheiro, já que qualquer moeda (uma moeda de vinte centavos, digamos) é, a rigor, um repertório de futuros possíveis. O dinheiro é abstrato, repeti, o dinheiro é tempo futuro. Pode ser uma tarde nos arredores, pode ser música de Brahms, pode ser campas, pode ser xadrez, pode ser café, pode ser as palavras de Epicteto, que ensinam o desprezo pelo ouro. É um Proteu mais versátil que o da ilha de Faros.”
Lutero defendia que apenas a fé era necessária para a salvação das almas. Sua iniciativa foi vista como um questionamento das autoridades eclesiásticas em Roma. O alemão ousou dizer que as Escrituras são as únicas referências, superiores ao papa. A fratura logo daria espaço a guerras religiosas e colocaria a Europa no cenário de caos e perseguição que seria resolvido apenas um século depois, quando o Tratado de Westfália de 1648 deu ao continente novas fronteiras e sociedades.
“Quitte à t’aimer”, da banda de hip hop francesa Hocus Pocus, de Nantes, foi dedicada ao país na ocasião da eleição do Sarkozy. O nome da música quer dizer, em português, “Deixo de te amar”. Ela diz muito sobre essa resistência e, sobretudo, sobre essa cisão entre “nós” e “eles”. Pourquoi la main sur le coeur, cette étrange chanson “Qu’un Sang Impur abreuve nos sillons”? Avec ta langue maternelle et celle de tes ancêtres, Tes enfants n’en font qu’à leurs lettres. Ils te parlent et tu restes blême Quand ils disent “J’te kiffe” pour te dire “Je t’aime”*
Quando eu dou aulas ou palestras falando sobre os direitos das mulheres, sempre faço questão de contar a história de Olympe de Gouges, que foi uma figura emblemática na Revolução Francesa, embora só tenhamos aprendido sobre Danton e Robespierre. Olympe escreveu a pouco conhecida Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, em contraponto à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborada pouco após a Revolução, que, sim, era só para homens, do sexo masculino, e não para “o homem” no sentido de ser humano. A Declaração de Olympe não só não foi bem recebida como pouco depois a autora foi mandada para a guilhotina. Os registros dizem que a última frase dela foi: “Infantes da Pátria, vocês vingarão a minha morte!” Isso aconteceu em 1791.
Sempre acabo me lembrando daquela fábula em que um empresário encontra um pescador tranquilo, na praia, tomando uma cerveja e pergunta por que ele não pesca com uma rede em vez de usar só a vara. O pescador pergunta, então, para que ele quereria pescar com a rede. O empresário explica: para pegar mais peixes e vendê-los. E então o pescador pergunta: e para que eu quereria vender mais peixes? O empresário diz que seria para ganhar mais dinheiro. E o pescador questiona para que ele quereria mais dinheiro. O empresário afirma que com muito dinheiro ele poderia comprar um barco maior. O pescador, então, pergunta para que ele quereria um barco maior. O empresário explica que com um barco maior ele poderia pescar milhares de peixes, ter empregados e ficar rico. O pescador, pela última vez, questiona o empresário: e para que eu quereria ficar rico? E o empresário responde, satisfeito: para poder ficar tranquilo, na praia, tomando uma cerveja.
“Não se meta nos assuntos do Brasil, você não mora aqui.” É como se nós fôssemos duplamente traidores, primeiramente por não endossarmos o discurso de massa que era espalhado no país e, em segundo lugar, por trabalharmos fora do território físico brasileiro. Não importa se somos brasileiros, se trabalhamos para veículos de comunicação do país, se temos empregos no Brasil, se temos nossos pais, nossos irmãos, nossas contas bancárias e nosso coração no país, não interessa. Nas redes sociais, nos fóruns de comentários dos jornais e até em alguns eventos presenciais, passei por isso incontáveis vezes e imagino que você também tenha passado. Esse enviesado sentimento nacionalista tomou conta de uma grande parcela dos brasileiros, nesse assustador cenário de alucinação coletiva que estamos presenciando nos últimos anos. É como se houvesse uma necessidade de deslegitimar o discurso de quem tem informações externas – uma vez que são essas as que mais ameaçam a falsa narrativa de “amor à pátria” construída internamente. JAMIL:
Nesse trecho, eles transcrevem uma parte do hino nacional francês, a “Marselhesa”, que diz que “um sangue impuro rega os nossos sulcos”. Há muito debate sobre o significado dessa expressão até hoje. Alguns dizem que se trata do sangue impuro dos próprios franceses, outros dizem que é o sangue dos inimigos, outros dizem que é o sangue impuro de todos aqueles que são “não franceses”, uma vez que o único sangue puro seria o deles. Não sabemos. Mas, na letra, os músicos questionam o porquê dessa “estranha canção”, referindo-se ao trecho do hino. Na sequência, trazem uma ironia curiosa. Dizem que os jovens franceses, com a língua materna dos ancestrais (ou seja, o francês “puro”), não fazem nada além de escrever algumas cartas. Porque no dia a dia as gírias derivadas da imigração são o que reina no vocabulário dos jovens, que dizem “j’te kiffe” para dizer “eu te amo”. A palavra “kif”, de origem árabe, é uma forma de dizer haxixe, e a gíria conecta o termo “kif” a ter prazer, gostar, amar algo. Tanto se usou o termo na França que surgiu o verbo afrancesado “kiffer” como sinônimo de “aimer”, ou seja, amar. É absolutamente corriqueiro ouvir jovens franceses dizerem “je kiffe” para se referirem a algo de que gostam em vez de usarem a expressão francesa “j’aime”.